Adaptação da edição O Herói que Faltava, da história de Julia Quinn, Um Conto de Duas Irmãs.
CAPÍTULO UM
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Edward Cullen soltou um suspiro de cansaço e olhou para os dois lados antes de instigar o cavalo e sair dos estábulos. Era um trabalho exaustivo evitar três mulheres de uma vez só.
Em primeiro lugar, a irmã. Mary Alice Cullen tinha fortes opiniões sobre como o irmão deveria levar a vida, opiniões que ela não tinha vergonha nenhuma em compartilhar. Opiniões que Edward vinha ignorando nos últimos oito anos, mais ou menos. Em geral, Alice era uma pessoa adorável e sensata, porém achava que sua posição de mulher casada lhe dava o direito de mandar nele, embora Edward fosse - como costumava lembrá-la - mais de um ano mais velho que ela.
Em segundo lugar, a prima Irina, que tinha - se é que isso era possível - ainda menos reservas que Alice. O único motivo pelo qual ela não estava empatada com a irmã dele no primeiro lugar da lista atual de mulheres-a-serem-evitadas-a-todo-custo era o fato de estar grávida de sete meses e não conseguir se movimentar com rapidez. Se correr para fugir de uma grávida cambaleante tornava Edward uma pessoa má, que fosse. Sua paz de espírito valia o risco.
Por fim, e ele tinha vergonha de admitir, era a vez de Rosalie.
Ele soltou um gemido. Em três dias, Rosalie Swan se tornaria sua esposa. E, embora não houvesse nada especialmente errado com ela, o tempo que passava em sua companhia era composto de silêncios constrangedores e olhadas rápidas para o relógio. Não condizia com o que ele imaginava de um casamento, mas era tudo o que ele poderia esperar.
Edward passara as últimas oito temporadas de eventos sociais em Londres, um homem charmoso, um tanto libertino, mas não a ponto de mães nervosas afastarem as filhas solteiras dele. Não evitava o casamento conscientemente - bem, não nos últimos anos, pelo menos - mas também nunca conhecera uma mulher que lhe inspirasse o mínimo de paixão.
Desejo, sim. Luxúria, com certeza. Mas paixão verdadeira? Nunca.
Então, ao se aproximar dos 30 anos, seu lado prático assumira o comando e ele decidira que, já que não se casaria por amor, se casaria por terras.
Aí entrava Rosalie Swan.
Tinha 22 anos, belos cabelos loiros, olhos azuis atraentes, inteligência razoável e boa saúde. E seu dote consistia em 8 hectares de belas terras que se estendiam ao longo da fronteira leste de Middlewood, um dos menores imóveis da família Cullen.
Oito hectares não era muito para um homem cujas propriedades familiares se espalhavam por todo o sul da Inglaterra, mas Middlewood era a única que Edward podia realmente chamar de sua. As demais, pertenciam ao seu pai, conde de Cullen, e seria assim até que ele morresse e passasse as terras e o título para seu filho.
Embora Edward entendesse que o condado era um direito e um privilégio seus enquanto primogênito, não estava com pressa de assumir as responsabilidades que vinham com o título. Além disso, era um dos poucos homens em seu círculo de conhecidos que realmente gostava dos pais, e a última coisa que queria era enterrá-los.
O pai, em sua sabedoria infinita, entendia que um homem como Edward precisava de algo para chamar de seu, então, quando Edward completara 24 anos, ele transferira Middlewood, uma das propriedades não vinculadas ao condado, ao filho. Talvez fosse pela casa elegante, talvez fosse pelo esplêndido lago de trutas. Talvez fosse pelo simples fato de a propriedade ser sua, mas Edward amava Middlewood, cada centímetro quadrado dela. Então, quando lhe ocorrera que a filha mais velha do vizinho já tinha idade suficiente, bem, pedi-la em casamento parecera fazer todo o sentido. Rosalie Swan era perfeitamente agradável, tinha um dote perfeito, era perfeitamente atraente, bem, perfeita em tudo. Só não era perfeita para ele. Porém, não era justo usar esse argumento contra ela.
