Capítulo 2
You go to my head
(Você entra na minha cabeça)
And you linger like a haunting refrain
(E permanece como um refrão que assombra)
Já fazia algum tempo que toda vez que sua música favorita tocava, Manny vislumbrava Corina em sua mente. Assim como a letra da música, era como se ela o assombrasse e não cedesse espaço para qualquer outra mulher. E mesmo que ele conseguisse pensar em outra, sabia que não havia como compará-la a ninguém. Corina era única.
Mais uma vez ele tivera que pedir que ela ficasse com Molly até mais tarde para comparecer à uma confraternização do trabalho e, ao contrário do que se esperava de um homem viúvo há mais de seis meses, ele não buscava nenhuma companhia feminina no local. Tudo em que conseguia pensar era porque não a convidara para acompanhá-lo. Aquela reunião seria muito melhor se ela estivesse ao seu lado.
— Manny! Estive te procurando a noite toda — Jenny disse aproximando-se e ele sentiu um calafrio percorrê-lo.
Sabia muito bem qual era o intuito dela em buscá-lo naquela festa e sabia o que todos esperavam que ele fizesse, contudo, não sentia nenhuma vontade de dar prosseguimento àquela aproximação que Jenny forçava toda vez que se encontravam.
— Olá, Jenny — ele falou cumprimentando-a com um beijo no rosto, como era de praxe. — Como tem passado?
— Bem. Estou ótima — ela respondeu demorando o máximo de tempo possível para afastar seus rostos. — E você? E a Molly? Ainda estou esperando que a leve para brincar com as crianças.
— Estamos bem, na medida do possível — Manny disse afastando-se um passo dela e dando um gole em sua bebida. — Vou levá-la à sua casa qualquer dia desses. O problema é que, ultimamente, as coisas têm sido bem corridas pra mim.
— Imagino... Nós também podemos marcar algo na sua casa se preferir. Ou um jantar para nós dois, caso esteja precisando conversar com alguém.
Manny engoliu em seco e Corina, mais uma vez, voltou à sua mente. Era evidente que não tinham nenhum envolvimento desse tipo, afinal, romantismo ou qualquer tipo de interesse amoroso nunca haviam sido mencionados entre eles; portanto, sair com Jenny poderia servir como uma boa oportunidade de afastar aquela obsessão de sua cabeça. Então, por que sentia que estava traindo Corina e a confiança e amizade que havia entre eles ao cogitar aquela ideia?
— Acho melhor não, Jenny — ele respondeu tentando soar o mais gentil possível. — Acho que no momento tudo em que consigo pensar é em cuidar de Molly. Eu não seria uma boa companhia.
Jenny voltou a se aproximar dele e segurou seu braço, fazendo com que ele caminhasse um pouco a seu lado.
— Você também precisa pensar um pouco em si mesmo, Manny — Jenny ponderou guiando-o a um ponto mais asfastado do jardim. — Talvez se Molly tivesse uma madrasta, alguém que pudesse cuidar dela e ajudá-la a superar esta perda terrível, as coisas seriam mais fáceis pra você e pra ela — concluiu sorrindo e olhando para ele de maneira sugestiva.
Apenas neste momento, Manny olhou ao redor e percebeu como estavam isolados e, sem que esperasse, Jenny começou a aproximar seu rosto do dele e fechou os olhos, deixando Manny ainda mais nervoso. Não estava preparado para isso. Não havia para onde fugir. Quanto mais Jenny se aproximava, mais ele tentava encontrar um meio de escapar e, ao tentar libertar seu braço, acabou derramando o resto de sua bebida na saia do vestido dela.
— Ah! Me desculpe — falou alarmado, afastando-se ainda mais. — Realmente sinto muito. Vou procurar alguém que possa te ajudar a limpar seu vestido.
E assim ele saiu caminhando para longe de Jenny, ignorando os argumentos dela que dizia que não tinha sido nada demais. Ele não voltaria. Lamentava muito pelo ocorrido, mas sua cabeça não estava ali e, antes que acabasse cometendo algo de que se arrependeria, decidiu que iria para casa. Era lá onde queria estar.
And I find you spin'n round in my brain
(E eu a encontro dando voltas em meu cérebro)
Like a bubble in a glass of champagne
(Como uma bolha numa taça de champanhe)
Ao chegar em casa encontrou Molly ainda acordada, assistindo televisão com Corina. As duas pareciam se divertir muito com o programa que passava e com suas brincadeiras.
