Ele sabe que aquilo é importante, afinal, caso a caçada for bem sucedida, as leoas não terão de caçar por muito tempo, o que dará a todos um pouco mais de paz. Contudo, aborrece-lhe a certeza de que sua mãe o obrigará a ir observar junto dos primos, coisa que ele decididamente não gosta de fazer.
Não sabe o porquê nem o que, apenas sabe que não há uma vez em que presencie algo do tipo que um pavor intenso, quase surreal, não tome-o por completo, fazendo-o ansiar por correr tanto quanto a presa perseguida. Sente-se, muitas vezes, completamente tentado a implorar para que a morte não aconteça, ele inclusive lembra-se de já tê-lo feito em uma determinada ocasião um bocado distante. Na época, tal atitude resultou no fracasso da caçada e na consequente zanga de todos os caçadores para com sigo, mas é algo praticamente inevitável. Sempre que isso ocorre, é como se fosse ele a ser caçado, como se sentisse e tomasse para si o desespero dos alvos dos predadores.
Hoje, ele entende que aquelas mortes simplesmente devem acontecer e que as leoas o fazem tão somente quando realmente necessário, mas ele definitivamente odeia ter de assistir. Assim sendo, está decidido a inventar outra desculpa para não ir.
Talvez dizer que está doente? Não, esta ele já usou e foi vergonhosamente desmascarado. Inventar algum afazer urgente e indispensável? É, isso parece bom. Ele balança a cabeça para cima e para baixo, será isso. Ainda não sabe os detalhes de sua mentira, mas certamente pensará em algo mais tarde e um pouco antes do lusco-fusco. Mas por hora, acredita que pode se permitir relaxar e pensar noutra coisa.
Seus olhos castanhos relanceiam o ambiente à sua volta quiçá pela décima vez. Escuta com atenção os ruídos dos felinos ao seu redor, os quais variam desde um leve ressonar até roncos propriamente ditos, toda aquela calmaria começa a deixá-lo entediado e impaciente. Ele deseja que seus parentes mais novos apareçam e o chamem para fazer qualquer coisa, nem que seja brincar de uma luta que ele certamente perderá. Todavia, Malaika e Mufasa encontram-se muito distantes, aprendendo com a mãe deles algo que ele sinceramente não faz ideia do que seja, isso porque sua própria mãe o estava mantendo no interior da roca enquanto lhe dava alguma recomendação agora sinceramente já esquecida na ocasião em que ambos foram chamados.
Ele suspira. Está frustrado e não sabe o que fazer, o que segundo sua mãe é a combinação perfeita para uma encrenca. Sorri com a lembrança, mas seu lábio superior volta ao normal imediatamente ao recordar-se de que aquele gesto não é bem visto. Rafiki, o velho sábio e curandeiro do reino, sabe, inclusive já explicou aos demais membros de sua família que, ao mostrar os dentes daquela forma, ele simplesmente está demonstrando algum contentamento ou graça de algo, mas ainda assim tal ação gera desconfiança em praticamente todos já que os animais em sua maioria consideram mostrar os dentes uma ameaça.
Levanta-se cautelosamente, saindo lentamente do abraço de sua mãe, a velha leoa aparentemente ainda adormecida, antes de finalmente pôr-se de pé. Movimenta vagarosamente seu corpo e músculos rijos, constatando que permaneceu demasiado tempo apenas deitado na mesma posição. Olha para os lados e para cima, onde nuvens não muito escuras, mas persistentes, acompanham o sol da meia tarde. É a estação das chuvas curtas, onde períodos de sol intercalam-se com fortes torrentes que caem sem aviso sobre as savanas da região. E aquele pensamento repentino de água lhe dá uma ideia.
Está calor. Apesar das chuvas intermitentes, que em verdade durarão apenas mais um mês segundo Rafiki, o ar à sua volta permanece abafado e quente, o que ele admite ser outra razão para a morosidade dos demais em seu entorno. E ele bem sabe que só há uma maneira de fato efetiva de refrescar-se.