Ele sabia o que estava fazendo ao pedir sua mão. Só não esperava que o casamento iminente evocasse tanto a imagem de uma corda amarrada em seu pescoço. Embora, na verdade, a ideia de matrimônio não lhe parecesse tão infeliz até a semana anterior, quando ele chegara a Swan Hall para comemorar a data vindoura com as duas famílias e cerca de cinquenta amigos próximos. Era impressionante quantos estranhos podiam surgir nesse grupo, o bastante para levar um homem à loucura. Edward praticamente não tinha dúvida de que poderia ir direto para o hospício assim que deixasse a igreja do vilarejo no sábado de manhã com o anel de sua família firmemente abrigado no dedo de Rosalie.
– Edward! Edward! – chamou uma voz feminina estridente, uma voz que ele conhecia muito bem. – Não tente me evitar. Já vi você.
Que inferno! Era sua irmã. E, se tudo acontecesse como de costume, Irina chegaria logo em seguida, andando feito um pinguim e pronta para passar o próprio sermão assim que Alice fizesse uma pausa para respirar. E no dia seguinte sua mãe chegaria para completar a tríade assustadora. Edward estremeceu – um tremor físico real – ao pensar nisso. Instigou o cavalo a trotar – era o mais rápido que poderia seguir, estando tão próximo da casa. Planejava galopar assim que fosse possível fazê-lo sem colocar ninguém em risco.
– Edward! – gritou Alice, ignorando o decoro, a dignidade e até mesmo o risco em que se colocava ao descer correndo pela rua sem dar atenção à raiz de árvore que serpenteava pelo caminho.
Pof! Edward fechou os olhos, agoniado, e parou o cavalo. Agora mesmo é que não conseguiria fugir. Ao abrir os olhos, viu Alice sentada na terra parecendo bastante aborrecida, mas não menos determinada.
– Alice! Alice!
Edward olhou além de Alice e viu a prima Irina aproximar-se o mais rápido que sua silhueta redonda permitia.
– Você está bem? – perguntou Irina a Alice antes de se virar para Edward e perguntar: – Ela está bem?
Ele encarou a irmã.
– Você está bem?
– E você, está bem? – retrucou ela.
– Que tipo de pergunta é essa?
– Uma pergunta bastante pertinente – respondeu Alice, quase derrubando Irina ao se levantar apoiando-se na mão que ela lhe estendera. – Você me evitou a semana toda...
– Faz dois dias que você está aqui, Alice.
– Bem, parece uma semana.
Edward não tinha como discordar. Como ele não respondeu, Alice fez uma careta.
– Vai ficar aí, montado no cavalo, ou vai descer e conversar comigo como um ser humano decente?
Edward pensou sobre a questão.
– É bastante grosseiro ficar montado no cavalo enquanto duas damas estão em pé – acrescentou Irina.
– Vocês não são damas – resmungou ele –, são parentes.
– Edward!
Ele se virou para Alice.
– Tem certeza de que não se machucou?
– Sim, claro, eu...
Os olhos verdes reluzentes de Alice se arregalaram quando ela se deu conta da intenção dele.
– Bem – emendou ela –, na verdade, meu tornozelo está um pouco sensível e...
Ela tossiu algumas vezes, por garantia, como se isso reforçasse a armação de que tinha torcido o tornozelo.
– Ótimo – disse Edward, sucinto. – Então não precisa de minha ajuda.
Ele esporeou o cavalo e as deixou para trás.
Grosseiro, talvez, mas Alice era sua irmã, seria obrigada a amá-lo mesmo assim. Além disso, ela só queria conversar com Edward sobre o casamento iminente e esse era o último assunto que ele queria discutir. Ele partiu para oeste, primeiro porque a fuga seria mais fácil naquela direção, mas também porque logo se encontraria em meio às terras do dote de Rosalie. Talvez um lembrete do motivo de se casar o ajudasse a manter o equilíbrio mental. Eram terras muito agradáveis, verdes e férteis, com um lago pitoresco e um pequeno pomar de macieiras.
