Adaptação da edição O Herói que Faltava, da história de Julia Quinn, Um Conto de Duas Irmãs.


CAPÍTULO QUATRO

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Na noite de sexta aconteceu o sarau pré-casamento que Edward imaginara que de alguma forma seria diferente dos saraus pré-casamento de quarta e quinta. Contudo, em pé nos fundos do salão segurando uma taça de champanhe e um prato com três morangos, ele não conseguia, por mais que tentasse, ver qualquer diferença. As mesmas pessoas, outras comidas. E só. Se ele fosse o responsável pelos detalhes, teria descartado toda aquela baboseira pré-casamento e simplesmente aparecido diante do vigário na hora e no local marcados, mas ninguém achara necessário perguntar sua opinião – embora, para ser justo, ele nunca tivesse demonstrado se importar. E, na verdade, nem ele mesmo percebera que se importava até aquela semana – aquela semana assustadora, não, infernalmente longa. Porém, todos pareciam se divertir, o que ele imaginava ser bom, uma vez que, segundo lhe constava, ele estava pagando por tudo aquilo.

Edward soltou um suspiro ao relembrar vagamente uma conversa em que dissera algum disparate do tipo "É claro que Rosalie deve ter o casamento de seus sonhos". Olhou para os morangos em seu prato. Havia cinco no início, e os dois que já estavam em seu estômago constituíam tudo o que comera naquela noite. Eram os morangos mais caros que já provara. Não que ele não pudesse pagar pelas festividades; tinha dinheiro de sobra e não iria querer negar a uma jovem o casamento de seus sonhos.

O problema, claro, era que a jovem que teria o casamento de seus sonhos acabara se revelando não ser a dos sonhos dele e só agora – quando era tarde demais para fazer algo a respeito – ele começava a perceber que isso fazia diferença.

E o mais triste era que ele nem sabia que tinha sonhos.

Até então, nunca lhe ocorrera que ele gostaria de se apaixonar e ter um casamento romântico. Agora, quando faltavam – segundo o relógio em um canto – aproximadamente 12 horas para que tivesse de se arrastar para dentro da igreja e garantir que nada daquilo aconteceria. Ele se apoiou na parede sentindo-se mais cansado do que seria normal para um homem de sua idade. Em quanto tempo, ele se perguntou, poderia ir embora sem que parecesse grosseiro? No entanto, verdade fosse dita, ninguém parecia notar sua presença.

Os convidados se divertiam bastante e não davam atenção ao noivo. Ou, por falar nisso, Edward percebeu ao examinar o salão, surpreso, à noiva. Onde estava Rosalie? Ele franziu o cenho, depois deu de ombros, decidindo que aquilo não queria dizer nada. Tinha falado com ela mais cedo, quando dançaram a valsa obrigatória, e ela parecera bastante agradável, embora um pouco distraída. Desde então, ele a vira em meio à multidão algumas vezes, conversando com os convidados.

Provavelmente estava no banheiro feminino agora, remendando uma bainha, ou beliscando as bochechas, ou fazendo o que quer que as mulheres faziam quando achavam que ninguém as observava. E sempre pareciam sair da festa aos pares. Isabella também desaparecera. Ele poderia apostar três morangos (o que, no contexto da noite, não era uma quantia pequena) que fora arrastada por Rosalie. Por que isso o irritava tanto, ele não sabia.

– Edward!

Ele se endireitou e colocou um sorriso no rosto, então decidiu que não era preciso. Era sua irmã, que atravessava a multidão com a prima Irina logo atrás.

– O que está fazendo aqui sozinho? – perguntou Alice assim que chegou ao lado dele.

– Desfrutando minha própria companhia.

Ele não tivera a intenção de que isso fosse um insulto, mas Alice deve ter tomado como um, porque fez uma careta.

– Onde está Rosalie? – indagou ela.

– Não faço ideia – respondeu ele, com sinceridade. – Provavelmente com Isabella.

– Isabella?

– Irmã dela.

