Capítulo 1
Somewhere over the rainbow way up high
(Em algum lugar além do arco-íris, bem lá em cima)
There's a land that I heard of once in a lullaby
(Há um lugar do qual ouvi falar uma vez numa canção de ninar)
As coisas entre Manny e Molly ficavam cada vez mais complicadas. Ele se sentia cada vez mais distante dela, não conseguindo entender o que ela queria e sentia. Era como se estivesse falhando como pai, justamente no momento em que sua filha mais precisava dele; e não tinha ideia do que fazer para consertar as coisas.
Depois do conflito que tiveram na noite anterior quando Molly se sentara com ele na sala para assistir televisão, ao amanhecer a menina seguira para o piano e, desde então, tocava incessantemente o pequeno trecho que sua mãe lhe ensinara. Manny tentara conversar com ela ou fazer com que saísse do piano para comer, mas Molly simplesmente o ignorava e mantinha os olhos fixos na foto da mãe que jazia sobre o piano, enquanto repetia as sete notas que aprendera. Quando Corina chegou, Molly nem sequer a relanceou ou pareceu perceber sua presença.
— Sinto que devia ficar — Manny comentou analisando sua filha com um olhar preocupado —, mas não posso me atrasar hoje. Tenho uma reunião importante. O 'senhor Cabeça de Batata' estará lá hoje e não posso faltar.
— O 'senhor Cabeça de Batata'? — Corina questionou parecendo impressionada. — Então, você não pode faltar mesmo. É melhor ir. — Manny assentiu e saiu após se despedir de Molly, mais uma vez sem qualquer resposta.
Após ter certeza de que ele realmente se fora, Corina aproximou-se de Molly e sentou-se ao lado dela no piano para, em seguida, acompanhá-la na música. A menina a fitou impressionada e com lágrimas nos olhos. Era a primeira vez que alguém a acompanhava naquela música além de sua mãe.
Manny, que ainda estava caminhando até o carro se virou para observar a cena também. Não imaginara que uma criada soubesse tocar piano e ficou impressionado com isso, mas o que mais o impressionava era como Corina parecia entender Molly. Sentindo-se mais tranquilo em deixar sua filha em sua companhia, ele seguiu para o trabalho pensativo.
Somewhere over the rainbow skies are blue
(Em algum lugar além do arco-íris o céu é azul)
And the dreams that you dare to dream really do come true
(E os sonhos que você ousa sonhar realmente se tornam realidade)
Naquele mesmo dia quando retornou para casa e ouviu a voz de sua filha depois de tanto tempo, Manny sentiu um arrepio percorrê-lo. Um dia que se iniciara de maneira tão preocupante, se encerrava com um sonho realizado; e ele sabia que devia muito disso a Corina.
Enquanto abraçava sua filha fitou a empregada e a agradeceu com os olhos. Ela sorriu para ele em retorno, aparentemente, entendendo o que queria dizer. Palavras não poderiam descrever aquele momento, então quando Molly insistiu para que Corina jantasse com eles, Manny percebeu que esta poderia ser uma parca tentativa de demonstrar o quanto se sentia agradecido.
Corina aceitou ficar e ele puxou a cadeira para que se sentasse, acreditando que aquele jantar seria um momento de conversas triviais e sem importância, porém logo percebeu como estava errado ao ouvir Corina falar sobre o compositor francês que escutavam. Mais uma vez ficou impressionado. Conhecia muitas pessoas influentes no mundo da música, no entanto, não se lembrava de já ter escutado nenhuma delas falar com tanta propriedade sobre o assunto.
Ficava cada vez mais evidente que Corina não era uma simples empregada. Ela era uma mulher inteligente e com uma sensibilidade incrível, sem mencionar a clareza com que conseguia se expressar. Havia algo de muito especial nela.
— Corina pode dormir aqui hoje? — Molly perguntou de repente fazendo-os rir.
— Não, querida. O marido dela deve estar esperando, Mol — respondeu Manny ainda rindo.
— Mas ele também morreu, pai — disse a menina, deixando Corina constrangida.
— Eu não sabia. Sinto muito — Manny falou voltando a ficar sério.
— Tudo bem. Já faz algum tempo.
— Ele morreu da mesma forma que a minha mãe? — Molly questionou trazendo um clima levemente pesado ao ambiente que antes estivera descontraído.
— Não, Molly — Corina explicou consternada. — Na verdade, ele saiu pra comprar cigarros e não voltou mais. — A mão de Corina resvalou numa jarra de água que caiu no chão e depois disso ela decidiu que era melhor dar aquela noite por encerrada.
Após a saída de Corina, Molly e Manny continuaram seu jantar, contudo, a conversa que haviam tido com Corina permanecia nos pensamentos dele. Ela também era viúva. Talvez fosse por isso que conseguia entender Molly tão bem e sabia como ajudá-la.
