Epílogo
This little light of mine
(Esta minha pequena luz)
I'm going to let it shine
(Vou deixá-la brilhar)
Corina e Molly brincavam no quintal, quando Manny chegou em casa mais cedo e, totalmente diferente do que vinha acontecendo, ele estava incrivelmente sério, o que assustou Corina um pouco. E o que ele disse a seguir apenas aumentou seus temores.
— Molly, eu preciso falar com a Corina em particular, então é melhor você continuar brincando aqui até que eu diga que pode entrar — ele falou sem encarar nenhuma das duas e permaneceu parado sem esboçar qualquer emoção.
— Tudo bem — a menina respondeu receosa. A essa altura ela também temia o que aconteceria a seguir. Seu pai nunca se comportava assim.
Ainda sem saber o que pensar, Corina se levantou e entrou na casa; e Manny logo a seguiu. Ele segurou a mão dela e a levou em direção ao quarto e ela esperou que ele fechasse a porta antes de se pronunciar.
— O que está acontecendo, Manny? — ela indagou preocupada e ele finalmente a encarou, porém, dessa vez, não era um olhar cheio de amor e carinho e sim magoado.
— Acho que sou eu quem devia perguntar isso, Corina.
— Eu não entend...
— Por que não me disse que a Molly não estava indo pra escola? — ele questionou, claramente tentando conter a raiva que sentia naquele momento e Corina engoliu em seco sem saber o que dizer. — Você faz ideia do que eu senti quando a professora dela me ligou e falou que ela vem faltando aulas há meses? Meses, Corina! Você não tinha o direito de me esconder isso.
— Eu... — Corina baixou a cabeça, sentindo-se culpada. — Molly não estava pronta pra voltar, Manny — ela explicou consternada e Manny abriu a boca para responder, mas Corina pousou a mão sobre seu peito, indicando que ele devia ouvir o que ela tinha a dizer antes de prosseguir com sua admoestação. — Ela me implorou pra não voltar, Manny, e eu vi a tristeza nos olhos dela, o quanto doía ver as crianças com suas mães na saída e não ter a dela por perto. — Manny a fitou levemente surpreso. Aquilo era algo que não havia passado por sua cabeça. — Eu vi como ela se sentia mal em meio às outras crianças, que estavam felizes, enquanto ela tinha todas as razões pra se sentir triste — Corina prosseguiu quase desesperada. — E eu sei que devia ter conversado sobre isso com você, mas, na época, você também estava consumido pela dor, e depois disso muito tempo se passou e fiquei com medo de que você me odiasse.
Ela encostou a cabeça no peito dele e chorou um pouco.
— E eu não podia suportar a ideia de que você me odiasse, não depois de ter o seu amor.
Manny encostou sua cabeça à dela e respirou fundo. O cheiro de Corina sempre o acalmava.
— Eu não te odeio, Corina. É óbvio que não — ele falou abraçando-a. — Isso seria impossível. — Corina correspondeu ao abraço dele e aconchegou a cabeça ao seu peito. — Mas é claro que fiquei magoado, decepcioando. Eu me senti traído. Por que você não confiou em mim? Acha mesmo que eu deixaria minha filha sofrendo sem fazer nada a respeito?
— Eu fiquei com medo — ela explicou num sussurro sem se afastar dele.
— Medo de quê? Não entendo isso — Manny questionou angustiado. — Alguma vez eu agi com violência ou...
— Não! — Corina afastou sua cabeça do peito dele num movimento rápido e o encarou alarmada. Precisava assegurá-lo de que seus temores estavam muito longe de algo desse tipo. — Não foi isso. Eu sei que você nunca faria algo assim.
— Então...
— Eu fiquei com medo de você não acreditar em mim e me dizer que esse tipo de decisão não cabia a mim, por eu não ser a mãe de Molly — ela explicou. — Naquela época não éramos muito próximos e eu fiquei com medo de que você achasse que eu estava me intrometendo demais na vida de vocês e me afastasse da Molly... E eu não ia suportar isso.
Mais algumas lágrimas desceram pelo rosto de Corina e, como num passe de mágica, o rancor que Manny sentia naquele momento desapareceu e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— São coisas assim que me fazem perceber o quanto eu tenho sorte de você ter entrado em nossas vidas — ele disse surpreendendo-a. — Mesmo no começo, você já tratava Molly como sua filha, a protegendo de tudo e todos; e é óbvio que não te condeno por isso. Fico mais do que feliz em saber o quanto você se preocupa com a minha filha... Nossa filha.