— Estavam me esperando? — perguntou dando um beijo na testa de Molly e sentando-se ao lado de Corina, que ocupava o meio do sofá. As pernas e os braços deles se tocavam totalmente, e isso fez com que Manny se sentisse ainda mais atormentado pela atração que sentia por ela.
— Não — respondeu Corina confusa. — Ao menos não tão cedo. Pensei que fosse chegar bem mais tarde.
— Digamos que a companhia lá não era tão agradável quanto a daqui — ele respondeu encarando-a sério e Corina sentiu o calor subir por suas bochechas.
A maneira como ele a encarava a deixava um pouco envergonhada, o que a fez se tornar muito mais consciente de quão próximos estavam naquele momento.
— Bem, eu... acho que talvez seja melhor eu ir embora, então, afinal você já está de volta — ela comentou desviando seus olhos dos dele. — E Molly precisa ir pra cama.
— Ah, não — Molly resmungou externando o que Manny queria dizer, mas não tinha coragem. — Você disse que íamos ver o filme que vai passar, Corina.
— Você pode ver com o seu pai, Molly — ela respondeu sorrindo para a menina, porém Molly não se deixaria enganar com aquele sorriso.
— Ou podemos ver os três juntos — a menina falou animada e um sorriso brotou no rosto de Manny.
— Eu concordo — ele se pronunciou também animado. A convicção com que sua filha se expressava lhe deu a coragem necessária para dizer o que pensava. — Acho que esta seria uma ótima maneira de encerrar o dia. E eu posso te levar em casa quando o filme acabar.
Corina voltou a olhar para ele, desta vez com incredulidade.
— Parece que temos um complô aqui — ela resmungou com um leve tom de reprimenda, embora eles pudessem notar que era de brincadeira. — Se é isso que realmente querem...
— É o que eu quero — ele confirmou, novamente surpreendendo-a com o olhar que lhe lançava.
— Então eu fico — ela concluiu e quase foi sufocada por Molly que a abraçou e beijou inúmeras vezes, arrancando muitas gargalhadas da empregada; enquanto Manny apenas podia observar aquela cena e sentir inveja de sua filha por poder tocar Corina daquela maneira.
You go to my head
(Você entra na minha cabeça)
Like a sip of sparkling burgandy brew
(Como um gole de cerveja Borgonha espumante)
— Ainda faltam alguns minutos pro filme começar, então vou preparar alguns sanduíches pra gente — Corina falou se levantando e seguindo para a cozinha. Cerca de dois minutos depois, Manny a seguiu.
— Precisa de ajuda? — ele perguntou aproximando-se dela e parando ao seu lado, muito mais perto do que seria adequado.
— Não — ela respondeu indicando os itens que utilizaria sobre a mesa. — Sei que sou uma péssima cozinheira, mas é quase impossível que algo dê errado no preparo de sanduíches — explicou rindo e Manny a acompanhou.
— Não te acho uma péssima cozinheira — ele replicou tentando pegar um pedaço de queijo das mãos dela.
— Ei! — ela resmungou dando um pequeno tapa na mão dele. — Não seja tão apressado. Não te alimentaram naquela festa?
A menção da festa fez com que o ar de diversão sumisse do rosto de Manny.
— Nem me lembre dessa festa — murmurou tirando sua gravata e o paletó, e pendurou-os nas costas da cadeira antes de abrir alguns botões de sua camisa e começar a dobrar as mangas até os cotovelos.
— Por quê? Aconteceu alguma coisa? — ela indagou observando os movimentos dele com preocupação. Manny parecia mais cansado do que o normal.
— Nada de grave, na verdade, mas... É como se todos que conheço, de certa forma, me pressionassem a fazer algo que não quero, e isso está me atormentando. Acho que não podem ver um homem sozinho sem tentar obrigá-lo a arrumar um novo relacionamento. Não sei... — Manny se sentou à mesa e fitou o chão. — Não sei se estou errado ou se Jenny não é a mulher certa, mas não é isso o que quero pra mim. Você entende?
Corina assentiu.
