Adaptação da edição O Herói que Faltava, da história de Julia Quinn, Um Conto de Duas Irmãs.
CAPÍTULO TRÊS
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– A-a-a-a...
– Ela está doente? – soou uma voz feminina gentil que Bella jamais saberia de quem era, pois seus olhos estavam fechados em uma concentração profunda. Isso sem falar que eles tinham de estar fechados para que o espirro fosse convincente.
– Atchim!
– Nossa! – disse Emmett McCarthy em voz alta, balançando a cabeça para que os cachinhos escuros saíssem de seus olhos. – Acho que ela está espirrando por minha causa.
– Atchim!
– Meu Deus! – exclamou Rosalie, preocupada. – Você não parece nada bem.
Bella queria, mais do que tudo, lançar um olhar sarcástico para a irmã, mas não podia fazer isso diante de uma plateia tão grande.
– Atchim!
– Tenho certeza de que é por minha causa – anunciou Emmett. – Só pode ser. Começou bem quando eu cheguei.
– Atchim!
– Estão vendo? – acrescentou ele para ninguém especificamente. – Ela está espirrando.
– Isso – pronunciou uma voz masculina grave que só podia pertencer a Edward Cullen – não está em questão.
– Bem, ela não pode ser minha parceira na caça ao tesouro – disse Emmett. – Eu vou matar a garota.
– Atchim!
Isabella soltou um espirro um pouco mais suave, só para variar.
– O senhor usou algum perfume estranho? – perguntou Rosalie a Emmett. – Ou talvez um sabonete novo?
– Um perfume novo! – exclamou Emmett, com os olhos brilhando como se ele tivesse acabado de descobrir, digamos, a gravidade. – Estou usando um perfume novo! Mandei vir especialmente de Paris, é claro.
– Paris? – falou Rose, encantada. – É mesmo?
Isabella imaginou se conseguiria acertar a irmã nas costelas sem que ninguém percebesse.
– Sim – continuou Emmett, sempre contente por ter uma plateia para uma discussão sobre moda ou higiene. – É uma mistura deliciosa de sândalo e caqui.
– Caqui? Não! – lamentou Bella, tentando voltar ao assunto em questão. – Caqui be leba a esbirrar.
Ela tentou simular que lacrimejava – o que, claro, não estava acontecendo, uma vez que até o dia anterior ela nem sabia direito o que era um caqui. Rosalie olhou para Edward e pestanejou.
– Ah, milorde – implorou –, o senhor trocaria de lugar com Emmett para a caça ao tesouro? Não podemos deixar Isabella passar a tarde com ele.
Edward encarou Bella com uma sobrancelha erguida. Ela olhou para ele e espirrou.
– Não – disse ele, tirando um lenço do bolso com delicadeza e enxugando o rosto. – De fato, não podemos.
Bella espirrou de novo, enviando mentalmente aos céus um pequeno pedido de perdão que teria de ser maior na igreja, no domingo.
O que Rosalie sabia, que todas as irmãs sabiam, era que ninguém conseguia fingir um espirro como Isabella. As garotas dos Swan sempre se divertiram muito com os falsos espirros dela. Por sorte, a mãe nunca percebera, do contrário ela estaria observando a cena com muita suspeita. Contudo a Sra. Swan estava ocupada com os convidados, então apenas acariciou as costas de Bella e disse a ela que bebesse água.
– Então o senhor concorda? – perguntou Rosalie a Edward. – Vamos nos encontrar depois da caça ao tesouro, claro.
– É claro – murmurou ele. – Fico feliz em fazer dupla com sua irmã. Eu jamais recusaria auxílio a uma donzela em tamanho... ahn...
– Atchim!
– ... perigo.
Isabella abriu um sorriso de gratidão. Parecia a coisa certa a fazer.
– Ah, obrigada, milorde – disse Rosalie. – Já vamos sair, então. Preciso tirar Emmett de perto de Isabella imediatamente.
– Ah, sim – concordou ele, com a voz suave. – Imediatamente.
Rosalie e Emmett saíram, apressados, deixando Isabella sozinha com Edward. Ela olhou, hesitante, para o visconde. Ele estava apoiado na parede olhando para ela, com os braços cruzados.
Bella espirrou de novo, dessa vez de verdade. Talvez ela fosse mesmo alérgica a Emmett. Por Deus, qualquer que tivesse sido o perfume enjoativo com que ele se encharcara, ainda impregnava o ar.
