Heart Of The Forest
Houve um tilintar do copo de cristal no mármore da bancada, após tomar um gole do vinho. -Bom, mas eu não poderei, você sabe! Eu estou sempre viajando, teremos de adiar isso... – Desconversou, com a voz um pouco irritada. Apoiou ambas as mãos enquanto virava o seu rosto para olhar o geminiano.
-É sempre essa a resposta. – Respondeu, no mesmo tom, parando por um momento, de mexer o molho que cozinhava. Tomava atenção no fogo aceso na boca que usava, para então olhar o pisciano, sério. -Você então não quer se casar? Porque é isso que está parecendo, que droga, Aphrodite! – Tornou à frigideira.
O sueco ficou ligeiramente tenso com aquela irritação, ao mesmo que ele mexia com a comida. Saga não era um homem violento, mas possuía trauma de outras épocas de sua vida. -Não é que não quero. É que nesse momento, eu não posso... Minha agenda está cheia. – Buscava uma maneira mais delicada de explicar, mas não conseguia. -Saga... Tenho que ir a Milão novamente, tenho desfiles.
-Tudo bem, mas todos os seus fins de semanas durante os próximos seis meses estão ocupados com desfiles? – Respondeu, ríspido, então agitava a frigideira, com habilidade, misturando os ingredientes em sua ação. -Nem eu estou com tantas reuniões assim.
-Saga... – Tentou usar de seu tom brando e caloroso. Levou uma das mãos a uma mecha de cabelo dele, colocando atrás da orelha.
-Irmão, cheguei. – Fechou a porta, silenciosamente. Em seguida, deixou a sua mochila perto da porta, enquanto o seu olhar caiu para o sofá. Viu o casaco com gola de pele, e imediatamente reconheceu que o pisciano estava ali. Bufou.
-Mas custa? Parece que custa caro. Já disse para não se preocupar com a festa do noivado! A única coisa que precisava era você estar na cidade. – Manteve o seu tom ríspido.
-Saga...
- "Saga "nada"!
-Que paciência, estão brigando, novamente. – Reclamou, seguindo as vozes. -Acho melhor vocês separarem, toda vez que chego, estão discutindo!
-Kanon, não se meta. – Aphrodite ordenou, sem olhá-lo.
-Claro que vou me meter. É o meu irmão que você está incomodando.
-Kan, está tudo bem.
-O seu irmão está com a cabeça quente, depois converso com ele. – Encerrou a conversa, buscando o rosto de Saga, lhe dando um selinho, demorado. -Boa noite, meu amor.
Ouvir aquelas palavras, aquele beijo, fez o sangue de Kanon ferver. Apenas não identificava se era ódio, ciúme, ou os dois. Aphrodite esbarrou em si, propositalmente ao sair.
-Porra, eu odeio esse – Começou, quando ouviu a porta bater, mas foi interrompido pelo outro. Com a discussão, não deu atenção ao cheiro agradável da comida.
-Calma, Kan. Deixe-o. Se ele não quer, não quer. – Deu de ombros.
-Não quer, o quê? – Por fim, se aproximou, beijou seu rosto e observou o que ele fazia. Percebeu que o gêmeo cozinhava espaguete, tomates-cereja, manjericão e mussarela de búfala. -Você adora esse prato, não é? – Sorriu e viu Saga rir.
-É prato único, leve e saboroso. – Respondeu com delicadeza, então suspirou. -Faz alguns dias que... – Hesitou em falar, sentindo a mão dele em seu ombro. -Que pedi Aphrodite em casamento.
O geminiano mais novo fitou o irmão em choque após aquelas palavras. Apertou os dedos em seu ombro, para soltá-lo. Fechou a expressão em desprezo. -Você o quê?
-Kan... Calma. – Virou o rosto para olhá-lo, já sabia como ele reagiria.
-Calma?! Eu não quero aquele desgraçado na nossa família! Saga! Ele é interesseiro! Ele não gosta de você. Gosta do seu dinheiro.
-Kan... – Desligou o fogo, afastando-se do fogão. Tentou buscar as mãos do gêmeo, que as gesticulava, furioso.
-Não me toque, Saga! Se aquele modelo fajuto entrar na nossa família, eu saio de casa! – Falou, abrupto e foi a vez do outro se chocar. Kanon apenas percebeu a intensidade de suas palavras depois da reação dele, mas ainda assim não voltaria a trás. -Então discutiam isso? – Perguntou, grosseiro.
-... Eu... – Olhava-o magoada com o que tinha ouvido. -Pedi para ele ficar na cidade enquanto organizava a festa de noivado.
O mais novo passou uma das mãos nos cabelos, jogando os fios louros para trás, ria, sem qualquer graça, estava inconformado. -E pretendia me contar quando?
-Eu sabia qual seria a sua reação. Kanon, por favor.
-Eu não quero aquilo com o nosso sobrenome. Saga. Quer se casar? Vá em frente. Eu não aprovo, eu não quero. – Suas palavras eram firmes. Doía falar daquela forma com o irmão que tanto prezava, mas sentia que ele precisava ter os olhos abertos.
Fechou um dos punhos. Sentiu os olhos marejarem, pois, primeiro o namorado havia discutido consigo, mas ainda pior, ouvia aquelas palavras duras do gêmeo. -Não posso decidir me casar com o meu namorado, mas você pode decidir tirar um mês de lua de mel adiantada com o Radamanthys? – Tornou com o tom de voz ríspido, juntamente com decepção.
Kanon não esperava por aquele tipo de réplica. Engoliu seco, lembrando-se da viagem, nisso, desviou o olhar. -Saga... Viajei por um mês. Não me casei com ele. – Sentiu certo enjoo ao pensar na possibilidade. -Não justifique a sua situação com a minha. – Respondeu, sério.
Por um momento, Saga baixou o olhar, em silêncio, e Kanon percebeu que o gêmeo estava machucado. Momento depois, o mais velho olhou para a comida e por fim, saiu da cozinha. O mais novo suspirou, aguardando a porta do quarto ser fechada, mas ao invés disso, ouviu a porta de entrada se fechada. Caminhou para a sala, preocupado, mas sabia que deveria deixar o irmão ficar só naquele momento.
Sentou-se no sofá, pensando no que ouviu dele e no que falou. Sentiu-se cruel por suas próprias palavras, mas não gostava dos dois juntos, sentia que o sueco não fazia bem ao seu gêmeo. E faria o impensável para protegê-lo, mesmo que tivesse que se afastar dele, para Saga perceber o erro que cometia.
-Mas que cara é essa? – Havia um tom de deboche na pergunta. Ajeitou a manta nas pernas, enquanto o fitava, minucioso.
-Nada...
-Você e Saga brigaram novamente. – Afirmou.
-Hum.
-Vocês só brigam.
-Relacionamentos são assim.
-Não são. – O provocava. -Relacionamentos harmônicos não são assim.
-Então o meu é fora do padrão. – Pegou o controle, mudando de canal.
-Você não o ama.
-Italiano, vamos continuar assim? – Perguntou, frustrado, o observando. -Com esse ping-pong?
-Você não o ama. – Repetiu.
-O que isso tem a ver com a conversa? – Jogou o controle no sofá e se levantou, fitando o canceriano.
-Hum. Saga é extremamente bem-sucedido. Milionário. Famoso. É presidente da empresa mais importante da Grécia no ramo da tecnologia e empreendimento. Está no ranking dos três mais ricos e bem-sucedidos do mundo na última edição da Forbes e é considerado um dos homens mais lindos do país. E este mesmo homem pediu você em casamento. Este mesmo homem quer fazer uma festa de noivado para anunciar ao mundo todo que ele tem dono e este mesmo homem quer passar o resto da vida dele com você. Então, Aphrodite, quer que eu continue listando ou que continuemos amigos? – As próprias palavras, na enumeração, desceram amargas, enciumadas, mas contornou isso com o deboche final.
-Da forma como você fala parece que me critica.
-Porra, se eu tivesse essa oportunidade, com uma pessoa assim... Você acha que eu faria o quê? Continuaria aqui no sofá, bebendo até cair? E vamos combinar, você está no mesmo patamar que ele. Mas não o ama. Eu sei do que você gosta. – Disse, com malícia.
-Não entendo o que quer dizer, eu acho... – Apertou os olhos, cruzando os braços.
-Eu sei que você gosta do status dele. Você faz parte da lista de homens mais lindos do mundo, Aphrodite. Matariam por um pouco de sua atenção. – Manteve a malícia.
-Então sou interesseiro?
-Prefere oportunista?
-Giovanni! – Fingiu-se ofendido. -Não é errado querer que me venerem. – Disse, orgulhoso.
-E Saga quer você. Mas eu mesmo não sei o que faz você ficar com essa cara... – Fez uma pausa, analisando-o.
-Italiano, eu odeio que me olhe desse jeito. Prefiro que me julgue em voz alta. – Trouxe os cabelos para o lado, em um dos ombros, penteando-os com os dedos, fazendo charme. Percebeu que o outro lhe observava, assim como suspirar.
-Você não quer se casar. – Concluiu.
-Não. – Confirmou.
-Oportunista. – Brincou.
-Pare, não quero me sentir culpado.
-Então acabe com isso, sueco. – Respondeu, em um tom mais sério. Levantou-se do sofá, não observando mais o amigo. No fundo, não aprovava aquela atitude em específico dele. Brincar com o grego estava beirando a maldade.
Ao contrário do geminiano, Giovanni não era rico, nem famoso. Possuía um restaurante italiano em Atenas, herança e cultura de família imigrante. Ganhava bem, o local era conhecido na cidade, mas não era um grande chef. E com isso, sabia que não tinha chance com o melhor amigo, que como Saga, era rico, mundialmente famoso e desejado.
O sueco percebeu a diferença de tom e atitude, e aquilo lhe incomodou em seu âmago. -Não está com fome?
-Desculpe, não. O dia foi cheio. – Arriscou um sorriso. -Vou descansar.
-Está se sentindo bem? – Perguntou, em tom baixo.
-Estou sim... – Sorriu. -Boa noite, sueco.
Jogou os cabelos loiros para trás, ficando quieto. Observou o canceriano sair para o fundo do apartamento, em direção aos quartos. Respirou fundo, estava com fome, mas lhe faltava a vontade de comer, além de estar sem sono. Voltou ao sofá para buscar por um filme, o qual sequer prestou atenção, pensava nas palavras do italiano, mais do que nas declarações de Saga.
Mantinha o seu silêncio. Penteava os cabelos claros, prendia parte deles em um coque, enquanto se observava e julgava a si próprio no espelho. Avaliava o que ouviu do irmão, assim como a sutil hesitação de Aphrodite em suas lembranças.
-Bom dia, Sa... – Murmurou ao entrar no banheiro.
-Já estou saindo.
A resposta seca do gêmeo lhe fez ficar quieto, além de confirmar o quanto havia lhe chateado. -Não quis dizer isso... Aliás, você nunca me viu tomar banho? – Arriscou um tom mais descontraído, mas o clima não mudou.
-Só falta terminar o cabelo. – Complementou, terminando o que fazia. Então, passou perfume, e o mais novo, ao sentir o aroma levemente cítrico com uma sutil nota doce, suspirou. Era seu perfume favorito do irmão em sua coleção. -Bom, vou trabalhar. Nos falamos depois, talvez.
Saga foi embora friamente, sequer aguardou a resposta do mais novo, que lhe olhava triste. -Talvez... – Repetiu, dolorido. -Saga, se você compreendesse... Nunca que aquele modelo de revista de cachorro tinha pisado aqui em casa. – Disse, ao se olhar no espelho.
Seus pensamentos saíram de Saga para o toque do celular. Saiu do banheiro e foi até o quarto, buscar em cima da cama. -Nossa, que droga. – Resmungou ao ver as diversas mensagens de Radamanthys na tela. -Está cedo demais para você me atormentar. – Suspirou.
-Radamanthys, já chega! Não suporto mais isso. Faça-me um favor de não me procurar mais. – Bateu a sua mão impaciente no braço do sofá, levantando-se. Pouco depois sentiu a mão dele pegar o seu pulso, cada vez mais forte. Apenas se virou para o escorpiano quando a dor incomodava. -Me solte!
No segundo que se virou, a mão pesada do outro, fechada em punho, foi de encontro com o seu rosto. -Você realmente acha que vai terminar comigo? Atreva-se.
O golpe deixou o geminiano tão surpreso que precisou se escorar na parede para não perder o equilíbrio. A mão livre tocava no lado do rosto, dolorido. Olhava o inglês com choque. -Por quê? Vai me matar? – Apenas ouviu um riso maldoso.
Balançou a cabeça em negativa. Não compreendia como podia ter deixado se levar na relação. O outro sempre foi firme, bravo, autoritário, mas apenas depois do anúncio de que se tornaram namorados que Radamanthys mostrou-se outra pessoa. E jamais deixaria que Saga soubesse do que de fato ocorria, e assim, desejava que o gêmeo percebesse o quanto Aphrodite não servia para si.
Decidiu não responder as mensagens, mas, não demorou para que o outro começasse a ligar, incessantemente. Kanon, já irritado, resolveu atender. -O que você quer?!
-Quero que venha na minha casa.
-Tenho que ir trabalhar.
-Venha.
-Radamanthys, não seja idiota.
-Kanon, venha, porque eu sei onde o seu irmão trabalha. – Aquela resposta lhe desconcertou. -Está ocupado então? Vai mesmo trabalhar ou aquela vadia do Milo está com você? – Seu sangue ferveu pela raiva de ouvir ele falando daquela forma.
-Fale dele dessa forma novamente, e vou arrancar a sua língua! – O outro apenas gargalhava friamente no outro lado.
-Bom... – Continuou, após rir, divertido e frio. -Vá trabalhar, mas quero que venha hoje. Posso acabar com a vida do seu irmão e a sua em menos de vinte e quatro horas. – Assim que terminou, desligou. Kanon gritou, enraivecido, jogando o celular em algum ponto do quarto.
Sua respiração retornava ao ritmo normal, quando ouviu a campainha tocar. Fechou a expressão, sabendo que era o maldito namorado. E do quarto, saiu a passos pesados até a sala. Com a mão pesada, girou a maçaneta. -Olha, incrivelmente – Foi abordado por um apertado e inesperado abraço. Quase não sabia o que ocorria, quando reconheceu o perfume sensualmente adocicado. Sorriu.
Antes que pudesse falar algo, o abraço se desfez, e seus lábios foram tomados por um beijo carinhoso e quente. Relaxou o seu corpo, esquecendo momentaneamente do problema inglês do outro lado do telefone.
-Olá, Kanon! – Cumprimentou, feliz. Estendeu para ele, um buquê de flores silvestres coloridas.
-Que alegria, Mi. – Respondeu, genuinamente feliz, em resposta às flores, lhe deu um selinho.
-Desculpe aparecer sem avisar, sei que é hora do seu trabalho. – Justificou, sentindo-se culpado. O viu se afastar para buscar um vaso e preencher com água. -Mas pode me julgar, não resisti.
-Se você soubesse a benção que você foi nesse momento. – Falou em tom alto, já que estava em outro ambiente. Retornou com um belíssimo vaso colorido, colocando-o ao centro da mesa de jantar.
-Nasci uma benção. Cadê o Saga?
-Já saiu. – Retornou para a companhia do melhor amigo.
Respirou fundo e fitou o outro, percebendo sua expressão vaga. -Briga de irmãos?
-É. Mas não quero ser um incômodo. Apoiou-se na mesa de vidro. -E o Camus?
-Quero saber. Já. – Exigiu, preocupando-se. -O francês foi para Paris, desde ontem de tarde. Vai ter aquela noite de autógrafos.
-E por que você não foi?
-Porque o meu chefe é ingrato. E me trata como escravo.
-Ah, claro. – Começou, em deboche. –É difícil, porque você gosta de fazer os outros como escravo. – Deixou uma malícia presente em sua face. Milo percebeu e deixou sua expressão, semelhante.
-Culpado! – Gesticulou, para rir. -Vamos. – Aproximou-se dele, e fez com que o seu corpo o prendesse contra a mesa. Apoiou as mãos na cintura de Kanon. -O que aconteceu entre você e o seu irmão? – O outro grego levou as mãos ao pescoço do outro. Sentia-se confortável com Milo.
-Saga é um homem... Inteligente. Mas em relacionamentos, ele é... – Desviou o olhar.
-Burro? – O outro riu.
-Saga não sabe o erro que comete, ficando com aquele modelo de rede social. – Ambos compartilharam um riso. -Imagina que quer se casar com aquilo?
