Capítulo 4
My love must be a kind of blind love
(Meu amor deve ser um tipo de amor cego)
I can't see anyone but you
(Não posso ver ninguém além de você)
Manny e Corina estavam deitados na cama abraçados aos beijos e, embora as coisas entre eles se mantivessem apenas nos beijos e carícias até aquele momento, nada garantia que permaneceria assim por muito tempo, pois sentir o corpo de Manny sobre o seu deixava Corina ansiosa para que eles pudessem se tocar plenamente; e ele se sentia da mesma forma.
Quando ele abriu alguns botões do vestido dela para ter melhor acesso a seus seios, Corina puxou a barra da camisa dele até que Manny a despisse. Ela passou a mão por seu peito deixando-o ainda mais ansioso por tocá-la, e quando Manny estava prestes a beijar os seios dela, o telefone tocou.
Ambos estacaram levemente assustados e ofegantes e o telefone soou mais algumas vezes antes que Manny atendesse a extensão que ficava em seu quarto.
— Alô — ele disse um pouco receoso, sem se afastar de Corina.
— Boa noite. É da casa da família Singer?
— Sim.
— Meu nome é Jevina. Sou irmã da Corina — a voz do outro lado da linha explicou. — Sinto muito incomodar, mas já passa da meia-noite e ela ainda não chegou. Ela ainda está com vocês?
Manny fitou Corina que o encarava sem saber o que estava acontecendo.
— Ela está sim — ele respondeu tentando pensar no que diria a irmã de Corina. — Na verdade, Corina não estava muito bem, por isso achei melhor que ficasse aqui. Acho que ela acabou se esquecendo de ligar pra você.
Finalmente Corina percebeu quem era a pessoa do outro lado da linha e arregalou os olhos. Ela procurou o relógio de cabeceira e se assustou com o que viu. Era quase uma da madrugada.
— Eu posso falar com ela? — Jevina perguntou num tom que Manny considerou levemente hostil.
— Claro. Só um momento. Vou chamá-la. — Cobrindo o bocal do telefone, Manny se sentou na cama e aguardou até que Corina tivesse se acomodado ao seu lado para lhe passar o telefone.
— Alô — Corina atendeu com a voz baixa. Já que Manny dissera que ela não estava bem, tinha que agir de acordo.
— Você está ficando maluca, Corina? Sabe o quanto fiquei preocupada? Isso não se faz — Jevina praticamente gritou ao telefone.
— Eu sei. Me desculpe.
— O que você tem afinal de contas?
— Eu passei o dia todo sentindo um cansaço excessivo e agora à noite estava um pouco febril — mentiu. — O senhor Singer viu que eu não estava muito bem, me deu um remédio e disse que eu podia ficar no quarto de hóspedes. Eu estava me sentindo tão mal que fiz isso e acabei esquecendo de ligar pra você.
— Mas você está melhor?
— Sim. Só que ficou muito tarde pra ir embora.
— Eu sei — concordou Jevina. — Se cuida, Corina. E nunca mais faz isso comigo, hein.
— Pode deixar. Até mais.
— Até.
Are the stars out tonight?
(As estrelas estão lá fora esta noite?)
I don't know if it's cloudy or bright
(Eu não sei se está nublado ou iluminado)
'Cause I only have eyes for you, dear
(Porque eu apenas tenho olhos para você, querida)
Assim que colocou o telefone no gancho, Corina soltou o ar que estivera prendendo e Manny também.
— Você ficou encrencada? — ele perguntou segurando a mão dela.
— Não tanto quanto ficaria se ela soubesse o que realmente estava acontecendo aqui. — Eles riram.
— Quer dizer que você vai passar a noite aqui? — ele perguntou acariciando o braço dela e aproximando seus rostos.
— Você não me deu muita escolha, não é? — ela questionou sorrindo.
— Bem, você ainda parece estar com febre — Manny murmurou referindo-se ao calor que o corpo dela emanava.
— Você também.
— É mais um motivo pra ficarmos juntos — concluiu voltando a deitá-la na cama e a beijando. A mão dela voltou a percorrer o peito dele e Manny se abaixou e beijou seus seios arrancando gemidos dela. — É isso que você quer, Corina? — ele perguntou antes de abrir o resto dos botões do vestido dela. — Não quero te forçar a nada.
— É o que eu quero — ela sussurrou beijando-o e o envolvendo com suas pernas. Aquela seria uma noite que ficaria na memória dos dois para sempre.
