Capítulo 3

What a difference a day made

(Quanta diferença um dia fez)

Twenty-four little hours

(Vinte e quatro pequenas horas)

Brought the sun and the flowers

(Trouxeram o sol e as flores)

Where there used to be rain

(Onde costumava haver chuva)

Quando Corina chegou no dia seguinte, Manny não teve muito tempo para falar com ela ou sequer lhe dar um beijo, tendo em vista que Molly já estava de pé, aguardando pela chegada dela para que pudessem tomar café e continuar suas lições de piano. Tudo o que ele pôde fazer então foi lançar um olhar cheio de desejo à Corina antes de seguir para o trabalho, portanto estava mais do que ansioso para voltar para casa e reencontrá-la. Afinal, tinha esperanças de que pudessem passar algum tempo juntos mesmo que Molly estivesse em casa.

Manny chegou um pouco mais cedo que o normal e não as encontrou à vista, porém logo ouviu suas vozes vindo do banheiro. Corina estava de maneira mais relaxada do que ele costumava encontrá-la. Alguns botões de seu uniforme estavam abertos, permitindo que ele visualizasse melhor o vale entre seus seios. Ele respirou fundo tentando impedir que pensamentos inadequados viessem à sua mente, porém isso foi quase impossível após ouvir o comentário de Molly.

— Um dia eu vou ter chi-chis como os seus? — a menina perguntou apontando os seios de Corina.

— Chi-chis? — ela questionou confusa enquanto Manny sentia suas bochechas corarem. — Quem te ensinou isso?

— Meu pai — respondeu a pequena e Manny bateu a cabeça na parede de leve ao ouvir a risada de Corina.

— Eu já ouvi chamarem eles de muitos nomes, mas este é novidade — Corina jogou um pouco de água sobre os cabelos de Molly para tirar a espuma do xampu. — Bem, é claro que você terá chi-chis um dia — disse num tom divertido. — Não serão exatamente iguais aos meus, mas todas as mulheres têm.

— Acho que os seus são maiores do que os da minha mãe — Molly comentou inocentemente e Manny voltou a relancear o corpo de Corina. Os seios dela realmente eram maiores do que os de Annie e, por mais que este não fosse um fator importante, aquela conversa apenas servia para aumentar sua curiosidade a respeito de qual seria a sensação de poder tocá-los.

— Existem de todos os tamanhos — afirmou Corina abaixando-se para pegar mais água na banheira para terminar o banho de Molly, e deixando-os ainda mais à mostra.

Manny engoliu em seco e se afastou da entrada do banheiro. Era melhor se pronunciar antes que elas saíssem do banheiro e acabassem o encontrando ali parecendo um depravado.

— Tem alguém em casa? Mol! — ele chamou fingindo que acabara de chegar. — Ah! Vocês estão aí. Eu estava pensando que você e eu podíamos preparar o jantar pra Corina hoje, Molly. O que me diz?

— Eba! — foi a resposta entusiástica de Molly e Manny riu ao ver a expressão surpresa de Corina.

Molly se enrolou rapidamente na toalha e saiu correndo para o seu quarto deixando-os a sós por um momento. Manny havia acabado de tirar sua gravata e se aproximou de Corina com um sorriso que deixava bem claras suas intenções.

— Senti sua falta — falou beijando-a e a apertando contra si.

— Manny, a Molly pode voltar a qualquer momento — ela sussurrou após corresponder ao beijo. Estava tentando ser racional, mas a verdade era que também sentira muita falta dele.

— Ela ainda vai se vestir.

— E eu preciso ajudá-la. — Ele estreitou os olhos.

— Por que parece que você está sempre tentando fugir de mim? — Corina riu.

— Porque você está sempre tentando me agarrar nos momentos mais impróprios. — Ela tentou se afastar novamente, entretanto, Manny não a soltou. — Se você se comportar, talvez eu fique por alguns minutos depois que Molly dormir. — O sorriso no rosto de Manny se alargou.

— Se transformar esse 'talvez' numa certeza, temos um trato.

— Ok, seu chantagista — ela resmungou enquanto se libertava, não sem que antes ele lhe roubasse mais um beijo. — Você não tem jeito — murmurou rindo, antes de seguir em direção ao quarto de Molly, deixando um Manny sorridente para trás.