– Você gosta de maçãs – murmurou Edward baixinho. – Sempre gostou de maçãs.
Maçãs eram um ponto positivo. Seria bom ter um pomar. Quase fazia o casamento valer a pena.
– Tortas – continuou. – Bolos. Tortas e bolos sem fim. E compota de maçã.
Compota de maçã era uma coisa boa. Uma coisa muito boa. Se ele seguisse equacionando o casamento como compotas de maçã, talvez mantivesse a sanidade até a semana seguinte, pelo menos. Semicerrou os olhos para enxergar à distância, tentando avaliar quanto faltava para chegar às terras de Rosalie. Não muito mais que cinco minutos galopando, supôs, e...
– Ei! Ei! Eeeeeei!
Ah, ótimo. Mais uma mulher. Edward diminuiu a velocidade, olhando ao redor enquanto tentava descobrir de onde vinha a voz.
– Aqui! Por favor, ajude!
Ele virou para a direita e depois para trás, então percebeu porque não notara a jovem antes. Ela estava sentada no chão, vestida com um traje de montaria verde que a camuflava em meio à grama e aos arbustos baixos ao redor. O cabelo castanho comprido estava preso para trás de uma forma que jamais seria aprovada em uma sala de estar londrina, mas lhe caía muito bem.
– Bom dia! – exclamou a jovem, soando um pouco insegura.
Ele parou, relutante, e desceu do cavalo. Só queria um pouco de privacidade, de preferência montado e cavalgando o mais rápido possível em campos ondulantes, mas era um cavalheiro (apesar do tratamento reconhecidamente displicente que dera à irmã) e não poderia ignorar uma dama em apuros.
– Algum problema? – perguntou ele com a voz suave enquanto se aproximava.
– Acho que torci o tornozelo. Eu estava caminhando e... – Ela levantou a cabeça e piscou os grandes olhos castanhos várias vezes. – Ah!
– Ah? – ecoou ele.
– O senhor é lorde Cullen.
– Sou.
O sorriso dela tornou-se estranhamente frio.
– Sou a irmã de Rosalie.
Isabella Swan estava se sentindo uma idiota – e odiava sentir-se assim. Não que alguém gostasse disso, imaginava, mas ela achava essa sensação especialmente irritante, pois sempre considerara o bom senso a mais louvável das características.
Ela saíra para uma caminhada para escapar da multidão de convidados um tanto irritantes que tinham invadido sua casa na semana que antecedia o casamento da irmã mais velha. Jamais compreenderia por que Rosalie precisava que cinquenta desconhecidos testemunhassem seu casamento. E isso nem incluía todos os que planejavam chegar no dia da cerimônia. Contudo Rosalie queria isso – ou melhor, a mãe delas queria –, então agora a casa estava lotada, assim como as residências dos vizinhos e todas as estalagens locais.
Bella estava prestes a perder a cabeça. Portanto, antes que alguém a avistasse e implorasse por sua ajuda em alguma tarefa absolutamente importante, como garantir que o melhor chocolate fosse entregue à duquesa de Ashbourne, ela vestira o traje de montaria e fugira.
No entanto, ao chegar ao estábulo, descobrira que sua égua não estava lá, mas com um dos convidados. Os cavalariços afirmaram que a mãe dela dera permissão, mas isso não contribuíra muito para melhorar o humor de Isabella. Então ela saíra pisando duro em busca apenas de um pouco de paz e sossego e acabara enfiando o pé em um buraco de toupeira. Percebera que tinha virado o tornozelo antes mesmo de cair no chão. Ele já estava inchando e, naquele dia de azar, era claro que ela estava usando botas fechadas, não aquelas com cadarços, fáceis e rápidas de tirar.
