Após longas semanas navegando, finalmente Capitão Arthur retornava às terras tupiniquins e sentia-se livre para descansar. Deitado sobre a rocha lisa à beira mar, olhos fechados e braços sob a cabeça, os pés descalços mergulhados na água salgada. A tarde na praia era de maré baixa, o sol ainda irradiava, deixando sua pele exposta aquecida. Tão aconchegante quanto minha própria cama, pensou caindo no sono.
Daquele dia sereno, era possível ouvir como a vida existia em harmonia. A brisa que levemente movia as palmeiras, o chiar da gaivota, as ondas arrastadas na areia e o ruído peculiar de passos salpicados na água. Esse último lhe chamou a atenção. Abrindo os olhos devagar, viu Jorge saltando sobre as ondas.
— Salve irmão! — O loiro cumprimentou.
Arthur suspirou, agora mais desperto, ergueu-se da rocha — Você por aqui?
— É bom vê-lo outra vez capitão.
— Esse lugar fica muito tão tranquilo sem uma guerra.
Jorge revirou os olhos, ele tinha que admitir que sentira falta do humor ácido do amigo estrangeiro.
— Por que estás sozinho aqui? — Arthur perguntou. Agora, Jorge era nativo de Vera Cruz. Ele não tinha a pele mestiça e manchas vermelhas pintadas no rosto, um curto cabelo negro e liso, porém, o povo o aceitara como uma verdadeira parte deles.
— Eu vi as caravelas se aproximando, e já sabia que era você! — Exclamou — Afinal, quem mais ousa estampar a santa cruz nas velas?
— Certo, eu entendi — O capitão respondeu.
O céu assumia um manto alaranjado conforme o sol descia pelo horizonte, Capitão Arthur encarou a imensidão de águas calmas, cenário raro, neste lugar o mar parecia adormecer. Naquele momento, o silêncio prevaleceu. Já estava escurecendo, seria melhor levar o Jorge voltar para aldeia.
— Acho que está na hora de ir — Disse.
O Loiro não respondeu. Ele mantinha-se concentrado em algo que acabara de encontrar. Arthur se aproximou e ajoelhou ao seu lado, curioso para ver o quê o amigo segurava nas mãos.
— Veja — O garotinho disse, mostrando as palmas ao Capitão.
— Isso é uma concha. Tem muitas outras na areia.
— Apenas veja — Repetiu. Uma criaturinha esguia e molenga saiu da fenda oca da concha. Então, ele entendeu.
— Essa é a casa de um molusco, é isso que você quer dizer? — Arthur riu — Meu Deus, que inusitado.
Jorge sorriu e colocou a concha de volta na água — Tem muitas maravilhas naturais que vivem a beira mar. Você já parou para observar?
— Não...Ás vezes, eu estou ocupado demais tentando sobreviver em alto-mar, não dar para parar.
—Cristo. Arthur quando você se tornou tão pessimista?
— Não me levar mal...
— Eu não vou ter levar a mal, mas vou ter levar ao paraíso — Jorge disse, puxando o amigo pelo braço — Siga-me!
Arthur não lutou. Apenas se deixou de levar. Seja como fosse, ele sabia que Jorge o levaria para um momento de paz.
