Adaptação da edição O Herói que Faltava, da história de Julia Quinn, Um Conto de Duas Irmãs.


CAPÍTULO CINCO

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Mais tarde naquela noite, enquanto encontrava consolo em uma taça de conhaque e no silêncio da biblioteca escassa de Charlie Swan, Edward não conseguiu se livrar da sensação de que estava prestes a pular de uma ponte.

Sim, ele sempre soubera que estava entrando em um casamento sem amor. Mas julgava ter aceitado a ideia. Apenas recentemente – apenas na última semana, na verdade – percebera que estava prestes a decretar a própria infelicidade, ou, no mínimo, algum descontentamento, pelo resto da vida. E não havia nada a fazer a respeito. Talvez em outro tempo, em outro lugar, um homem pudesse desistir de um casamento horas antes da cerimônia, mas não em 1824 e não na Inglaterra.

O que ele estava pensando? Não amava a mulher com quem ia se casar, ela não o amava e, francamente, ele nem poderia dizer que se conheciam. Só soubera, por exemplo, que Rosalie era aficionada por poesia quando Isabella lhe contara isso durante a caça ao tesouro (que, é claro, eles tinham vencido. Do contrário, qual seria o sentido de participar de jogos bobos?). Mas esse não era o tipo de coisa que um homem deveria saber sobre a esposa? Principalmente se esse homem fazia questão de não incluir livros de poesia em sua biblioteca? E isso fez com que ele se perguntasse o que mais poderia estar escondido por trás dos belos olhos azuis de Rosalie Swan.

Ela gostava de animais? Era reformista, participava de obras de caridade? Sabia falar francês? Tocava piano? Era afinada ao cantar? Ele não sabia por que não se preocupara com essas questões. Não lhe pareceram importantes. Certamente, qualquer homem sensato iria querer saber mais sobre sua futura esposa do que a cor de seus olhos e cabelo.

Sentado na escuridão, imaginando a vida que tinha pela frente, ele não conseguia deixar de pensar que era isso que Alice vinha tentando dizer havia meses. Soltou um suspiro. Alice podia ser sua irmã, mas, por mais que lhe doesse admitir, isso não queria dizer que ela não tinha razão de vez em quando. Ele não conhecia Rosalie Swan. Ele não a conhecia e iria se casar com ela mesmo assim. Porém, pensou com um suspiro enquanto seus olhos pousavam sobre uma pilha de livros encadernados em couro em um canto, isso não significava que o casamento seria um fracasso. Muitos casais encontravam o amor depois das bodas, não? Ou, se não amor, satisfação e amizade. Que era tudo o que Edward almejava, para começo de conversa; precisava admitir. E era com isso que teria de aprender a conviver. Porque ele tinha conhecido Rosalie Swan um pouco melhor na última semana. O suficiente para saber que jamais poderia amá-la, não como um homem deveria amar a esposa.

E também havia Isabella.

Isabella, para quem ele provavelmente nem olharia duas vezes em Londres. Isabella, que o fazia rir, para quem podia contar piadas idiotas e não se sentir constrangido. E que, ele lembrava a si mesmo, seria sua cunhada em cerca de sete horas. Ele olhou para o copo vazio em sua mão e se perguntou quanto tempo fazia que terminara a bebida. Estava pensando em servir mais uma dose quando ouviu um som do outro lado da porta.

Que estranho.

Ele achava que todos já tivessem ido dormir. Eram – olhou para o relógio sobre a lareira – quase duas da manhã. Antes de sair da festa, ele ouvira os Swan expressarem suas intenções de encerrar as festividades às onze, pois queriam que todos os convidados estivessem bem descansados e revigorados para a cerimônia que aconteceria no sábado pela manhã.

Edward não tinha fechado a porta por completo, então se esgueirou até a fresta aberta e olhou para fora. Não houve cliques de fechaduras nem rangidos de maçanetas que alertassem qualquer um sobre sua presença, e ele pôde satisfazer sua curiosidade a respeito de quem estava acordado e andando pela casa.

Shhhh!

Definitivamente, uma mulher pedindo silêncio.

Você tinha que levar tanta coisa?

Ele franziu o cenho. Parecia a voz de Isabella. Ele passara tanto tempo com ela nos últimos dias que devia conhecer sua voz melhor que conhecia a de Rosalie. O que Isabella fazia acordada no meio da noite? De repente Edward sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Será que tinha um amante? Com certeza Isabella não seria tola a esse ponto.

