CAPÍTULO 3 - Família

Quando voltou à escola no dia seguinte à chegada do garoto, Shunrei mal desceu da bicicleta já foi bombardeada de perguntas pelas amigas.

– E aí? Como ele é? – perguntou Mian dando pulinhos ansiosos e agitando as mãos freneticamente.

– Ele é bonito? – Li quis saber igualmente ansiosa. – Vai, fala logo!

– Ai, ele é um garoto normal… – Shunrei respondeu meio sem jeito e também sem entender por que estava tentando esconder das amigas que tinha achado o garoto lindo, maravilhoso e perfeito.

– Pela sua cara não é nada disso – Mian disse com as mãos na cintura. – Fala a verdade!

Encurralada, Shunrei não teve alternativa.

– Tá, ele é bonito – confessou. – Tem o cabelo bem preto e longo e deve ser mestiço pois tem os olhos claros. É muito educado e parece ter um temperamento tranquilo. Graças a Deus, porque eu estava com muito medo de que viesse um moleque rude. Conversamos um pouco ontem. Bom, eu falei bem mais que ele.

– Se eu te conheço bem – Li observou – deve ter desandado a falar sem parar e sem nem deixar o coitado abrir a boca.

– É, foi meio que isso... Quando estava lá preparando o jantar com ele me olhando com aqueles olhões eu fiquei meio nervosa e falei um monte mesmo. Mas depois, quando jantamos, eu já estava mais calma e, pensando bem, mesmo assim ele não falou muito, não.

– E quando é que a gente vai conhecer ele?

– Sei lá, Mian. Não sei quando ele vai ter folga.

– Ai, ai, tô doida pra ver esse mesticinho – Mian se empolgou. – Deve ser uma gracinha.

– Vamos para a aula, né? Ou vocês vão ficar o tempo todo falando do pobre do garoto?

Diante dessa cutucada de Shunrei, as amigas foram para a sala sem perguntar mais nada e sentaram-se em seus lugares.

Apesar de tentar ficar concentrada nas palavras da professora, volta e meia a mente de Shunrei voava em direção ao garoto recém-chegado. Quando percebeu, estava rabiscando o nome dele no caderno. Apagou rápido, antes que alguma das amigas notasse. Esforçou-se para manter o foco, mesmo assim ainda pensou nele muitas vezes durante a aula, no intervalo e no caminho de volta para casa.

Quando chegou, encontrou tudo ainda em silêncio e se apressou para adiantar o jantar, deixando tudo preparado para quando os dois voltassem do treinamento. Com a comida encaminhada, foi fazer a lição. Já estava terminando quando eles chegaram.

Suado e descabelado, Shiryu a cumprimentou com um aceno e foi direto para o banho.

– Como foi o dia, Mestre? – ela perguntou com um sorriso doce e interessado como sempre fazia todos os dias.

– Foi tudo bem, pequena Shunrei. – Ela sorriu diante do adjetivo. Já não era mais tão pequena mas ele gostava de chamá-la assim.

– E o Shiryu? Parece que o treino foi intenso.

– Hoje foi só o começo, não exigi tanto dele.

O Mestre Ancião deu uma risadinha irônica que deixou Shunrei arrepiada.

– Credo! Não quero nem imaginar quando o senhor exigir – ela resmungou e foi arrumar a mesa para o jantar.

Quando Shiryu saiu do banho, ela chamou o dois para a refeição. O garoto comeu, elogiou a comida, mas não falou mais nada. Só voltou a falar quando se ofereceu para lavar a louça. Shunrei o ajudou a guardar, imaginando que conversariam um pouco e se conheceriam melhor, mas ele continuou calado e recolheu-se no quarto assim que terminaram.

Só tornaram a se ver na manhã subsequente para o café e foi exatamente assim nos dias seguintes, viam-se nas refeições que faziam em casa, ele ajudava nas tarefas domésticas quando estava lá, mas se falavam muito pouco, apenas cumprimentos educados e gentis.