-Sério? – O olhou surpreso. Milo umedeceu os lábios logo após. -E pelo visto ele não quer ouvir as verdades que tem para falar.
-Evidente que não. – Kanon mudou sua expressão para uma tristeza momentânea. Milo, aproveitando-se do silêncio, aproximou o seu rosto do loiro, e seus lábios e nariz acariciaram a face dele. Kanon suspirou.
-Erro comete você também.
-Hum? – As palavras de Milo tiraram Kanon do transe ocasionado pelo beijo.
-Termine com esse Radamanthys... Fique livre, ele não é para você. E ele me incomoda.
-Tinha esquecido dele... – Murmurou.
-Hum? – Continuava com a carícia, mas não o ouviu.
-Nada.
A brincadeira na pele do outro ainda continuava. Kanon deixava algumas exclamações acontecerem. Milo, sorriu em meio suas provocações, percebendo que estava mexendo com o outro.
-Mi... – Gemeu o nome do amigo. -Não deveríamos estar fazendo isso.
-E você está resistindo tanto. – Falou, em tom baixo, mordiscando o pescoço dele, sem deixar marcas. -Somo solteiros.
-Eu tenho namorado, apesar de ele ser um idiota, e você está apaixonado pelo Camus.
-O Camus não me quer. E aquilo que você tem não considero namorado. – Kanon riu, mas cessou as carícias para olhá-lo. Mantinha os braços no pescoço dele, e uma das mãos, levou aos cabelos dele, de forma carinhosa.
-Como assim "ele não quer"? – Estava surpreso com o que ouviu.
-Camus... – Baixou o olhar, entristecido. Mantinha o seu corpo colado ao dele, uma das mãos levou ao rosto de Kanon. -Está dormindo com o agente dele. – Suspirou. E nós brigamos há dois dias... Não por isso, mas... Aquele agente dele é um sanguessuga.
-Não esperava ouvir isso, Camus não é disso. – Respondeu, e como resposta do escorpiano, apenas uma expressão dolorida. Quase a mesma de Saga.
-Ele ficou mais puto comigo quando falei que ele ligava mais para aquele maldito livro do que para a nossa amizade.
-Milo, sinto por isso, mas quando ele voltar, vocês vão se entender. Ele detesta ficar brigado com você.
Ainda percebendo o olhar triste do grego, levou uma das mãos ao rosto dele, em carinho. Deu um leve sorriso, que o outro compartilhou, e trouxe o rosto do loiro para um beijo em sua boca, carregado de carinho e como resposta, Milo apertou mais o abraço.
-Sério que esqueci do celular? – Resmungava consigo pela falta de atenção. A cabeça estava cheia e assim, atribuía o seu erro por conta disso. Retornou ao andar, aproximando-se da porta do apartamento que dividia com o irmão. Passou o cartão, digitando a senha, fazendo com que a porta se destrancasse. Abriu-a, e assim que entrou, viu Kanon e Milo, juntos, encostados à mesa de jantar. -O apartamento tem quatro suítes, precisava ser na mesa de jantar? – Comentou, em tom alto e irônico.
A repentina voz fez ambos pularem do lugar. Kanon ficou mais sem jeito do que Milo, que apenas virou o rosto em direção ao amigo, ao contrário dele, o geminiano mais novo saiu de perto. -Sa? O que houve?
-Esqueci o celular. – Seu tom, continuava seco. -Então é lindo isso? Você tem namorado e está tendo um caso com o Milo? Por que não fico surpreso? – Manteve sua ironia, mas agora, focado no escorpiano.
-Não gosto do Radamanthys, então teoricamente, Kanon está solteiro. – Havia afirmação e orgulho nas palavras, nisso, Saga se aproximou mais de si, e assim, virou-se para ele, notando que o outro lhe desafiava. –O que foi?
-Vou pegar o celular! – O irmão tentou parecer animado ao se afastar de ambos.
-Teoricamente? Também não gosto daquele idiota, mas imagine se todos pensassem como você? A orgia que o mundo não era?
-Não faço sexo com todos que aparecem.
-Só com alguns, realmente.
-Sa... Por favor, não briga com ele. Milo veio me ver. – Estendeu o aparelho ao outro
-Entre outras coisas. Não sou estúpido... – Pegou o celular de Kanon, agradecendo com o olhar, e tal atitude, fez o mais novo dar um leve sorriso.
-Se fosse esperto, não estava com o Aphrodite.
-Você combinou com ele? – Gesticulou de Kanon para Milo.
-Não. Sa, não gostamos dele, sabe disso.
-Odeio o Radamanthys e nem por isso disse que iria embora de casa, Kanon. – Foi direto em suas palavras, assim como fitar o gêmeo que se encolheu no lugar. -Não gosto dessa amizade colorida que vocês dois têm.
-Saga...
-Pelo menos eu faço bem para o seu irmão. Não aquele britânico.
-Faz bem? Que presunçoso. – Riu, sarcástico.
-Saga, você está com a cabeça quente. – Kanon arriscou. Já era péssimo estar brigado com o gêmeo, e pior ainda ver as duas pessoas que mais adorava, naquele clima.
-Bom, eu acho que acordei imerso no azar. Não tem nada que esteja dando certo. – Olhava de um para outro. -Achei que não veria mais você. – Tornou a observar Kanon.
-Eu disse "se você se casar". Mas se quiser... – Interrompeu a si próprio e desviou o olhar.
-O que eu perdi? – Ainda encostado na mesa, cruzou os braços.
-O seu namorado aqui... Disse para mim que vai embora de casa quando eu me casar com o Aphrodite.
-Ótimo, terei um companheiro de quarto. O que é melhor que morar com o namorado? – Sorriu, alegre, sendo cutucado pelo geminiano mais novo.
-Então é namoro isso?
-Parem vocês dois. – As palavras recentes do irmão ainda balançavam em sua cabeça. -Fala como se estivesse decidido.
Saga hesitou após a afirmação dele. Os gêmeos trocavam um olhar, misto de sentimentos.
-Saga. Kanon e eu não estamos namorando e nem iremos. Cuidamos um do outro, apenas isso.
-Cuidam, com sexo? Eu sei que vocês transam e isso chama-se amizade colorida.
-Dane-se. É sim, contente? – O escorpiano já se mostrava irritado.
-Milo, saia dessa casa.
-Ele não vai sair. – O gêmeo interveio.
-Mas essa casa é minha.
-Minha também, irmão.
-É claro. – Complementou, percebendo sua gafe nas palavras.
-E por isso, ele fica.
-Olha, chega. Não aguento mais todos brigando comigo. Pelas minhas escolhas, pela minha vida. São vocês, Aphrodite... Chega. – Encerrou sua resposta, virando as costas para ir embora.
Kanon apressou seus passos em direção ao outro, pegando em seu punho. -Não quero brigar. É a sua vida, e é por isso que não quero que cometa erros.
-Kanon. – Virou-se, ainda com ele lhe segurando, Milo, observava, em silêncio. -O que pode de dar errado esse casamento? – Toda vez que o gêmeo usava aquela palavra, sentia-se enjoado.
-Aphrodite não gosta de você. Queria tanto que enxergasse isso.
-Estou com ele há três anos, Kanon.
-Vocês mais terminaram do que estiveram juntos. – Milo, por fim, se juntou à conversa.
-Viu? Se casar, vocês vão se divorciar e vai custar até a sua sanidade, Sa.
O mais velho riu, brevemente. -O que vocês sabem sobre casamento?
-Minha mãe se separou quase um ano depois que se casou e que me teve. Demoraram outro ano para resolver todos os problemas e foi caro, acredite nisso.
-Tem razão, Saga, eu não sei. – O soltou. Havia braveza em sua voz. -Mas estou aqui lhe dando conselhos, como uma pessoa de fora, como seu irmão que convive com você. Que vê como você fica quando briga com ele. Que vê que você mais se desgasta nessa relação desigual do que se preocupa com algo saudável.
-Amém. – Ironizou Milo.
-Nada disso justifica o que você falou ontem. E você – Olhou para a visita – Calado.
-Não vou ficar nesse apartamento, vendo você se destruir. E não mande o Milo calar a boca, ele está tão certo quanto eu.
O geminiano mais velho fez uma pausa, porém, não pensativo. Estava bravo, frustrado, chateado. Sabia que o irmão e o amigo estavam certos nas palavras que proferiam, mas ao mesmo tempo, estava decidido, acreditava que as coisas podiam melhorar, que o relacionamento podia ser salvo.
-Não vou mudar a minha decisão. - Sua resposta fez Kanon cerrar os punhos.
-Saga, não complica. – Olhava de um gêmeo a outro.
-Vocês estão aqui, pedindo para que eu termine com o meu namorado! E sou eu que complico?
-É para o seu bem, não seja teimoso!
-Se não o quê? Mais do que Kanon já ameaçou? Então faremos o seguinte: termino o relacionamento com ele. – O mais novo sorriu de forma sutil.
-Mas? – Milo sentia que havia algo ali.
-Com a condição que você... – Olhou para o irmão. -E Radamanthys não estejam mais juntos.
Kanon ficou em silêncio. O que Saga sugeria como chantagem, era uma ideia maravilhosa, mas, algumas situações complicavam a questão. -Não posso, Saga. – Disparou.
O outro olhou Milo, de maneira vitoriosa. -Tem a sua resposta? É justo, comigo? – Tornou a olhar o irmão. -Vou deixar os pombos em paz. – Deu as costas a ambos, saindo e trancando a porta.
-Que droga! – Kanon resmungou, alto.
-Kan, por que respondeu isso? Agora, eu que não compreendo.
-Milo, meu relacionamento com Radamanthys é complicado. Gostaria de explicar, mas...
-Mas? Ele faz alguma coisa? – Fez uma breve pausa, então, continuou - Kanon, eu tenho que saber. – Aproximou-se dele, tocando em suas costas. O amigo buscou o seu olhar, demonstrava que desejava contar. -Kanon! – Milo estava alterado. -Por favor, fale. Qualquer coisa.
-Não! Ah! Mi! Eu preciso ir trabalhar, depois volta aqui. – Desconversou.
-Você... Me deve uma resposta, que isso fique bem claro. – Suas palavras foram cuidadosas e preocupadas. Despediu-se com um beijo em sua boca.
Assim que o amigo saiu, foi em busca de seu próprio celular. Odiava conversas inacabadas com o irmão, e pelo menos, tentaria ver o quanto Saga estava furioso consigo.
-Sa... – Digitou, puxando conversa. Temeu ao perceber que a resposta não vinha com a carinhosa urgência de sempre. E enquanto aguardava, sentou-se ao sofá, encolhido. -Ele deve estar no carro... – Arriscou justificar a si próprio, apesar de que Saga tinha motorista particular e o usava para ir trabalhar. Ora olhava o aparelho, ora refletia na discussão.
-Kanon, então você irá mesmo me deixar? – Pegou o celular em um pulo ao senti-lo vibrar. Sabia que o irmão não havia se conformado com a ideia.
-Saga... Eu não quero que se case. – Mordiscou o lábio inferior em reação à revelação que agora, não envolvia apenas Aphrodite. Percebeu que a intenção de sua afirmação tinha um quê a mais.
-Me dê um motivo. Porque sinceramente... Não quero você com Radamanthys... E você não vai separar-se dele. – Para si, a resposta do irmão teve a mesma entonação. Saga possuía um profundo ódio por Radamanthys e sabia que o principal motivo era ciúme.
-O que temos é complicado...
-Kanon, nem eu e nem o Aphrodite temos algo complicado. Por que o seu relacionamento é tão difícil? Vale tão a pena assim? Vale a pena me deixar por ele? – Kanon sentiu o coração apertar pela pergunta. Mas pior que isso era o fato de não poder sair de um relacionamento abusivo, principalmente com alguém que ameaçou, diversas vezes seu melhor amigo e irmão pelas costas.
-Faço das suas palavras, as mesmas que as minhas. Você quer se casar. Sa, me responda, sinceramente e agora... Você ama o Aphrodite? – Seu coração dava pulos de ansiedade antes mesmo da notificação de que ele havia recebido a mensagem. Mordiscou o lábio novamente e com mais força quando viu o "digitando...". E nesse status permaneceu, por poucos, mas longos minutos.
-Kanon... – Veio a primeira e seus olhos marejaram rapidamente. -Não. – A vontade do choro sumiu. -Não o amo... Estou... apaixonado por outra pessoa. – Kanon entreabriu os lábios, em choque.
-Sa... Quem? – Por algum motivo, aquilo lhe animou. -Aiolos? A sua secretária?
-Kan... O quê? Haha! Katya? Meu ex? Não! Que horror! – A reação na mensagem lhe fez sorrir. -Kan... Um dia você saberá, e sei que ficará feliz. Pelo menos espero...
-Então... O que vai fazer? Saga, eu não vou abandonar você. Só queria que entendesse que não... Não quero alguém entre nós... É nosso apartamento. Nossa vida.
-Quero Radamanthys longe de nós.
O "nós" lhe fez sorrir de maneira apaixonada. -Estou tentando terminar com ele, mas... Ele finge que não compreende. – Fez uma pausa. -Por isso Milo falou aquelas coisas...
-Ah... Tem o Milo. – A mensagem curta dele lhe deixou tenso.
-Não estamos juntos.
-Ah, tá. Você tem pretendentes... Esqueci disso.
-Você é fofo com ciúme.
-Detesto terceiros.
-Milo ama o Camus, mas ainda não conseguiu conquistá-lo.
-Então conquistou você.
-Amo o Milo, mas não queremos uma vida juntos. E ele faz algumas coisas só para lhe provocar.
-Como te comer na mesa de jantar?
-Quem eu realmente quero que faça isso... Não faz. – Depois de mandar, arrependeu-se.
-Quero muito saber quem seria essa pessoa. – Respondeu.
-Já chegou na empresa? – Sua resposta desconversou o tema anterior.
-Não. O trânsito está uma porcaria. E você, já saiu de casa?
-Na verdade, não. Estou atrasado..., mas já vou me arrumar.
-Vem para casa à noite?
-Claro. E espero que venha também.
-Sim, Kan.
Buscou pelo copo de dose única, bebendo o conteúdo de uma vez. Fez barulho com o vidro na mesa. Exclamou pelo sabor forte da bebida.
-Hum. Que tal irmos com calma, hein? Já é o seu terceiro copo de tequila, Giovanni.
-É só o meu terceiro copo. Quero uma margarita! – Mencionou levantar-se da cadeira, e nisso, o espanhol o impediu.
-Não. Você vai sentar e vai me falar o que aconteceu.
-Sem graça.
-Sim, sou. – Suspirou. -O fato de termos vindo para um restaurante mexicano, não lhe dá o direito de beber o estoque inteiro deles.
-Não tenho nada para contar e sou bem resistente à bebida.
-Ok. Continue pensando assim para ter uma overdose na próxima hora. Desembuche. Vámonos.
O italiano ficou alguns momentos em silêncio, pensativo, incomodado. Não fitava o amigo, sentia-se constrangido. -Essa farsa desse casamento.
-Sabia.
-Não começa a me irritar, Shura. – O censurou com o olhar e o outro sorriu ao canto dos lábios.
-Farsa, por quê? – Levava o copo de seu mojito lentamente aos lábios.
-É mais do que óbvio para nós que ele só quer aproveitar do status do Saga.
-Bom, e desde quando você se preocupa com os sentimentos do grego?
-Eu não me preocupo. O que eu faço é me preocupar com o Aphrodite. Eu o conheço extremamente bem... – Aquelas palavras fizeram Shura torcer a boca e desviar o olhar. -E sei que um dia, brevemente, ele vai acordar e perceber que não tem volta.
-Divórcio existe para isso. – Disse, tranquilamente. -Compreendo você, mas isso é uma lição que apenas ele terá de aprender, Giovanni. Ainda mais por ele ser consciente do que faz. Paciência. – Deu de ombros.
-Que tranquilidade em ver a vida do seu amigo desmoronar. – Ironizou e em resposta, Shura riu, divertido.
-Aphrodite não vai ficar pobre por causa disso. Nem Saga. – Roubou de sua bebida uma folha de hortelã e mastigou devagar.
-Quero beber.
-Está de castigo. Vai beber água. – Empurrou seu copo até ele.
-Shura! – Protestou.
-Giovanni, é sério. Quis sair com você hoje e só resmunga sobre eles. – Mostrou-se bem incomodado. -Talvez eu deva ir embora. – Foi sua vez de mencionar se levantar da cadeira.
-Não! – Segurou-o pela mão, e logo soltou. Sua reação foi repentina e assustada. -Sente-se. Quis sair comigo, então senta e lide com esse castigo. – Shura riu de maneira carinhosa.