– Eu sei quem é Isabella – disse ela, irritada. – Só fiquei surpresa por vocês... Não importa.

Nesse instante, Irina se inseriu na conversa, a barriga primeiro.

– Você vai comer esses morangos? – perguntou ela.

Edward ofereceu o prato.

– Fique à vontade.

Ela agradeceu e pegou um.

– Sinto fome o tempo todo ultimamente – comentou. – Exceto, claro, quando não sinto.

Edward a encarou como se ela falasse grego, mas Alice assentia como se a compreendesse.

– Fico satisfeita logo. É porque... – começou ela a dizer, mas depois apenas acariciou o braço do primo. – Você logo vai entender.

Edward pensou em Rosalie carregando um filho dele e isso pareceu muito errado. Então o rosto da noiva mudou. Os olhos eram castanhos achocolatados. E o nariz, menos arrebitado, mas igualmente bonito. Mas a boca, não... Edward se apoiou na parede, sentindo-se bastante mal de repente. O rosto que pairava sobre o corpo grávido era o de Isabella, e ela não parecia nada errada.

– Tenho que ir – disse ele, ligeiro.

– Tão cedo? – perguntou Alice. – Não são nem nove horas.

– Vai ser um grande dia amanhã – resmungou ele, o que era bem verdade.

– Bom, acho que pode mesmo ir – disse sua irmã. – Rosalie já foi e, se a noiva pode...

Ele assentiu.

– Se alguém perguntar...

– Não se preocupe – assegurou. – Vou dar desculpas excelentes.

Irina assentiu.

– Ah, e... Edward! – chamou Alice, com a voz baixa o bastante para capturar toda a atenção dele.

Ele olhou para a irmã.

– Desculpe – disse ela, baixinho.

Era a coisa mais doce, e a mais terrível, que ela poderia dizer, mas ele assentiu assim mesmo, porque ela era sua irmã e ele a amava. Então saiu pelas portas francesas que levavam ao pátio, com a ideia de contornar a casa e entrar pela porta lateral, de onde esperava poder voltar para seu quarto sem encontrar ninguém que quisesse conversar. Foi quando, é claro, olhou para baixo e percebeu que ainda segurava o prato – ele comeria mais alguns milhares de libras em morangos.


– Você precisa voltar, Rosalie!

Rosalie balançou a cabeça, frenética, enquanto enfiava mais um par de sapatos na mala, sem nem olhar para Isabella.

– Não posso. Não tenho tempo.

– Você só vai encontrar Emmett às duas – argumentou Bella. – Faltam cinco horas.

Rosalie levantou a cabeça, horrorizada.

– Só isso?

Bella olhou para as duas malas dela. Não eram pequenas, mas ela não levaria cinco horas para enchê-las. Decidiu tentar outra abordagem.

– Rose – falou, num esforço para soar bastante razoável –, a festa lá embaixo é sua. Vão dar por sua falta.

Então, como Rosalie não fez nada além de levantar dois pares de roupas de baixo para compará-los, ela repetiu, provavelmente mais alto do que deveria:

– Rosalie, está me ouvindo? Vão dar por sua falta.

Ela deu de ombros.

– Volte você, então.

– Eu não sou a noiva – destacou Bella, pulando diante da irmã.

A mais velha voltou a olhar para as roupas de baixo.

– O lavanda ou o rosa?

– Rosalie...

– Qual?

Isabella não soube ao certo por quê, talvez tenha sido pela pura farsa do momento, mas olhou para os conjuntos.

– De onde você tirou isso? – perguntou, pensando nas próprias roupas de baixo, todas brancas.

– Do meu enxoval.

– Do seu casamento com o visconde? – retrucou Isabella, horrorizada.

– É claro – disse Rosalie, decidindo-se pelo lavanda e jogando-o na mala.

– Rose, isso é doentio!

– Não é, não – disse Rosalie, dando toda a atenção a Isabella pela primeira vez desde que entraram sorrateiramente no quarto. – É prático. E, se vou me casar com Emmett, não posso me dar ao luxo de não ser prática.