Não posso levar apenas um vestido! – disse uma segunda voz de mulher. – Quer que eu pareça uma indigente?

Hum. Talvez ele conhecesse a voz de Rosalie melhor do que pensava, porque aquela parecia muito ser a dela. Ele ficou de orelhas em pé.

Esqueça Isabella – o que será que Rosalie estava aprontando? Aonde é que ela achava que iria na noite anterior ao casamento?

Edward aproximou o rosto da fresta aberta, feliz por ser uma noite enluarada. Graças ao luar que entrava pelas janelas, ele nem sequer acendera uma vela ao sentar-se com sua bebida. Sem luzes acesas na biblioteca, não havia nenhuma indicação da presença de alguém ali. A não ser que Isabella e Rosalie fizessem questão de olhar na direção da biblioteca, não o veriam quando passassem.

Com os olhos fixos na escada, ele viu quando elas se puseram a descer, cada uma carregando uma mala grande. A única luz vinha da vela que Isabella trazia na mão livre.

Rosalie trajava roupas de viagem, e a outra, um vestido prático em alguma cor neutra que ele não conseguia discernir na penumbra. Nenhuma das duas usava o que se esperaria que uma mulher vestisse no meio da noite.

– Tem certeza de que Emmett vai estar esperando por você na entrada? – sussurrou Isabella.

Edward não ouviu a resposta de Rosalie, nem soube se ela havia respondido ou apenas assentido. O rugido em seus ouvidos bloqueou qualquer som, eliminou qualquer pensamento exceto aquele que era dolorosamente pertinente.

Rosalie estava fugindo. Saindo escondida no meio da noite horas antes de eles se encontrarem na igreja. Ela estava fugindo para se casar. Com aquele idiota do McCathy. E ele se encontrava ali sentado, tentando se conformar com um casamento que nem queria, enquanto a noiva planejava largá-lo.

Edward queria gritar. Queria socar uma parede. Queria que... Isabella. Isabella estava ajudando Rosalie. Sua raiva triplicou. Como podia fazer isso com ele? Caramba, eles eram amigos. Amigos. Ele a conhecera poucos dias antes, mas, durante esse tempo, a conhecera de verdade. Ao menos era o que pensava. Naquele momento, ele supôs que Isabella não era tão leal e verdadeira quanto imaginara.

Isabella.

Seu corpo ficou ainda mais tenso, todos os músculos se encheram de fúria. Ele achava que ela era melhor do que isso. Ela deveria saber o que estava fazendo com ele enquanto guiava Rosalie para fora da casa. Será que tinha pensado em como seria para ele na manhã seguinte, em pé no altar diante de centenas de testemunhas, à espera de uma noiva que nunca chegaria?

As duas jovens avançavam devagar em razão da dificuldade imposta pelas malas grandes. Rosalie agora arrastava a sua; obviamente não era tão forte quanto Isabella, que pelo menos conseguia levantar a dela uns cinco centímetros do chão. Edward esperava enquanto elas se aproximavam, com a mandíbula mais tensa a cada segundo, e então, assim que elas chegaram à porta da biblioteca... Ele saiu.

– Indo a algum lugar? – perguntou.

Ele se surpreendeu com o desprezo arrastado em sua voz. Tinha certeza de que as palavras sairiam como um rugido. Rosalie deu um salto para trás e Isabella soltou um gritinho, que mudou de tom quando ela derrubou a mala no próprio pé. Ele apoiou o ombro no batente da porta enquanto cruzava os braços, ciente de que precisava controlar as emoções. Uma única faísca e ele poderia explodir.

– É um pouco tarde para estarem andando por aí, não acham? – perguntou ele, com a voz suave.

As duas Swan tremiam ao encará-lo.

– Passa das duas, eu acho – murmurou ele. – É de imaginar que as jovens estariam de camisola.

– Não é o que parece – disparou Isabella.

Ele olhou para Rosalie para ver se o gato tinha devolvido sua língua, mas ela parecia apavorada demais para falar. Ótimo. Ele voltou a olhar para Isabella, já que ela era uma oponente mais digna.

– Interessante. Porque não sei ao certo o que isso parece. Talvez a senhorita possa me esclarecer.

Isabella engoliu em seco e pressionou as mãos uma contra a outra.

– Bem – falou ela, enrolando para ganhar tempo. – Bem...