Edward ergueu as sobrancelhas.
– Talvez um pouco de ar fresco lhe faça bem – sugeriu.
– Ah, sim – disse Bella, impaciente.
Se ela estivesse lá fora, haveria diversas opções para onde olhar. Árvores, nuvens, animaizinhos peludos – qualquer coisa serviria, desde que não tivesse que encarar o visconde. Porque ela suspeitava que ele sabia de seu fingimento. Isabella tinha dito a Rosalie que aquilo não iria funcionar. Edward Cullen não era nenhum tolo. Ele não seria convencido por piscadelas e alguns espirros falsos, mas Rosalie insistira em passar um tempo sozinha com Emmett para planejar a fuga, por isso eles teriam que ser parceiros na caça ao tesouro.
A mãe, infelizmente, já definira as duplas, e é claro que colocara Rosalie com o noivo. Como Isabella era dupla de Emmett, Rose inventara aquele esquema maluco que envolvia Bella espirrar para trocarem de parceiros, mas ela não acreditara que aquilo fosse enganar Edward e, de fato, assim que eles saíram e respiraram o ar fresco da primavera, ele sorriu de leve e disse:
– Foi uma performance e tanto.
– Como? – falou ela, tentando ganhar tempo, porque, na verdade, que outra opção teria?
Ele olhou para as próprias unhas.
– Minha irmã sempre fingiu espirros impressionantes.
– Ah, milorde, eu lhe asseguro...
– Não minta – ordenou ele, e os olhos verdes fitaram os dela. – Não quero perder o respeito pela senhorita. Foi uma apresentação excelente e teria convencido qualquer pessoa que não fosse parente da minha irmã. Ou seu, imagino.
– Enganou minha mãe – murmurou Isabella.
– Enganou mesmo, não foi? – disse ele, parecendo um pouco... bom, por Deus, será que ele estava orgulhoso dela?
– Teria enganado meu pai também – acrescentou ela –, se ele estivesse lá.
– Quer me contar por que fez tudo isso?
– Na verdade, não – respondeu ela, aproveitando que era uma pergunta do tipo sim ou não.
– Como está seu tornozelo? – quis saber ele.
A repentina mudança de assunto a surpreendeu.
– Muito melhor – garantiu ela, com cautela, sem entender por que ele a deixaria escapar da conversa inicial. – Quase não dói mais. Deve ter sido uma torção menos grave do que eu imaginava.
Ele fez um gesto em direção à alameda que levava para longe da casa.
– Vamos caminhar? – sugeriu.
Ela assentiu, hesitante, porque não acreditava que ele fosse mesmo deixar para trás o assunto principal. E, é claro, ele não deixou.
– Vou contar algo sobre mim – disse ele, fingindo olhar para a copa das árvores com um ar casual.
– O quê?
– Eu geralmente consigo o que quero.
– Geralmente?
– Quase sempre.
Ela engoliu em seco.
– Compreendo.
Ele deu um leve sorriso.
– Compreende?
– Eu disse que sim – resmungou ela.
– Então – continuou ele, deixando de lado o comentário dela – podemos ter quase certeza de que, antes do fim dessa caça ao tesouro que sua mãe organizou como entretenimento, você vai me contar por que se esforçou tanto para garantir que fôssemos parceiros hoje.
– Ah, entendo – divagou ela, desconfiando que parecia uma tola. Porém a alternativa era ficar em silêncio e, dado o tom da conversa, isso não parecia muito melhor.
– Entende? – indagou ele, com a voz terrivelmente suave. – Entende mesmo?
Então ela ficou em silêncio. Não conseguiu pensar na resposta certa para aquela pergunta.
– Podemos facilitar as coisas – disse ele, ainda como se falasse sobre algo tão corriqueiro quanto o clima – e abrir o jogo agora. Ou podemos dificultar bastante as coisas – acrescentou, mais grave.
– Podemos?
– Eu posso.
– Foi o que pensei – resmungou ela.
– Então, preparada para contar tudo?
Ela fitou os olhos dele.
– O senhor é sempre calmo e controlado assim?
– Não – respondeu ele. – Nem um pouco. Na verdade, já me disseram que meu temperamento é dos mais cruéis.
Ele se virou para ela e sorriu.
– Mas costumo conseguir controlá-lo uma ou duas vezes a cada dez anos.
Ela engoliu em seco, nervosa.
– Faz muito bem.