Manny refletiu sobre o assunto pelo resto da noite, e acabou chegando à conclusão de que a compreensão e empatia que Corina demonstrava não parecia ser algo que surgira apenas após a partida de seu marido. Ele acreditava que isso era algo inerente a ela, e isso por si só dizia muito sobre uma pessoa. Era difícil encontrar esse tipo de altruísmo.
Someday I'll wish upon a star
(Um dia farei um desejo à uma estrela)
And wake up where the clouds are far behind me
(E acordarei onde as nuvens estarão muito atrás de mim)
Manny conheceu Jenny na primeira vez em que deixou Molly com Corina num domingo para ir a uma festa. E neste dia quase tivera um desentendimento com seu melhor amigo.
Todos achavam que entendiam o que se passava em seu coração e queriam que superasse a perda de sua esposa num piscar de olhos, mas não era assim que as coisas funcionavam. Isso sem mencionar que não sentira qualquer tipo de química com relação a Jenny. Praticamente o coagiram a levá-la em casa, como se estivessem no colégio, e Manny podia notar a expectativa que ela tinha com relação a ele, no entanto, já podia afirmar sem sombras de dúvidas que não havia possibilidades para um relacionamento amoroso. Havia muito mais afinidade entre Corina e ele do que ele jamais poderia pensar em sentir por Jenny; e os anos de casamento o fizeram perceber que afinidade era algo muito importante para que um relacionamento desse certo.
Após deixar Jenny em casa, Manny seguiu para a sua própria imaginando que Corina e Molly já estivessem de volta. De manhã ele dera algum dinheiro a Corina para que ela e Molly pudessem fazer algo divertido, já que ele teoricamente faria o mesmo. Contudo, se divertir era a última coisa que ele tinha feito naquele dia.
— Pai! — gritou Molly correndo até ele ao vê-lo atravessar a porta.
— Mol! — ele a segurou no colo e a rodopiou no ar rindo. — O que fizeram hoje? Se divertiram?
— Corina me levou pra ouvir música e eu gostei muito — falou animada. — Ela está me ensinando a letra.
— Qual é a música? — ele perguntou à Corina interessado.
— Over de Rainbow, interpretada pela Jevetta Steele. Essa é uma das minhas versões favoritas — ela explicou. — Tenho o disco e falei pra Molly que vou trazer amanhã pra gente treinar.
— Ótimo. Assim posso ouvir também. Não conheço esta versão — Manny falou e a seguir eles enveredaram a falar sobre as músicas que faziam sucesso no momento e quais eram suas versões favoritas.
O resto da tarde se passou tão rápido que quando perceberam já estava escurecendo e Corina precisava ir. Manny sentia-se muito mais relaxado após conversar com ela, e quando fora dormir o almoço daquele dia já havia sido esquecido. A única coisa em que conseguia pensar era sobre as músicas que ele e Corina gostavam. Tinham muito em comum.
Where troubles melt like lemon drops away above the chimney tops
(Onde problemas se dissolvem como balas de limão, longe, acima do topo das chaminés)
That's where you'll find me
(É onde você vai me encontrar)
No dia seguinte eles ouviram o disco que Corina trouxera e Manny adorou a voz da cantora. Tinha que concordar com Corina que aquela era uma das melhores versões que já escutara para aquela música. Estava prestes a dizer isso quando Molly se pronunciou:
— Por que você não dança com a Corina, pai?
Manny ficou surpreso com a sugestão e fitou a empregada para ver o que ela achava da ideia. Corina parecia um pouco sem graça, contudo, não parecia que se recusaria a dançar com ele caso a convidasse. Sendo assim, Manny se levantou e estendeu a mão para ela fazendo uma mesura.
— Me concede esta dança? — perguntou com um pequeno sorriso e Corina segurou a mão dele ainda um pouco receosa.
— Já faz um tempo desde que fiz isso pela última vez — ela comentou levantando-se.
Manny a puxou para perto de si e a enlaçou pela cintura enquanto começava a guiá-la no ritmo da música.
— Dançar é como andar de bicicleta. Não dá pra esquecer depois que se aprende — sussurrou perto do ouvido dela.
E durante os minutos que aquela música durou, ambos se perderam no momento que compartilhavam; e Molly apenas os observava sorrindo enquanto várias ideias surgiam em sua cabeça.
Somewhere over the rainbow blue birds fly
(Em algum lugar além do arco-íris pássaros azuis voam)
Birds fly over the rainbow-Why then Oh why can't I?
(Pássaros voam além do arco-íris, então, por que e não posso?)
Cerca de um mês depois, Manny teve um péssimo dia no trabalho e não estava sabendo como lidar com isso. Evidentemente todos entendiam que ele havia perdido sua esposa há alguns meses, porém nenhum deles tinha ideia de como isso afetava seu lado criativo. Ele tinha que criar um jingle para uma conta importante, porém não estava conseguindo desenvolver a música; e a pressão com relação a isso apenas aumentava.