– Se eu fosse um homem menos inteligente – disse ele, pensativo –, poderia pensar que parece que minha amada noiva está fugindo na noite anterior ao nosso casamento, mas então pensei comigo mesmo: "Isso não pode ser verdade. As garotas Swan jamais seriam tão tolas a ponto de tentar uma façanha dessas."

Ele conseguiu. Silenciou as duas. Isabella piscava sem parar, e ele quase conseguia ver seu cérebro por trás dos olhos buscando freneticamente algo para dizer, sem conseguir pensar em nada. Rosalie apenas parecia alguém que ficou muito tempo olhando para o sol.

– Então – continuou ele, desfrutando a situação de um jeito bastante patético e doentio –, como a senhorita obviamente não está fugindo e a senhorita – falou, virando-se para Isabella com um olhar hostil – obviamente não a está ajudando, talvez possam me dizer o que estão fazendo.

Rosalie encarou a irmã com olhos suplicantes. Isabella engoliu em seco várias vezes.

– Bem, na verdade, eu... – tentou dizer Isabella.

Ele a observava. Ela olhou nos olhos de Edward. O olhar dele se manteve firme.

– Eu... eu...

Seus olhares seguiam cruzados.

– Ela está fugindo – sussurrou Isabella, e seu olhar finalmente deslizou para o chão.

– Bella! – exclamou Rosalie, perfurando com a voz a noite silenciosa. Ela se virou para a irmã com uma expressão irritada e descrente. – Como você pôde?

– Ah, pelo amor de Deus, Rose – retrucou Isabella. – Ele já sabia.

– Talvez ele...

– Você acha que sou burro? – perguntou Edward. – Meus Deus, você ia se casar com um homem que não fosse inteligente o bastante para entender isto?

Ele sacudiu a mão no ar.

– Eu disse que isso não ia dar certo – falou Isabella à irmã, com a voz urgente e dolorosa. – Eu disse que não era certo. Eu disse que você não ia se safar.

Rosalie se virou para Edward.

– Você vai me bater?

Ele a encarou em choque. Ora essa. Agora tinha sido ela que o deixara sem palavras.

– Vai? – repetiu ela.

– É claro que não – respondeu ele. – Mas pode ter certeza de que se um dia eu viesse a bater em uma mulher, você seria a primeira da lista.

Isabella pegou o braço de Rosalie e tentou empurrá-la de volta para a escada.

– Vamos voltar – disse, apressada. Seu olhar encontrou o de Edward pelo que pareceu um segundo eterno. – Ela sente muito. Nós duas sentimos muito.

– E a senhorita acha que isso é o suficiente? – perguntou ele, autoritário.

Isabella engoliu em seco e pareceu bastante pálida, mesmo à luz bruxuleante da vela.

– Vamos nos preparar para o casamento – respondeu ela, levantando as duas malas. – Vou garantir que ela esteja na igreja na hora certa. Pode confiar em mim.

Aquilo foi a gota d'água. Pode confiar em mim. Como ela ousava dizer essas palavras?

– Esperem! – ordenou ele, interrompendo o avanço lento das duas.

Isabella se virou para ele, com o desespero no olhar.

– O que o senhor quer? – retrucou ela. – Eu disse que ela estará pronta. Eu disse que vou garantir que ela esteja na igreja na hora certa. Vou garantir também que ninguém saiba o que aconteceu esta noite e que o senhor não sofra nenhum constrangimento em razão das fraquezas de Rosalie.

– É muito generoso da sua parte – disse ele. – Porém, à luz dos últimos acontecimentos, o casamento não me parece mais tão interessante.

Rosalie ficou boquiaberta com o insulto, e ele teve de desviar o olhar de tão indignado que estava com sua reação. O que ela esperava? Então seu olhar caiu sobre Isabella, que de repente parecia incrivelmente linda à luz da vela, com o cabelo refletindo o brilho avermelhado das chamas.

– O que o senhor quer? – sussurrou ela, com os lábios tremendo ao pronunciar as palavras.

Ela estava com a mesma aparência que tinha naquele momento no patamar da escada, com os lábios entreabertos, os olhos de chocolate derretido à luz da vela. Quando ele quisera dançar com ela.


E agora... Agora que tudo tinha mudado, agora que Rosalie quase saíra pela porta, ele podia finalmente admitir que queria mais. Tinha a cabeça cheia de pensamentos carnais e sedutores, e de algo mais que não conseguia identificar.