The moon may be high
(A lua pode estar alta)
But I can't see a thing in the sky
(Mas eu não consigo enxergar nada no céu)
I said I only have eyes for you
(Eu disse que tenho olhos apenas para você)
Corina acordou antes de Manny e seguiu para o banheiro depois de se certificar de que Molly ainda não havia saído do quarto. Após se despir e entrar debaixo do chuveiro, ela começou a refletir sobre o que acontecera na noite anterior. Dois dias atrás, quando Manny e ela iniciaram aquele relacionamento ela havia dito a si mesma que passar a noite com ele seria um passo muito avançado para algo que começara há tão pouco tempo; e no dia seguinte se entregava daquela forma.
Sabia que já estava velha o bastante para saber o que queria e se entregar a quem quisesse, porém, ainda assim, sentia-se um pouco receosa. Os sentimentos que Manny despertava nela a deixavam desnorteada. Dissera a ele que pareciam adolescentes e era exatamente assim que se sentia.
— Corina... — ela ouviu seu nome ser sussurrado através da porta do banheiro, seguido de uma breve batida.
Fechando o chuveiro e enrolando-se numa toalha, ela abriu uma brecha.
— O que foi? — Manny usava a mesma roupa da noite anterior.
— Posso tomar banho com você? — ele perguntou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— O quê? — Corina indagou alarmada, porém mantendo o tom baixo. — Está louco? Não podemos fazer isso. Molly deve estar prestes a acordar.
— Ela geralmente acorda só depois das sete e meia — ele respondeu com um sorriso malicioso. — Como ainda são seis e meia, isso significa que temos uma hora. E garanto que vou fazê-la valer a pena.
— Você perdeu o juízo — ela falou tentando manter a seriedade, contudo, um sorriso insistia em brotar em seus lábios.
— Completamente — Manny concordou dando um beijo nela e fazendo com que abrisse a porta e permitisse sua entrada. Agora tinham menos de uma hora.
I don't know if we're in a Garden
(Não sei se estamos num jardim)
Or on a crowded avenue
(Ou numa Avenida movimentada)
I wanna be with you
(Eu quero estar com você)
Naquela noite Corina não pôde ficar nem um pouco além de seu horário, pois sabia que Jevina teria um colapso caso chegasse tarde mais uma vez ou simplesmente sumisse como havia feito no dia anterior, porém, apesar da distância, ainda sentia a presença de Manny próxima a ela.
Nos próximos dias eles foram mais frugais no que tangia a seus momentos juntos, afinal haviam decidido que seu relacionamento permaneceria em segredo por algum tempo; portanto, não podiam passar todas as noites juntos. Aqueles dias de pouco contato foram um verdadeiro martírio para os dois, mas, cerca de duas semanas depois, Manny recebeu boas notícias no trabalho e decidiu que aquele momento não poderia passar em branco.
Ele chegou em casa cerca de uma hora depois do programado e encontrou Corina e Molly deitadas em sua cama abraçadas. Parecendo perceber que era observada, Corina abriu os olhos e fez menção de se levantar, mas Manny a impediu.
— Me desculpe o atraso — ele falou sentando-se a beira da cama, próximo às pernas dela —, mas eu tinha que comprar alguma coisa pra você. — Ela lhe lançou um olhar questionador, afinal não havia motivos para ele presenteá-la. — Eu tive um dia muito bom no trabalho hoje e foi graças a você. Sem sua ajuda, eu não teria terminado aquele jingle e eu queria te agradecer de alguma forma — concluiu lhe estendendo o disco que trazia.
Corina o pegou e logo um sorriso largo se estendia por seu rosto.
— Eu não acredito — ela falou deslumbrada. — É o disco que eu queria.
— Sim. Você comentou algum tempo atrás e eu achei que seria o presente ideal. Acho que acertei, não é? — Manny perguntou com um sorriso de canto.
— É perfeito — Corina respondeu e ele se aproximou para lhe roubar um selinho. Ela lhe lançou um olhar repreensivo e apontou para Molly, mas Manny fingiu que não viu.
— Fico feliz que tenha gostado — prosseguiu com um sorriso travesso, como se nada tivesse acontecido. — Eu estava pensando em levá-las pra jantar fora pra comemorarmos. O que me diz?
Ela refletiu se esta seria uma boa ideia, porém já estava cansada das noites que passavam separados; e um jantar não era nada demais afinal de contas. Ainda mais se levassem em conta que Molly estaria junto com eles.
— Adorei a ideia — disse para a alegria de Manny. Ele também estava com muitas saudades de poder passar algum tempo com ela.
You are here and so am I
(Você está aqui e eu também)
Maybe millions of people go by
(Talvez milhões de pessoas passem por nós)
O jantar correra bem até o momento em que um troglodita a confundira com uma garçonete, puxando-a pelo braço. Nessa hora Manny saltou da cadeira e estava decidido a arrebentar a cara do sujeito, porém Corina não permitiu.
