Aquela não era a primeira vez que o tinha em seus braços; era, no entanto, a primeira que neles carregava seu corpo, sustentando um peso que não esperariam de alguém com seu estatura, não fosse ele quem era.
Aquela não era a primeira vez que o tinha em seus braços ou que o sustentava em seu corpo, mas as outras envolviam olhares profundos e beijos demorados, nas inúmeras noites que eles silenciosamente torciam para que não terminassem quando a manhã anunciasse mais um dia de árduo trabalho.
Aquela poderia não ser a primeira vez que o tinha em seus braços, mas Levi sabia que seria a última quando o depositou gentilmente sobre a cama, segurando as lágrimas em seus olhos inexpressivos. Havia mais trabalho, muito mais trabalho, e havia um mundo a descobrir e conquistar.
Por ele.
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"Ó, metade arrancada de mim, .
Leva o vulto teu .
Que a saudade é o revés de um parto .
A saudade é arrumar o quarto .
Do filho que já morreu" .
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Erwin não era o tipo de homem que reclamava; não poderia se dar esse tipo de luxo. Tinha responsabilidades demais e tempo de menos.
O capitão se lembrava com clareza das vezes em que ele reclamara (tinha olhos e ouvidos sempre atentos, como se quisesse gravar em sua mente o máximo dele que pudesse): o cansaço, as noites em claro, as perdas. Nesses momentos em que continuar era difícil, em que mesmo seus ombros fortes se curvavam sob o peso dos anos, Levi abraçava seu pescoço, deixando seu corpo pender sobre as costas largas do outro.
Dentre todas, a única reclamação que surgia com certa recorrência era a sensação de ter ambos os braços. Não de o ter perdido, isso eram ossos do ofício; era sentir presente o que faltava que o incomodava, ao tentar usá-lo apenas para se lembrar de que não estava mais ali. A frustração da lembrança era como perdê-lo novamente.
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"Ó, metade amputada de mim, .
Leva o que há de ti .
Que a saudade dói latejada .
É assim como uma fisgada .
No membro que já perdi" .
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O corpo de Levi era preciso e letal. Mesmo nas poucas vezes em que havia se machucado seriamente, seus instintos haviam se encarregado de o manter vivo. Não demorava até que estivesse apto para o próximo combate, como se fosse uma máquina feita para a guerra.
Era sua mente, porém, que o traía no silêncio da noite. Na quase paz das horas em que não havia titãs, podia sentir uma mão forte pesar sobre seus ombros, ou uma respiração quente em sua nuca antes do sono o levar consigo para suas poucas horas de descanso.
Quando sua mente o enganava, seu corpo reagia instintivamente a seu comandante, até seus olhos encontrarem o vazio onde antes havia sua presença.
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"Ó, metade adorada de mim, .
Lava os olhos meus .
Que a saudade é o pior castigo .
E eu não quero levar comigo .
A mortalha do amor"