Ele olhou para Isabella, para aqueles olhos castanhos e mágicos, e disse:

– Eu quero você.


Por um instante, ninguém falou nada. Ninguém nem respirou. Bella por fim recobrou a voz:

– O senhor está louco.

Porém, o visconde apenas pegou as duas malas de Rosalie e as levantou como se estivessem cheias de penas.

– Aonde vai com essas malas? – gritou Rosalie baixinho, se é que isso era possível, o que pelo jeito era, porque ninguém desceu a escada correndo para perguntar o que estava acontecendo ali.

Ele foi até a porta da frente e jogou as malas para fora.

– Vá! – ordenou Edward, ríspido. – Saia logo daqui.

Os olhos de Rosalie se arregalaram.

– O senhor está me deixando ir?

Ele respondeu com uma bufada impaciente enquanto voltava, então a pegou pelo braço e começou a arrastá-la em direção à porta.

– A senhorita acha mesmo que eu iria querer ir em frente com o casamento depois disso? – perguntou ele, erguendo um pouco a voz. – Agora vá!

– Mas preciso percorrer meio quilômetro até encontrar Emmett – protestou Rosalie, virando rápido a cabeça da irmã para Edward. – Bella ia me ajudar a carregar as malas.

BElla assistiu, horrorizada, quando Edward se virou para Rosalie com a expressão mais maligna que ela poderia imaginar.

– A senhorita é bem grandinha – disse ele. – Vai dar um jeito.

– Mas não consigo...

– Pelo amor de Deus, mulher! – explodiu ele. – Mande McCarthy voltar para buscá-las! Se ele a quer tanto assim, vai carregar suas malditas malas.

Então, enquanto Isabella assistia à cena, boquiaberta, ele empurrou Rosalie pela porta e a fechou com força.

– Rose – foi tudo o que ela conseguiu dizer antes que ele se virasse para ela.

– Você – disse ele.

Foi uma única palavra, mas tudo em que ela conseguiu pensar foi Graças a Deus que ele não disse mais nada. Mas...

– Espere! – exclamou ela. – Preciso me despedir de minha irmã.

– Você vai...

Ela passou por ele e correu até a porta.

– Preciso me despedir – repetiu, com a voz falhando. – Não faço ideia de quando vou vê-la de novo.

– Rogo para que não seja logo – murmurou ele.

– Eu preciso...

Ele a segurou pela cintura, mas seus braços logo cederam.

– Ah, pelo am... tudo bem – resmungou ele. – Vá. Você tem trinta segundos.

Isabella não discutiu. Ele era a parte injustiçada naquela cena terrível e, por mais que ela odiasse sua raiva, achava que ele tinha direito a ela. Mas em que ele estava pensando ao dizer que a queria? Não, ela não podia pensar nisso agora. Não quando sua irmã fugia às pressas pela escuridão da noite. Não quando a simples lembrança do rosto dele fazia com que ela estremecesse. Olhos tão verdes, tão intensos ao dizer aquilo... Eu quero você.

– Rosalie! – chamou, com óbvio desespero na voz. Ela abriu a porta com força e correu para fora como se o fogo do inferno a perseguisse. E a verdade era que ela não tinha certeza de que isso não estaria mesmo acontecendo. – Rosalie! Rose!

Rosalie estava aos soluços, sentada embaixo de uma árvore.

– O que houve?

– Não era para ser assim – disse Rosalie, virando-se para Bella com os olhos cheios de lágrimas.

– Bem, não era – concordou a morena, lançando um olhar nervoso em direção à porta. Edward tinha dito trinta segundos e ela sentia que ele falara sério. – Mas foi como aconteceu.

Contudo isso não foi consolo suficiente para Rosalie.

– Não era para ele me encontrar – protestou ela. – Era para ele ter ficado chateado.

– Isso ele com certeza ficou – respondeu Isabella.

Ela se perguntou qual seria o problema da irmã. Ela não queria se casar com Emmett? Não estava conseguindo exatamente o que desejava? Por que estava reclamando?

– Não – respondeu Rosalie, engasgando e secando o rosto com as costas da mão. – Mas era para isso tudo acontecer depois que eu fosse embora. Não era para eu ter de pensar sobre isso.

Bellla cerrou os dentes.

– Bom, é uma pena, Rosalie.

– E eu não achei que ele fosse ficar tão satisfeito por me colocar para f-f-ora!

Então Rosalie voltou a chorar.