Para completar, seus cigarros acabaram e, ao chegar em casa, não encontrou nenhum. Corina e ele quase acabaram discutindo por conta disso e ele já começava a se sentir culpado, pois sabia que estava descontando suas frustações numa pessoa que não merecia.
Ele estava prestes a se desculpar quando ouviu Molly gritando. Manny correu para o quarto e logo percebeu que ela estava tendo um pesadelo. Ele se sentou ao lado dela e tentou acordá-la com delicadeza, embora fosse difícil naquelas circunstâncias e, antes mesmo de entender o que estava acontecendo ou de ser capaz de consolá-la, recebeu inúmeras acusações de sua filha. Manny entendia que ela estava reagindo ao sonho ruim que tivera, mas ouvi-la dizer que ele poderia ter impedido sua mãe de partir e mesmo assim permanecera inerte, o abalava de uma forma sombria.
Refletira inúmeras vezes sobre as circunstâncias da morte de sua esposa e, na maioria das vezes, tinha a compreensão de que não poderia ter feito nada; ainda assim, havia aquelas vezes em que se culpava e ouvir Molly proferindo aquelas palavras não ajudava a aliviar a culpa que sentia.
— Molly! — Corina a chamou segurando-a pelos ombros e intervindo na situação. — Você precisa se acalmar. — A menina a fitou com os olhos transbordando de lágrimas e com uma expressão transtornada.
— Eu estou tão... tão...
— Você está tão irritada. E você tem esse direito, mas não é culpa do seu pai — as palavras de Corina tiraram um peso do coração de Manny.
— Molly, eu também estou irritado — ele disse com convicção. — Estou irritado porque sua mãe se foi e eu não posso trazê-la de volta pra você. Estou irritado porque quero falar com sua mãe todos os dias e não posso.
— Estou irritada porque ela nem se despediu... — murmurou a menina chorando e Corina acariciou o rosto dela.
— Eu também estou irritada! — ela afirmou. — Estou irritada porque ela fez isso com vocês e por não se despedir. Estou muito irritada — falou batendo em um dos brinquedos de Molly. Um boneco João Bobo que caía a cada golpe dela e logo se reerguia. — Você tem o direito de estar irritada, Molly. Venha aqui e fique irritada.
Logo os três acertavam o brinquedo extravasando sua raiva e frustações e, quando acabaram, sentiam-se muito mais aliviados.
Naquela noite Manny a convidou para ficar para o jantar mais uma vez e ela aceitou. Como sempre, ele escolheu uma música para embalar o momento.
— É "Piece Peace", não é? — Corina perguntou assim que as primeiras notas da música soaram e Manny assentiu. De certa forma já sabia que ela conheceria a música. — Essa música é mágica.
A seguir ela segurou a travessa de cristal sobre a mesa e a fitou com maravilhamento enquanto a refração da luz criava pequenos arco-íris nas paredes. A seguir retratou aquele momento numa frase que fora escrita por ela mesma, alheia a qualquer coisa além da música que os cercava.
Olhando para Corina, enquanto se deixava encantar pela música, Manny finalmente entendeu que a mulher a sua frente é que era magia pura.
Somewhere over the rainbow blue birds fly
(Em algum lugar além do arco-íris pássaros azuis voam)
Birds fly over the rainbow-Why then Oh why can't I?
(Pássaros voam além do arco-íris, então, por que e não posso?)
— Eu não tenho nem por onde começar a te agradecer, Corina — Manny disse ao acompanhá-la até a porta depois do jantar.
— Não precisa...
— Nem se atreva a dizer isso — falou interrompendo-a. — É claro que precisa. Você sempre sabe o que dizer por mais terrível que seja a situação, como aconteceu hoje à noite. O que você fez por Molly... E por mim também... Não tenho palavras pra expressar, mas sou muito grato a você.
Corina deu um pequeno sorriso e assentiu sentindo-se um pouco envergonhada.
— Fico feliz em ter ajudado, senhor Singer — ela respondeu preparando-se para se afastar, porém Manny a impediu ao segurar seu braço.
— Manny. Pode me chamar de Manny — disse sem soltar o braço dela; e um momento de silêncio se seguiu enquanto eles apenas se encaravam.
Aquela troca de olhares, por mais curta que tenha sido, significara muito para ambos e falava mais alto do que quaisquer palavras.
— Até amanhã, Manny — Corina falou ao recuperar um pouco de sua presença de espírito.
— Até amanhã, Corina — Manny respondeu finalmente libertando-a e a observando se afastar de sua casa. Enquanto acompanhava seu trajeto pela calçada até o ponto de ônibus, ele percebia como estava perdido, pois se deu conta que, pouco a pouco, sentia-se cada vez mais atraído por sua empregada.
If happy little blue birds fly beyond the rainbow
(Se pequenos pássaros felizes voam além do arco-íris)
Why Oh why can't I?
(Por que, oh, por que eu não posso?)
[Over The Rainbow – Jevetta Steele]
Início e Término: 04/06/2020.