— Duvido que seus amigos sejam tão insistentes quanto minha irmã — ela respondeu com um pequeno sorriso, continuando a preparar os sanduíches e tentando esconder o sentimento de tristeza que a ideia de Manny se casar com outra mulher trazia a ela. — Ela acha que devo dar uma chance para o nosso vizinho, Anthony, mas eu não sinto que devo fazer isso. Não me entenda mal. Ele é um bom homem, mas é como você disse, acho que não é o que quero pra mim.
A menção a esse vizinho causou raiva e ciúmes em Manny. Quem seria esse sujeito que tentava se aproximar de Corina?
— Bem, as pessoas têm que entender que esse é o tipo de coisa que não podem forçar umas às outras — ele falou com o cenho franzido, tentando controlar sua irritação. — Se você não quer sair com seu vizinho, não deve se sentir obrigada.
— Pra você é fácil falar — ela comentou rindo. — A qualquer momento pode simplesmente escolher alguma mulher de seu interesse e se aproximar dela. No meu caso, é muito diferente. Vivo na casa da minha irmã, de favor. Ela nunca me falou nada sobre querer que eu vá embora, mas é evidente que todos esperam que eu siga em frente já que meu marido partiu há mais de um ano. E não é como se eu tivesse uma grande seleção de pretendentes. Não sou mais uma menina que tem o direito de sonhar com um príncipe encantado e esperar por um novo amor que vai me fazer perder a cabeça. Isso provavelmente nunca vai acontecer.
— Acho que pode acontecer, sim, Corina. Não acredito que aja um limite de idade pra essas coisas — ele disse com tamanha convicção que ela foi obrigada a encará-lo.
Manny parecia prestes a dizer mais alguma coisa, mas ao ouvirem a televisão anunciar que o filme começaria em dez minutos, a atenção deles se voltou para isso.
— É melhor irmos pra sala, se não quisermos perder o filme — ela falou pegando a bandeja que prepara com sanduíches e um copo de suco para cada.
— Claro — ele concordou levantando-se e a acompanhando à sala, se repreendendo por quase ter se declarado naquele momento. Precisa tentar se controlar, caso não quisesse assustá-la.
And I find the very mention of you
(E acho a simples menção a você)
Like the kicker in a julep or two
(Igual ao efeito de um drinque julep ou dois)
Quando chegaram à sala encontraram Molly dormindo encolhida no sofá e Manny sorriu antes de pegá-la no colo e levá-la para o quarto.
— Já que a Molly está dormindo, é melhor eu ir pra casa — Corina falou quando ele voltou para a sala.
Ela colocara a bandeja sobre a mesa de centro e parecia apenas esperar pelo retorno dele para ir embora.
— O quê? Por quê? — ele questionou parando na frente dela. — Pensei que fossemos ver o filme.
— Foi a Molly quem insistiu nisso e...
— Eu quero ver o filme com você, Corina — Manny disse corando levemente. — A menos que prefira voltar pra casa agora, eu gostaria muito que ficasse.
— Eu... — Corina deu um passo para trás e Manny um passo à frente. — Não sei se... — Neste momento o telefone tocou e Corina foi atendê-lo rapidamente. — Alô. Oi, Jevina. Que horas eu vou pra casa? Eu... — Corina olhou para Manny em dúvida do que deveria responder.
Sua irmã achava que ela estava sendo muito benevolente em realizar todas as vontades de Manny ao passar do horário de seu serviço, mesmo que ele lhe pagasse as horas extras. Era óbvio que ela havia notado que Corina estava mais envolvida por seu patrão do que estava disposta a admitir, e era evidente que não concordava com isso, pois acreditava que aquela história poderia acabar muito mal para sua irmã.
O problema é que Corina não queria se afastar de Manny e a maneira como ele a fitava naquele momento, quase implorando para que ficasse, não facilitava as coisas.
— Eu não sei. Vai depender da hora que o senhor Singer chegar em casa, Jevina. Você sabe disso — ela explicou fitando seus próprios pés. — De qualquer forma, ele disse que vai me levar pra casa, então não se preocupe comigo, ok? Certo. Até amanhã.
Ouvi-la se despedir da irmã com um "até amanhã", fazia com que várias ideias percorressem a mente de Manny. Era como se Corina estivesse dizendo a irmã que passaria a noite ali e não que chegaria tão tarde em casa que se encontrariam apenas pela manhã; e aquela possibilidade fazia seu coração disparar.