O queixo de Bella caiu de tanta surpresa. Até aquele momento, ela não acreditava que Rosalie soubesse em que iria se meter ao casar com um esbanjador como Emmett.

– Não sou tão volúvel quanto você pensa – falou ela, constrangendo Bella ao ler seus pensamentos com exatidão.

A mais nova ficou em silêncio por um tempo.

– Gosto do rosa – falou por fim, de modo que suas palavras soaram também como um pedido de desculpas.

– Mesmo? – disse Rose com um sorriso. – Eu também. Acho que vou levar os dois.

Bella engoliu em seco, desconfortável, enquanto observava a irmã fazer a mala.

– Você deveria tentar voltar para a festa por alguns minutinhos, pelo menos.

Rosalie assentiu.

– Tem razão. Vou voltar assim que terminar aqui.

Bella foi até a porta.

– Vou voltar agora. Se alguém perguntar por você, eu... – falou ela, então agitou as mãos no ar sem jeito enquanto pensava no que dizer. – Bom, eu invento alguma coisa.

– Obrigada.

Isabella apenas assentiu, sentindo-se abalada demais para dizer qualquer coisa.

Saiu do quarto em silêncio, fechando a porta atrás de si, e se apressou pelo corredor até as escadas. Ela não estava empolgada com aquilo; supunha que era uma boa mentirosa quando precisava ser, mas odiava mentir e, acima de tudo, odiava mentir para o visconde. Seria tão mais fácil se ele não tivesse sido tão agradável. Agradável. Por algum motivo, isso a fez sorrir.

Ele detestaria ser chamado de agradável. Galante, talvez. Perigoso, certamente. E diabólico também parecia apropriado. Contudo, gostasse o visconde ou não, ele era um homem agradável, bom e verdadeiro e certamente não merecia o destino que Rosalie lhe reservava. Rosalie e... Isabella parou no patamar e fechou os olhos para esperar que uma onda de náusea, induzida pela culpa, passasse. Ela não queria pensar em sua participação no asco que se aproximava. Não naquele instante, pelo menos. Precisava se concentrar em conseguir fazer com que a irmã seguisse seu caminho em segurança. Então ela poderia fazer o certo pelo visconde, encontrá-lo e avisá-lo para que ele não...

Bella estremeceu ao imaginar a cena na igreja. Ela não podia deixar isso acontecer. Não deixaria. Ela...

– Isabella? Ela abriu os olhos.

– Milorde! – murmurou ela, incapaz de acreditar que ele estava em pé à sua frente. Ela não queria vê-lo até que tudo tivesse acabado, não queria falar com ele. Não sabia se sua consciência suportaria.

– Está tudo bem? – perguntou ele, e a preocupação em sua voz partiu o coração de Bella.

– Sim – respondeu ela, engolindo em seco até ser capaz de dar um sorriso vacilante. – Só estou um pouco... esgotada.

Os lábios dele se retorceram.

– Imagine se fosse um dos cônjuges.

– É – disse ela. – Deve ser bastante difícil, tenho certeza. Quer dizer, é claro que não deveria ser difícil, mas... bem...

Ela se perguntou se algum dia já tinha proferido uma frase mais sem sentido.

– Tenho certeza de que ainda assim é difícil – concluiu.

Ele lhe lançou um olhar estranho, intenso o bastante para levá-la a estremecer.

– A senhorita não faz ideia – murmurou.

Ele estendeu o pratinho que trazia nas mãos.

– Morangos? – ofereceu.

Ela balançou a cabeça; seu estômago estava agitado demais para pensar em colocar alguma coisa nele.

– Aonde está indo? – indagou ela, principalmente porque o silêncio que se seguiu parecia pedir uma pergunta.

– Lá para cima. Rosalie saiu e...

– Ela está nervosa também – disparou Bella.

