Disclaimer: Shingeki no Kyojin não me pertence. Eu jamais teria cometido o sacrilégio de matar o Erwin.
Warrior
Erwin Smith havia nascido para a batalha.
Sua altura e seu porte físico não deixavam dúvidas sobre sua força e habilidade, mesmo que ainda surpreendesse pela agilidade para alguém de seu porte. Sua voz, grave e imponente, era capaz de conduzir os mais aterrorizados soldados para a vitória ou a morte - mais frequentemente, para a última. Seus gestos eram calculados e precisos. Tudo nele gritava o que ele havia nascido para ser: um líder; mas antes disso, antes de qualquer outra coisa, um guerreiro.
Ele lhe confessaria, na última vez em que conversaram, suas rebeldias de criança e o sonho que o moveria até o final. Erwin lutava por todas as vidas que haviam sido tiradas; não só pelos titãs, as inúmeras vidas que ele vira ceifadas diante de seus olhos e por ordens suas, mas também aquelas que nenhum deles poderia viver e temia que morresse sem saber o motivo. Seus olhos cansados de tanto sofrimento ainda carregavam a esperança de quem, no fundo, acreditava que havia uma razão para todo aquele sofrimento. Tinha que ter.
Era no silêncio das longas noites, antes do sol nascer e trazer consigo os titãs, que o capitão via seu comandante encolher, cansado, e a seus olhos parecia apenas um menino. Ali, despido de seu uniforme e de suas responsabilidades, ele era apenas um homem cansado.
Um homem muito, muito cansado.
Levi não se lembrava de quando havia se apaixonado por ele, ou, ainda, por qual deles havia se apaixonado primeiro: se pelo comandante, o líder que aceitara seguir e por quem aceitaria morrer, ou o homem vulnerável que começara a conhecer quando começaram a trabalhar mais próximos. Ou, ainda, se havia sido pelo homem que o salvara de um destino de que não se orgulharia, naquele primeiro momento em que depositou sobre ele seus olhos negros.
Ele só teve consciência de seus sentimentos, no entanto, em uma noite em que já não sabia que horas eram. Não conseguia dormir. Haviam voltado da última expedição com menos de 30% dos soldados que partiram. Não era a primeira vez, não era a pior e não seria a última, mas cada uma era mais difícil que a anterior, como se o peso dos que se foram se acumulasse sobre os ombros dos sobreviventes. E, chegando ao quarto do comandante, sem saber muito bem o porquê, viu seus ombros curvados, como se sem forças para sustentar todos aqueles corpos.
Não pensara em um motivo pelo qual bater em sua porta àquela hora, então não respondeu imediatamente quando perguntado o que o levara ali. Também não era uma resposta apropriada à pergunta a que saiu de sua boca, mas foi a que fez Erwin se erguer e secar com sua camisa as lágrimas, que ele mal sentia queimando seu rosto, quando o abraçou contra seu peito:
"Porra..."
Ele não era do tipo que xingava. Talvez tivesse sido isso que fez com que o outro se levantasse para o confortar, como se ele mesmo não precisasse de conforto. Mas Levi não saberia naquele momento, e não viria a saber no futuro, o que levou suas mãos, tão calejadas, porém tão gentis, a levantar seu rosto e beijar seus lábios.
A manhã seguinte os encontraria nus sob o lençol. Ao contrário do que se esperaria, não havia constrangimento quando seus olhos se encontraram pela manhã; não esboçaram qualquer reação ou disseram qualquer coisa além de um bom dia. Erwin apenas deu um breve sorriso ao moreno antes que saísse do quarto para tomar seu banho matinal. Mal aguentava seu suor e sentia-se ainda mais sujo com fluidos corporais de outro corpo no seu.
Ao longo do dia, conversaram sobre o trabalho, as baixas, os próximos passos, tudo como habitual. Erwin tinha sempre aquela expressão de quem pensava muito mais do que dizia, mas aquela era a primeira vez que seus pensamentos lhe despertaram, mesmo que brevemente, um interesse genuíno, quando seus gemidos invadiram a mente do capitão sem serem convidados. Como não poderia ser diferente, Levi não disse nada naquela ocasião, cercados por seus companheiros, e seu silêncio permaneceu mesmo quando estavam novamente a sós no quarto, para onde havia se dirigido novamente, como na noite anterior.
Quando não estavam fora, tornou-se parte da rotina deles que um fosse ao quarto do outro, mesmo quando não era previamente combinado. À medida que seus corpos se familiarizavam, o sono tornou-se mais curto e as noites, mais longas. Não era raro que Levi amanhecesse no peito do comandante, suas mãos delicadamente acariciando seus cabelos negros, como se pedissem perdão por tê-los puxado algumas horas antes.
Foi mais ou menos na mesma época em que começaram, por vezes, a conversar pela manhã; em outras, um dos dois acordaria o outro antes do horário de levantarem para que tivessem algum tempo livre, enquanto o céu ainda estava escuro, para que sua despedida se estendesse. Logo após acordar, Erwin costumava ser mais gentil e olhar fundo nos olhos que por debaixo o encaravam, antes de beijá-lo profundamente.
Ele era, há muitos anos, o único homem que Levi permitiria comandá-lo.
Foi, portanto, ainda mais difícil ver nublados seus olhos azuis, muito mais que a ausência do braço. Não que ele demonstrasse ou falasse muito: ele já vira muitas vidas perdidas para se delongar sobre apenas um membro. Erwin havia nascido guerreiro, mas se fizera comandante; seu braço seria substituído por outros, também dispostos a lutar. Era para levá-los à luta que precisavam dele, cada vez mais.