— Você vai ficar comigo — ele constatou o óbvio sorrindo de maneira convencida.
— Vou ficar pra ver o filme — ela respondeu mostrando a língua para ele e sentando-se em uma das pontas do sofá, imaginando que Manny se sentaria na outra ponta. Não foi isso que aconteceu.
— Não é tudo a mesma coisa? — ele questionou sem deixar de sorrir, sentando-se ao lado dela, de forma que não havia como Corina se afastar sem que isso parece estranho. Era como se quisesse prendê-la para que não escapasse dele.
Oh, the thrill of the thought
(Oh, a emoção da ideia)
That you might give a thought to my plea
(Que você possa considerar meu apelo)
Cast a spell over me
(Lança um feitiço sobre mim)
— Você está me imprensando aqui, Manny — Corina reclamou empurrando-o e Manny riu afastando-se minimamente. — Ainda tem bastante espaço pra lá — ela disse envergonhada em admitir, até para si mesma, o quanto gostava de senti-lo tão perto de si.
— É que eu gosto daqui — ele falou como se tentasse pensar numa solução enquanto os créditos iniciais do filme passavam. — Talvez se eu ficar assim, seja melhor para nós dois — comentou levantando o braço e apoiando-o nas costas do sofá, atrás de Corina, o que só serviu para aumentar a proximidade entre eles.
Corina o encarou chocada e Manny teve receio de que tivesse ultrapassado os limites, mas, por fim, ela apenas sacudiu a cabeça e se acomodou melhor de forma que se apoiava levemente contra o peito dele. Isso só serviu para deixar Manny ainda mais satisfeito e ansioso. Beijar Jenny lhe parecera algo inconcebível alguns minutos atrás, mas a ideia de beijar Corina fazia seu coração disparar em antecipação.
Eles passaram alguns minutos assistindo ao filme tranquilamente, enquanto comiam os sanduíches e bebiam o suco. Em alguns momentos teciam comentários a respeito da história e, na maioria das vezes, suas opiniões eram semelhantes.
Quando o filme já estava mais ou menos na metade, Manny, discretamente, abraçou Corina pelos ombros e, como se fosse algo natural, ela deitou a cabeça no ombro dele que, por sua vez, encostou seu rosto na cabeça dela e sentiu o cheiro bom que vinha de seus cabelos. Mesmo que Corina tivesse dito que não tinha mais idade para sonhar com príncipes encantados, era como se estivessem tendo seu primeiro encontro e ambos tivessem receio de estragar as coisas.
Manny acariciou o ombro de Corina suavemente e percebeu que ela se arrepiou com o contato.
— Está com frio? — ele perguntou com os lábios bem próximos da testa dela e Corina ergueu levemente a cabeça para encará-lo.
— Não. Estou bem. Foi só um calafrio mesmo. Não precisa se preocupar...
Os rostos deles estavam a apenas alguns centímetros um do outro e foi impossível para Manny resistir a urgência que seu corpo sentia de beijá-la. Ele colou seus lábios e a trouxe para mais perto de si e, quando foi correspondido, aprofundou o beijo.
Still I say to myself, get a hold of yourself
(Ainda assim digo a mim mesmo, controle-se)
Can't you see that it never can be?
(Você não pode ver que nunca será possível?)
Em pouco tempo o filme foi esquecido e o corpo de Manny estava sobre o dela, enquanto eles trocavam beijos apaixonados e desesperados. Ele a abraçava, porém sua vontade era despi-la ali mesmo para que pudesse beijar todo o seu corpo; e Corina apenas aumentou seu desejo ao envolvê-lo pelo quadril com uma de suas pernas e aproximar ainda mais seus corpos. Faltava muito pouco para ele começar a levantar o vestido dela, quando Corina, repentinamente, o empurrou, fazendo com que caísse sentado no chão.
— Mas o que... — Manny ainda estava atordoado depois dos beijos que trocaram e não entendia o que estava acontecendo. Apenas viu Corina sentar e ajeitar seu vestido antes de encará-lo com os olhos arregalados. — Corina? — ele chamou em dúvida e ela fez um gesto indicando que ele deveria falar mais baixo.
— Sei que tive tanta culpa quanto você — ela sussurrou em resposta —, mas não podemos fazer isso.