— Manny, vamos embora, por favor — ela pediu segurando-o pela camisa e tentando afastá-lo do homem que também se levantara.
— Qual é o seu problema? Não se agarra uma pessoa desse jeito! — ele gritou para o homem. A única coisa que impedia de lhe dar um soco era o fato de Corina estar entre eles.
— Eu pensei que ela fosse uma garçonete!
— Ela parece uma garçonete pra você? — Manny insistia furioso. — E, mesmo se fosse, que direito você teria de tocar nela?
— Manny, por favor... — Corina falou tentando acalmá-lo.
— É melhor ouvir sua...
— Pois eu acho que é melhor você pensar muito bem antes de falar mais alguma coisa.
O homem encarou Manny e o que viu nos olhos dele o fez perceber que era melhor se calar caso não quisesse arrumar um grande problema. Ele voltou a se sentar e Corina puxou Manny em direção à mesa deles.
— A conta — Manny pediu ao garçom que os atendia, sentindo-se indignado por tudo que se passara.
Em poucos minutos eles estavam na rua.
— Aquele homem é um canalha! Todos os imbecis naquele restaurante são! — ele resmungou enquanto seguiam até o carro.
— Manny, eu entendo o que está sentindo, mas você não pode agir assim todas as vezes que...
— Não posso? Corina, eu não vou ver esse tipo de coisa e ficar calado — respondeu parando no meio da calçada e fazendo com que ela e Molly parassem também. — É assim que esses idiotas conquistam espaço. Por todo mundo ficar calado é que existe essa barreira entre as pessoas e eu não vou compactuar com isso.
Os olhos de Corina ficaram marejados. Ninguém nunca a defendera daquele jeito.
— Eu só fico com medo de algo acontecer a você — ela disse emocionada e Manny a abraçou.
— Nada vai acontecer — ele sussurrou no ouvido dela. — Eu prometo.
Molly os observava confusa e Manny a puxou para aquele abraço também. A menina não entendia bem o que estava acontecendo, mas estava feliz que estivessem juntos.
A seguir, quando já estavam mais calmos, Manny a levou para casa e no momento em que entrou no ambiente, Corina foi interpelada por sua irmã que a questionou pelo horário que chegava em casa e pelo disco que trazia.
— Pensei que você tivesse dito que ia parar de comprar discos — ela falou num tom repreensivo e Corina a encarou com um pouco de raiva.
— Eu ganhei de presente. Isso é proibido também? — perguntou com ironia, o que só serviu para atiçar Jevina.
— Ele está te dando presentinhos agora? — questionou seguindo sua irmã pela casa. — O que acha que vai acontecer, Corina? Acha que ele vai te assumir e vocês viverão felizes para sempre?
— O que eu acho, Jevina, é que você devia se preocupar mais com a sua vida do que com a minha — Corina respondeu parando de andar para encarar sua irmã. — Eu já estou cansada de você me dizer o que eu devo ou não devo fazer e de agir como se fosse minha mãe. Já chega. — Jevina a fitava com os olhos arregalados. — Eu entendo sua preocupação, mas se eu quiser me arriscar num relacionamento com Manny ou qualquer outra pessoa, seja ela branca ou negra, você não tem o direito de interferir.
— Vocês estão envolvidos?
— Jevina...
— Ok. Eu já entendi — ela falou erguendo as mãos em sinal de rendição. — Não devo me intrometer. — Corina assentiu. — Só me prometa que vai tomar cuidado — pediu com uma expressão consternada.
— Tudo bem. Eu prometo — ela concordou. — Posso ir pro meu quarto agora, mamãe?
— Só mais uma coisa... — Corina suspirou e voltou a encarar sua irmã com aborrecimento. — No dia em que você passou a noite na casa dele, você não estava doente, não é?
Jevina lançou um olhar desafiador à Corina e, por mais que ela quisesse mentir, um sorriso de canto se formou em seu rosto.
— Eu sabia!
As duas acabaram caindo na gargalhada diante da lembrança da ligação que Jevina fizera naquele dia. Aquela noite rendeu uma longa conversa entre as duas sobre o que estava acontecendo entre Manny e Corina; e ela se sentiu bem por poder acabar com o mal estar que havia entre as duas. Era bom finalmente poder falar sobre sua felicidade com alguém. Depois do que acontecera naquela noite, ela estava cada vez mais certa de que Manny era o homem ideal para ela.
But they all disappear from view
(Mas todas elas desaparecem de vista)
And I only have eyes for you
(E eu tenho olhos apenas para você)
[I Only Have Eyes for You – Peter Cox & Niki Harris]
Início: 12/06/2020
Término: 14/06/2020.