—Aonde vai? — Sobressalta levemente quando a voz macia e curiosa soa em sua cabeça, simultânea a um rugido suave em seus ouvidos. Vira-se vagarosamente, deparando-se com a leoa que outrora o envolvia em suas patas a olhar fixamente para ele. A cauda de ponta felpuda da felina descansa relaxadamente no chão de relva e terra, o que indica-lhe seu atual estado tranquilo. Não que ele já não soubesse, um pouco antes, que ela encontrava-se totalmente serena. Ele sempre sabe, em verdade, como todos à sua volta realmente se sentem. Muitos dizem que isto é um dom dado pelos ancestrais, Rafiki até mesmo afirma que tal habilidade é de uma enorme importância e dimensão. Mas ele não tem tamanha presunção para crer que espíritos tão nobres dariam qualquer coisa especial justamente para si, ele acredita que aquilo não passa de simples observação dos sinais físicos que lhe são apresentados e não entende qual poderia ser a importância desta sua capacidade. Mas Rafiki sempre insiste, dizendo que hora ou outra ele descobrirá e entenderá tudo, contudo o menino desconfia sinceramente que o macaco nem mesmo sabe do que está falando. Obviamente, entretanto, jamais dirá isso em voz alta ou diretamente para ele, até porque decididamente não pretende desencadear a fúria do mandril e acabar atingido pelo cajado de madeira o qual sempre está em posse do animal.
—Nadar. — A resposta sai calma de sua boca, com palavras e sons que agora lhe são quase totalmente estranhos não obstante usá-los com relativa frequência. Ninguém mais além dele compreende aquela linguagem, portanto, ele também pensa a resposta enquanto a pronuncia. É assim desde que se lembra, muitas vezes basta um pensamento dirigido corretamente para que o entendam, mesmo que sua boca permaneça fechada e sem produzir qualquer som. Parece-lhe, inclusive, que o entendem melhor quando ele nada diz e isso, junto com a própria linguagem incompreensível a qual sai-lhe dos lábios quando decide falar, é motivo de estranheza e até mesmo chacota para muitos.
Mas não para sua mãe ou para Rafiki. "Ele é um filhote de homem, é natural que fale a língua dos homens!" Como se aquilo fosse algo óbvio, o macaco idoso repete a cada vez que o assunto surge. O que ninguém, nem mesmo ele, compreende, é como o filhote de homem consegue se fazer entender sem mover a boca ou produzir qualquer ruído audível, mas não é como se isso tenha muita importância para eles de qualquer maneira.
—Sabe que não gosto quando você vai para a água. — A leoa solta um grunhido um tanto quanto melancólico aos ouvidos, mas novamente é em sua mente que aquelas palavras soam com total clareza. Ele inclusive pode sentir a preocupação e a leve advertência que carregam. —Choveu recentemente, a correnteza está forte e o rio, mais profundo do que da última vez que entrou nele. — Dessa vez, é um leve rosnado que sai da garganta felina. E em sua cabeça, o menino assimila perfeitamente o alerta agora mais incisivo.
—Não está tão fundo, eu vi. — Ele rebate, insistente, sua mãe o olha criticamente. —Por favor, mãe. Prometo ter cuidado! — A olha, quase suplicante, a leoa exala pelo nariz antes de baixar relutantemente a cabeça em consentimento. Ele sorri novamente, porém não se retrai de imediato como da primeira vez. Sabe que não precisa fazê-lo estando diante dela, afinal ela entende o que aquele gesto significa e não se importa com o que parece.
—Isso! — O menino comemora, antes de girar nos calcanhares e começar a correr em direção a um rio relativamente afastado, mas do qual ainda se pode ouvir o fluir ligeiro. A leoa decide segui-lo, tanto para ficar de olho nele quanto por já estar simplesmente cansada de ficar ociosa.