– Levante – ordenou Isabella, puxando a irmã para que ficasse em pé.

Aquilo era demais. Havia um visconde furioso dentro de casa esperando para despedaçá-la e Rosalie estava reclamando?

– Estou farta disso tudo! – declarou ela, fervendo de raiva. – Se você não queria se casar com o visconde, não deveria ter aceitado.

– Eu já disse por que aceitei! Fiz isso por você e pela Ingrid e pela Rosamund. Ele prometeu dotes para vocês.

Rosalie tinha alguma razão, mas, por mais que Isabella reconhecesse o sacrifício que ela quase fizera, não estava disposta a oferecer elogios naquele momento.

– Bem, se ia fugir, deveria ter feito isso há semanas.

– Mas o banco...

– Pouco me importam as finanças do Emmett – retrucou Bella. – Você tem se comportado como uma criança.

– Não fale assim comigo! – gritou Rosalie, endireitando os ombros. – Sou mais velha que você!

– Então aja como mais velha!

– É o que vou fazer!

E, com isso, Rosalie ergueu as duas malas e começou a se afastar. Ela deu cerca de oito passos, então as soltou.

– Ah, mas que inferno. O que foi que eu pus aqui? – perguntou, colocando as mãos no quadril enquanto olhava para as malas transgressoras.

De repente Bella começou a rir.

– Eu não sei – disse, sem conseguir segurar o riso, balançando a cabeça.

Rosalie olhou para ela com a expressão suave.

– Eu provavelmente preciso de mais de um vestido.

– Provavelmente.

Rosalie olhou para as malas e soltou um suspiro.

– Emmett vai carregá-las para você – garantiu Bella.

Rosalie se virou e fitou os olhos da irmã.

– É, ele vai – concordou, então sorriu. – É bom que carregue.

Bella levantou a mão para se despedir.

– Seja feliz.

Nesse momento, Rose avistou Edward, que tinha saído pela porta da frente e vinha, decidido, na direção delas.

– Cuidado – alertou ela, temerosa. E correu noite adentro.

Bella viu a irmã desaparecer na estrada e respirou fundo, reunindo forças para a batalha que viria. Ela ouvia Edward se aproximar; os passos dele soavam fortes e pesados na noite silenciosa. Assim que ela se virou, ele estava bem ao seu lado, tão perto que ela prendeu a respiração.

– Para dentro – disse ele, fazendo um gesto de cabeça em direção à casa.

– Isso não pode esperar até de manhã? – perguntou ela.

– Creio que não – respondeu ele em tom ameaçador.

– Mas...

– Agora. Por favor. – grunhiu Edward e a pegou pelo braço.

Surpreendentemente, apesar de estar puxando Bella para dentro da casa, o toque de Edward era suave. Ela se viu seguindo-o aos tropeços em um ritmo apressado para acompanhar seus passos largos. De repente ela se descobriu na biblioteca do pai, com a porta bem fechada.

– Sente-se – disse, apontando na direção de uma cadeira.

Ela juntou as mãos.

– Prefiro ficar em pé, se não se importar.

– Sente-se.

Insistir seria travar uma batalha em vão, uma vez que a guerra se aproximava de qualquer modo. Por um instante ele não fez mais do que encará-la e Bella desejou que ele abrisse logo a boca e gritasse. Qualquer coisa seria melhor que o desdém mudo com o qual a fitava. O luar iluminava o verde cristalino dos olhos dele, e ela se sentiu perfurada por seu olhar.

– Milorde? – falou ela por fim, desejando mais que tudo quebrar o silêncio.

Isso pareceu despertá-lo.

– A senhorita tem alguma ideia do que fez? – instou ele.

A voz dele saiu suave e, estranhamente, foi pior do que um grito. Bella não respondeu. Não achou que ele quisesse mesmo uma resposta, o que se comprovou menos de três segundos depois.

– Ainda planejava vestir sua fantasia de dama de honra? – prosseguiu ele. – Sentar-se no banco da frente enquanto eu esperasse Rosalie no altar?

Ela recuou ao ver a expressão no rosto dele. Ele parecia furioso, mas também... abalado. E tentava com todas as suas forças esconder isso.

– Eu ia contar ao senhor – sussurrou ela. – Eu juro sobre o túmulo de...

– Ah, me poupe do drama – retrucou ele.

Edward começou a andar de um lado para outro com tanta energia que Bella quase esperou que as paredes se afastassem por respeito a ele.