My yesterday was blue, dear

(Meu ontem era triste, querido)

Today I'm a part of you, dear

(Hoje sou uma parte de você, querido)

My lonely nights are through, dear

(Minhas noites solitárias acabaram, querido)

Since you said you were mine

(Desde que você disse que era meu)

Corina ficou parada encostada à porta da cozinha por alguns minutos observando Manny trabalhar na churrasqueira. Ele já estava de banho tomado e trocara de roupa, e ela achava fofa a maneira como ele usava aquele chapéu e se comportava como um verdadeiro cozinheiro. Após virar as salsichas, Manny percebeu que ela o observava.

— O que foi? — perguntou com um sorriso de canto.

— Nada — Corina disse tentando segurar o riso e ele notou isso.

— Diz o que foi — insistiu aproximando-se dela e a cutucando na lateral da barriga, fazendo-a rir.

Molly os observava satisfeita com aquela aproximação.

— É esse chapéu — ela explicou rindo. — Você fica muito charmoso com ele.

A vontade de Manny era abraçá-la e beijá-la até que Corina dissesse que ela realmente o achava muito charmoso com aquele chapéu, mas teriam que esperar um pouco pra isso. Por enquanto ele podia apenas encará-la fingindo estar zangado.

— Sei que está dizendo isso porque queria um chapéu igual ao meu. — Isso apenas aumentou as risadas dela e fez com que Molly risse também. — Estão com inveja — concluiu voltando à churrasqueira emburrado enquanto Corina e Molly trocavam um olhar divertido.

— Não precisa ficar assim. — a empregada falou brincalhona e, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a música que começou a tocar chamou sua atenção. — Essa é minha música favorita — comentou sorrindo emocionada e Manny a encarou levemente surpreso, esquecido da pequena contenda que tiveram.

— A minha também. — Eles trocaram um olhar significativo e Molly quase pulou de empolgação.

— Mas você sabe que a Billie Holiday fez uma versão bem melhor, né?

— Ninguém é melhor que o Louis — Manny contestou deixando um sorriso escapar e Corina não soube dizer se ele dizia aquilo apenas para implicar com ela ou se realmente acreditava nisso.

— Bom, depois podemos ouvir as duas versões e comparar, então — ela falou parando ao lado dele com uma sobrancelha erguida, fitando-o de maneira desafiadora com os braços cruzados.

Manny engoliu em seco, e teve que se lembrar que Molly estava presente, pois a maneira como Corina o encarava o enchia de desejo.

— Com certeza faremos isso — ele concordou mordendo o lábio inferior e se sentindo satisfeito quando o olhar de Corina passou a focar em seus lábios. Era bom saber que não era o único sofrendo por não poderem agir livremente.

Sacudindo a cabeça para afastar os pensamentos e sensações que o olhar e a boca de Manny lhe despertavam, Corina seguiu até a mesa para terminar de organizar as coisas para que jantassem e logo os três estavam sentados saboreando a comida.

O disco de Louis Armstrong continuava tocando e Corina decide ler as frases atrás do álbum, o que causa boas risadas a Manny e a ela, até que note que Molly está deixando seu leite de lado para comer batatas-fritas.

— Molly, eu não quero você se enchendo de batatas — Corina falou afastando a travessa das mãos dela. — E eu sei que você quer comer aquele sundae depois do jantar, então precisa terminar seu leite.

— Eu odeio leite — a menina resmungou.

— Ouça sua mãe — Manny replicou antes de voltar a falar sobre música, ignorando por completo o brilho que surgira nos olhos de sua filha ao ouvir aquelas palavras que saíram de maneira automática.

Nem Corina nem ele perceberam o que se passou, contudo, para Molly, aquilo tinha um grande significado. E quando a menina foi dormir, seu sono foi tranquilo, acalentado pela alegria que a ideia de Corina ser sua mãe lhe trazia.

What a difference a day makes

(Quanta diferença um dia faz)

There's a rainbow before me

(Há um arco-íris à minha frente)

Skies above can't be stormy

(Os ceús acima não podem ser chuvosos)

Since that moment of bliss, that thrilling kiss

(Desde aquele momento de felicidade, aquele beijo emocionante)

Após colocar Molly para dormir, Corina saiu do quarto da menina e teve que conter uma risada ao ouvir Manny, sentado ao piano, repetindo a mesma palavra inúmeras vezes.

— Você parece uma campainha — ela comentou sorrindo. — Pudim, pudim, pudim.

— Eu sei — ele concordou sorrindo também.

— Pensei que íamos comparar as versões das músicas.

— E vamos — Manny afirmou tirando os óculos e esfregando seus olhos. - Eu só estava tentando avançar com esse jingle enquanto você cuidava de Molly, mas é impossível. Estou com um bloqueio que se recusa a ir embora. O pior é que estão me cobrando no trabalho.