– Não vejo nenhum motivo para perder a paciência agora, não acha? – continuou o visconde a falar daquele jeito controlado, terrível. – A senhorita parece ser uma jovem sensata.
– Está bem – disse Isabella, uma vez que o homem provavelmente a amarraria a uma árvore com um sorriso calmo no rosto se ela não lhe desse algum tipo de explicação. – Acontece que não teve nada a ver com o senhor.
– É mesmo?
– É tão difícil assim de acreditar?
Ele ignorou o sarcasmo.
– Continue.
Ela pensou rápido.
– É Emmett.
– McCarthy? – perguntou ele.
– Sim. Eu não o suporto.
O que não deixava de ser verdade. Em mais de uma ocasião, Isabella chegara a pensar que fosse enlouquecer na companhia de Emmett.
– A ideia de passar a tarde inteira com ele me deixou em pânico. Embora eu deva dizer que não esperava que Rosalie se oferecesse para trocarmos de lugar.
Ele pareceu mais interessado na frase anterior.
– Em pânico, é?
Isabella olhou bem para o visconde.
– Tente o senhor passar três horas ouvindo-o recitar sua poesia e vamos ver quem vai entrar em pânico.
Edward estremeceu.
– Ele escreve poesia?
– E fala sobre escrever poesia.
Ele pareceu angustiado.
– E, quando não está fazendo isso – prosseguiu Bella, entrando no espírito da conversa –, está falando sobre análise de poesia e explicando por que falta à maioria das pessoas a capacidade intelectual para entender poesia.
– Ao contrário dele?
– É claro.
Ele assentiu devagar.
– Preciso confessar uma coisa, então. Eu mesmo não gosto muito de poesia.
Bella não conseguiu evitar e abriu um largo sorriso.
– Não?
– Ninguém usa rimas nas conversas do cotidiano – argumentou ele e fez um aceno de mão desdenhoso.
– É exatamente o que eu penso! – exclamou ela. – Alguma vez, eu lhe pergunto, o senhor já disse "Meu amor é como um condor"?
– Bom Deus, espero que nunca.
Bella caiu na gargalhada.
– Não é? – exclamou ele e então apontou para a copa das árvores. – Aquelas folhas! São como bolhas!
– Ah, por favor! – disse ela, tentando soar desdenhosa, mas rindo sem parar. – Até eu escreveria algo melhor.
Ele deu um sorriso diabólico e Isabella de repente entendeu por que ele possuía a fama de haver partido tantos corações em Londres. Por Deus, deveria ser ilegal ter tanta beleza. Apenas um sorriso e ela sentira sua energia até as pontas dos pés.
– É mesmo? – zombou ele. – Melhor que "Vi minha irmã na neblina e...".
– E o quê? – perguntou Bella enquanto ele procurava o que dizer. – Péssima ideia escolher uma palavra tão difícil de rimar, milorde.
– E desejei... – continuou ele, com ar triunfante – ... e desejei... ora, não sei o que desejei, mas não foi sua ruína.
O rosto de Edward assumiu uma expressão brincalhona.
– Não seria apropriado, não acha?
Bella teria respondido, só que ria demais para conseguir falar.
– Certo – disse ele, parecendo bastante satisfeito consigo mesmo. – Bem, agora que concordamos que sou o melhor poeta, qual é o primeiro item da lista?
Bella olhou para o pedaço de papel que esquecera que trazia nas mãos.
– Ah, sim. A caça ao tesouro. Bem, vamos ver. O primeiro item é uma pena, mas eu acho que não precisamos encontrar tudo na ordem.
Ele inclinou a cabeça para o lado enquanto tentava ler a bela letra da mãe dela.
– De que mais precisamos?
– Um tijolo vermelho; uma flor de jacinto... essa vai ser fácil, sei onde ficam no jardim; duas folhas de papel em branco, não do mesmo tipo; uma fita amarela; e um pedaço de vidro... Um pedaço de vidro? – repetiu ela, olhando para cima. – Onde é que vamos encontrar isso? Acho que mamãe não pretendia que quebrássemos janelas.
– Vou roubar os óculos da minha irmã – disse ele, improvisando.
– Ah. É muito esperto – falou e olhou para ele com admiração. – E ardiloso também.
– Bem, ela é minha irmã – disse ele, com modéstia. – Ainda que eu não deseje sua ruína. É que ela fica quase cega sem os óculos e devemos ser ardilosos em tudo o que envolve irmãos, concorda?