Corina também sorriu, sentindo-se menos angustiada e Manny a beijou apaixonadamente.
— Ainda assim, você deveria ter me dito — ele prosseguiu após se separarem, encostando sua testa a dela. — Esse tipo de decisão não pode ser tomada sem que ao menos tenhamos conversado antes. É claro que entendo que você fez o que achou melhor pra Molly, mas eu tinha que saber o que estava acontecendo.
— Eu sei — Corina concordou soltando um suspiro. — Me desculpe. — Ele assentiu ainda com a testa encostada a dela.
— Está tudo bem. Só... Chega de segredos, certo?
— Certo — ela concordou voltando a se aproximar para beijá-lo e Manny a correspondeu de maneira intensa, segurando sua cintura e puxando-a para perto de si. Corina sentiu um arrepio percorrê-la. — Manny, não podemos fazer isso agora. A Molly está acordada e lá fora, provavelmente com medo de que tenhamos terminado.
— Não seja boba, nós nunca vamos terminar. — Corina riu e ele beijou o pescoço dela.
— Bom, por um segundo eu achei que fôssemos, e aposto que Molly também. Você meio que assustou a gente quando chegou sério daquele jeito. — Manny parou o que fazia e a fitou surpreso.
— Eu não queria que pensassem isso. Eu só estava nervoso e... — Corina voltou a beijá-lo.
— Eu sei, e você estava certo em estar nervoso — ela afirmou acariciando o rosto dele enquanto trocavam mais alguns beijos. — Mas a Molly não faz ideia do que aconteceu, e acho que seria bom aproveitarmos toda essa situação pra falar com ela sobre sua volta pra escola.
— Você acha que ela está pronta agora? — Manny questionou preocupado e Corina assentiu.
— Já falamos sobre isso algumas vezes, então acho que se você também assegurar a ela que está tudo bem e que sempre estaremos do lado dela, Molly vai aceitar melhor a ideia de voltar à escola.
— Certo — ele concordou lhe dando um último beijo —, mas a nossa conversa não acabou. Ainda precisamos fazer as pazes de uma maneira mais formal.
Corina caiu na gargalhada e Manny riu junto com ela.
— Concordo, mas só depois que a Molly estiver dormindo.
— A ansiedade vai me consumir até lá — ele disse e Corina riu, puxando-o pela mão para que saíssem do quarto.
— Vou fazer a espera valer a pena.
Depois de ouvir isso foi duplamente difícil para Manny esperar até que sua filha fosse para a cama.
All down the road
(Ao longo da estrada)
I'm going to let it shine
(Vou deixá-la brilhar)
Algumas semanas depois, Corina e Manny já estavam na cama, conversando sobre amenidades antes de dormir, quando ela decidiu abordar um tema que vinha preocupando-a nos últimos dias.
— Eu estava pensando... E acho que devíamos tentar parar de fumar.
Manny franziu o cenho e a fitou surpreso.
— E de onde veio essa ideia agora? — questionou confuso. — Foi por causa do que aconteceu no outro dia? Dos cigarros que Molly andou escondendo pela casa?
— É claro que esse foi um fator importante nessa decisão — prosseguiu Corina — afinal, ela não está de todo errada, não é? Há inúmeras propagandas falando sobre isso e nós sabemos o risco que corremos ao fumar, mas o fator determinante foi o resultado de um exame médico que fiz essa semana.
Na mesma hora Manny se sentou e a encarou, preocupado.
— Mas o que você tem, afinal? É grave? — perguntou alarmado. — Corina, você prometeu que não haveria mais segredos entre nós — afirmou passando a mão pelos cabelos levemente irritado. — Se está doente, tem que me dizer do que se trata. Por que não me falou que ia fazer exames, eu podia ter ido...
— Estou grávida — ela o interrompeu segurando seu braço para chamar sua atenção.
— O quê? — Manny questionou como se duvidasse de seus próprios ouvidos e precisasse de uma confirmação.
— Eu estou grávida — Corina repetiu um pouco incerta afinal, esse era um tópico sobre o qual nunca tinham conversado e não fazia ideia do que Manny acharia da situação.