Sarabi está certa de que jamais perderá a curiosidade quanto ao realmente peculiar gosto que algumas criaturas terrestres têm pela natação e pela água em si. Como a maior parte dos de sua espécie, a velha leoa simplesmente detesta se molhar. E ainda que ela saiba que, ao menos entre os leões das Terras do Reino, haja uma pequena parcela que apenas não se importe quando as chuvas lhes encharcam a pelagem, por exemplo, a mãe de Simba jamais vira alguma outra criatura terrestre, exceto talvez hipopótamos e elefantes, apreciar deliberadamente estar na água como seu filho. Ela se pergunta se aquilo é uma característica inata aos homens, mas logo deixa aquele questionamento de lado por crer que nunca saberá a resposta. Afinal, aquele foi o primeiro humano que ela já vira, mas sinceramente a ex rainha espera que seja o único.
Ela observa, um tanto quanto fascinada, a cria de homem mover os membros esguios através das águas turvas e levemente caudalosas enquanto surpreendentemente consegue manter a cabeça acima da superfície. Há certa graça naqueles movimentos agitados e ruidosos, ela admite, embora todo aquele alvoroço às vezes pareça-lhe muito com um sinal de perigo. Seu corpo se enrijece e a pelagem em toda sua espinha arrepia com o pensamento, a cauda agitando-se no ar por um momento até que ela se lembra mais uma vez que seu filho na verdade gosta da água. Ele está se divertindo, a leoa percebe, e perfeitamente bem. Mas permanece atenta, a mente pronta para compelir seu corpo a levantar-se e fazer algo no momento em que qualquer coisa parecer começar a dar errado.
Como se percebendo toda àquela preocupação, seu filhote diminui a intensidade de seus movimentos e começa a nadar calmamente em direção à margem na qual ela encontra-se sentada. Num dado momento, ele segura com ambas as mãos em galhos dependurados do barranco, relaxa o corpo e para de debater-se, apenas se deixando boiar. Fazendo não muito esforço para manter a cabeça acima d'água, ele olha para ela e mostra os dentes naquele sorriso estranho, mas que Sarabi adora contemplar por ser uma marca tão... Dele.
—Ah, imaginei que o encontraria aqui! — Uma voz alegre soa atrás de si, Sarabi vira-se lentamente para encontrar sua neta e bisnetos a olhar para o rio. Eles fitam mais precisamente o humano que ainda sorri, no entanto para assim que percebe que sua mãe não é mais a única a encará-lo. —Mufasa e Malaika estavam ansiosos para falar com Ati sobre o que aprenderam hoje. — Kiara explica, olhando um tanto quanto sem jeito para Ati antes de disfarçar rapidamente. Ele, por sua vez, não nota aquele tom levemente constrangido que Kiara trata de esconder rapidamente, e se o faz permanece sem se importar visto que continua com uma expressão tranquila em seu rosto.
—Você é esquisito. — Mufasa fala para ele, que apenas revira os olhos com certo desinteresse.
—Eu sei, você já me disse isso muitas vezes. — Ati replica, brincalhão. Ao lado do irmão gêmeo, Malaika suspira de irritação antes de intervir, dizendo:
—Ele não é esquisito, você é que é! — Ela mostra a língua para o irmão. —Ele só é diferente, e isso é muito legal! — A leoa, de não mais que oito meses de idade e dona de uma incomum pelagem alva, parte com efusão em defesa de seu parente. —Ei, Ati, como você faz para nadar? — Ela questiona, Ati a olha confuso.
—Ã... Eu não sei. Eu apenas me movo, assim. — Ele responde, soltando-se dos galhos pendentes e começando a mover-se lentamente pela água, realmente sem saber como explicar melhor. Ele sabe e aprecia muito nadar desde sempre, é algo que aparentemente é de sua natureza.
—Legal, eu vou tentar! — Malaika faz menção de pular, porém Kiara é rápida em pôr-se à frente de sua filhote com uma carranca na face.
—Nem pensar! Você vai ficar bem aqui. — A filha de Simba decreta, firme.
—Mas mamãe! — Malaika protesta, chorosa. —O Ati...
—O Ati vai sair da água também, não se preocupe. — Sarabi intervém, enfática, Ati imediatamente percebe que seu momento de diversão aquática acabou de acabar. —Até porque, creio que já está na hora de começarmos a nos aprontar para a grande caçada de hoje à noite. — Sarabi conclui.