Manny engoliu em seco tentando recuperar sua presença de espírito. Acreditava entender as razões para ela dizer aquilo e talvez no fundo ela estivesse certa, porém isso não tornava as coisas mais fáceis.
Ambos sabiam que relacionamentos interraciais ainda eram vistos com muito preconceito na sociedade em que viviam e era mais do que natural que Corina pensasse que ele queria apenas uma noite com ela, mas isso não era verdade. E ele não podia deixar que este tipo de dúvida pairasse entre eles.
— Eu acho que... me excedi — Manny disse se levantando do chão e voltando a sentar no sofá, sentindo-se envergonhado por sua falta de controle. — Nem imagino o que está pensando de mim agora, mas garanto que eu não planejava me aproveitar de você ou...
— Manny... — ela falou segurando a mão dele e tentando conter um sorriso. — Não acho que estava tentando se aproveitar de mim; e já disse que também tive culpa nessa situação, mas Molly está no quarto ao lado. Imagine o que ela pensaria se saísse para beber água ou ir ao banheiro e nos pegasse desse jeito.
Manny visualizou aquela cena e ficou levemente assustado ao perceber que sua filha poderia tê-los encontrado ali nus.
— Você tem razão — concordou pensativo olhando na direção do quarto de Molly. E, aos poucos, percebeu que em nenhum momento Corina negara ter algum interesse nele ou que o que faziam era errado por conta de suas diferenças raciais. — Isso quer dizer que, se não fosse por Molly, você não se importaria por eu ter te beijado desse jeito? — questionou encarando-a de maneira envergonhada e esperançosa.
— É complicado, Manny.
— O que é complicado? Se nós dois queremos isso...
— Mas não se trata só de nós, não é? — Corina o interrompeu e afastou sua mão da dele, ou ao menos tentou, mas Manny a segurou antes que estivesse fora de seu alcance.
— Corina, vou entender se não quiser nada comigo porque não tem interesse em mim, mas, se disser que está se mantendo afastada por questões raciais, vou acreditar que é tão louca quanto esses racistas. — Ela arregalou os olhos levemente, surpresa com a atitude dele.
Yes, you go to my head
(Sim, você entra na minha cabeça)
With a smile that makes my temperature rise
(Com um sorriso que faz minha temperatura subir)
— Não é isso, Manny — ela falou no mesmo tom que ele —, mas não podemos ignorar que há pessoas assim no mundo.
— Eu sei, mas também não podemos permitir que elas controlem nossas vidas — Manny respondeu aproximando-se dela. — É evidente que eu nunca faria nada que você não quisesse, no entanto, não posso negar que sinto algo por você. É mais forte que eu.
— Bem, eu também não posso negar que sinto algo por você — Corina afirmou olhando para suas mãos unidas.
— E você não acha que vale a pena nos dar uma chance? Desde que você queira isso também, não me importo com o que o mundo possa pensar. — Ele a segurou pela cintura e a aproximou de si. — É você, Corina. Eu quero você. Não posso me aproximar de Jenny ou de qualquer outra mulher porque é você que está na minha cabeça me fazendo perder o sono. — Ela o fitou emocionada. — Diga que não me quer e prometo me afastar — Manny falou encostando seu rosto ao dela —, ou nos dê uma chance. Eu sei que você também gosta de mim. Posso não ser um príncipe encantado, mas vou me esforçar pra chegar o mais perto possível disso.
— Eu não quero um príncipe, Manny — ela respondeu segurando o rosto dele, sorrindo. — Você é mais do que suficiente.
Ao ver o sorriso que tanto o encantava, Manny voltou a beijá-la, desta vez com mais calma. Se eles queriam ficar juntos, ninguém tinha o direito de impedi-los.
Like a summer with a thousand Julys
(Como um verão com mil Julhos)
You intoxicate my soul with your eyes
(Você intoxica minha alma com seus olhos)
— Só acho que devemos manter tudo isso em segredo por enquanto — ela falou quando se separaram. — Não podemos envolver Molly numa situação que não sabemos se vai dar certo.
Manny refletiu por um momento e percebeu que ela tinha razão. Caso o relacionamento deles desse errado, Molly seria a pessoa que mais sofreria naquela situação, ainda mais se levassem em conta a maneira como ela sempre os encarava com expectativa quando estavam juntos.