-Está longe de ser um castigo. E olha, por que você não perde o seu tempo flertando? – Ouvir aquilo foi ligeiramente doloroso para o italiano. O sueco não saía de seus pensamentos e com isso, não tinha olhares para estranhos em um local público.
-Sou hétero.
-E eu, rei da Espanha. E até onde sei, não tem só homens aqui. Mas não sei, não é mesmo...? Escolhas das pessoas. – Ironizou.
-Por que você não flerta? A vida de solteiro deixa você muito amargo, mio caro. – Shura riu novamente, adorava o sotaque do outro, e assim, bebeu novamente.
-Se fosse fácil assim. – Olhou em volta, mas seus olhos caíram no amigo, que bebia alguns goles do copo de água, e sorriu ao ver que ele nem percebia. -Gostaria muito que o meu crush percebesse algumas coisas. – O canceriano compartilhou um riso.
-Comece pelo básico. – O olhou. -Convide o seu crush para jantar.
-E você acha que estamos aqui, por quê? – Seu tom envolvia um claro flerte, o que pegou o outro de surpresa.
-Shura. – Murmurou. O espanhol pode ver, pela pouca luz do restaurante, o outro ficar com o rosto avermelhado. -Eu...
-Não fale nada. Viemos jantar, apenas isso. – Sorriu. Sabia que o amigo nutria algo por Aphrodite, mas ainda, arriscava, afinal, o outro estava noivo.
Giovanni ficou momentaneamente em silêncio. Pensativo, enquanto olhava da mesa para o espanhol. Mostrava-se surpreso por aquele momento, e não evitou sorrir, momentaneamente, por aquela surpresa. -Podia ter me dito que era um encontro. Eu teria vindo mais arrumadinho. – O amigo, não esperando aquele tipo de resposta, riu, quase derramando sua bebida.
Shura colocou o copo na mesa e olhou o outro. Sorriu, com carinho, pois naquela brincadeira, percebeu que seu gesto foi aceito. -Sou culpado. Não por você não estar arrumadinho... Que aliás, para mim você sempre foi esplêndido, mas por não dizer a você que tipo de jantar era. E bom, no receio de ouvir um não... – Em seu sorriso agora, havia um constrangimento.
Giovanni sorriu com carinho pelo elogio. -Posso perguntar... Desde quando?
-Sou bom com segredos. – Sua resposta veio acompanhada de um sorriso no canto dos lábios. -Faz um tempo... Embora... Algumas coisas surjam em hora definida. Você nunca desconfiou?
-Espanhol... Eu não sou especialista nessas coisas. Não tenho uma autoestima considerada elevada de forma saudável para me olhar no espelho e acordar arrasador de corações. – Shura ria, divertido. -Então, não suspeitava.
-Sempre me pareceu tão confiante.
-Disse bem, parecia. – Olhou para o copo. Quando ergueu o olhar, observou Shura lhe fitando de maneira sedutora.
Giovanni se ergueu da cadeira, à frente do outro, para sentar-se ao seu lado. Assim que se sentou, deixou o seu corpo virado para o outro, que fez o mesmo. -Sentou-se mais perto? Hum. O plano mudou? – Sua pergunta foi em baixo tom.
O canceriano levou a mão ao rosto dele. As pontas de seus dedos tocaram o queixo dele, trazendo a face de Shura para mais perto e no momento seguinte, colou, devagar, seus lábios aos dele e no mesmo ritmo, iniciou um beijo breve, carinhoso. Shura fechou os olhos, logo que a boca do outro encostou à sua, deixando-o ditar a carícia.
Instantes depois, os lábios se separaram e os olhos, se encontraram. -Gosto de hortelã. – Shura riu, divertido, com o comentário dele. -Refrescante o beijo. – Observou o espanhol rindo. -Se soubesse como o seu sorriso é lindo. – Em resposta, Shura lhe deu um selinho.
-Não sabe como queria isso... Esse momento e essas palavras. – Comentou após uma nova carícia.
-Porque... – Fingiu se interessar por qualquer outro ponto no restaurante, apenas para jogar charme no amigo, já que percebia o olhar dele em cima de si. -Não me leva para a sua casa? – Olhou o capricorniano, que sorriu, com malícia.
-Então o italiano hétero gosta de sexo no primeiro encontro?
-Você que está falando, hein? – Shura riu novamente. -Não sei. Por que não me tira daqui e veremos o que acontece?
-Não precisa pedir duas vezes. – Giovanni estendeu a mão, e o outro sorriu, entrelaçando seus dedos aos do amigo.
Penteou os cabelos com os dedos, jogando os fios para frente enquanto caminhava do quarto para a sala. -Bom dia. – Perguntou, sério, ao avistar o amigo em pé, mexendo no celular.
-Bom dia, Aphrodite. – O olhou e sorriu, contente e carinhoso, porém, não percebeu a seriedade dele.
-Não veio para casa à noite. – Indagou, aproximando-se.
-Realmente, não. Cheguei aqui às cinco. Achei que tivesse dormido na casa do Saga.
-Não. Ainda estamos brigados. – Suspirou. -Mas... Onde estava? Fiquei preocupado, não me mandou mensagem.
-Desculpe, realmente achei que estivesse com o seu noivo. Eu... – Sorriu novamente, e Aphrodite percebeu.
-Está feliz.
-Estou.
-Então a noite foi produtiva? – Havia malicia nos lábios.
-Na verdade, foi uma noite feliz, não exatamente só produtiva. – O italiano percebeu o amigo sentar-se no braço do sofá, esperando uma história. -Oh. – Exclamou, tornando a sorrir. -Shura me pediu em namoro.
A expressão do sueco mudou. De curioso, preocupado, até contente por ver seu melhor amigo alegre, daquela forma, tornou-se surpresa, séria e enciumada. -E você...?
-Aceitei, obviamente. – Respondeu utilizando um tom de obviedade.
-Como assim, "aceitou"? Giovanni, é o Shura.
-E daí? Nós três somos melhores amigos. Fala como se ele fosse um estranho.
-Estranho não é, claro. Mas você namorando com ele? – Chegou a rir de forma breve, realmente acreditando que ele lhe contava uma piada. -É meio surreal.
-Não posso ter um namorado? – Olhou Aphrodite, um pouco irritado.
-Mas não o Shura. – Respondeu, bravo.
-Por quê?
-Porque é ele. Simples assim.
-Você está com ciúmes?
-Giovanni, por favor, não delire. – Ergueu-se de onde se sentava. Percebeu que sua resposta ofendera o amigo.
-Sinto muito por não ter uma vida perfeita como a sua com o Saga.
-Giovanni, não distorça as coisas.
-Eu? Quis compartilhar com você que estou feliz e você está rindo de mim.
O pisciano respirou fundo e se aproximou, um pouco mais, tocando em suas costas. -Não estou debochando. Adoro o Shura, mas não acho que ele combina com você. Só isso. – Buscava o olhar dele, que não era retribuído e isso lhe incomodou demais. -Olhe para mim. Por favor. – Nada do outro lhe observar. -Shura tem esse relacionamento mal resolvido com o Aiolos, não quero que você se machuque.
Afastou-se do sueco, se chateou com a reação dele. Demorou a fitá-lo, mas quando o fez, demorou, de forma triste. -Você não sabe o que é coração partido, Aphrodite. É muito... Muito difícil amar alguém... E ver essa pessoa prestes a se casar em uma relação que não existe amor. – Notou que o amigo não esperava aquelas palavras. -Bom dia. Preciso sair.
-Não vai. – Implorou em seu tom de voz. Utilizou suas duas mãos para impedi-lo, segurando em seu ombro e seu pulso. -O que está dizendo? Por que disse isso? – Não teve resposta, e o amigo se desvencilhou outra vez. O viu sair do apartamento, sem responder.
O pisciano levou a mão a cobrir a boca, surpreso do que ouviu, para então refletir na forma que o outro lhe tratava. Percebeu que havia cometido um erro em algumas escolhas e em alguns pensamentos. -Não acredito nisso... Não. – Deixou-se cair no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e escondendo o rosto entre as mãos. -Não é possível.
Sentiu o celular vibrar no bolso. Buscou, apenas para correr os olhos na tela e se importar depois com os problemas de trabalho, porém, ao ver que era Saga, leu com mais cuidado, e para responder breve ao convite de se encontrarem. Olhou para a porta novamente. -O que ele estava pensando todo esse tempo...?
-Você vai demorar para voltar? – Havia desgosto na pergunta.
-Milo, preciso de mais alguns dias. Burocracia é o que mata na vida adulta. – A voz de Camus soava preocupada. -Mas me espera e conversamos. Deveria saber que não coloco prioridades em cima das minhas amizades. Não tem por que ficar bravo comigo.
-Odeio quando viaja. Sempre demora tanto! – Tinha manha na voz.
-Mi. – Camus riu, docemente. -Parece criança.
-Hum.
-Mais à noite e ligo novamente, está bem assim?
-Vou esperar.
-Juízo.
O loiro olhava para o celular com ressentimento, como se o aparelho tivesse culpa da distância. -Se você soubesse, Camus. – Seu monólogo foi interrompido por batidas leves na porta, as quais reconheceu ser de Kanon. Deixou o celular em cima da mesa de apoio ali perto, na sala, e foi atender o geminiano.
-Oi. – Ele lhe dirigiu, com meiguice.
-Eu poderia ditar um poema para você agora, sabia? Era a luz que precisava. – Confessou.
-Sei que sou necessário para a existência humana.
-Está andando demais comigo! – Ambos riram. Kanon fechou a porta e caminhou até a cozinha. Milo seguiu. -Veio do trabalho agora?
-Sim e não. Saí agora a pouco, mas o Radamanthys quis me ver. – As palavras finais saíram baixas.
-Conseguiu terminar? – Encostou-se no batente. Kanon vasculhava na geladeira algo fresco e saudável para beber. -Experimente o suco de maçã. Está delicioso, eu que fiz hoje cedo.
Dita a sugestão, buscou a jarra de vidro com o suco e colocou em cima da bancada. Buscou dois copos de vidro, e pouco depois, Milo se juntou, enquanto o amigo servia o suco. -Já lhe disse, é complicado. Por mim, esse relacionamento não existe há pelo menos dois meses. – Bebeu um longo gole, surpreso consigo, pois o suco estava bem gelado, adocicado de forma natural e refrescante. -Nossa, o que é isso?
-Só maçãs. Ando viciado nisso. – Riu. -Falei que isso estava bom. E olha, existe polícia e advogado para lidar com isso.
-Não, só seria pior. – Virou o rosto para fitá-lo. -Vamos esquecer isso, está bem? Quando venho ver você, quero esquecer dos problemas. – Terminou o seu copo, para observá-lo mais uma vez. Aproximou-se mais do grego, levando um dos braços ao ombro dele, em um meio abraço em seu pescoço. Fitou os lábios do escorpiano, sorriu, e a mão livre, tocou em seu tórax por cima da camiseta, em apoio.
Milo não respondeu com palavras. Tocou no rosto dele com a sua mão, e o trouxe, definitivamente junto de si, em um beijo em sua boca. Apaixonado, carinhoso e cuidadoso. Kanon escorregou as duas mãos a abraçar o amigo pela cintura, colando os corpos e correspondendo ao beijo, de maneira igual.
Pouco depois, o geminiano tentava despi-lo de sua camiseta, até o que o outro permitiu. Jogou a peça no chão, desfez da sua própria peça, e suas mãos retornam ao corpo dele, com as suas unhas cravando na pele dele. Milo exclamou pela intensidade cheia de provocação que o outro usava. Forçou o beijo a ser cessado, para que sua boca pudesse brincar no pescoço de Kanon.
-Kanon, o que é isso? – Indagou, surpreso. No momento em que abriu os olhos para retornar às carícias, percebeu manchas no torso do amigo. Escuras, e nisso, se assustou. O outro, por não ter recordado, apenas percebeu sobre o que ele falava, quando se afastou.
-Mi... – Desviou o olhar, se incllinando para pegar a sua camiseta.
-Kanon! O que é isso? – O outro chegou a dar um passo para trás, assustando-se com a reação dele. A essa altura, já tinha noção que o amigo sabia o que significava aquilo.
-Acho que... Dispensa explicações. Entende quando digo que é difícil terminar com ele? – Milo não o ouviu direito, esbarrou em Kanon, caminhando até a porta do apartamento, apressado.
-Espera, onde pensa que vai?
-Me dê o seu telefone.
-Para quê?
-Radamanthys e eu precisamos conversar, amigavelmente.
-Milo, desliga esse modo berserk agora. Posso dar a você um monte de coisa... – Ironizou -Mas não o número dele. E você não vai bancar o justiceiro, não enquanto eu não permitir. – A voz era tão séria quanto a do outro.
-Então eu vou falar com o Saga.
-NÃO. – Sua voz deixou escapar um grito de desespero.
-Kanon... Ele ameaçou você. – Afirmou.
O geminiano buscava respirar fundo e calmamente, mas simplesmente, não tinha sucesso. Milo tinha um terceiro olho em seu instinto protetor, que já sabia de tudo, como se tivesse presenciado.
-Não... – Murmurou, sem olhá-lo.
-Olhe para mim quando eu pergunto as coisas para você. E não minta.
-Não estou mentindo.
-Kanon. – O outro loiro sentiu um arrepio no tom autoritário de Milo.
-Por favor, não faça nada. Pode só piorar as coisas.
-Piorar? – Milo deu um leve tapa em um dos locais em que havia hematomas.
-Ai, porra.
-Kanon, tenho a leve impressão que você está com a costela quebrada. – O grego não apreciava quando o escorpiano usava linhas irônicas ou sarcásticas em suas palavras. Significava que a fúria já havia se instaurado no amigo. -Ou você vai comigo ao hospital e denunciamos isso. Ou eu vou tomar atitudes drásticas. – Sorriu, maldoso.
-Milo... Estávamos aproveitando agora há pouco... – Tentou desconversar, porém, o amigo cruzou os braços, tornando ao modo autoritário de antes. -Tudo bem! – Falou, vencido. -Vamos ao hospital, e depois voltamos para casa. – Viu Milo sorrir.
-Então me espere aqui, deixe-me pegar a minha camiseta. – Respondeu, satisfeito.
Segundos depois, a porta fez um barulho forte ao ser fechada. Milo, ao perceber que Kanon havia ido embora, correu para alcançá-lo. Topou com a porta, trancada. -KANON abra essa porta! Devolva a minha chave! – Batia na porta.
-Desculpa, Mi. – Lamentou, saindo do corredor, descendo as escadas apressado, mesmo com as dores dos hematomas, levava de fato, consigo, a chave do amigo. -Nossa, ele vai me odiar.
No caminho, desabotoou o primeiro botão de sua camisa em rosa claro. Sabia que o namorado gostava desse charme, não lhe deixava com a aparência descuidada e ao mesmo tempo, era sensual. Jogou os cabelos para trás. Avistou Saga de longe, sentado em um banco de madeira no jardim de inverno do restaurante.
O geminiano estava muito charmoso. Vestido socialmente, em um conjunto preto, camisa em um tom azul claro e gravata em azul escuro. Estava de pernas cruzadas e os cabelos loiros, soltos dessa vez. O grego também lhe avistou.
Ergueu-se para cumprimentá-lo com um beijo ao rosto. O sueco sorriu, sendo convidado para sentar-se ao seu lado. Cruzou as pernas, e olhou Saga. -Estou aqui. – Sorria, curioso com o propósito daquela conversa.
-Aphrodite... Eu não tenho a intenção de demorar. – O viu balançar a cabeça, em sinal de que não incomodava. -Mas, eu fiquei pensando, desde ontem, no que falamos na nossa última conversa, um para o outro. – Umedeceu os lábios, sentia que parecia mais difícil do que deveria ser.
-E o que concluiu? – Ajeitou as pernas naquele cruzar, em um gesto levemente impaciente.
-Talvez... Devêssemos terminar. – Aphrodite tentou manter a sua postura, devido à surpresa. -Definitivamente dessa vez.
-Saga, isso é por conta dos desfiles? Eu posso cancelar a minha participação.
-Não. É por muito mais. Ambos sabemos bem o quanto brigamos. E ambos sabemos que nossas carreiras são prioridades. Você é modelo e sua vida é isso. Desfiles, viagens, enfim. – Estava melancólico em sua expressão. -E a minha vida não difere disso, sejamos honestos. No lugar dos desfiles, são reuniões.