—A senhora participará novamente, minha avó? — Kiara questiona, de repente visivelmente preocupada. Sarabi a encara e sorri tranquilizadoramente pois bem sabe o porquê de tal preocupação.
Afinal, ela tem noção do quão mais velha é em relação às outras leoas que participarão da caçada. Ela sabe que, dada todas as dificuldades advindas com a idade avançada, já não possui mais a força e resistência de outrora, mas ainda assim ela também sabe que pode contribuir de alguma forma. Ela quer contribuir porque sabe o quão importante é uma caçada dessas para o sustento do reino e tem certeza de que conseguirá fazê-lo, como tem feito nas últimas vezes.
Em tempos não muito longínquos, Sarabi se recorda, ela aceitaria a velhice e se permitiria afundar na melancolia, conformando-se com sua clara inutilidade e deixando que todos lhe entregassem tudo nas patas. Agora, porém, que finalmente percebeu que ainda tem algo a dar ao seu reino, o fará. Agora, que novamente tem uma cria para cuidar, alguém que precisa que ela seja forte, ela será. E fará questão de demonstrar a força que ainda tem, para que justamente o ser franzino que atualmente aproxima-se dela, totalmente encharcado, entenda a força que todos, inclusive ele mesmo, têm dentro de si, a qual apenas espera para ser liberta.
—Sim. Numa caçada feito esta, quanto mais patas e bocas melhor. — Ela explica, mas seus olhos estão em Ati. Pode perceber a tensão que apenas a menção da caçada lhe causa e está bem ciente da aversão de seu filho a assistir àqueles atos, mas ele tem de entender a importância de tais observações.
Ati está agora ao lado de sua mãe e a olha seriamente, ele teme pela segurança da leoa pois sabe que uma empreitada feito aquela implica perigos aos quais nunca tem certeza se ela de fato está apta a enfrentar. É verdade que Sarabi já fez aquilo diversas vezes desde que se lembra, mas a apreensão é inevitável a cada vez que ela se vai.
Sarabi estende o pescoço e resvala a cabeça robusta contra a bochecha dele, num gesto que transmite tantos sentimentos quanto ela pretende. Deseja que ele confie nela, que ele saiba que tudo dará certo e que ela ainda pode cuidar-se perfeitamente. E também quer dizer que ele assistirá a caçada, quer goste ou não, e sabe que Ati percebeu este último visto que um lamento de evidente descontentamento sai-lhe da garganta. Ati não precisa fazer com que suas palavras soem em sua cabeça para ela compreender que ele está tentando resignar-se à ideia, mas ela está irredutível.
—Ati! Ati, eu preciso de você! — Todos se viram, intrigados, ao que a voz estridente e ligeiramente autoritária vem se aproximando. Ati e os leões olham para baixo e para um Rafiki com as mãos repletas de tantos itens que é quase impossível distinguir a todos num primeiro momento. Além do costumeiro cajado, o mandril porta em mãos uma variedade de plantas e até mesmo produtos animais que apenas ele sabe para que servem.
—De mim? — O menino indaga, curioso, Rafiki aproxima-se dele e balança positivamente a cabeça.
—Lógico. — Responde com obviedade. —Tenho de organizar essas e outras coisas em minha árvore e na caverna próxima, e preciso de outro par de mãos para que isso não demore a noite toda. — Ele explica, mãe e filho imediatamente começam a assimilar a situação. —Quer dizer, está certo que, muito provavelmente, demoraremos boa parte da noite, mas antes isso que a noite toda. Não é? — retorque ele, jocoso, fazendo com que tanto Sarabi quanto Ati percebam, um infinitamente mais satisfeito e aliviado que a outra, que a criança humana não assistirá a caçada alguma naquela noite. Mas Sarabi não faz qualquer objeção. A leoa sabe que, de um jeito ou de outro, seu filho também estará aprendendo algo junto do sábio mandril, além do mais Ati parece apreciar imensamente estar em companhia do velho primata, tanto que a mãe de Simba chega a teorizar que os dois planejaram uma maneira de livrá-lo de seu compromisso anterior.