— Concordo — ele disse beijando o rosto dela —, mas, se eu vir aquele tal de Anthony perto de você, posso colocar tudo a perder. — Corina riu.
— Não seja bobo — respondeu acariciando seu rosto. — Se eu quisesse algo com ele não estaríamos aqui tendo esta conversa. — Manny sorriu.
— Então isso significa que estamos juntos, certo? Mesmo que seja segredo por enquanto.
— Estamos juntos — Corina concordou e ele voltou a abraçá-la. Desde a morte de sua esposa, era a primeira vez que Manny sentia que seu coração estava em paz —, mas eu preciso ir pra casa agora. Está ficando cada vez mais tarde e, daqui a pouco, vou acabar dormindo aqui.
— Você pode, se quiser — ele falou afastando-se para encará-la. — Tenho certeza de que cabemos nós dois na minha cama.
— Manny! — Corina deu um pequeno tapa no ombro dele, mas os dois acabaram rindo.
— Tudo bem. Você pode dormir na cama e eu fico com o sofá — Manny insistiu e Corina ficou balançada com a proposta, porém achava que o relacionamento deles ainda era muito recente para que fizesse algo assim.
Though I'm certain that this heart of mine
(Embora eu esteja certo que este meu coração)
Hasn't a ghost of a chance in this crazy romance
(Não tenha nenhuma chance neste romance louco)
— Podemos fazer isso outro dia — ela falou cautelosa, com receio de magoá-lo. — Hoje, acho que é melhor eu ir pra casa, afinal, falei pra minha irmã que iria e nem sequer trouxe roupas para dormir.
Manny engoliu em seco, pois pensou que roupas seriam a última coisa que Corina usaria caso tivessem a chance de dormir juntos.
— Eu entendo — falou compreensivo.
Haviam feito um grande avanço naquela noite no que tangia ao relacionamento deles e não havia motivos para apressar as coisas. Quando, finalmente, tivessem a oportunidade de passar uma noite juntos, Manny gostaria de ter todo o tempo necessário para que se dedicassem um ao outro.
— Acho que é melhor chamar um táxi — ela disse por fim se levantando e seguindo em direção ao telefone. — Se você me levar agora, Molly ficará sozinha e... — Quando Corina se virou para encará-lo se assustou, pois, sem que percebesse, Manny já estava às suas costas.
— Eu prometi te levar, Corina. Não acho seguro que vá pra casa de táxi — ele murmurou aproximando seu rosto do dela.
— Molly ainda estava acordada quando combinamos isso e não acho justo acordá-la agora — ela respondeu enquanto ele a guiava em direção à parede e a encostava nela. Manny mais uma vez a segurou pela cintura e Corina o envolveu pelo pescoço.
— Mais um motivo pra você dormir aqui.
— Manny...
— Ok. Ok — ele concordou sorrindo de maneira apaixonada. — Vou chamar um táxi dessa vez, mas assim que chegar em casa você tem que me ligar pra dizer que está tudo bem. Não vou conseguir dormir antes de saber que você está segura.
— Tudo bem — Corina assentiu, embora se perguntasse o que sua irmã pensaria disso, caso estivesse esperando por ela. — Eu prometo.
— Ótimo. — Manny voltou a beijá-la e eles se perderam um no outro por alguns minutos. Até que ela o obrigou a se afastar para chamar o táxi, que logo chegou.
— Não se esqueça de me ligar — ele insistiu quando ela já estava se afastando em direção ao carro que estacionara no meio-fio.
— Pode deixar — ela respondeu, lhe lançando um último olhar antes de entrar no veículo.
Quando o táxi começou a se afastar Corina se lembrou tudo o que aconteceu naquela noite e sorriu. Evidentemente as coisas não seriam fáceis para eles, contudo, nem mesmo seu marido a fizera se sentir da forma que sentia agora. Então, mesmo que não desse certo no final, ela estava feliz pela oportunidade que o destino estava lhe dando. Não tinha mais idade para sonhar com um romance que lhe fizesse perder a cabeça, mas, aparentemente, ele surgira assim mesmo.
You go to my head
(Você entra na minha cabeça)
You go to my head
(Você entra na minha cabeça)
You go to my head
(Você entra na minha cabeça)
[You go to my Head – Louis Armstrong]
Início: 01/06/2020.
Término: 06/06/2020.