– Eu ia contar – insistiu ela. – Logo que Rosalie estivesse em segurança, eu ia procurá-lo e contar tudo.

Os olhos dele brilharam.

– A senhorita planejava ir até o meu quarto? – indagou ele.

– Bem... o senhor estava aqui na biblioteca – retrucou ela para se esquivar.

– Mas a senhorita não sabia disso.

– Não – admitiu ela. – Mas...

Ela engoliu o restante das palavras. Ele tinha percorrido o espaço entre eles em menos de um segundo e suas mãos agora estavam plantadas nos braços da cadeira dela. Seu rosto estava bem próximo.

– A senhorita planejava ir até o meu quarto – repetiu ele. – Que interessante teria sido isso.

Bella ficou calada.

– A senhorita teria me acordado? – sussurrou ele, olhando dentro de sua alma. – Teria me tocado para isso?

Ela olhou para as próprias mãos, que tremiam.

– Ou talvez – disse ele, aproximando-se ainda mais, até ela sentir sua respiração – fosse me acordar com um beijo.

– Pare – pediu ela em voz baixa. – Isso não é digno do senhor.

Ao ouvir essas palavras, ele recuou.

– Não sei se está em posição de criticar o caráter alheio, Srta. Swan.

– Eu fiz o que achava certo – rebateu ela, segurando com firmeza na cadeira.

– A senhorita achou isso certo? – perguntou Edward, com o desgosto evidente em cada sílaba.

– Bem, talvez não certo – admitiu ela. – Mas era melhor.

Melhor? – ecoou ele e quase cuspiu a palavra. – É melhor humilhar um homem diante de centenas de pessoas? É melhor fugir no meio da noite do que encarar...

– O que queria que eu fizesse? – retrucou ela.

Edward ficou em silêncio por um bom tempo, então, tentando recuperar o controle de suas emoções, foi até a janela e se apoiou no parapeito.

– Não há nada neste mundo que eu valorize mais que a lealdade – disse ele, com a voz grave e séria.

– Nem eu.

Os dedos dele se agarraram à madeira com tanta força que as pontas ficaram esbranquiçadas.

– Verdade? – indagou ele, sem confiar em si mesmo a ponto de se virar e olhar para ela. – Então como explica isso?

– Não entendo o que quer dizer.

– A senhorita me traiu.

Silêncio.

– Como é?!

Ele se virou tão rápido que ela recuou de encontro ao encosto da cadeira.

– A senhorita me traiu. Como pôde fazer algo assim?

– Eu estava ajudando minha irmã!

Suas palavras reverberaram pelo cômodo e, por um instante, ele mal conseguiu se mexer. Ela estava ajudando a irmã. É claro, ele pensou, quase sem emoção. Por que ele esperaria que ela não fizesse isso? Certa vez, cavalgara a toda a velocidade de Oxford até Londres só para evitar que a irmã se comprometesse com um casamento apressado. Ele, de todas as pessoas, tinha de entender a lealdade entre irmãos.

– Sinto muito pelo que fizemos com o senhor – continuou Bella, com a voz suave e quase digna na escuridão. – Mas Rosalie é minha irmã. Eu quero que ela seja feliz.

Por que ele achava que Isabella teria de ser fiel primeiro a ele? Por que teria sequer sonhado que ela consideraria sua amizade mais importante que o laço de sangue com a irmã?

– Eu ia contar ao senhor – continuou ela. Pelo barulho, Edward percebeu que ela se levantava. – Eu jamais permitiria que ficasse esperando em vão na igreja. Mas... mas...

– Mas o quê? – perguntou ele, com a voz rouca.

Ele se virou. Não sabia por que de repente era tão importante ver o rosto dela; era quase como se um ímã o atraísse. Ele precisava ver seus olhos, saber o que havia em seu coração, em sua alma.

– O senhor não era a pessoa certa – disse ela. – Não que isso justifique o comportamento de Rosalie, ou mesmo o meu, imagino, mas ela não seria uma esposa muito boa para o senhor.

Ele assentiu e tudo começou a se encaixar. Algo se pôs a borbulhar dentro dele, algo suave e delicioso, quase eufórico.

– Eu sei – falou ele, aproximando-se para poder inalar o cheiro dela. – E é por isso que agora vou me casar com a senhorita.


êeeeeeeita lasqueira, agora engrena? 23h40. Ainda é domingo! Até quarta, queridas :)