Em um primeiro momento, mesmo seu coração dando razão ao que ele falava, sentiu-se frustrado por estar sendo dispensado. Trocado. Talvez, doía mais do que pensava, afinal, sabia que esnobava Saga de propósito, pois amava ser modelo, e nesse momento, ele também lhe esnobou pelo trabalho.
-Bom... Não posso argumentar, acredito eu. E sei que isso tem o dedo do seu irmão no meio. – Disparou. Saga riu.
-Vou fingir que não ouvi isso. E não torne a falar dele dessa forma novamente. – Alertou, em seguida, se levantou. -Eu sinto muito que não tenha dado certo durante todo esse tempo. Kanon sabe que eu tentei, Aphrodite. Até você sabe disso.
-Dizia sério sobre o casamento? – Perguntou, amargurado.
-Evidente. Mas quando não é para ser, não é. Simples assim. – O sueco se incomodou com o tom frio do outro.
-Muito bem, Saga. – Olhou para as próprias mãos, mencionando tirar a aliança.
-Não quero de volta. Faça o que achar melhor. – O pisciano olhou para Saga, sem que ele percebesse. Em seguida, olhou para as mãos dele, notando que o ex já não vestia o anel.
-Sinto muito.
-Eu também. – Assim que respondeu, o viu se afastar. Suspirou, frustrado, mantendo-se em seu lugar. O anel, colocou no bolso. -Que vergonha. – Depois, percebeu o local que Saga escolhera para a breve conversa. Restaurante exclusivo, cinco estrelas. Não havia fotógrafos ou paparazzi, assim, não seriam primeira página dos sites de fofoca tão cedo.
Naquele momento, sentiu-se triste. Perdeu o namorado, e os dois melhores amigos. Além da tristeza, havia o sentimento de abandono. Permaneceu mais um pouco em seu lugar, para depois se levantar e sair do local.
Colocou as mãos nos bolsos, em um deles, sentia o anel e pensou no que faria. A possibilidade de tentar voltar com Saga estava fora de questão. Conhecia aquela expressão do grego, era de um homem decidido. O geminiano era do perfil que não se arrependia de suas escolhas e com isso, era firme em suas palavras.
Iria a pé para casa, mesmo sabendo que o caminho seria longo. Acabou por se distrair com uma comoção no trânsito, e sentiu o seu corpo bater em alguém. -Me desculpe. – Tocou no braço do estranho, percebendo que ele havia perdido o equilíbrio.
-Aphrodite. – Sorriu.
-Shura. – Pronunciar o nome do amigo soou como um alívio. Sentiu o capricorniano lhe segurar, também.
-Que mundo pequeno. – Disse, com ternura. -Quieres tomar un café? – O viu balançar a cabeça, em positivo, e ao mesmo tempo, notou uma expressão melancólica. -O que aconteceu?
Começaram a andar quando a pergunta aconteceu. Esperaram o trânsito parar para poderem atravessar, enquanto o espanhol conduzia o caminho, que seria breve.
-Saga rompeu comigo. – Tentou ser frio em sua resposta, mas notou que estava mais machucado do que pensava.
-Serei mentiroso se falar que estou surpreso. Isso foi melhor para você, desculpe a sinceridade. – Depois de atravessarem, notou que precisariam andar alguns poucos metros, para chegarem à cafeteria.
-Eu sei..., mas... Ao mesmo tempo que sinto alívio... Sinto... Algo amargo. – Confessou.
-Ah. Sim. Eu sei exatamente o que quer dizer. Você precisava disso, mas está decepcionado.
-Também. – Ao chegarem, Aphrodite escolheu uma mesa do lado de fora. Puxou a cadeira de metal, logo se sentando. -E eu nunca gostei de ser rejeitado. – Riu leve e sem graça. Viu Shura se sentar, logo depois.
-Eu que terminei com o Aiolos quando éramos mais novos e eu senti culpa. E a sua expressão de agora, é exatamente a que ele teve durante um bom tempo. Às vezes precisamos passar por isso. Não quero reconfortar, sou realista.
-Não sabe o alívio que foi, ter encontrado você. – O amigo sorriu. -Mas não quero estragar as coisas. Giovanni me deu as boas novas. – Gesticulou, quando foram interrompidos por uma garçonete, e assim que fizeram o pedido e ela saiu dali, tornou a olhar o amigo.
-Sim, finalmente. Mas ele me disse que ficou bravo com ele. – Aphrodite desviou o olhar. Recordou-se o que ouviu do canceriano, a confissão triste e inesperada. E, apesar de ter sentido o seu coração esquentar pelo que ouviu, não sabia como agir.
-Discutimos, infelizmente. Mas ele estava com a razão.
-Posso saber qual foi o assunto, além da novidade? – Shura juntou as mãos em cima da mesa. Indagou, tenso, pois sabia que o italiano possuía um sentimento quase escondido pelo sueco.
-Hum. O italiano não suportava a ideia do meu noivado, sempre disse que era um mau negócio. – Deu de ombros. Esconderia a verdade do assunto, sabendo que aquilo poderia magoar o outro, naquele momento.
-Vocês logo voltam ao que eram antes. Giovanni não deixaria nada atrapalhar a amizade que tem com você. – Reconfortou o outro.
Houve um silêncio cômodo nos instantes seguintes, nisso, o pedido de ambos chegou à mesa. Aphrodite buscou o seu copo de café gelado, logo levando o canudo aos lábios. Viu Shura buscar o cappuccino dele, mas não beber ainda.
-Não se preocupe com o Saga. Não quero ser disco riscado, mas ele não serve para você. Sou amigo dele, por isso digo isso.
-Agradeço, Shura, pelas suas palavras. – Deu um sorriso fraco, mas genuíno.
-Ele pegou a aliança?
-Está comigo.
-Mande derreter. – Sugeriu. O outro riu de maneira breve. -Falo sério. É aliança de ouro e ainda tem dois diamantes, não? – Shura riu. -Vende isso aí, e nunca mais você precisa ir trabalhar. – Aphrodite tornou a rir, divertindo.
O espanhol começou a beber de seu café. -Giovanni estava bem feliz quando falou de você hoje cedo. Não sei o que fez com ele, mas fazia tempo que não o via dessa forma.
O outro sorriu, um pouco sem jeito. -Ele é feliz conosco. – Ergueu o olhar ao outro. Você fala de mim, mas quando ele está falando de você, é a mesma coisa. Nós dois fazemos bem para ele.
-Hum, então tenho parte nesse relacionamento?
-Você tem os seus créditos! – Riu.
-Ganhei o dia. – Também riu, enquanto bebericava de seu copo.
-Depois que terminarmos, você vai comigo para o escritório. Se tem um lugar que você pode esquecer do que aconteceu hoje, é lá. – Shura gesticulou, com travessura na expressão. Apesar da brincadeira, não queria que o amigo ficasse triste com a situação que passou mais cedo e assim, tentaria alegrá-lo.
-Não, não! Isso é maldade. Aquele lugar é muito tedioso. – O amigo contestou, entrando na brincadeira, sabendo a intenção dele. -Que amigo hein! – Fingiu descontentamento, enquanto cruzava os braços.
-Prepare-se. – Riu.
-Milo, nós iremos conversar quando chegar. Não se precipite, ou você vai me enlouquecer! Já falei para ficar tranquilo, tenha paciência, lembre-se que eu te ensinei. – O escorpiano sorriu com o conteúdo da mensagem.
-Mas é esse o meu objetivo. Enlouquecer você. – Encerrou a conversa, ali. Sabia que a sua mensagem havia sido apimentada demais para uma amizade, mas a satisfação de poder visualizar Camus com as bochechas rosadas de constrangimento com o que falou, lhe fez sorrir de maneira travessa.
Tirou a chave do bolso, colando na fechadura, logo após sair do elevador. Como era de seu costume, fazia visitas regulares no apartamento dos gêmeos e quando o aquariano viajava, sentia-se ainda mais sozinho. Mas, como tinha uma amizade mais íntima com Kanon, aproveitava a ausência de Saga para ver o amigo. E depois do último encontro, tinha satisfações a pedir do geminiano.
Entrou de maneira discreta, fechou a porta. Para assustar-se logo em seguida. Ouviu um barulho, o que lhe pareceu vidro, vindo ao fundo do corredor. E em seu silêncio, caminhou devagar, adentrando a residência. Ouvia também alguns outros sons que não pôde distinguir e nisso, seguiu o que ouvia. Então, descobriu que a fonte dos sons vinha do quarto do melhor amigo.
-Afaste-se dele! – Deixou a sua voz autoritária, brava, furiosa, naquele segundo que avistou Radamanthys a segurar Kanon com uma mão e a outra, cujo punho fechado tomava direção para o estômago do amigo. Assim, tocou no ombro do inglês, puxando-o para longe do amigo, aplicando força, mesmo consciente que Radamanthys era maior e mais forte.
-Mas o quê? – Desvencilhou do toque do loiro, e consequentemente soltou Kanon, naquela surpresa.
-Mi! – Murmurou quando o viu, sentindo algo pesado em seu peito. -Vá embora, eu cuido dele.
Milo se interpôs entre o casal. Tinha os dois punhos cerrados com força e a ira na expressão. Sentiu as mãos de Kanon lhe tocarem na cintura, em pedido para se afastar. A atitude seguinte do grego, ali, a proteger o amigo, foi desferir um soco, certeiro no rosto do inglês. -Kanon. Saia daqui. – Ordenou.
-Não. Milo, vá embora, eu já disse que eu cuido dele! – Tentava deixar a voz no mesmo nível de autoridade que o amigo, mas falhava em uma palavra ou outra. Temia o pior.
Assistiu Milo avançar sobre o outro escorpiano. O amigo fazia aulas de autodefesa e luta. Sempre investiu em seu físico, e sabia que ele podia travar uma luta intensa com o ex-namorado, mesmo sendo um pouco menor que o adversário. Apenas temia que pelo tamanho de Radamanthys, Milo no fim, fosse um alvo vulnerável.
-Moleque! – Radamanthys se enervava cada vez que levava socos e chutes do outro. Percebeu que o concorrente era de seu patamar, o que lhe fez agir com ainda mais força. Buscou pelo pescoço do outro, apertando-o.
-Radamanthys! – Kanon tomou fôlego e adentrou a briga, distribuindo socos no abdômen do inglês. Eventualmente, ele soltou um adversário e se voltou contra o geminiano, dando-lhe um soco enfurecido no rosto, fazendo com que o grego perdesse o equilíbro e caísse com um dos joelhos no chão. Quando olhou, Milo tornou a socar o loiro.
-Você é um desgraçado! Vai pagar por tudo que faz ao Kanon!
-Sabia que ele estava transando com outro! – Rebateu, enquanto se defendia dos golpes, alguns, com facilidade. Recebeu um chute em sua virilha, no contra-ataque seguinte do loiro. -Maldito!
O escorpiano avançou com um outro soco. Radamanthys, dessa vez se esquivou o suficiente para segurar o pulso dele. Com a outra mão, puxou-lhe os cabelos loiros e longos e com isso, conseguia controlar Milo, trazendo-o para si, enquanto esbarrava em móveis e decorações pelo caminho.
Kanon esfregava as costas da mão, limpando o sangue em seu rosto. -Milo, pare com isso! – Sua voz aumentou o tom, próximo a um grito, tentando impedi-lo de continuar. Nisso, levatou-se mais uma vez quando viu que Radamanthys, iria contra-atacar o escorpiano.
-Isso, é para você aprender a não se intrometer entre Kanon e eu! – O inglês respondeu, autoritário e furioso. Com Milo se debatendo, mas tendo-o sobre controle ao lhe segurar os cabelos, soltou o punho dele, dando-lhe um soco, forte, ao rosto, e em seguida, o empurrou com violência. Com isso, o grego perdeu o equilíbrio e caiu ao chão, quando sua cabeça foi de encontro à beirada da mesa ao centro da sala, para então, atingir por completo o tapete.
Sua visão começou a ficar turva, escura. Ficou inerte ao chão, mal possuía força para piscar. Avistava Kanon se erguer, indo em sua direção, mas, sua voz estava longe. Sentiu algo úmido junto de si, mas não tinha ideia o que seria, seu corpo ficava pesado, seus olhos, sonolentos.
-MILO! – O amigo gritava seu nome em desespero. Correu para si, cambaleou, estava zonzo pelos socos, mas o alcançou. Permitia um choro intenso invadir seu rosto, decido aos sentimentos que transbordavam entre tristeza e ódio. -Meu amor, não! – Murmurava. Trouxe Milo para o seu colo, sentindo algo úmido na recolocação de sua cabeça. Ao olhar sua mão, encharcada em sangue, sentiu o chão sumir naquele momento. -MILO, não dorme! Fica comigo!
Radamanthys ficou parado perto de ambos. Punhos fechados, horrorizado, ao mesmo tempo que em choque. -Porra... – Resmungou, vendo que a partir daquele momento, seria caçado. Em seguida, teve os olhos, irados, de Kanon em si.
-Se Milo morrer, eu vou caçar você no inferno, Radamanthys. – As palavras saíam com dificuldade, devido ao tamanho da ira que seu tom continha. -VÁ EMBORA! – Seu grito assustou o outro escorpiano, que saiu, veloz do apartamento. -Mi, fica comigo. – Buscou o celular em seu bolso, suas mãos tremiam para digitar a emergência. -O meu namorado está muito machucado e está morrendo! – Falava, entre as lágrimas. -Socorro!
A perna balançava, agitada, nervosa. Em intervalos de dois a três segundos, mudava a sua postura, já que o seu corpo estava tomado por diversas sensações dolorosas. Juntava as mãos com os braços nos cotovelos, depois, encostava-se no encosto. Alternava as suas ações em puxar as mangas de seu suéter, e então se levantava para andar de um lugar ao outro. Jogou os cabelos ruivos para trás, em irritabilidade. -Não dão uma notícia, que droga! – Resmungava consigo.
Kanon assistia o francês naquele vai e vem, ansiedade e impaciência. Ao contrário dele, estava encolhido em seu lugar. Tenso, culpado, dolorido. Às vezes entreabria os lábios para puxar conversa, se justificar, pedir perdão, mas nada saía. Vez e outra, lágrimas saíam, e limpava-as com a mão. Não bastasse o que sentia acerca do escorpiano, olhar Camus lhe fazia sentir pior.
-Kan! – Ouvir a voz de seu gêmeo foi o analgésico que precisava naquele momento. Se ergueu de imediato, com os braços abertos até ele. Saga lhe envolveu em um abraço, e logo em seguida segurou o seu rosto, gemeu mesmo por seu toque delicado, mas por todos os seus ferimentos. -O que aconteceu? Camus?!
O aquariano olhou ambos com tristeza, não tinha vontade e forças para falar nada. Kanon então pegou na mão do irmão e o puxou para um pouco mais afastado dali. -Sa... É complicado.
-Você está cheio de hematomas no rosto, o Camus está com uma cara de luto e o Milo está internado, portanto eu acho que esse é o momento certo para contar tudo. – Observava os ferimentos de Kanon, e só aquilo, lhe irritou, profundamente.
As mãos do mais novo se entrelaçavam com as de seu irmão mais velho. -Saga... Milo e Radamanthys brigaram. De forma tão intensa e violenta. – Balançou a cabeça em negativa.
-Ele ficou com ciúmes?
-Milo... O pegou batendo em mim quando veio me ver. – As palavras saíram dificultosas. Prometera a si que jamais falaria do abuso de seu relacionamento, principalmente para o irmão e o melhor amigo, pois sabia como eles iriam reagir, o que falariam e poderia até adivinhar no que pensariam. E assim que terminou de falar, Saga lhe soltou e se afastou.
-Aquele filho da – O irmão pegou em suas mãos novamente.
-Sa, por favor, eu sei que vai ficar furioso. Mas me ouça primeiro. Eu não podia. Então o Mi viu, foi para cima, tentei afastar os dois, mas apanhei ainda mais. – Seu olhar estava perdido, mas o segurava com força. -Radamanthys ameaçou mexer com vocês, com você, se eu contasse algo. Eu não suportava a ideia.
Saga não respondeu de imediato, soltou as mãos do outro e o abraçou em seu pescoço. -Não o protegi por todo esse tempo. – Concluiu.
-Saga, não tem o direito de falar isso. Você não sabia. Eu sempre escondi isso muito bem. – O apertava em sua cintura, firme no abraço. -Mas o Milo está morrendo e é culpa minha. – Escondeu o rosto no corpo do irmão, deixando-se chorar copiosamente.
-Kan, não. Ele fez o que eu faria, ele quis proteger quem ele amava. Não se culpe. Você não ia adivinhar que ele poderia aparecer e encarar aquele maldito. - Mas não teve resposta, o mais novo ainda estava chorando.