Shunrei tentava entender a situação. Imaginava mil coisas, se ele estava cansado do treino, se não estava gostando da casa, se não gostava da companhia dela ou da do Mestre… Pensava, pensava e não chegava a uma conclusão.

No final de semana, ela achou que Shiryu finalmente teria tempo livre para tentar uma aproximação mas o Mestre não deu folga ao garoto e ele teve de ir treinar.

Frustrada, Shunrei se dedicou a limpar a casa e fazer o almoço. Quando terminou, levou a refeição até eles, almoçou com os dois, mas depois, em vez de voltar para casa, resolveu bisbilhotar.

Escondida no bambuzal, Shunrei viu o Mestre Ancião dando instruções as quais o garoto seguia obedientemente. Achou quase hipnótico vê-lo realizando os movimentos. O cabelo longo balançava com o vento e vez ou outra algumas folhas e pétalas soltas iam junto naquela dança, deixando tudo ainda mais encantador. Quando percebeu, ela estava sorrindo feito boba.

Foi assim que observar o treino tornou-se um hábito para ela. Sempre que havia tempo livre, estava lá. Às vezes, quando o tempo estava bom, levava a lição para fazer enquanto espiava e cada dia tinha mais certeza de que o que sentia por ele era algo a mais, embora ele continuasse sempre respeitosamente distante, fechado no próprio mundo.

Pouco mais de um mês havia se passado desde a chegada dele quando finalmente o Mestre Ancião deu-lhe o primeiro fim de semana de folga.

Shunrei sequer se animou porque imaginou que ele acabaria passando todo o tempo trancado no quarto, mas depois do almoço, quando estava ajudando com a louça, ele a surpreendeu com um convite.

– Shunrei… – Shiryu começou a falar timidamente. – Como eu estou de folga, pensei se não gostaria de ir comigo lá no povoado…

Shunrei achou que tinha ouvido errado.

– Lá embaixo? Você quer descer? Comigo? Agora?

– É… se você puder ir… Se não for atrapalhar... É que finalmente recebi a bolsa da Fundação então queria comprar algumas roupas. Como você deve ter percebido, minhas coisas são bem gastas, tudo muito velho.

– Claro! – ela respondeu quando a ficha caiu. – Vou pegar minha bolsa.

Shunrei correu para o quarto, deu uma boa olhada no espelho, a trança no cabelo estava no lugar, mas estava usando um vestido simples, de usar em casa, que rapidamente trocou por um conjunto de calça e blusa mais arrumadinhos. Pegou uma bolsinha e foi encontrá-lo na porta de casa.

– Obrigado por vir. Achei que seria uma boa ideia mas não tinha certeza de que você poderia.

– De nada – ela agradeceu com um sorrisinho e eles começaram a descer a montanha em direção ao povoado. Como finalmente tinha sua chance de se aproximar dele, Shunrei resolveu puxar assunto. – E aí? Como estão os treinamentos? Você não é muito de falar...

– É bem puxado, mas todo dia aprendo uma coisa nova. Um mundo inteiro está se abrindo pra mim. E, apesar de rígido, o Mestre é bom e gentil.

– Ele é, sim. – Sentindo que Shiryu estava lhe dando alguma abertura, Shunrei resolveu sondá-lo. – Tem alguma coisa na casa que você não gosta? Alguma coisa incomodando? Sei lá, posso tentar dar um jeito.

A pergunta pegou o garoto de surpresa.

– Por que está perguntando isso?

– É que você sempre se recolhe bem cedo, não fica com a gente na sala, não conversa muito com a gente.

– Ah… – ele suspirou envergonhado. – É que eu não quero incomodar vocês.

– Não é incômodo! – Shunrei exclamou, aliviada por não ser algo que ela ou o Mestre podiam ter feito. – Você agora é parte da família, Shiryu. Não precisa ficar afastado de nós!