Ela mesma não sabia o que pensar do fato de que em poucos meses teria um bebê em seus braços. Porém bastou ver a alegria brilhando nos olhos de Manny para saber que tudo daria certo no fim.
— Isso é maravilhoso, Corina — ele disse abraçando-a com um sorriso enorme. — A Molly vai ficar super feliz! — Após se separarem ele acariciou a barriga dela com gentileza. — Temos que começar a pensar em nomes e contratar uma pessoa pra cuidar da casa. Você não deve se esforçar. E claro que precisamos nos casar antes do nascimento. Vou falar com minha mãe e talvez sua irmã possa ajudar a organizar as coisas também. Não sei se...
— Manny. Manny — Corina falou rindo e sacudindo-o levemente. — Calma, você precisa respirar. Uma coisa de cada vez. Eu não me tornei uma inválida só porque estou grávida. Talvez em algum momento a gente realmente precise contratar alguém pra ajudar, mas podemos ver isso com calma.
Corina colocou sua mão sobre a dele em sua barriga e sorriu. A reação de Manny fora mil vezes melhor do que ela esperara, mas ele realmente precisava se acalmar. Não precisavam decidir nada com pressa.
— E quanto ao casamento, realmente pensei que seria melhor fazermos isso antes do bebê nascer, ou teríamos que esperar algum tempo depois que ele nascesse, mas...
— Já está decidido. Nos casamos em um mês — ele completou animado e Corina voltou a rir.
— Tudo bem, seu apressado — ela concordou e lhe deu um beijo no rosto. — Mas eu ainda posso ajudar a organizar meu casamento. É claro que vou falar com sua mãe e Jevina, mas quero participar de tudo.
— Tudo bem, desde que não se esforce demais — Manny insistiu. — Vou pedir pra Molly ficar de olho em você.
— Ok. Ok. Sem esforços desnecessários. Já vi que vou me tornar basicamente uma prisioneira nesta casa, com vigilância constante.
— Eu já sou seu prisioneiro há muito tempo, se não percebeu — ele disse sorrindo antes de beijar os lábios dela. — Nada mais justo que você seja a minha.
— Contra isso não dá pra discutir.
Eles passaram algum tempo falando sobre o bebê e sobre alguns detalhes dessa nova etapa da vida deles que se aproximava.
— Você ainda não me disse o que acha da ideia de pararmos de fumar. — Corina voltou a tocar no assunto em algum momento. — Eu vou precisar parar, na verdade, então acho que você podia me acompanhar.
Ela deitou a cabeça sobre o peito dele e Manny a abraçou.
— Sei que vai ser difícil, mas acho que fará bem a todos nós. E tenho certeza de que deixará a Molly feliz — ela prosseguiu. — Pelo menos pense na ideia, ok? Tenho certeza que...
— Eu topo — Manny disse beijando a cabeça dela.
— Sério? — Corina questionou animada erguendo a cabeça para encará-lo.
— Sério — ele afirmou baixando a cabeça para beijá-la. — Desde que Molly me contou que tinha medo de que eu morresse por conta dos cigarros, venho pensando nisso, mas achei que não teria força de vontade o suficiente, mas já que estamos juntos nessa, acho que consigo.
— Estamos juntos pra tudo o que vier agora — ela falou sorrindo.
— Eu sei. Graças a Deus você entrou nas nossas vidas e eu nunca vou te deixar ir embora. — Manny a beijou novamente, porém Corina logo se afastou e o fitou com o cenho franzido.
— Eu pensei que você não acreditasse em Deus — disse num tom confuso e Manny riu.
— Eu também pensei, mas quer saber? Acho que acredito — ele respondeu olhando para a barriga dela e pensando no quanto era abençoado pela família e pela vida que tinha. — Acho que, na verdade, já faz muito tempo que acredito.
Corina sorriu compreendendo perfeitamente o que ele queria dizer e, após beijá-lo mais uma vez voltou a se deitar sobre seu peito para que, finalmente, pudessem dormir.
Depois de tudo o que vivenciaram para chegar até o presente momento era difícil não acreditar que havia algum ser divino em algum lugar conspirando para que ficassem juntos; e eles sempre seriam gratos por isso.
Let it shine, shine, shine
(Deixá-la brilhar, brilhar, brilhar)
Let it shine
(Deixá-la brilhar)
[This Little Light of Mine – Jevetta Steele/The Steeles]
Início: 04/10/2021
Término: 07/10/2021.