Na certa ele não pretendia visitar Rosalie em seu quarto. Não seria nada apropriado, mas, pior que isso, ele a flagraria fazendo as malas.

– Ela foi se deitar um pouco – continuou, às pressas. – Mas me prometeu que voltaria logo para a festa.

Ele deu de ombros.

– Ela pode fazer o que quiser. Um dia longo nos aguarda amanhã. Se ela quer descansar, é o que deve fazer.

Isabella assentiu, soltando o ar lentamente ao perceber que ele nunca tivera a intenção de procurar por Rosalie.

Então cometeu o pior erro de sua vida. Ela ergueu a cabeça.

Foi estranho, porque estava escuro, só uma arandela tremeluzia atrás dela, e não era para ela conseguir ver a cor dos olhos dele. Mas, ao levantar a cabeça, seus olhares se encontraram, e os olhos dele tinham um brilho tão caloroso, tão verde e, mesmo que a casa começasse a cair ao redor deles... Ela não achava que seria capaz de desviar o olhar.


Edward estava subindo a escada lateral sorrateiramente, com o propósito expresso de evitar qualquer contato humano, mas, ao ver Isabella Swan no patamar, algo se encaixara dentro dele e ele percebera que qualquer contato humano simplesmente não a incluía. Não tinha sido como ele temia que fosse, que ele a desejaria – muito embora sentisse algo se contrair em seu âmago toda vez que permitia que seu olhar deslizasse para os lábios dela, algo que nunca deveria acontecer diante de uma cunhada. Na verdade, quando a vira parada ali de olhos fechados, ela lhe parecera uma tábua de salvação, uma âncora estável em um mundo que tombava ao seu redor.

Se ele de alguma forma pudesse tocá-la, apenas segurar sua mão, tudo caria bem.

– Quer dançar? – perguntou ele, e as palavras o pegaram de surpresa enquanto saíam de seus lábios.

Ele viu a surpresa nos olhos dela e em sua respiração suave antes mesmo que ela ecoasse a pergunta:

– Dançar?

– Já fez isso? – quis saber ele, certo de que estava seguindo por um caminho bastante perigoso, mas incapaz de se conter. – Já dançou, no caso. Não houve muita dança esta noite e eu não a vi na pista.

Ela balançou a cabeça.

– Mamãe me manteve ocupada – explicou, mas soou distraída, como se as palavras não tivessem nada a ver com o que se passava em sua cabeça. – Detalhes da festa e coisas do tipo.

Ele assentiu.

– Deveria dançar – insistiu. Queria dizer Deveria dançar comigo. Ele largou o prato em um degrau. – Qual é o sentido de torcer o tornozelo se não se divertir depois que ele estiver curado?

Ela não disse nada, só ficou ali, olhando para ele, não como se fosse louco, embora ele tivesse certeza de que era, ao menos naquela noite. Olhava para ele como se não conseguisse acreditar no que via, ou talvez no que ouvia, ou talvez no momento em si. A música vinha lá de baixo e a escada se curvava de modo que ninguém poderia vê-los no pequeno patamar, nem de baixo nem de cima.

– Deveria dançar – repetiu ele e, provando que um deles continuava são.

Isabella balançou a cabeça.

– Não. Preciso ir.

A mão de Edward caiu junto ao corpo e só então ele percebeu que a tinha levantado com a intenção de posicioná-la nas costas de Isabella para uma valsa.

– Mamãe deve estar atrás de mim – falou ela. – E preciso ver como Rosalie está.

Ele assentiu.

– E depois preciso...

Ela olhou para ele... só por um instante. Só por uma fração de segundo, mas foi o bastante para que seus olhos se encontrassem antes que ela se afastasse.

– Não posso dançar – disse.

E os dois sabiam o que ela queria dizer: Não posso dançar com você.


Mudança de casa sempre acaba com a gente, né. Me sinto aquelas velhas que mal levantam da cama no dia seguinte, rs.
Bom, quanto ao Edward, apenas 12 horas o separam do seu destino.