O único aspecto positivo de sua manhã era não estar chovendo, embora, com sua sorte – sem falar no céu cinza –, Bella não pudesse tomar por certo que continuasse assim.
Agora seu salvador era ninguém menos que Edward Masen, visconde de Cullen, o homem que em três dias viria a se casar com sua irmã mais velha.
De acordo com Rose, ele era um completo libertino e nada sensível às emoções delicadas de uma mulher. Isabella não saberia dizer o que constituía uma emoção delicada e, na verdade, duvidava que ela mesma tivesse alguma. Ainda assim, essa descrição não era algo que enaltecesse o jovem visconde. A definição de Rose fazia com que ele parecesse um pouco grosseiro e arrogante. Nem de longe seria o tipo de cavalheiro mais adequado para resgatar uma donzela em perigo.
E ele parecia mesmo um libertino.
Isabella podia não ser uma sonhadora romântica como Rosalie, mas isso não queria dizer que fosse indiferente à postura e à aparência de um homem. Edward Masen – ou Ned, como ela ouvira Rose chamá-lo – tinha os olhos verdes mais surpreendentemente reluzentes que ela já vira. Em algum outro homem, talvez não parecessem másculos (ainda mais com aqueles cílios pretos pecaminosamente longos), mas Edward Masen era alto e forte, e qualquer um perceberia o corpo definido e atlético embaixo do casaco e da calça, mesmo alguém que não estivesse olhando muito – e ela com certeza não estava.
Ah, tudo bem, ela estava. Mas como poderia evitar? Ele pairava sobre ela como um deus perigoso, bloqueando com a silhueta poderosa o que ainda restava do sol.
– Ah, sim – disse ele, com certo ar de superioridade, na opinião dela. – Ingrid.
Ingrid? Eles tinham sido apresentados três vezes.
– Isabella – corrigiu ela.
– Isabella – repetiu ele, com elegância suficiente para oferecer um sorriso tímido.
– Há uma Ingrid – a honestidade obrigou-a a dizer. – Ela tem 15 anos.
– Portanto, é jovem demais para sair sozinha, imagino – afirmou ele. Insinuando que ela também era jovem demais.
Isabella semicerrou os olhos ao perceber o leve tom de sarcasmo na voz dele.
– Está me repreendendo?
– Eu jamais faria isso.
– Porque eu não tenho 15 anos – ressaltou ela, atrevida – e saio para caminhar sozinha o tempo todo.
– Tenho certeza que sim.
– Bom, geralmente não para caminhar – admitiu ela, com a irritação um tanto atenuada pela expressão branda dele. – Mas para cavalgar.
– E por que não está cavalgando? – perguntou ele, ajoelhando-se ao lado dela.
Ela sentiu os lábios se contorcerem em uma expressão extremamente desagradável.
– Alguém pegou minha égua.
Ele levantou as sobrancelhas.
– Alguém?
– Um convidado – grunhiu ela.
– Ah – disse ele, demonstrando simpatia. – Parece que há muitos circulando por aí.
– Como uma infestação de gafanhotos – resmungou ela.
Então se deu conta de que acabara de ser incrivelmente rude com o homem que até então não demonstrara ser o grosseiro desagradável que a irmã pintara. Os gafanhotos de um eram os convidados do outro, afinal.
– Desculpe – emendou logo, olhando para ele com olhos hesitantes.
– Não precisa se desculpar – respondeu ele. – Por que acha que eu saí para cavalgar?
Ela piscou.
– Mas é seu casamento.
– Sim – respondeu ele, irônico. – É mesmo, não é?
– Bom, é – disse Bella, como se ele esperasse uma resposta, embora ela soubesse que não. – É, sim.
– Vou contar um segredo – falou ele, colocando as mãos com delicadeza em sua bota. – Posso?
Ela assentiu e tentou não choramingar quando ele puxou a bota de seu pé.
– Casamentos são para mulheres.
– Alguns diriam que existe pelo menos um homem envolvido – contrapôs ela.