– Nesta situação, certamente.
Ela e as irmãs costumavam se dar bem, mas estavam sempre se provocando mutuamente e pregando peças. Roubar óculos para vencer uma caça ao tesouro, isso era algo que ela podia respeitar.
Bella observou o rosto de Edward enquanto ele olhava a distância, com a cabeça aparentemente em outro lugar. Não pôde deixar de pensar que ele se revelara um ótimo sujeito. Desde que aceitara ajudar Rosalie a deixá-lo, Bella se sentia um pouco culpada, mas só agora começava a se sentir realmente mal.
Tinha a sensação de que o visconde não amava sua irmã. Na verdade, tinha quase certeza. Mas ele pedira a mão de Rose em casamento, então devia querê-la como esposa, qualquer que fosse o motivo. E, como todos os homens, ele tinha seu orgulho. E ela, Isabella Marie Swan, que gostava de acreditar que era uma pessoa correta e de princípios, estava ajudando a orquestrar sua ruína. Ela suspeitava que houvesse coisas mais vergonhosas na vida que ser deixado no altar, mas naquele momento não conseguiu pensar em nenhuma.
Ele ficaria horrorizado. E magoado. Além de furioso. E provavelmente a mataria.
A pior parte era que Isabella não tinha ideia de como impedir aquilo. Rosalie era sua irmã. Era obrigação de Bella ajudá-la, não era? Não devia sua lealdade à família, acima de tudo? Além disso, se aquela tarde lhe ensinara algo, era que Rosalie e o visconde não combinavam. Meu Deus, Rose esperava que seus pretendentes falassem em versos!
Ela não conseguia imaginar que aqueles dois sobrevivessem a mais que um mês de casamento sem tentarem se matar. Ainda assim... não era certo. Edward – quando tinha começado a pensar nele pelo primeiro nome? – não merecia o tratamento desprezível que estava prestes a receber. Talvez ele fosse um pouco autoritário e certamente era arrogante, mas no fundo parecia ser um homem bom – era sensato, engraçado e um verdadeiro cavalheiro.
E foi então que Bella fez uma promessa. De jeito nenhum ela permitiria que ele esperasse na igreja no sábado de manhã. Ela podia não ser capaz de impedir Rosalie e Emmett de fugirem – podia até mesmo estar ajudando –, mas faria tudo o que estivesse ao seu alcance para salvar Edward do pior dos constrangimentos.
Ela engoliu em seco, nervosa. Isso significaria ir atrás dele no meio da noite, assim que Rose estivesse a uma distância segura, mas ela não tinha escolha. Não se quisesse viver tranquila com sua consciência.
– A senhorita ficou muito séria de repente – comentou ele.
Ela foi pega de sobressalto pelo som de sua voz.
– Só perdida em devaneios – respondeu ela, feliz porque pelo menos isso não era mentira.
– Sua irmã e o poeta parecem estar no meio de uma conversa importante – disse ele, baixo, inclinando a cabeça para a esquerda.
Bella virou o rosto. Rosalie e Emmett entabulavam uma conversa séria e apressada a uns 30 metros dali. Graças a Deus eles estavam longe demais para serem ouvidos.
– Eles são bons amigos – disse Bella, torcendo para que o calor que sentia nas bochechas não significasse que ela corava. – Conhecemos Emmett há anos.
– Isso significa que minha futura esposa é uma grande fã de poesia?
Isabella deu um sorriso tímido.
– Temo que sim, milorde.
Quando ele olhou para ela, seus olhos brilhavam.
– O que significa que ela espera que eu recite poesia para ela?
– Provavelmente – respondeu Bella, olhando para ele com uma compaixão que não era fingimento.
Ele soltou um suspiro.
– Bem, acho que nenhum casamento é perfeito.
Então ele ajeitou a postura.
– Venha. Temos penas para arrancar e óculos para roubar. Já que somos obrigados a participar desta caça ao tesouro, vamos pelo menos vencer.
Bella endireitou os ombros e deu um passo à frente.
– Tem razão, milorde. É exatamente o que penso.
E era mesmo. Era estranho, na verdade, que ele dissesse com tanta frequência algo em que ela estava pensando.
Oi! Sei que o capítulo viria no domingo, mas estou de mudança nesse fim de semana, e como acho que só vão ligar a internet no começo da semana que vem, estou adiantando este aqui. Bom fim de semana!