— Bem... se quiser, posso ir embora e ouvimos as músicas outro dia — Corina falou encarando-o preocupada. Manny realmente parecia cansado.

— É claro que você não vai embora assim — ele resmungou segurando a mão dela e a puxando para perto. — Esperei o dia todo pra poder estar com você. Não vou abrir mão de sua companhia por nada.

Corina sorriu e o abraçou pela nuca enquanto ele enlaçava sua cintura. Ela lhe deu um beijo na testa.

— Eu queria ficar assim o dia todo — Manny murmurou contra o pescoço dela.

— Um dia, quem sabe. — Ela tentou afastá-lo, pois estava sentindo cócegas, mas Manny apenas a apertou mais em seus braços.

— Logo, eu espero. — A essa altura Corina gargalhava, porém tentava fazer isso num volume baixo para não acordar Molly.

— No momento o senhor precisa terminar um jingle. Posso tentar te ajudar.

— Sério? — ele perguntou com os olhos brilhando. — Seria maravilhoso, Corina.

— É claro que é sério. Mas você precisa me soltar...

Manny ergueu a cabeça e a encarou parecendo desolado.

— Que dilema.

— Bobo — Ela o beijou na boca e Manny a correspondeu com fervor.

— Depois desse beijo até me sinto mais inspirado — brincou.

— É muito bom saber disso — Corina disse finalmente conseguindo se libertar dele e se sentando ao seu lado no piano.

Pelos próximos minutos eles se concentraram apenas na nova criação de Manny e, aos poucos, perceberam que, em conjunto, estavam conseguindo progredir. Em pouco tempo, o jingle havia sido criado.

— Corina! — Manny olhava para ela chocado, sem acreditar que aquele martírio realmente terminara. — Nós conseguimos! — disse animado abraçando-a. — Nós conseguimos!

— Sim! Conseguimos! — Corina respondeu sorrindo enquanto o abraçava de volta.

— Você não tem ideia do quanto esta música é importante; e, sem você, eu jamais teria conseguido. — Manny a encarava com adoração. Aquela mulher era como se fosse um anjo que havia entrado em sua vida. — Você é incrível, sabia?

Corina estava prestes a lhe dar uma resposta brincalhona, porém Manny não lhe deu tempo pra isso. Antes que ela pudesse abrir seus lábios, eles já estavam ocupados correspondendo aos beijos apaixonados de Manny. Ele a apertava em seus braços e, mesmo que estivessem numa posição ruim por estarem diante do piano, ele conseguia envolvê-la como se aquilo não fosse um obstáculo.

Os beijos entre eles se tornavam cada vez mais intensos e o fato de Manny ter dado um jeito, sem que ela sequer percebesse, de se sentar com as pernas abertas, ficando de frente para ela, apenas aumentava a proximidade entre eles. Corina o envolveu pelo pescoço e Manny a puxou pelos quadris colando seu corpo ao dele. A essa altura ela já podia sentir a ereção dele pressionando sua perna.

— Manny... — ela murmurou quando ele afastou seus lábios dos dela para se dedicar ao seu pescoço.

— O que foi? — ele questionou beijando o vale dos seios dela com avidez e acariciando as curvas de seu corpo.

— Estamos agindo como dois adolescentes — Corina disse passando as mãos pelos cabelos dele e os puxando levemente.

— Acho que tem razão — Manny comentou ofegante, porém sem se afastar do corpo dela —, mas não me importo.

Num impulso Manny se levantou da banqueta do piano a segurando no colo.

— O que está fazendo, Manny? — Corina perguntou surpresa enquanto ele a levava para o seu quarto.

— Não podemos ficar aqui, pois, como você mesma disse ontem, Molly pode sair do quarto a qualquer momento e, mesmo que nada de mais aconteça entre nós hoje, eu quero continuar beijando você — ele explicou engolindo em seco ao parar no meio do corredor e encará-la em expectativa. — A menos que você não queira.

Corina apenas assentiu e voltou a beijá-lo enquanto Manny seguia até o quarto e fechava a porta com o pé. Ainda que ficassem apenas nos beijos, aquela noite seria memorável.

It's heaven when you find romance on your menu

(É o paraíso quando você encontra romance em seu cardápio)

What a difference a day made

(Quanta diferença um dia fez)

And the difference is you

(E a diferença é você)

[What a Difference a Day Made – Dinah Washington]

Início: 06/06/2020

Término: 12/06/2020.