– Verdade – concordou ele, finalmente tirando a bota por completo. – Mas sejamos sinceros: o noivo faz mais do que ficar ali e dizer "Sim"?
– Ele precisa fazer o pedido.
– Pff – bufou ele, desdenhoso. – Isso leva apenas alguns minutos. Além do mais, é feito meses antes. Quando chega o casamento de verdade, as pessoas mal se lembram da ocasião.
Bella sabia que isso era verdade. Não que alguém tivesse se dado o trabalho de pedir sua mão, mas, quando ela perguntara a Rosalie o que o visconde tinha dito ao pedir a dela, a irmã só suspirara e dissera: "Não me lembro. Algo absolutamente trivial, com certeza." Bella ofereceu um sorriso de compaixão ao futuro cunhado. Rosalie nunca falara bem dele, mas o homem não parecia ser um tipo ruim de fato. Na verdade, ela sentia certa afinidade com ele, dado o fato de que ambos tinham fugido de Swan Hall em busca de paz e tranquilidade.
– Acho que não está quebrado – disse ele, pressionando os dedos com delicadeza no tornozelo dela.
– Não, acredito que não. Estarei melhor amanhã, tenho certeza.
– Tem? – perguntou Edward, a boca se curvando em uma expressão desconfiada. – Porque eu tenho certeza de que não estará. Deve demorar pelo menos uma semana até que consiga caminhar sem desconforto.
– Uma semana? Não!
– Bom, talvez não. Não sou médico. Mas vai mancar por algum tempo.
Ela soltou um suspiro, uma espécie de som resignado.
– Vou ser uma dama de honra incrível para Rosalie, não acha?
Edward não se dera conta de que ela fora convidada para a função; na verdade, ele prestara pouca atenção aos detalhes do casamento. Mas era muito bom em fingir interesse, então assentiu de forma educada, resmungou algo sem muito sentido e tentou não parecer tão surpreso quando ela exclamou:
– Talvez agora eu não precise ser!
Ela o encarou com inegável entusiasmo, os olhos grandes e chocolates reluzentes.
– Posso passar a posição para Ingrid e me esconder nos fundos.
– Nos fundos?
– Da igreja – explicou ela. – Ou na frente. Não importa onde. Mas talvez agora eu não tenha de participar dessa cerimônia infeliz. Eu... Ah!
Ela cobriu a boca depressa e seu rosto ficou vermelho.
– Desculpe. É a sua cerimônia infeliz, não é?
– Por mais infeliz que seja admitir isso – respondeu ele, incapaz de evitar um leve sorriso –, sim.
– O vestido é amarelo – resmungou ela, como se isso explicasse tudo.
Edward olhou para o traje de montaria verde certo de que jamais entenderia o funcionamento da mente feminina.
– O que disse?
– Eu tenho que usar um vestido amarelo – explicou ela. – Como se aguentar a cerimônia inteira não fosse ruim o bastante, Rosalie escolheu um vestido amarelo para mim.
– Hum... por que a cerimônia será tão terrível? – perguntou ele, apreensivo de repente.
– Rosalie deve saber que eu fico horrível de amarelo – disse Isabella, ignorando a pergunta. – Como uma vítima da peste. A congregação provavelmente vai fugir da igreja aos gritos.
Edward deveria ficar assustado diante da ideia dos convidados de seu casamento correndo em massa, histéricos. Em vez disso, porém, ficou assustado por achar essa imagem bastante reconfortante.
– Qual é o problema da cerimônia? – indagou de novo, balançando de leve a cabeça ao lembrar que ela não respondera à sua pergunta.
Ela franziu os lábios enquanto cutucava o tornozelo, dando pouca atenção a ele.
– O senhor viu o programa?
– É... não.
Ele começou a pensar que talvez isso tivesse sido um erro. Ela levantou a cabeça, os olhos grandes e castanhos claramente expressando pena dele.
– Deveria ter visto – foi tudo o que disse.
– Srta. Swan – falou ele, com a voz severa.