De qualquer forma, ela está disposta a deixar passar dessa vez.
—Não precisa me agradecer por ter livrado sua pele, menino. — Rafiki graceja para Ati, que sorri largamente em resposta enquanto anda ao lado dele rumo à árvore lar do primata. —Garanto que saberei a hora certa de lhe cobrar este favor. — Continua a brincar. Caso não estivesse com as mãos ocupadas como estão no momento, Ati simplesmente abraçaria afetuosamente ao macaco ali mesmo por ter-lhe arranjado aquele compromisso muito mais tranquilo e agradável. Mas acima de tudo, Ati realmente gosta de estar com Rafiki, aprecia todos os ensinamentos que o curandeiro sempre lhe passa. Seja sobre as propriedades de plantas e itens medicinais que podem ser achados pela região, coisa que muito lhe compraz aprender, ou seja dando simples concelhos sobre alguma eventual tribulação, o menino apenas gosta de estar perto do sábio animal.
Ati não sabe explicar, mas a verdade é que Rafiki lhe parece de alguma forma familiar, como se lhe evocasse a lembrança de alguém que todavia ele não sabe quem.
E o tempo vai se passando. Enquanto organizam o que deve ser organizado e conversam trivialidades, Ati e Rafiki já podem ouvir o burburinho das leoas preparando-se para caçar. Ainda não anoiteceu, porém não falta muito para o astro rei ceder seu lugar no céu à lua e aos grandes reis do passado. O menino teme outra vez por sua mãe, mas trata de afastar aqueles pensamentos e sentimentos. No fundo, ele também tem certeza de que tudo ficará bem, afinal.
Humano e animal acompanham juntos o início e avançar do crepúsculo, bem como todas as ações que se seguem. Nenhum deles sabe que a caçada começou até muito tempo depois, quando o alarido da perseguição chega a seus ouvidos e agita suas mentes. É um misto eletrizante de rugidos, bramidos e do tropel de patas e cascos contra o chão na antiga corrida pela vida.
Refugiados na dita caverna próxima à árvore de Rafiki, os dois inclusive sentem as vibrações da terra diante a disparada do que quer que seja que as leoas perseguem. Ati não tem certeza do que é, mas julga tratar-se de algo grande. Presas grandes sempre são visadas em caças feito aquela, aliás, talvez sejam búfalos ou girafas.
E mais uma vez, Ati sente. Embora não tão intensamente quanto se presenciasse tudo ao vivo, um bolo desconfortável de emoções cada vez mais fortes começa a formar-se em seu peito e vai comprimindo-o aos poucos. A tensão e ânsia por êxito das caçadoras contrasta violentamente com o desespero dos caçados.
Ele sabe que não deve permitir que aquilo o domine. Ainda recorda-se perfeitamente da noite em que, tomado pela adrenalina e por aquela mescla assustadora de sentimentos, ele imprudentemente correu de seu esconderijo e acabou justamente no epicentro da caçada, por muito pouco não sendo mortalmente ferido pela manada de elandes em fuga. Felizmente, Sarabi foi rápida em tirá-lo do caminho, por mais que tenha sido preciso arriscar a própria vida para tal.
Ele inspira e expira longamente, numa tentativa de afastar a mente de toda aquela ação, Rafiki de repente senta-se a seu lado e coloca a mão direita sobre a esquerda dele. O mandril já testemunhou diversas vezes aqueles eventos que sequer sabe denominar ou explicar a origem, mas ainda assim fora ele a aconselhar a cria de humano sobre uma possível forma de lidar com isso.
Ati permanece respirando profundamente e esforçando-se para focar noutra coisa, mas sua mente retorna ao cenário da caçada assim que percebe uma súbita alteração em todos aqueles sentimentos. E dessa vez, por mais que queira, não consegue desfocar sua mente, mas por instinto continua tentando manter o pouco de autocontrole que ainda lhe resta.