-NÃO. NÃO! NON! – Ambos ouviram o sotaque do francês, assustado. Kanon enxugou as lágrimas e correu com o irmão até o amigo.
-Camus! – Saga foi em direção à ele, segurando-o em seus ombros.
-O que houve?
-Aconteceu alguma coisa! Milo! Não! – Não escondia as lágrimas.
O geminiano mais novo, trêmulo, se afastou de ambos e discretamente seguiu dois enfermeiros que entraram onde o amigo estava. Pouco depois, retornou.
-Eles entraram com um desfibrilador. – Comentou, quando se aproximou de ambos, notou Camus fechar os olhos. Viu a desesperança em sua expressão e o silêncio se instaurou entre os três.
-Vamos sentar.
-Não quero, Saga!
-Camus, ficar em pé não vai ser mais rápido e evita de você passar mal. – Saga o convenceu, e sentou-se ao lado do amigo. Notou que ele estava sem nada. -Fique aqui. – Ergueu-se de novo, buscando ao corredor, água. Falou com uma auxiliar que estava de recepção no andar que lhe ajudou, e então, retornou com um copo de água para o francês. -Tome um pouco.
-Não quero...
-Camus. – O censurou, e com isso, o francês desistiu de resistir e tomou o copo inteiro de água fresca. -Obrigado. Esse copo vai colocá-lo de volta à razão. – Comentou e apenas o ouviu suspirar. -Kan, sente-se. – Pediu, e o gêmeo lhe atendeu, prontamente. Puxou uma cadeira para mais perto, e para sua própria segurança e sanidade, encostou-se na perna do irmão. Apertava a coxa dele com uma de suas mãos e o outro, pousou carinhosamente sua mão por cima da dele. Saga estava igualmente preocupado, com os outros dois, mas sabia que precisava ao menos manter a aparência de mais forte para dar suporte aos outros.
Os três ouviram passos barulhentos no corredor, mas apenas Kanon virou o rosto, na tentativa de enxergar, curiosamente quem seria. Sem sucesso, olhou para o relógio em seu celular, já se passavam três horas e meia desde que chegaram ao hospital.
-Camus!
Os três reconheceram a voz e o dono dos passos. -Aiolia. – Havia afeto na maneira que o ruivo o chamou. Não precisou se levantar, o leonino veio de encontro a si. Ao longe, Aiolos também se aproximava.
-Oi para você também, Aiolia. – Kanon disparou. Não cumprimentando o sagitariano, sua expressão seca demonstrou que nenhum dos dois eram bem-vindos.
-Se não é problema para o Aiolos, é para o Milo. – Alfinetou, sério, retornando sua atenção ao amigo francês. Se agachou à frente dele, com as mãos em seus joelhos. -Como ele está?
-Por favor, meninos. – Saga censurou o irmão e o outro grego.
-Milo está operando. Já faz três horas. – Respondeu, triste. Ergueu o olhar, olhou Aiolia e depois, Aiolos, que estava de braços cruzados, deixando o seu olhar percorrer o local que estavam.
-Resultado de briga, não é? – O sagitariano indagava, em confirmação.
-Exatamente. Sabe como ele é esquentado. – Acreditava ter respondido o suficiente, não queria entrar em detalhes, pois sabia que todos ali discutiriam entre si. Kanon olhou-o, percebeu sua exaustão para contar a verdade.
Esfregou o rosto com as mãos, para olhar no relógio do pulso. As horas demorava ainda mais, nisso, sua perna voltou a balançar de impaciência. Camus foi o primeiro a se erguer, seguido de Kanon e dos outros, quando o médico saiu pela porta do corredor da UTI. Trazia consigo uma prancheta, em que vasculhava nas folhas, uma rápida olhada para resumir a situação do paciente.
-Doutor... – A voz do ruivo falhou, enquanto sentia o seu corpo, trêmulo.
-Senhores. – O médico sorriu, por simpatia. -Por fim, a cirurgia de Milo terminou. – Fez uma pausa, olhando no prontuário. -Ele teve uma parada cardiorrespiratória durante a cirurgia, mas respondeu bem, assim como os sinais durante a operação. – Olhou para Kanon. -Ele teve sorte de vir rápido para cá, porque o acidente não foi brincadeira, sofreu um traumatismo. – Tinha o tom leve, já que era uma situação difícil, do paciente e dos familiares. -Mas como disse, respondeu bem, e estará em observação na UTI, para depois ir para o quarto.
-Disse traumatismo... Quanto isso é grave? – Kanon indagou, ainda mais tenso. Aiolia e Camus entrelaçaram as mãos e apertaram, torcendo para uma notícia positiva.
-Ele perdeu bastante sangue. Se feriu na queda e a batida, mas como foi socorrido às pressas, reduz a chance de sequelas.
-Sequelas? – Aiolia entrou na conversa, chocado.
-Isso, especificamente... – O médico lhe olhou antes e continuar. -Veremos depois da saída dele daqui e com o acompanhamento do tratamento. Nesses casos, ocorrem sim, sequelas, mas há raros casos que o paciente se recupera e não tem nada, além de um trauma da situação. – Fez uma pausa, novamente. -Psicológico, não físico. – Detalhou.
-Doutor, ele é forte, vai se recuperar, mas... – Camus continuou a conversa. -O quê devemos esperar.
-Só saberemos mesmo quando ele acordar. Terá mais exames e teste para responder de forma concreta. Mas casos assim, parecidos com o de Milo, esperam-se problemas na área motora e reflexiva. – Viu o ruivo baixar a cabeça. -Mas antes de nos precipitarmos, vamos aguardar o paciente acordar primeiro. – Enfatizou. -Ele permanecerá a noite aqui, se preferirem, podem ir para casa.
-Obrigado. – Saga percebeu que a conversa se encerraria ali.
O grupo aguardo o médico sair, e retornaram à recepção do andar. Aiolia auxiliava Camus a retornar ao assento. -Alguém de vocês quer ficar? – Aiolos reiniciou a conversa. -Deixem-me ficar. O dia foi exaustivo para vocês dois. – Olhava de Kanon para Camus.
-Não vou ficar tranquilo enquanto não o ver.
-Nem eu.
-Camus, Kan... Não adianta vocês ficarem aqui. – Com suas palavras, Saga concordou com a ideia do sagitariano. -Ele está completamente dopado por essa noite. Eu levo vocês dois para casa. – Olhou o francês. -Por que não fica conosco hoje? Ficar sozinho não lhe fará bem. – O viu balançar a cabeça em negativa.
-Devo concordar com o Saga, Camus. – Disse o leonino, preocupado. -Ou vem para casa comigo. - Olhou o irmão, percebendo que ele desejava ficar. Percebeu o ruivo erguer o olhar triste para si, a proposta do amigo acabou lhe convencendo e, então, ele olhou Saga, que consentiu.
-Está bem. – Camus levou a mão aos cabelos, jogando-os para trás. Estava psicologicamente e emocionalmente exausto.
-Estou com motorista, levo todos. – Saga complementou a resolução da situação. -Precisa de alguma coisa, Aiolos?
-Estou ótimo. – Sorriu, rápido. Aiolia se aproximou do irmão e beijou o seu rosto. -Vá, cuide do Camus. – Sorriu.
Abriu a porta do apartamento, puxando o gêmeo para dentro, com delicadeza. Antes de dar-lhe licença, observou a situação do lugar. Algumas decorações quebradas, outras caídas ao chão. Bagunça. Suspirou.
Adentrava mais, quando notou Kanon hesitar em se aproximar. Ao fitá-lo, seguiu seu olhar, notando onde Milo caíra. -Kan... -Tornou a olhá-lo, observando lágrimas em seus olhos. -Vem cá. – Se aproximou, para um abraço. -Faça um favor para mim. Vá tomar um banho de banheira relaxante, que eu preparo algo quente para você tomar. E enquanto você se lava, eu arrumo a casa.
As mãos de Kanon envolviam as costas do irmão. -Não paro de pensar se isso tivesse acontecido com você. – A voz era chorosa. -Me promete que vai ter sempre um segurança perto de você. Tome todo o cuidado quando estiver sozinho. Ele sabe que o denunciarei pelo que fez com o Mi... Agora só terá sede de vingança.
-Kanon. – A voz foi mais séria, separando-se dele. Segurou o rosto do irmão com ambas as mãos. -Sei o quanto é difícil, mas se acalma, por favor. Tenho seguranças comigo e ficarei bem. Você quem terá seguranças com você a partir de agora e aqui na porta do apartamento.
-Sa... – Gemeu, triste.
-Kan, vai. – Sorriu.
Por fim, a contragosto, Kanon se afastou e de forma cautelosa, passou pela sala de estar, engolindo seco. Recordava o acontecimento, o amigo caindo daquela forma, inerte aos seus gritos. -Mi. – Murmurou.
Afundou-se dentro da água morna da banheira, aconchegante e segura, mas ainda com o coração tenso, tomava atenção em qualquer som vindo do resto do apartamento. Pouco depois, emergiu, torcendo os fios loiros com o excesso de água, para levantar-se da banheira e sair. Penteou os cabelos, não usou secador. Demorou-se então a secar o corpo. Sentia-se cansado fisicamente, exausto emocionalmente e ansioso.
Saiu do banheiro e foi ao quarto, buscando uma roupa leve e fresca para si, só depois que retornou à sala, percebendo Saga terminando de arrumar uma estátua que estava caída no chão, porém não quebrada. Viu também o quão ele foi cuidadoso em arrumar tudo o que haviam desarrumado mais cedo. -Sa, me desculpe... Por tudo o que teve que limpar.
-Kan... – Respondeu, triste. -Sente-se, o chá já estará pronto.
O outro obedeceu deixou-se cair no sofá. Respirou fundo e buscou o controle ali perto para ligar o aparelho de som. As melodias, no momento, eram clássicas e calmas. Ambos os gêmeos apreciavam usar para relaxar o ambiente.
Saga se ausentou da companhia dele e foi até a cozinha. Preparou bule, xícaras, blend de chá calmante e separou alguns biscoitos de limão. Arrumou tudo em uma bandeja dourada e retornou à sala, colocou na mesa de centro. E serviu a xícara do irmão. -Aqui está.
Kanon trouxe a xícara para si, tratando como se fosse um tesouro. -Obrigado, Sa. – Aproximou a porcelana dos lábios, percebendo que estava quente. Assoprou discretamente, para tomar um gole. -Do jeito que eu gosto.
Saga sorriu, sentando-se colado ao gêmeo. Aproveitou para beijar o topo da cabeça dele enquanto isso. -Sente-se melhor?
-Saga... – Virou o rosto para olhá-lo. Sorriu fraco. -... Com você comigo, a pior dor do mundo se torna fácil de superar. – Viu o mais velho ficar com as bochechas rosadas. -Que isso? Vi mesmo? Saga com vergonha? – Riu, divertindo-se. -Que cena adorável.
-Kan, para. Tome o seu chá. Hum. – Sem-graça, desviou o olhar, e virou o rosto ainda mais ao perceber a intensidade que o outro lhe encarava.
-Sa, olhe para mim. Por favor. – O outro obedeceu, mas não o encarou diretamente. -Ainda vermelho?
-Kanon!
-Eu paro, eu paro. – Continuou a rir. -Obrigado, Sa. – Beijou o ombro dele, e retornou ao chá. Buscou dois biscoitos; um, colocou entre os lábios do irmão, que comeu, devagar, depois, o mais novo fez o mesmo.
-Você me deve respostas. – Sabia que aquele momento não era o melhor, mas para o bem de Kanon, precisava mudar o assunto, nem que fosse sobre a temperatura.
-Quais? – Pausou seu mastigar. Olhou-o curioso.
-Disse que a pessoa que queria que realizasse as suas fantasias, não o faz. – A expressão de Saga também era curiosidade e depois do comentário, o semblante de Kanon mostrou que recordava claramente o assunto. -Hum, quem é? Não é o Radamanthys, não é o Milo. – O mais velho realmente buscava uma opção. -Colega de trabalho seu? O... Io? Pelo jeito que falou, a Thétis não é... Hum... Nosso primo?
O grego mais novo sorriu, achava adorável o empenho de Saga em descobrir por quem estava apaixonado. -Está esquentando. – Brincou e então, viu na expressão do outro uma concentração ainda maior. -Mas porque exatamente quer saber?
-Hum. Esquentando? Então só pode ser um dos dois. Defteros ou Aspros. – Kanon engoliu um riso pela conclusão. -Porque quero saber quem eu vou ter que matar, simples assim. – Ambas voz e expressão eram firmes e Kanon não esperava ouvir aquilo.
-Sa! – Riu. -Inocente de mim, acreditar que teria a sua benção.
-Kanon, você até pode escolher a sua alma gêmea. Mas nunca terá a minha benção. – Olhou o irmão. Suas palavras tinham um tom carinhoso, não agressivo.
-Por quê? Não me quer ver feliz?
-Claro. Mas...
-Mas? – O coração do mais novo deu um pulo. Saga não olhava para si e por conta disso, segurou a xícara morna com as duas mãos, firmemente.
-Nunca, ninguém irá lhe fazer feliz. Apenas eu.
-Presunçoso? – Seu coração acelerou ainda mais com aquela resposta.
-Protetor. Só eu sei o que você é, o que sente e o que gosta.
-Mas outra pessoa pode aprender. – Provocou, queria ter certeza do tom que o outro colocava em suas palavras.
-Para quê aprender, se você tem alguém que literalmente, sabe já de todos os detalhes que fazem você ser você?
-Aphrodite é muito sortudo. – Concluiu, com certa melancolia.
-Esqueci de dizer. – Riu. Viu Kanon lhe encontrar com o olhar. -Rompi com ele.
-Enfim uma boa notícia! Excelente, na verdade. – Ambos riram. -Conte-me, ele fez escândalo?
-Não. Mas teve um momento em que ele tentou culpar você. – Ouviu-o rir ainda mais. -Fiquei... furioso e disse para ele não falar mais de você.
-Então eu vou ficar? – Brincou.
-Jamais me diga aquilo novamente. – Olhou o irmão, triste. -Eu prefiro ouvir qualquer coisa... Do que aquelas palavras novamente.
-Você precisava ser chacoalhado daquela forma. Eu sei que você era infeliz com ele, por isso, tentei salvar você. Sei o quanto foram dolorosas, e para dizê-las... Pareciam lâminas. – Pousou sua xícara de volta na bandeja por um instante, e então, voltou a ele.
Houve um silêncio, agradável, em que ambos pensavam no que ouviram um do outro e Saga, pensava em como continuaria suas palavras. -Kan... Você é meu irmão. Por que isso parece errado?
- "Isso"? – O olhou, ligeiramente confuso, mas ele não respondeu em seguida.
-Isso... De não querer ver você com mais ninguém além de mim. – Complementou, por fim, sério.
-Esqueceu de como era? Foi o principal motivo de termos sido expulsos de casa.
-Não esqueci. Passei a ter medo, desde aquela época.
-Medo? – Fitou Saga com mais atenção.
-Acharam errado na época. Batalhamos para morarmos sozinhos e conseguirmos viver, e por conta de como eles nos olharam e nos trataram, achei que iria destruir a sua vida. Então nunca mais tentei beijar você de novo.
Kanon se recordava do passado doloroso que vivenciaram quando mais novos, a cada palavra do irmão. Estava feliz por ter enfrentado tudo com ele, mas não mentiria que tinha sido uma época difícil. -Eu nunca tive medo ou achei errado. Naquela tentativa que interromperam, foi quando tive a certeza do que sentia por você. – Teve o olhar e um sorriso do irmão para si, nisso, sorriu, também.
Em seguida, a mão do gêmeo mais velho tocou na lateral de seu rosto. Saga agora oscilava o olhar entre seus olhos e sua boca. E suspirou por perceber aquilo dele, enquanto a distância diminuía entre ambos os rostos.
-Saga, eu amo tanto você. – Sussurrou. E como resposta, os lábios dele se colaram aos seus, em um beijo cuidadoso, delicado, carinhoso. Ambos fecharam os olhos aproveitando aquele instante, aproveitando o beijo.
-Isso é complicado. – Shura fixou o seu olhar no celular, surpreso. -Camus deve estar péssimo.
-Que trágico. – Aphrodite comentou, recostando-se na cadeira. -Não tenho ideia de como ele possa estar se sentindo. – Levou o garfo à boca, com uma porção de legumes. Mastigava devagar, tão absorto quando Shura na notícia que receberam de Saga. -Mas é isso ao que nos submetemos, certo? Proteger quem amamos. – As palavras do pisciano saíram românticas.