– Será uma cerimônia muito longa – contou ela. – E vai ter pássaros.
– Pássaros? – ecoou ele. Edward engasgou com essa única palavra a ponto de ter um acesso de tosse.
Isabella esperou que o ataque diminuísse antes de assumir uma expressão inocente e perguntar:
– O senhor não sabia?
Ele se viu incapaz de fazer mais que uma careta. Ela riu, um som suave e musical, então disparou:
– O senhor não é como Rosalie o descreveu.
Isso era interessante.
– Não sou? – perguntou ele, mantendo a voz suave.
A jovem engoliu em seco e Edward percebeu que ela se arrependera de ter falado demais. Ainda assim, teria de dizer algo, então ele esperou pacientemente.
– Bom, na verdade ela não disse muita coisa – tentou corrigir-se Isabella. – O que talvez tenha me levado a acreditar que o senhor fosse um pouco distante.
Ele se sentou na grama ao lado dela. Era bastante confortável estar com a jovem depois de ter se obrigado a manter-se alerta entre as multidões em Swan Hall.
– E como a senhorita teria chegado a essa conclusão? – perguntou ele.
– Não sei. Acho que só imaginei que, se o senhor não fosse distante, as conversas com ela teriam sido um pouco mais... – falou ela e então franziu o cenho. – Como dizer?
– Descontraídas?
– Exato.
Ela se virou para ele com um sorriso excepcionalmente reluzente e Edward se viu prendendo a respiração. Rosalie nunca lhe sorrira assim. Pior: Edward nunca quisera que ela sorrisse assim para ele. Entretanto, Isabellao Swan... ela era uma mulher que sabia sorrir. O sorriso vinha de sua boca, de seus olhos, irradiava de sua pele. Inferno, no momento aquele sorriso descia pelo seu corpo para áreas que jamais deveriam ser tocadas pela cunhada.
Era melhor ele se levantar de imediato, arranjar uma desculpa para levá-la de volta para casa – qualquer coisa que pusesse m àquele encontro, porque não havia nada mais inaceitável que desejar a cunhada, que era o que ela seria em três dias. Contudo, qualquer desculpa se revelaria falsa, uma vez que ele acabara de dizer que só queria fugir das festividades pré-casamento. Isso sem falar no fato de as áreas não mencionáveis de sua anatomia estarem se comportando de uma maneira que poderia ser considerada um tanto óbvia caso ele se levantasse.
Então ele decidiu apenas desfrutar da companhia dela, uma vez que não fizera isso com ninguém desde sua chegada, dois dias antes. Inferno, ela era a primeira pessoa que ele encontrava que não lhe dava os parabéns ou, como a irmã ou a prima, não tentava lhe dizer como levar a própria vida. A verdade era que ele achava Isabella Swan bastante encantadora e, como tinha certeza de que sua reação ao sorriso dela era um acontecimento estranho e único – além de não ser terrivelmente urgente, apenas constrangedor –, bem, não haveria mal nenhum em prolongar o encontro.
– Certo – dizia ela, alheia ao sofrimento físico dele. – E se suas conversas com ela tivessem sido mais descontraídas, imagino que ela teria mais a me contar.
Edward achou bom que a futura esposa não fosse dada a conversas indiscretas. Ponto para Rosalie.
– Talvez – respondeu ele, de modo um pouco mais brusco do que gostaria – ela não seja de se abrir.
– Rose? – indagou Isabella e bufou. – Não. Ela sempre me conta tudo sobre...
– Sobre...?
– Nada – retrucou ela, ligeira, mas não fitou os olhos dele.
Edward sabia que não deveria insistir. O que quer que ela estivesse prestes a dizer, não seria exatamente um elogio a Rosalie e, se havia uma coisa que ele já percebera sobre Isabella Swan, era que ela era leal no que importava. E não iria revelar os segredos da irmã. Engraçado. Não lhe ocorrera que uma mulher como Rosalie pudesse ter segredos.