O capitão Levi sabia que deveria deixar seu comandante descansar seu corpo e mente e ficou em seu quarto durante a primeira noite em que ele estava de volta do hospital. Levi, o amante, por outro lado, estava insone. Não conseguia dormir, pensando naqueles olhos nublados, os quais quase não sentira sobre si durante todo o dia, mesmo quando estavam próximos. Não eram os olhos determinados do comandante, tampouco os do homem que dormia ao seu lado. Eram olhos que quase não estavam lá, perdidos entre algum lugar do passado que o aterrorizava e so futuro que não sabia se chegaria a ver.
No dia seguinte, nenhuma nuvem parecia ter se dissipado naquela imensidão azul e Erwin parecia evitar o moreno. Os outros jamais perceberiam: não fora entregando seus verdadeiros pensamentos que chegara onde havia chegado, e dirigia a palavra a seu capitão quando necessário. Talvez nem mesmo Levi tivesse notado se a ausência dos olhares cúmplices e dos toques sutis não gritassem a diferença entre o antes e o agora, mesmo que somente uma pessoa pudesse ouvir - e, para ele, era ensurdecedor.
Levi não esperou todos estarem em seus quartos para ir ao quarto dele. Ninguém questionaria a necessidade de resolver algo tarde da noite e, menos ainda, se atreveria a interromper seus passos determinados.
"Você não veio ontem."
Erwin estava deitado na cama, a cabeça sobre o braço que lhe restava. Falava com ele, mas não se virou para o olhar ou deu qualquer outro sinal de que havia percebido sua presença.
"Achei que não viria mais. Eu teria entendido. Não posso fazer muito por você, agora..."
Erwin era o único homem que Levi permitiria comandá-lo. E não aceitaria a passividade estampada em seu rosto, como se aquilo mudasse tudo.
Como se aquilo mudasse eles.
Ele se viu, então, forçado tomar as rédeas, pulando em seu colo e o beijando avidamente, sem medo de mostrar o quanto queria aquilo. O quanto o queria. O corpo de Erwin reagiu prontamente ao seu, jogando-o na cama e o despindo com apenas um braço com quase tanta destreza quanto havia feito com os dois.
Naquela noite, os dois se ocuparam em redescobrir o corpo um do outro e reaprender a estarem juntos. O menor, pela primeira vez, foi quem assumiu o controle, sentando-se sobre o companheiro enquanto ele o aliviava com a mão que tinha. Ignorou o melhor que pôde a expressão de dor que perpassava o rosto à sua frente nos momentos em que sabia que ele queria puxá-lo para mais perto, passando seu braço por suas costas, ou puxar seus cabelos para fazê-lo gemer baixinho.
A ausência do membro não demorou mais que alguns encontros para ser compensada pela capacidade de Levi de prever os movimentos de seu comandante e adiantar-se a fazer o que ele queria. A confiança na sustentação de seu peso no braço que restava também não tardou, levando o corpo de Erwin novamente para cima do moreno. Mas sua força jamais surpreenderia seu amante, que nunca havia duvidado de sua completa recuperação; nem mesmo quando ele o levantou e o colocou contra a parede como se pesasse nada, em uma noite em que não pôde esperar o capitão ir até seu quarto e foi a passos largos até o dele.
Eles nunca expressaram em palavras o que sentiam. E, conforme passavam cada vez mais tempo em missões e estavam cada vez mais exaustos, eram mais e mais raros os momentos em que conseguiam expressar fisicamente. Preocupavam-se, apenas, em garantir que o outro voltasse vivo, o que, odiariam admitir mesmo para si mesmos, era cada vez mais difícil.
Levi havia contornado facilmente a lesão de seu amante, mas, por melhores que fossem suas habilidades - e ele era o melhor, não havia razão para modéstia -, ele não seria capaz de garantir a segurança do comandante quando ele tinha apenas um braço para lutar. Fez de tudo a seu alcance, por si e pela humanidade, para que ele se ocupasse apenas das estratégias, mas falhara. Não estava acostumado ao fracasso, mas aceitava suas ordens com resignação.
Erwin Smith, líder da tropa de exploração, havia se feito comandante, mas havia nascido para a batalha. E em uma batalha ele se foi, brandindo a espada, lutando pela sobrevivência de seu povo e do homem A quem não chegaria a dizer que amava, mas a quem confiava tudo e a quem, tendo entregado seu coração, entregava seu derradeiro sacrifício. Correu ao lado de seus últimos companheiros em vida e na direção dos que havia deixado para trás, torcendo para que Levi vivesse para saber o que ele nunca saberia - esperava que Levi vivesse, vivesse muito e que pudesse, um dia, quem sabe, ser feliz. Queria que ele vivesse a vida que fora roubada de todos eles, por algum motivo que para sempre desconheceria.
Levi sabia, enquanto lutava contra o Titã Bestial, que não haveria chance de salvação para o comandante. Sua vontade era de matar o titã e fazer com que sentisse a dor de todas as perdas que havia sofrido e da que sabia que estava sofrendo conforme lutavam. Não sabia se já estava morto ou se morreria no instante seguinte, mas já não tinha esperanças de sentir o coração dele batendo contra seu peito.
A dor de perdê-lo uma vez havia sido ruim o suficiente.
A dor de perdê-lo duas vezes, sendo sua a mão a lhe negar salvação, era mais do que sentia que conseguiria suportar.
Quando todos saíram, levando consigo o garoto recém tornado titã, Levi chorou. Chorou a dor de todos os companheiros que havia perdido, chorou todos os que ainda perderia, mas não teria tempo de chorar, e sentiu queimando seu rosto as lágrimas que lhe diziam que aquela era a última vez que o teria em seus braços. Levi beijou seus lábios sem vida, molhando suas bochechas já pálidas.
"...eu te amo."
Erwin Smith havia nascido um guerreiro.
E o destino de todo guerreiro é a morte.