Agora, da parte dos caçados, também há fúria além de desespero. Ele não sabe precisar os detalhes, apenas tem ciência de que, de repente, os papeis se inverteram. A caça virou caçador e o medo, agora, preenche ambos os lados da batalha. E então, há a dor. Também há mortes, e pouco tempo depois tudo se dissipa e tudo o que há é uma combinação agridoce de alívio e apreensão. E Ati, de repente, sabe o que deve ser feito.
—Rafiki, há feridos! Você precisa se preparar, rápido! — Ele alerta. O mandril o encara por alguns momentos, uma expressão indecifrável em seu rosto, antes de dizer:
—Você tem razão, garoto. Realmente é preciso me preparar rapidamente, mas eu também precisarei da sua ajuda dessa vez. — Rafiki explica. Ele também já vinha sentindo que aquela caçada não acabaria sem danos no lado dos caçadores, mas algo lhe diz que o filhote de homem experimentou tudo de um jeito quiçá até mais profundo. Ele não sabe nem como, nem por que, mas deseja descobrir.
Por hora, todavia, o velho primata está disposto a ignorar esse assunto, tanto por saber o quão descrente e despretensioso Ati é para com as próprias habilidades, quanto por algo assim ser simplesmente inviável no momento. Afinal, ambos têm leoas feridas para tratar. E de fato, Ati é de grande utilidade nisso, não apenas pela destreza de suas mãos ser igual, se não maior, que a dele. O menino, Rafiki percebeu há muito tempo, gosta de ajudá-lo com aquele tipo de coisa, o que talvez conte mais que a própria facilidade com a qual seus membros magros manuseiam cada objeto necessário.
Não demora muito para homem e macaco ter em mãos tudo de que necessitarão para auxiliar aos lesados durante a caçada. O tempo de ida da caverna para o local onde as leoas devem apresentar-se com os frutos da caçada também é curto, mas eles não são os primeiros a chegar.
Uma multidão cada vez maior formada por curiosos e pelos próprios familiares das participantes da caçada já cerca o local, porém abrem caminho tão logo alguém em meio à turba anuncia em voz alta a chegada de Rafiki com o auxílio. Muitos estranham ao ver a cria humana tão junto do mandril, visto que ainda é novo para boa parte dos habitantes de lá a presença constante e ativa dele. Muitos idosos ali presentes já tiveram encontros com a espécie do menino durante a juventude, sendo a maioria desastrosos, o que gera certa desconfiança. Aos poucos, porém, Ati vem conquistando a boa fama entre os súditos das Terras do Reino, até porque é inegável que ele jamais prejudicou a nenhum deles não obstante certas atitudes as quais muitos chamam de "esquisitices de homem".
Ati sente o leve estranhamento que gera ao seu redor, porém isso é outra coisa com a qual já está acostumado. Ademais, o jovem humano não está com qualquer disposição para absorver e se importar com tal tipo de coisa, até porque toda sua atenção está voltada para o grupo de animais, mais precisamente leoas, ligeiramente afastadas do restante da aglomeração. Kiara encabeça o grupo junto dos dois filhotes, os quais também aparentam estar ilesos embora muito assustados, seu status de rainha impondo respeito e fazendo por onde ninguém mais além dele e Rafiki se aproximar. Algumas das felinas estão vacilantes devido ferimentos, enquanto uma única leoa jaz deitada imóvel no meio do grupo, com a cunhada da rainha bem próxima a si. Ati procura examinar minuciosamente a cada uma a fim de identificar figuras familiares dentre as feridas, e um alívio sem precedentes toma-o quando constata que sua mãe e a mãe de Mufasa e Malaika estão bem. Ele anseia poder abraçar a cada uma delas, expressar o quão preocupado ficou e todo o alívio que sente ao vê-las sãs e salvas, no entanto o clima funesto que envolve a todos logo lembra-o de que ali não é o lugar ideal para manifestar aqueles sentimentos. Ele lamenta profundamente todo o acontecido e pode sentir a preocupação, o temor e, caso se esforçar, até mesmo a dor ao seu redor, portanto limita-se a uma rápida troca de olhares com Sarabi e Kiara, esta última continuando a manter os demais animais afastados, antes de iniciar seu trabalho junto de Rafiki.