Ela sempre lhe parecera tão... singela. Na verdade, fora essa característica que o convencera de que o casamento não era uma decisão imprudente. Já que não amaria a esposa, ao menos não seria incomodado por ela.
– Acha que é seguro voltar? – perguntou Edward, apontando na direção de Swan Hall com um gesto de cabeça.
Ele preferiria permanecer ali com Isabella, mas imaginou que seria inadequado ficar sozinho com ela por muito tempo. Além disso, estava se sentindo um pouco mais... tranquilo agora e supôs que poderia se levantar sem nenhum constrangimento. Não que uma criatura inocente como Isabella Swan fosse entender o significado de uma protuberância nas calças de um homem.
– Seguro? – ecoou ela.
Ele sorriu.
– Em relação à infestação de gafanhotos.
– Ah – fez ela, tristonha. – Duvido. Acho que minha mãe organizou uma espécie de almoço para as mulheres.
Ele deu um largo sorriso.
– Excelente!
– Para o senhor, talvez – retrucou ela. – Devem estar me esperando.
– A dama de honra? – perguntou ele, com um sorriso malicioso. – Com certeza estão. Na verdade, talvez nem comecem sem a sua presença.
– Imagine só! Se a fome apertar, nem vão perceber que não estou lá.
– Fome, é? E eu aqui achando que as mulheres comessem como passarinhos.
– Apenas na presença dos homens. Quando os senhores não estão, enlouquecemos com presunto e chocolate.
– Juntos?
Ela riu, um som musical, rico.
– O senhor é muito engraçado – disse ela, com um sorriso.
Ele se aproximou com uma expressão perigosa.
– A senhorita não sabe que jamais deve dizer a um libertino que ele é engraçado?
– Ah, o senhor não é um libertino – discordou ela, despreocupada.
– Por que acha isso?
– Vai se casar com minha irmã.
Ele deu de ombros.
– Libertinos acabam se casando um dia.
– Não com Rosalie – rebateu ela, soltando uma bufada. – Ela seria a pior esposa para um libertino.
Bella olhou para Edward com mais um daqueles largos sorrisos, iluminados.
– Mas o senhor não tem com o que se preocupar, pois obviamente é um homem muito sensato.
– Acho que nunca fui chamado de sensato por uma mulher – ponderou ele.
– Posso garantir que digo isso como o maior dos elogios.
– Dá para perceber – resmungou ele.
– O bom senso parece ser uma coisa tão fácil – disse ela, pontuando as palavras ao agitar uma das mãos. – Não consigo entender por que tantas pessoas são desprovidas dele.
Edward riu sem querer. Era uma ideia de que ele compartilhava, embora nunca tivesse pensado em expressá-la nesses termos. Então Isabella soltou um suspiro, um som preocupado que vinha direto do coração.
– É melhor eu voltar – afirmou, não parecendo nem um pouco animada.
– Não faz muito tempo que saiu – destacou ele, com uma vontade imensa de esticar a conversa.
– Não faz muito tempo que o senhor saiu – corrigiu ela. – Eu saí há uma hora. E o senhor tem razão: não posso evitar o almoço. Minha mãe vai ficar muito irritada, o que acho que eu seria capaz de suportar, uma vez que ela está sempre irritada, mas não é justo com Rosalie. Sou a dama de honra, afinal.
Ele se levantou e lhe estendeu a mão.
– A senhorita é uma boa irmã, não é?
Ela o observou com atenção enquanto pousava os dedos em sua mão. Quase como se estivesse tentando analisar sua alma.
– Tento ser – disse, em um tom de voz brando.
Edward estremeceu ao pensar em Alice sentada no chão, gritando com ele. Provavelmente devesse pedir desculpas. Afinal, ela era sua única irmã. Porém, enquanto cavalgava de volta a Swan Hall com Isabella Swan atrás dele na sela, abraçada à sua cintura, ele não pensou em Alice. Nem em Rosalie.
Deixem reviews para alegrar minha semana e nos vemos na quarta! :D