-É, acredito que sim. – Concluiu, ainda surpreso. Juntou as mãos em cima da mesa, antes de continuar a comer. -Isso tira qualquer um do equilíbrio, ainda mais ele. – Complementou, degustando em seguida, um pedaço de camarão. -Falou com Giovanni?
-Também não. O italiano esqueceu o celular dele em casa e saiu para trabalhar. Achei até que tivesse ido ver você.
Riu. -Por isso ele não me atendeu. Não, não nos vimos ainda. Depois do nosso café de ontem, Aphrodite, falei com ele à noite e foi só. Aí você foi para casa. -Tomou um gole de seu drink. Viu o outro continuar comendo e então, perdeu o olhar no restaurante. -Sinto que amanhã você será capa de revista. Tsc.
-Por quê? – A pergunta foi tensa.
-Se a essa altura já souberem do seu rompimento, e hoje me veem com você... Já sente o drama.
-Parei de me importar com esses parasitas. Alguns querem chamar a minha atenção, tentam me comprar e subornar só para ver se os levo para a cama. – Shura riu, divertido com o desdém do amigo. -Por isso faço parte da lista negra de alguns jornalistas. Dou zero atenção e os vermes ficam nervosos. – O sueco sorriu, com maldade. -Isso não acarreta nada na minha fama e carreira. No mundo da moda e da beleza existem mais coisas podres que as pessoas pensam.
O capricorniano não podia negar a si próprio que gostava quando o amigo falava daquela forma, autoritária e carregada de desdém. Gostava da autoconfiança dele. -E ainda permanece nesse mundo?
-Evidente. – Riu. -Gosto do que faço. Por tudo que conquistei, sozinho. Sofri, você e o italiano sabem de muita coisa, mas no fim...
-Amadureceu.
-Exatamente. – O sueco terminava o seu prato aos poucos, intercalando com breves goles de seu drink. -Ah, eu me lembrei. Daqui a pouco tenho que retornar ao estúdio, mas posso passar na sua casa mais tarde?
-É verdade, já havia me esquecido. Claro. – Sorriu. -Sempre esqueço de devolver os livros e as outras coisas para vocês. – Riu breve, terminando o seu drink. -Aceita sobremesa? – Viu o amigo terminar de comer, e em seguida, fez o mesmo.
-Hoje eu vou dispensar. Esse restaurante tem sobremesas ótimas, mas precisa me preparar para o desfile que terei daqui duas semanas, novamente.
-Milão de novo? Giovanni vai?
-Não. Estocolmo.
-Desfilar em casa? Que mundo pequeno. – Aphrodite riu, em flerte e Shura percebeu isso, sorrindo em malícia.
-E não posso levar vocês. – Torceu a boca.
-Não é justo. – Reclamou, brincando. – Chamou a garçonete, pedindo a conta.
-Mas eu sei que estou devendo uma para vocês dois! Não esqueci. – Riu. Observando por um momento.
-Quer que eu chame um táxi?
-Shura, não sou uma de suas prostitutas. – Fingiu-se de sério e o espanhol gargalhou.
-Quem ouve isso, não?
-Táxi. Que ultrajante. – Jogou os cabelos para trás, na brincadeira, fingindo-se de ofendido.
-Então prefere ônibus? – Ele ainda ria, enquanto pagava a conta
-Não, vou pegar o meu carro que está aqui perto.
-Desculpe, excelência, esqueci que dirige a Lamborghini que ganhou do CEO da Prada. – Fingiu descaso em suas palavras.
-Hum, é. Desculpe. Sabe como é difícil estar em cima sempre. – Shura desviou o olhar, e riu ao canto dos lábios.
-Alguém precisa lhe ensinar a estar em baixo. – Ergueu ambas as sobrancelhas e foi a vez de Aphrodite gargalhar.
-Nunca. – O pisciano se ergueu com elegância da mesa, e aproximou-se de Shura, colocando a mão em seu ombro. -Vejo você mais tarde, cabrón. – Falou, carinhosamente, beijando-lhe o rosto demoradamente.
-Tchau, excelência. – Ainda o ouvia rir. Shura riu, também. Ainda permaneceu um momento na mesa, suspirando. Preocupava-se de não terem notícias de Giovanni desde o dia anterior.
-Fui em casa buscar o celular. Desculpe não ter respondido. Homem apaixonado é idiota, não é? – Assim, que terminou a mensagem, o italiano deu partida no carro, já acionando o para-brisa, pela chuva e assim, saiu da vaga no estacionamento.
Parou em um semáforo, e buscou novamente o celular, respondendo por mensagem de voz, o sueco. "Desculpe, Aphrodite, sou muito desligado, vamos conversar". Então, deixou o aparelho de lado e seguiu seu caminho na avenida. Sem tirar a atenção no trânsito, acertava o caminho no GPS do carro, indicando o endereço do espanhol.
Próximo à residência do capricorniano, parou em uma floricultura, entrando correndo no estabelecimento, que tinha um considerável movimento.
-Posso ajudar? – Disse a voz alegre de uma garota de cabelos castanhos. Ela sorria. Contagiado pelo sorriso da menina, fez o mesmo. -Me chamo Helena.
-Giovanni. Na verdade, quero ajudar sim. Hum... – Parou por um instante, para observar o que a loja ofertava em opções.
-Fique à vontade! Qual a ocasião?
-Um encontro. – Sorriu novamente.
-Que romântico! Ela tem preferência?
-Na verdade... É ele. – A olhou, sem-jeito. -Cravos...
-Oh! – Ela exclamou, igualmente sem-jeito. Por um instante, ambos riram. -Perdoe-me! Ah, mas é claro. Hoje inclusive temos coloridos. É uma linda flor espanhola... Venha comigo! – O italiano a seguiu.
-Ele é espanhol. – Comentou, alegre.
-Então ele vai adorar a nossa seleção! – Ambos saíram de uma pequena aglomeração, para a garota buscar na seção, as opções de cores. Vermelhos, brancos, rosa e roxo.
-Estão magníficos na verdade. Pode então fazer um buquê colorido para mim?
-Combinado! O senhor precisa de algo mais?
-Acho que não.
-Então me aguarde e já trago para você. – Pediu, nisso, Giovanni se perdeu em olhar as opções de flores, acessórios, arranjos, vasos disponíveis durante o tempo de aguardo. Encantou-se com as rosas. Até o perfume lembrava Aphrodite.
Suspirou, preocupado em como conversariam novamente. Não falou com o amigo após a briga do dia anterior e, quando retornou ao apartamento, no momento que esqueceu o celular, o sueco estava dormindo.
Erguia a mão para tocar em uma rosa vermelha, tão viva que parecia de veludo, quando o formoso buquê de cravos surgiu diante de si. -O que acha? – Riu pela alegria da menina em atender o seu caso.
-Era exatamente como eu queria. – Confessou.
-As rosas estão lindas, por que não leva?
-Espero que estejam lindas assim amanhã.
-Aceitamos encomendas e entregamos, se precisar. – Complementou e viu o cliente assentir com a cabeça. O italiano seguiu a morena até o balcão para pagar pelo arranjo e a viu colocar um cartão, próximo de si. -Se precisar, só nos ligue. Tem o meu telefone, então já até saberia o que precisa. – O tom dela era afável.
-Adoro flores, então sendo para alguém, ou não, entrarei em contato.
-Obrigada pela preferência, senhor Giovanni. – O acompanhou até a porta. -Que chuva! Piorou!
-Obrigado. – Agradeceu em despedida, correndo para o carro, com as flores a proteger em seus braços. Colocou o arranjo às pressas dentro do veículo e depois deu a volta para entrar. Virou o rosto para olhar o presente no banco ao lado e sorriu. Mais uma vez, retirou o veículo da vaga e seguiu, por mais alguns minutos, até a casa do moreno.
Estacionou bem à frente da casa dele. Antes de descer, tirou do bolso uma cópia da chave que ele o havia dado, e deixou-a em mãos. Com receio de molhar demais as flores, só entrou com elas após ter destrancado a porta. Fechou, ajeitando a si próprio para não parecer desleixado por ter se molhado. Estava decidido que faria surpresa para o namorado, já que por sua causa não tinham se falado. Levou o buquê consigo, enquanto buscava por Shura dentro da casa, que estava bem quieta.
Aphrodite segurava o rosto do espanhol com firmeza, enquanto os lábios brincavam com os dele, ora em um beijo, ora em provocação. Ambos estavam sentados, lado a lado na mesa do escritório, que tinha alguns livros e papéis por cima.
-Eu achava que só eu estava sendo romântico. – Disparou, percebendo o susto que aplicou em ambos ali. O loiro inclusive ainda segurava o rosto do outro.
-Italiano, droga! – Afastou-se do sueco.
-Giovanni. – Sua voz falhou em timbre, ao chamá-lo.
O canceriano se aproximou da mesa e jogou o arranjo, em direção ao sueco. -Para completar a noite romântica, que eu não quero atrapalhar, dê isso para ele. Sei o quanto gosta. – Fitava o espanhol em suas palavras finais. Viu o moreno levantar-se. -E Aphrodite... – O olhou, novamente. -Depois do que eu lhe falei, hein? – Balançou a cabeça em negativa, decepcionado com ambos. Shura olhou o loiro, confuso, nisso, buscou o braço do namorado. -Não me toque, Shura! – Se afastou.
-Giovanni, podemos explicar. Espere! – Aphrodite também se levantou, para se aproximar de ambos.
-Explicar o quê, Shura? – Avançou para cima do espanhol, bravo e Aphrodite teve que se interpor. -Que eu sou idiota?
-Não, claro que não! Peço desculpas, foi minha culpa...
-É isso que o Aiolos sente quando olha para você? – Novamente, disparou, com maldade e frieza o suficiente, para que até o sueco lhe olhasse assustado. Shura se ofendeu e ficou quieto.
-Parem, por favor. Giovanni, nós podemos explicar o que aconteceu.
-Claro, me ilumine. – Debochou. -Adoraria ouvir o que você, recém-separado, estava fazendo na boca do meu namorado. Acho que me procurando não era.
O pisciano se incomodou em ciúme com a autoridade acerca de Shura, nas palavras do italiano. -Eu que provoquei o Shura, ele não queria nada. A culpa é só minha.
-Olha, é melhor vocês se resolverem. Por ele diz que a culpa é dele, e você diz que é sua. Bom, mas não interessa mais. Agora é tarde. – Afastou-se de ambos. -Nossa, como sou estúpido. – Resmungou consigo mesmo, Aphrodite ouviu, sentindo o seu coração partir, ainda mais por recordar a forma como ele se declarou para si anteriormente. -Boa noite, pombinhos. – Mais uma vez, debochou, saindo às pressas do aposento, sendo seguido.
-Giovanni, pare, por favor! – Shura pediu, em um tom mais alto.
-Não me convidem para o casamento, ok? – Por fim, saiu da casa. Teve o pulso segurado por Aphrodite, mas se desvencilhou.
Shura ainda abriu a porta, e tentou segui-lo. Viu o italiano entrar no carro e ligá-lo, acelerou, saindo dali às pressas. -Mas que droga! – Virou-se para o outro. -Você fez de propósito, não foi?! – Perguntou, bravo e viu que o outro se incomodou com a acusação.
-Por quê? Não consegue segurar homem e joga a culpa em mim? A falta de capacidade é sua.
-Por que você acabou de ser chutado e não quer ver os outros felizes? – Shura piscava várias vezes, pela chuva em seus olhos.
-É, talvez tenha razão em uma coisa.
-No quê? – Se aproximou do outro, tentando sair do temporal.
-Não gostei de vê-los juntos. É. Você não serve para ele.
-Mas é muito atrevimento. – Foi a vez do espanhol avançar para cima do loiro que deu passos para trás, entrando na casa novamente, com o outro. -Narcisista!
-É o melhor que pode me xingar? Patético, Shura. E se diz homem! – Riu, maldoso.
-Achei que éramos amigos! Você sabia o quanto eu gostava dele! – O empurrou, sem muita força.
-Tem certeza de que o problema sou eu? Ou ser infiel é um defeito o que tem entre as pernas?
-Cale a boca! – O empurrou novamente.
-Não! Bem que você gostou do beijo e dos flertes no restaurante.
-Você me dá nojo. – Ouviu Aphrodite gargalhar em maldade.
-Realmente, patético. É por isso que ele foi embora.
-Caia na realidade, abandonou você também.
-Não a mim. Quando brigamos, ele disse que estava apaixonado por mim.
-Diga uma novidade. – Passou uma das mãos no rosto, irritado.
Ergueu uma sobrancelha pela reação dele. -Você sabia?
-Aphrodite, acorda. O mundo inteiro, todos os nossos amigos, sabem o quando ele se derrete por você! Não me diga que é cego! Essa não cola, colega.
O pisciano acalmou a sua postura ao ouvir aquilo. -E por que o pediu em namoro?
-Pois vi nos olhos dele a desesperança de ter uma chance com você, já que ia se casar. – Confessou, em tom baixo, secando a si próprio, inutilmente.
Novamente, o coração do sueco se partiu. Sabia que no fundo, havia estragado tudo entre os dois e agora, tinha certeza.
-Devia ter falado comigo e evitaríamos tudo isso.
-Não sou trouxa, é óbvio que fiz a situação ao meu favor. De repente eu o fazia feliz.
-Enquanto lhe faltar fidelidade, não fará nem sua sombra feliz.
-Não venha me julgar. Você o traiu também. Foi um lixo tanto quanto eu. Aliás, vá embora. Muita informação por uma noite só! E bom, você sabe onde é a porta. - Shura deixou o amigo sozinho na sala, e foi para o banheiro. Aphrodite, ao se ver só, saiu da casa, em silêncio.
-Você precisa vir, Aphrodite! Dependo de você para que essa sessão aconteça! É perder a campanha inteira, caso não venha.
-Eu sei, eu sei! Está bem, farei as malas. – Despediu-se, apoiando o celular nos lábios, pensativo. Desejava ficar em casa e esperar o italiano chegar, precisavam conversar, precisava se resolver com ele.
Assustou-se em seu lugar ao ouvir a porta do apartamento bater. Olhou institivamente para a porta de seu quarto, mas não se moveu, esperando ter a certeza de que fosse o italiano. Ouviu seus passos, o viu passar pelo corredor, indo até o quarto dele. Só depois se ergueu da cama e foi calmamente buscá-lo.
Ao se encostar no batente, o viu perdido. Giovanni mexeu em seu armário, buscando por uma mala, e naquele momento, sentiu seu coração apertar. Notou que ele não lhe percebeu, nisso, assumiu o objetivo de preencher a mala.
Assim que o outro virou as costas, retornando ao armário, foi até a mala, retirando suas peças íntimas. -O que está fazendo, Giovanni?
-O que parece? – Respondeu, em tom baixo. -Pare com isso, por favor. – Buscava as peças que o outro tirou, e as jogou na mala novamente, porém, o sueco repetiu o seu gesto. -Aphrodite, pode parar? – Pediu, em um timbre mais elevado, bravo.
-Não, não posso! Por que esta mala?
-Porque vou embora.
-Não precisa, amanhã irei a Estocolmo, poderá ficar longe de mim aqui mesmo. Não precisa se mudar.
-Aphrodite, falei com o meu pai, tenho passagem de ida para Veneza. Não vou ficar mais em Atenas. – Não o olhava. O amigo, ao ouvir a notícia, caiu sentado na cama do outro.
-Vai embora da Grécia?
-Vou voltar para a Itália. – Respondeu, secamente.
-Não me deixe, por favor. – Pediu.
-Seu namorado e seu amante estão aí. Sou o último de quem precisa.
-Não estou mais com o Saga e nem estou com o Shura! – Reafirmou.
-Eu li a mensagem dele. Já sabia que haviam terminado.
-Fique, por favor. Se não for por mim, pelo seu trabalho.
Giovanni ficou em silêncio, e Aphrodite sentiu o clima desagradável naquele momento. -Não serei uma pedra no caminho de ninguém.
-É verdade que me ama? – Disparou.
Diante da pergunta, o italiano umedeceu os lábios, sério, parando de arrumar a mala. -O que isso importa?
-Mais do que você pensa. – O olhava, choroso.
-Isso não é importante. Não mais.
-Sempre vai ser. Não quero você longe.
-Não tenho motivos para ficar.
-Eu... – Viu Giovanni lhe olhar, na mesma seriedade, e novamente, sentiu-se desconfortável. -Eu sei que errei, olhe... Muita coisa foi errada e me arrependo, mas... Agora é diferente... Saber dessa verdade... Me encheu de esperança.