Leva praticamente toda a madrugada para que todos os feridos sejam devidamente tratados. Ati auxilia Rafiki em tudo o que pode e lhe cabe, seja alcançando-lhe folhas ou pastas feitas de ervas ou pressionando curativos vegetais sobre os ferimentos. Felizmente, no entanto, a maior parte dos machucados consiste apenas em arranhões e contusões superficiais, com um ou outro membro torcido ou luxado, porém são muitos que precisam de atendimento. Mas em verdade, o único animal com ferimentos de fato graves é a leoa da qual Vitani esteve próxima, a qual Rafiki não esconde de Ati suas suspeitas de que seu tempo esteja se esgotando. Afinal, a felina desconhecida foi ferida internamente por um chifre afiado, e até mesmo Rafiki sabe que o único a se fazer em tal circunstância é atenuar ao máximo os sintomas subsequentes e rogar aos ancestrais por sua recuperação, o que praticamente nunca acontece.
E quando tudo acaba, o cansaço é visível e está presente em todos, tanto que a maioria dos animais há muito tempo retirou-se para suas respectivas moradias. Os que ficaram, agora, jazem ou nas cercanias, ou na mesma caverna onde Ati e Rafiki estiveram horas antes, onde os dois vigiam com desvelo a leoa ainda desacordada. O menino estranha o fato de ninguém além de Vitani haver demonstrado alguma preocupação para com ela, mas nada questiona pois não deseja ser indelicado e imagina que aquele talvez não seja o momento ideal para tais indagações. Vitani, a propósito, está sentada do lado de fora junto de Sarabi, porém ambas mantém distância enquanto aparentemente permanecem numa espera silenciosa. Ati anseia por ir até elas e saber os detalhes do que, afinal, aconteceu durante a caçada para tudo ter aquele fim, mas está incerto sobre deixar o velho amigo lidar sozinho com sua paciente.
—Vá, garoto. — Como se lesse seus pensamentos, o mandril de repente ordena em um tom direto. —Você já me ajudou bastante e eu sou muito grato, mas estou certo de que sua mãe aguarda por você para ambos ir descansar. — Ele conclui, formal e severo como Ati poucas vezes o vira fazer. O garoto, porém, apenas alterna um olhar aflito e repleto de indecisão entre o primata e a felina inerte.
—Nós fizemos a nossa parte, Ati. — Após suspirar profundamente, Rafiki começa em um tom infinitamente mais brando, em seguida aponta para os curativos a base de folhas e casca de árvore espalhados pelo corpo da leoa. —Fizemos tudo o que estava a nosso alcance, agora nos resta apenas aguardar e esperar que ela acorde, para só então decidirmos como proceder. — Ele conclui, mas o tom quase fúnebre de suas palavras faz surgir uma terrível constatação na mente ainda preocupada de Ati.
—Mas você acha que ela não acordará, não é? — Novamente, som algum sai-lhe da boca, há apenas um pensamento muito bem dirigido ao mandril. Rafiki o encara profundamente, porém o significado daquele olhar é ininteligível.
—Não importa o que eu acho, mas sim o que eu tenho certeza. E agora, minha única certeza quanto a isso é a de que não há mais nada a ser feito no momento. — O animal retruca, sábia porém austeramente, e Ati pode perceber a indireta em tais palavras. Ele deve ir, Rafiki cuidará de tudo a partir dali.
E então, ele vai. Despede-se do velho amigo com cumprimentos rápidos, e logo jaz diante de sua mãe. Sarabi está ilesa, apesar de um tanto quanto abatida, mas está bem. Ele apoia ternamente um dos braços sobre as costas da mãe, que grunhe em satisfação antes de ambos deixarem o local. E enquanto mãe e filho rumam para o interior da grande pedra que lhes serve de abrigo, o menino ainda sente aquele alívio profundo com o contato ainda que silencioso, afinal, não consegue deixar de pensar que poderia ter sido ela no lugar daquela leoa. É algo inexplicável, até mesmo infundado, mas ele nem mesmo se atreve a pensar no que faria ou como ficaria caso algo assim acontecesse à sua mãe.