-Esperança do quê?
-De ficarmos juntos. – Ergueu-se da cama, segurou as mãos dele. -Por favor, não vá. Fique comigo, mesmo que não me perdoe, prefiro que fique, pelo menos... – Fez uma pausa e deu um leve sorriso, triste, mas presente.
-Pelo menos...?
-Pelo menos o meu mundo ainda permanece aqui comigo, não há quilômetros de distância. Longe.
-Não faça isso comigo, por favor. Vocês dois me machucaram demais. – Tentou se afastar, mas o outro, dessa vez, lhe impediu.
-Eu sei. Eu sei. – Insistia, permanecia junto dele. -Nos dê uma chance. Eu e você.
-Você pode ter quem quiser.
-Mas eu não quero. Quem eu quero está aqui. E não vou deixá-lo partir.
-Mas preciso. Preciso ficar sozinho, preciso pensar.
-Então eu fico em um hotel.
-Esse apartamento é seu, quem tem que sair sou eu.
-É nosso. Nós que escolhemos, nós que mobiliamos. Giovanni, por favor.
-Porque fala desse jeito comigo... Só agora?
-Como eu disse, resultado dos meus erros e escolhas. Mas quero a sua ajuda para mudar isso.
Trocaram olhares por longos instantes. O italiano o fitava sério, magoado, e o sueco, encarava o outro, triste. -Não sei.
-Você disse que precisa de um espaço para pensar. Você terá essa privacidade. – Confirmou. -Mas o faça aqui. Não vá embora ainda...
-E Shura?
-Não acho que ele vá se meter tão cedo. A briga que tivemos ontem, o fez realizar algumas coisas. – O viu desviar o olhar. -Eu sei que você tem sentimentos por ele, mesmo que esteja furioso.
-Não quero voltar para casa e vê-lo com outro. – Giovanni então o encarou com tristeza.
-Não verá. Sei que não acredita em nada do que digo, por razões claras, mas só peço essa chance. Agora que a verdade entre nós veio à tona, meu italiano, nada vai me afastar de você.
Ouvir ser chamado daquela forma, foi agradável, apesar de sua tristeza. -Sempre fomos inseparáveis, mas...
-Não diga nada. Não diga "mas". – O pisciano se aproximou mais do outro, em um meio abraço, e mesmo diante da hesitação dele em permitir o carinho, beijou a sua face. -Eu sei que me ama. – Repetiu. -Deixe-me amá-lo como nunca o fiz, com ninguém. – Suspirou. -Sempre seremos inseparáveis. Não importa o que aconteça.
-Aphrodite... – Sussurrou, ainda triste, porém não hesitou com um outro carinho do loiro, agora feito pela mão dele em seu tórax.
-Sempre seu...
Carinhosamente, passava a mão pelos fios dele, tomando cuidado para que não tocasse no curativo. -Milo, o que aconteceu com você? – O sagitariano comentou, encostado ao leito. Parou de tocar no amigo, quando ouviu seu celular tocar. Buscou o aparelho, lendo mensagens do irmão e as respondendo acerca da saúde ou despertar do amigo. Pouco depois, Aiolia avisou que estava vindo com Camus.
Enquanto respondia, um leve bater na porta do quarto se fez presente e assim que a porta se abriu, avistou os gêmeos entrarem. -Bom dia. – Deu um leve sorriso.
-Bom dia, Aiolos. – Apenas Saga cumprimentou o amigo, Kanon foi direto à companhia de Milo.
-Bom dia, Mi! – Beijou o seu rosto. Educadamente, Aiolos saiu de perto e foi sentar-se.
-Nada dele despertar? – Saga sentou-se ao lado do loiro.
-Remédios muito fortes. Mas teve algumas alucinações à noite, episódios breves. – Saga suspirou pelo que ouviu.
Kanon discretamente prestou atenção em ambos ali. -Mi, acorda, tem muita coisa que você precisa saber. – Sorriu. O gêmeo mais novo buscava uma personalidade feliz perto do amigo, numa tentativa de estimulá-lo a acordar. -Camus voltou para te ver. Não vai perder essa chance, não é?
-Acho que é sua vez de ir para casa. – Saga sugeriu.
-Aiolia e Camus estão vindo. Aí veremos o que vamos fazer. – Respondeu, educado. -Kanon está bem? – Perguntou, preocupado.
-Fisicamente está, mas ficou com trauma do que aconteceu com o Milo. Cuidei dele durante à noite. – O outro balançou a cabeça, consentindo o que ouviu.
-Eu vi você falando com um policial ontem, antes de sair.
-Agora o que vai resolver toda a situação é acionando a polícia, mesmo.
-Saga, se você e o seu irmão precisarem, é só chegarem lá em casa, ok?
O geminiano sorriu. -Obrigado, Aiolos.
Kanon ouvia a conversa dos dois, nisso, respirou fundo. -Aiolos adora dar em cima do meu irmão. – Comentou com Milo. Porém, deixou de fitá-los quando o sagitariano ofereceu sua casa, se precisassem de um local seguro. -O médico tem previsão de alguma coisa?
-Não. – Virou seu rosto em direção ao outro. -Quer esperar ele acordar.
Kanon buscou a mão do amigo, entrelaçando os seus dedos aos dele. -Mi, tem que acordar. – Murmurou e por um instante, recordou-se de alguns momentos de carinho que passaram nos últimos dias, e uma vontade de chorar retornou aos seus olhos. Fungou, tentando evitar parecer fraco diante do amigo.
Saga pediu licença ao amigo e se levantou, indo ao irmão. Olhou Milo com tristeza e depois, tocou no braço de Kanon, que de susto, soltou a mão do amigo. -Kan... É difícil, mas peço que se acalme. E hum... De mãos dadas com ele, é? – Havia ciúme em suas palavras. Kanon riu, disseminando o choro que queria vir.
-Desculpa, Sa.
Os três ouviram batidas leves na porta, que se abriu. -Bom dia. – A enfermeira adentrou com alguns materiais e os gêmeos se afastaram do escorpiano. Saga puxou o irmão para junto de Aiolos, do outro lado do quarto.
-De hora em hora ela vem para ver como estão os sinais dele. – O grego ali, comentou.
-Estando estável... – Saga complementou.
-A pressão dele baixou um pouco durante a noite, mas se normalizou. – Kanon olhou o sagitariano preocupado.
-Olos.
-Olia! – Sorriu ao ver o irmão e o aquariano chegarem. -Camus.
-Olá. – Ao avistar Saga, deu um sorriso leve.
Camus apenas se aproximou de Milo, quando a enfermeira saiu do quarto. Puxou uma cadeira e se sentou próximo ao leito, acariciando a mão do amigo. -Nenhuma novidade?
-Não. – Aiolos respondeu, enquanto o irmão se jogou ao seu lado. -Foi monitorado a noite toda, a pressão se desestabilizou um pouco, teve alguns pesadelos, mas considerando o que passou, a noite foi até tranquila. – O ruivo consentiu com um balançar de cabeça.
-Obrigado por ficar, Aiolos.
-Camus, você não tem nada a agradecer. – Sorriu.
-Bom, vamos por agora, depois voltamos. – Olhou o gêmeo. -Quer ficar?
Kanon ponderou aquela pergunta do irmão. -Talvez seja muita gente aqui no quarto. – Falou, um pouco sem-jeito. E, em resposta, Saga abraçou-o pelo pescoço e beijou sua testa.
-Fiquem, preciso ir. – Disse, Aiolos se levantando, e o irmão fazendo o mesmo. -Olia, fica mais um pouco.
-Não... – Contestou.
-Fique, mas me mantenha atualizado, ok? – Tocou no rosto dele, em um carinho.
-Hum, está bem...
-Bom dia para vocês. – Despediu-se, passando pela porta e assim, indo embora.
-Irei pegar um café, você quer, Kan?
-Sim, eu aceito.
-Camus, Aiolia?
-Não, obrigado, acabamos de tomar café. – Camus foi educado em responder.
-Agradeço, Saga. – O leonino foi seco. O geminiano riu e saiu também do quarto.
-Educado como o irmão. – Kanon resmungou, acreditando que o outro não ouviria.
-Pelo menos eu não tento matar os meus amigos.
-Aiolia! – Camus foi rápido em censurá-lo.
A acusação do loiro veio em seu âmago como uma facada. Lhe deixou desconcertado e ainda mais culpado.
-Que foi...? – O grego resmungou pela bronca do ruivo.
-Não fale o que não sabe!
-Não vou me estender. – Aiolia respondeu, seco novamente.
-Por favor, vocês dois!
-Hum... – Apertou algo que segurava a sua mão.
-Milo. – Camus notou que o amigo estava despertando, nisso, os outros dois se aproximaram, com as feições mais agradáveis.
-Hum... Cam...us? – Murmurava, abrindo com dificuldade os olhos. – O ruivo sorriu, emocionado e alegre, também pelo fato de ter sido reconhecido.
-Estou aqui. Eu, o Kanon e o Aiolia. – Notou que Milo tentou mover a cabeça, para olhá-los, nisso, ambos se aproximaram mais. O leonino, apertou o botão, próximo do leito, chamando a enfermagem.
-Mi... – Kanon tocou no braço do amigo, gesto que foi repetido pelo leonino. -Me desculpe...
-Hum... O que... Aconteceu... – Mostrava-se perdido, zonzo. Tentou se mover, mas não conseguiu, sentia algumas dores, o corpo e a cabeça pesados.
No instante que ele indagou o porquê de estar ali, a enfermeira que veio anteriormente, apareceu novamente. -Como estamos?
-Ele acordou! – Aiolia disse, com alegria.
-Ótimo. Irei chamar o médico. – Enquanto ficou ali, analisava os sinais do escorpiano, aproveitando para chamar uma colega, que logo surgiu no quarto, para requisitar a visita do médico.
-Os batimentos estão acelerados, a pressão... – Ela buscou uma lanterna em seu bolso para verificar os olhos dele. -Hm. – Concluiu.
- "Hm"? – Kanon repetiu. -Ele está bem, certo?
-Kan, sabe – Saga se interrompeu ao ver a movimentação no quarto. -O que houve? – Deixou o café de lado, nisso, o irmão veio ao seu encontro.
-Ele acordou. – Sorriu.
-Ótimo! – Compartilhou o sorriso.
-Bom dia. – O médico, por fim apareceu, se aproximando do paciente.
-Então, doutor, precisamos fazer exames neurológicos, os sinais estão acelerados... – Ambos se entreolharam.
-Muito bem. – Ajeitou o jaleco e repetiu o exame nos olhos do loiro. -Como está se sentindo?
-Hum? – Milo demorou a tomar atenção.
-Como está se sentindo? – Repetiu a pergunta, com delicadeza.
-Dor... Tudo dói. – Até no leve riso demonstrava dor.
-O senhor está se recuperando bem, mas agora que acordou, terá mais alguns exames e ficará aqui, mais um pouco em observação. – Olhou para Camus e depois, Kanon. -Já retorno. – Tornou o olhar para o paciente. -É bom vê-lo bem. – Em seguida, saiu.
O ruivo retornou ao lado do amigo, tenso em sua expressão. -Mi. – O chamou, mas ele não lhe olhou. -Mi... – Tentou novamente e em seguida, ele lhe olhou.
-Sim, Camus? – Sorriu. -Quanto tempo estou aqui?
-Não muito tempo. – Rapidamente olhou os amigos ali, notando que estavam igualmente preocupados. -Temos bastante o que conversar.
-Seu... Livro está pronto? – Perguntou, Camus riu.
-Não... Ainda, faltam alguns detalhes. – Suspirou. Olhou Kanon que compartilhou de sua tristeza. Nisso, o ruivo beijo demoradamente e com cautela a testa do amigo.
-Isso é bom... – Viu Milo suspirar.
Digitava rapidamente em seu laptop. Em sua cabeça, tinha o exato esquema do orçamento que o cliente havia pedido e então, lhe passava por e-mail. Fez uma pequena pausa para tomar o seu café, depois ajeitou os cabelos, e passou os olhos por sua playlist. Conseguia ficar mais focado com um fundo musical brando.
Ouviu um baque, vindo da sala, provavelmente, mas não deu atenção. Estava ocupado e atrasado em responder a mensagem. E Kanon não perderia um cliente tão lucrativo. E novamente, o mesmo barulho. -Mas que...? Sa? – Arriscou, mesmo sabendo que o irmão trabalhava. -Mi? – Também tentou, mas sabia que a condição atual do amigo, lhe impedia de sair de casa sozinho.
Saiu do quarto, olhando em volta. Foi para a sala, mas nada. -Paciência... – Resmungou, retornando ao quarto.
Sentiu algo lhe agarrar a barriga, logo que adentrou o aposento. Nisso, foi jogado para a cama. -Radamanthys! – Disse, entre os dentes.
-Ainda se recorda de como o jogo na cama? – Aquela malícia mais mista de maldade foi o que o geminiano precisava para reacender o ódio do que aconteceu ao melhor amigo.
Se desvencilhou facilmente das mãos dele naquele momento, para avançar.
Insistia em socos em seu rosto, estômago. Era impedido, o outro desviava, mas permanecia com os seus ataques. -EU TE ODEIO. Você vai pagar pelo que fez com o Milo! Toma isso! – Conseguiu desferir um soco no rosto dele, com força, que o escorpiano precisou parar para se recompor.
-Milo? Aquela bicha ainda não morreu? – Kanon apertava seus punhos com força que sentia dor de suas unhas na pele.
-Nunca mais você vai encostar nele. E jamais vai chegar perto do meu irmão.
-Alguém pelo visto quer me encarar? Você não fez a sua parte, então tem que sofrer com as consequências e está sendo muito teimoso nesse momento.
-Não tenho medo de você.
-Pois deveria. – Radamanthys correu para cima do outro, lhe desferindo um soco em seu estômago, o que fez o geminiano tossir. Então, o jogou na cama novamente, enquanto segurava o corpo dele com o seu, mais pesado e mais forte, enquanto as mãos enforcavam o geminiano.
-VÁ EMBORA! – Gritou, antes que o ar começasse a faltar. Seu corpo, suas mãos, lutavam contra a força do outro.
-Acho que não me obrigará a isso, porque irá morrer antes! – O olhava, em um misto de ódio e maldade.
O grego então se assustou com um estampido que ouviu, e nos segundos seguintes, seu ar voltava aos pulmões.
-Mas que porra é essa? – Radamanthys esbravejou, deixando de enforcá-lo, para se virar para trás. -Você. – Kanon, sem entender, conseguiu se desencilhar por alguns momentos, buscando o foco do escorpiano.
-Não. – Teve a mesma sensação de quando viu o amigo desmaiar em seus braços. Sensação de que perdia as forças e o local onde estava. -Saga!
-Quando o dono da casa exige que você saia, você sai. Mas, se escolhe ficar... – Sorriu com malícia, firmando mais o revólver em sua mão. -Permite com que eu faça o que eu quiser com você.
-E o que você vai fazer, Saga? Gritar como o seu irmão? Como duas garotas?
-Posso fazer melhor. – Apertou o gatilho. Dessa vez, mirou e acertou uma das coxas dele. O tiro de antes acertou as costas do escorpiano. Radamanthys gritou em dor, sem ter sustentação, já que estava ferido duplamente.
Kanon saiu de perto do adversário, apenas assistindo a cena -Sa, por favor, você pode se complicar. – Apenas teve um sorriso do irmão.
-Invasão em domicílio é crime, Radamanthys. E é legítima defesa o que quer que eu faça agora. – Assim que terminou de falar, atirou mais algumas vezes, enquanto Kanon ainda se assustava com os barulhos, pelo pânico do momento.
Os segundos se passaram, até que o inglês caísse ao chão, entre os dois. Saga ativou a trava da arma e a colocou em seu cós novamente. Estendeu então, a mão ao gêmeo. -Kan, agora vai ficar tudo bem, mesmo.
O outro correu até o gêmeo, pegou em sua mão e em seguida, o abraçou. -Saga, desde quando? O quê...? Mas? – Perguntas sem nexo, precisava de respostas. O amado riu.
-Faz um tempo que pratico para defesa, sem você saber. – O apertou em seus braços. -O segurança lá embaixo me avisou que Radamanthys estava entrando. E vim correndo para acabar com isso. – Sentiu o outro lhe apertar ainda mais.
-Nunca serei capaz de pagar e retribuir o que o Milo e você fizeram por mim. Arriscaram suas vidas... Pela pior escolha que já fiz. – Permitiu-se chorar ao abraço. -E como... Você...? Ficará preso! – O olhou, novamente.
-Não existe nada que tenha que fazer. Eu te amo, Kanon, além que prometi cuidar de você e protegê-lo quando saímos de casa. – Fez uma pausa. -Não. Nosso advogado vai nos ajudar, mas... Com você tendo denunciado o Radamanthys à polícia antes, já saberão que tentamos nos defender. Responderei por alguns dias, mas nada que você possa se preocupar. Tenho documentos das aulas, da arma e da munição... E entre outras provas... Kan, não se preocupe, vai ficar tudo bem. – Lhe beijou a testa. -Agora, precisarei chamar a polícia. Por que você não me espera na sala?
-Saga... – Olhava o amado com preocupação, tensão, mas afeto.
E agora, paz.
-Hum... Quero dois. E desse também. Tudo para a viagem! – Sinalizou ao ver o doce na vitrine.
Adentrou a cafeteria, desanimado e arrependido por ter levantado da cama tão tarde. Buscou um lugar para si, não demorando a escolher, a cafeteria estava quase vazia.
-Sim, poder ser!
Olhou de imediato, buscando o dono daquela voz familiar. Seu sorriso foi tímido, ao rever Giovanni, depois de vários dias após o término. Em seguida, se ergueu da cadeira recém-escolhida, e caminhou até ele, enquanto notava que ele aguardava o seu pedido.
Tocou-lhe o ombro, hesitante. -Italiano... – Falou, carinhoso. Logo tirou a mão, quando ele se virou para si.
-Você. – Disse, com desdém, assim que seus olhos caíram aos dele.
-Sente-se comigo.
-Não posso. Estou com pressa. – Respondeu, seco.
-Giovanni, eu sei que está. Mas... Por favor. Só isso que peço. Cinco minutos.
Contrariado, o italiano se afastou da bancada, antes, avisando que iria aguardar na mesa, e então, seguiu o capricorniano. E assim como ele, se sentou. -Diga. – Suas feições eram frias.
Suspirou ao observá-lo, notando o quanto transbordava a mágoa em sua face. -Mesmo sabendo que não vai me perdoar, tenho que falar, pedir perdão. – Viu o amigo rir, em deboche. -Por favor, me ouça primeiro. Depois pode falar o que quiser.
Giovanni encostou à cadeira e mexeu nos cabelos escuros, fechou a expressão. -Então, continue.
-Eu sei que pus tudo a perder. Eu sei o que fiz. Sei que errei e sei que me odeia. E acima de tudo mais, eu não tenho, como disse, direito, mas ainda assim, peço que me perdoe, ao menos, um dia. – Suspirou, apoiando as mãos na mesa e olhando para elas. -Mereço tudo que me faz passar. – Ergueu o olhar para ele. -Acredite, não é a primeira vez que passo por isso. – Complementou, amargurado, recordando-se do que fez à Aiolos.
-Shura, por quê? – Cruzou os braços, ofendido.
-Por que sou inconsequente? Idiota? Existem muitos nomes para o que fiz. – Relaxou as mãos no colo. -Sei que perdi a melhor oportunidade da minha vida. Por isso peço perdão, porque o amo.
-Nisso eu não acredito. – Respondeu, convicto. -É difícil amar alguém e vê-lo aprontar desse jeito. – Desviou o olhar.
-Italiano, eu fiz escolhas erradas, e por isso me arrependo profundamente.
-Por que você achou que seria uma ótima ideia?
-Porque achei que ficaria apenas em uma tentativa frustrada. Mas o problema é que ele quis ficar entre nós.
-Aphrodite não ia perder tempo.
-Ele não sabia que você era apaixonado por ele. – O amigo ficou em silêncio. -Mas eu sabia, e vamos falar honestamente, você nunca soube guardar isso direito.
-Então... – Tornou a falar. -Por que me pediu em namoro?
-Eu amo você. Sempre o fiz. E ele, estava para se casar. E não aguentava ver você sofrendo pela avareza do seu melhor amigo. – O canceriano olhou o espanhol como se ouvisse uma dura verdade, ainda assim, não aprovando.
-Mas sofro pelo egoísmo dos dois. – Rebateu, frio, e foi a vez do capricorniano reagir da mesma maneira que o outro.
-Vocês estão juntos? – Perguntou, quando viu a atendente colocar o pedido dele em cima da mesa. Foi indagado sobre o que queria, mas a dispensou no momento.
-Não diria isso, ou nada perto disso. Aphrodite... – Desviou o olhar por um momento. -Também agiu como você, agora. Pediu perdão e se explicou, e eu disse que precisava de um tempo. – Olhou para os itens do pedido. -Então ele me viu arrumar a mala...
-Mala? – O timbre foi mais intenso.
-Eu ia arrumar para ir embora para a Itália. – Respondeu, calmamente.
-Quando vai voltar? – Houve um tom de preocupação.
-Eu não vou mais. E ia, só de ida, Shura. – Suspirou. -Como falei ao Aphrodite que precisava de um tempo, ele pediu para que eu ficasse no apartamento dele enquanto ele ia para Estolcomo, e na volta, conversaríamos. Como disse, ele me pediu uma chance para conversar, como você está fazendo. Só não entendo o que você quer.
-Se você deu atenção ao pedido dele, quer dizer que perdi definitivamente qualquer chance com você, já que ele está solteiro. – Concluiu, com pesar. -Então, só peço a sua amizade. Você é muito, muito importante para mim. – Complementou, honesto. -Sei o erro gravo que cometi, sei que não terei a sua confiança, plena ou pouca, mas se der essa oportunidade, já significaria o mundo para mim.
O italiano ficou, novamente em silêncio. Mediou, refletiu, e assim, demorou a reagir e responder. Amava, os dois, mais do que a si próprio, mas naquele momento, o coração estava a pedaços e por todos estes sentimentos, não sabia exatamente o que fazer, ou se deveria confiar em tudo que ouviu.
-E... Se eu der chances... E quebrar a cara novamente?
-Se eu lhe decepcionar, cometer o mesmo erro novamente... – Buscou os olhos dele, com os seus. -Prometo que irei embora para Barcelona, e nunca mais terá notícias minhas.
Aquela possibilidade fez o italiano falhar na respiração por um instante, e o outro percebeu. Como reação ao que viu, deu um discreto sorriso.
-Shura, vamos ver. – Tentou relaxar em lugar. -Realmente preciso desse tempo. Colocar coisas no lugar, na cabeça. – O olhou. -Ele vai viajar mais tarde, vou deixá-lo no aeroporto.
-Giovanni, sempre que precisar de mim, sabe onde me encontrar, então... – Respondeu, indicando que ali não fosse um final. -Obrigado por me ouvir. E agora... É sua vez.
-Eu não tenho mais nada a acrescentar, do que você já ouviu e já sabe. – Havia mágoa em sua voz. -Eu apenas lamento que isso tenha acontecido entre nós três. – Desviou o olhar, erguendo-se da cadeira. Devagar, buscou os pacotes de seu pedido. -Qualquer coisa, nos falamos depois. – Despediu-se com esse complemento em suas palavras, enquanto o olhava. Recebeu um sorriso amigável do capricorniano, que suspirou quando o viu ir embora.
Assistia de maneira curiosa o vídeo que passava no celular do amigo. Para si, parecia vital. Coçou a cabeça, intrigado, logo em seguida.
-Mi, você gostou do que o Camus preparou para você? – Indagou, já que aquele silêncio era incômodo, porém, não obteve resposta. E por isso, sentiu os olhos umedecerem, por um momento. -Mi, você gostou do que o Camus preparou para você? – Repetiu, ainda mais calmo, quando então, o escorpiano olhou para si e sorriu de maneira pueril. Feliz, enquanto assentia com a cabeça.
Porém, mesmo com essa reação alegre, ainda sentia o amargo da situação. Olhou Camus, perto de si, sentado à beirada da mesinha de centro, à frente de Milo. O ruivo desviou o rosto, enquanto uma de suas mãos limpava as lágrimas silenciosas. Kanon percebeu o choro quieto do francês, e assim, fechou os olhos, em lamento.
-Sabe, Kanon... – O aquariano começou. -O Milo estava chateado comigo... – Virou o rosto, um pouco para o lado, interagindo com o geminiano, de pé, perto de ambos. -Achando que o livro era a coisa mais importante da minha vida e que o meu agente era meu amante. – Kanon viu que Camus quis rir, mas não teve fôlego de graça para isso. -Mas eu fui para Paris, preparar tudo.
-Preparar tudo? – Murmurou.
-O meu agente estava procurando uma casa, porque eu pedi a ele. – Apoiou uma mão na mesa. Olhou Milo, completamente aéreo da conversa. -Porque assim que eu tivesse a impressão do livro, eu iria levar o Mi para morarmos na França. E sabe, não podia contar nada... Você o conhece, ia ficar animado, demais e eu queria o momento certo.
-O Mi sempre achou que até de olhos fechados ele deixa de ser importante para você.
Camus riu com doçura. -Não sou cego. Eu sei que o que ele sente por mim, mas eu fingia não entender... Porque eu fiz a minha escolha, de ser tudo perfeito para nós dois. E estava quase acontecendo.
-Se me permite, nunca comentou sobre o que é o seu livro. Milo sabe?
-Era outro segredo que eu guardava. – Confessou, erguendo-se do lugar. -O livro que estou prestes a lançar... – Virou-se para olhar o grego. -É sobre o Milo. É uma história de ficção, claro, sem nomes literais. Sai um pouco do que costumo escrever, mas o personagem principal é inspirado, totalmente no Milo. – Sorriu, fraco.
Kanon suspirou. Tentou sorrir, falhando, pois não sabia se o que ouviu agora era belo, romântico ou trágico. O escorpiano ficaria com sequelas, que seriam reduzidas se trabalhadas, trazendo uma vida praticamente normal a ele, porém, ele necessitaria de cuidados.
-E bom... – Camus continuou. -Com essa situação toda, retornarei à França e o Milo irá comigo. Irei cuidar dele. – Caminhou um pouco para longe da mesa. -Ele sempre cuidou de mim, é minha vez. Minha família toda está lá, conheço médicos e tudo mais que será necessário. – O ruivo viu Kanon desviar o olhar. -Sei o quanto são ligados... – Escondeu, com facilidade o ciúme.
-Camus, nem começa. – Disse em tom amigável. -Milo vai ficar bem e vou visitar vocês no momento oportuno. Portanto, vá. Ele sempre quis isso. E isso eu garanto... Muito. – Sorriu.
-Obrigado por compreender. Eu amo o Milo, e está na hora de deixar isso bem claro. – Tentou amenizar sua expressão, esperançoso.
-Perdoe-me. – Confessou.
-No começo... – Virou-se para Milo, sorriu. -Eu culpava você, Kanon. No fundo o fazia. – Respirou fundo. -Mas vi que era mais ciúme do que ressentimento. Se você soubesse que isso aconteceria, eu sei que não teria deixado. E outra, o culpado sempre será aquele homem, não você. Não o Saga.
Ouvir as palavras do ruivo acalmaram o seu coração, um pouco ao menos. E em passos lentos, aproximou-se do grego, beijando o topo de sua cabeça. -Já vai embora, Kan? – Aquela indagação de Milo fez ambos rirem, com leveza.
-Preciso trabalhar, e você e o Camus tem muito o que fazer. Cuide-se.
-Ah! – O escorpiano protestou. Nisso, Camus se sentou ao lado do grego.
-Camus, sempre que precisar, não hesite. – Olhou-o firme.
-Eu sei, Kanon, obrigado.
-Mi, o que vê de bom? – Camus lhe chamou a atenção, enquanto Kanon saía do apartamento.
Passava a fita transparente, fechando a caixa, porém, parte do adesivo grudou em outra parte da fita e consequentemente, em seus dedos quando tentava desfazer o estrago. -Como alguém lida com essas coisas? Tem certeza de que deveria ser nós a encaixotar isso tudo?
Saga olhou o irmão, para rir, alto. -Kanon, você está apanhando de uma fita adesiva?
-Saga, vá se ferrar. – Respondeu, bravo. O viu levantar, vir até a sua companhia. Beijou o seu rosto, e o ajudou a mexer na fita.
-Tesoura. – Pediu, para ser prontamente atendido. Saga cortou, esticou o adesivo e fechou a caixa. -Satisfeito? – Sorriu.
-Hum. – O mais velho tornou a rir.
-Mas é fofo.
-Hum!
-Falou com Camus? – Kanon deixou o semblante cerrado de lado, para olhá-lo com surpresa.
-Sim, Milo está respondendo bem ao tratamento. Disse que ele está bem diferente de quando saiu daqui. – Kanon se levantou do chão e foi até a bancada, repor café em ambas as xícaras.
-Viu? Ia ficar tudo bem.
-Às vezes acho que ele teve sorte. Assim como nós dois. – Confessou.
-Radamanthys mereceu tudo o que teve, pelo o que fez. – Não olhou o irmão.
O mais novo demorou a comentar, tanto que esse silêncio pôs o gêmeo em alerta. -Sa... Às vezes acordo no meio da noite, tendo pesadelos do que fiz com você o Milo. Às vezes sonho que fui eu que espanquei o Mi, e que eu atirei em você. – Saga percebeu a voz dele oscilar. Levantou-se e o abraçou, por trás.
-Kanon... – Começou. -É por isso que estamos nos mudando. Um novo lugar. Sei o quanto ficar aqui... Assusta você. – O mais novo se virou, de frente ao amado, abraçando-o pelo pescoço.
-Não vou me perdoar.
-Mas precisa. Você... Era a vítima, Kan, aquele homem era uma escória. Você e o Milo não são culpados de nada. – Encostou o seu rosto ao dele.
O gêmeo suspirou naquela aproximação e fechou os olhos. Ele lhe prensava contra a bancada, com firmeza, mas sem malícia. Lhe fazia sentir protegido.
-Não mereço pessoas como vocês.
-Mas eu mereço você. – Respondeu.
-Sou um partidão. – Brincou.
-Evidente que sim. – Respondeu. -Mas só para mim.
-Sa, você é bobo. – Sorriu, notando o ciúme em suas palavras. Em seguida, Kanon tomou os lábios dele em um beijo carinhoso, o qual foi interrompido, momentos depois, pela campainha.
-Fica aqui, Kan. – Pediu, para se afastar e ir até a sala.
-Cuidado, Sa... – Murmurou, apoiando-se no mármore.
Caminhou até a porta de entrada, cuja campainha foi acionada mais uma vez. -Já vou. – Pouco depois, abriu, se deparando com um entregador de empresa conhecido. -Sim?
-Boa tarde. Hum... – Olhou a caixa em mãos. -Pacote para senhor Kanon? – Saga estendeu a mão para o pacote, assim que ouviu o nome do irmão.
-De quem seria? – Antes de entregar, o rapaz olhou o remetente.
-Camus, senhor... – Respondeu, confuso por perceber a desconfiança do outro, mas, assim que ouviu o nome do ruivo, Saga relaxou e sorriu.
-Claro. – O outro estendeu a prancheta para assinar a entrega, despedindo-se e saindo dali, logo em seguida. O geminiano fechou a porta e retornou a companhia do amado. -Para você. É do Camus.
-O livro dele? – Indagou, pegando o pacote e abrindo, com certa urgência. E como suspeitava, era de fato o livro do ruivo, com uma carta. Entregou a cópia para o irmão segurar, e Saga notou que o livro estava autografado.
O mais novo abriu a carta, que era breve, mas lhe fez sorrir. O ruivo resumia os últimos meses, atualizando a situação do escorpiano, um pouco mais do que já fizeram anteriormente por mensagens com o geminiano.
-Estão com a expectativa de que Milo fique novinho em folha! – Ouviu o mais novo, sorrindo por ver alívio em sua expressão.
-Assim que acertarmos a mudança, e toda a burocracia, falo com o Camus para irmos vê-los, o que acha?
Kanon encostou a carta no rosto, em gesto de carinho. -Eu amaria ir para Paris com você. Visito o meu melhor amigo e posso ter uma viagem romântica com você. Hum, sabe que não é má ideia?
Saga riu, deixando o livro perto de ambos. Abraçou o irmão e beijou o seu pescoço, o outro riu e o abraçou. A carícia foi breve, para se afastar do amado. -Não pense que iria se safar do trabalho, volte a empacotar as coisas! – O mais velho ver certa graça na voz.
-Sim, chefe! – Kanon respondeu, rindo. E depois que o irmão se afastou, pegou o livro.
Sorriu novamente, tinha a curiosidade de saber qual o título que o aquariano batizaria a história sobre seu amado.
"Heart Of The Forest".