O garoto olhou para o chão e, sem saber bem o que responder, chutou uma pedrinha. Depois de alguns segundos de silêncio, confessou:

– Eu… eu não estou acostumado. No orfanato, eu fui ensinado a ficar quieto no meu canto, sem incomodar ninguém.

– Pois aqui é diferente. Você não precisa ficar trancado no quarto. O Mestre gosta de assistir novelas à noite. Se quiser, pode assistir com a gente. Ou só ficar na sala, fazendo outras coisas. Não precisa se trancar no quarto para "não incomodar".

– Tá bom – ele aceitou timidamente. Achava difícil afastar a sensação de estar incomodando mas começava a gostar dos dois e estava disposto a tentar "fazer parte da família" como ela disse, ainda que não soubesse exatamente como era isso.

Com as coisas esclarecidas, continuaram descendo e conversando um pouco, a conversa entrecortada por alguns minutos de silêncio desajeitado que só durava até um deles encontrar outro assunto.

Já na parte de baixo do povoado, Shunrei o levou a uma pequena loja de roupas de estilo chinês onde ele pegou duas camisas, duas calças e, discretamente, pegou também algumas cuecas novas.

– Escolhe alguma coisa pra você – ele disse a Shunrei.

– Pra mim? Não precisa.

– Quero agradecer por ter me recebido tão bem. Pode escolher.

– Então eu quero que você escolha pra mim. Vou esperar a surpresa.

– Eu não sei fazer isso… é melhor você mesma escolher.

Ficaram nesse pequeno impasse, até que Shunrei acabou escolhendo um vestidinho verde sem mangas com bordados de flores brancas que seria perfeito para o verão e não era caro.

Shiryu pagou suas compras e os dois saíram em direção ao mercado, pois já que desceram, Shunrei quis aproveitar para comprar algumas coisas que estavam faltando na despensa.

No caminho, Shiryu notou que, do outro lado da rua, uma garota acenava loucamente para eles.

– Acho que aquela garota está acenando pra você – ele comentou apontando na direção da menina.

Shunrei olhou e acenou de volta.

– É a Mian, minha amiga da escola.

– Shunreeeeei! – a garota gritou e se aproximou correndo. – Então esse é o famoso Shiryu!?

Shiryu ficou sem entender o adjetivo, mesmo assim se apresentou educadamente e cumprimentou a menina.

– Hoje ele teve folga e viemos fazer umas compras – Shunrei explicou meio constrangida e torcendo para ele não perceber nada.

– Ah, sim! Então eu vou com vocês!

Sem saída, Shunrei concordou e Mian grudou neles como um carrapato, sempre falando e fazendo perguntas que Shiryu respondia educada porém vagamente.

Quando terminaram as compras, as quais Shiryu fez questão de pagar, despediram-se de Mian com certo alívio e seguiram o caminho de volta para casa.

Subiram planejando o domingo, quando pretendiam passar o dia na cachoeira, já que não sabiam quando seria a próxima folga de Shiryu.

– Obrigada pelo presente – Shunrei agradeceu mais uma vez quando chegaram em casa.

– De nada. Obrigado pela companhia.

– Vai fazer alguma coisa agora?

– Não.

– Então que tal um passeio pelo bosque depois que eu guardar as compras? Preciso colher algumas ervas.

Como ele aceitou o convite, guardaram rapidamente as compras e saíram em direção ao bosque. Além de apreciar um pouco mais da doce companhia da garota, Shiryu se impressionou com o conhecimento vasto que ela já tinha sobre ervas. Sabia o que era bom para cada dor, doença ou mal-estar e ele admirou tanto saber em alguém tão jovem.

Voltaram para casa com uma cesta de bambu cheia de plantas que lavaram e separaram. Algumas Shunrei amarrou em feixes e pendurou para secar, outras ela levou direto a uma panela com água para fazer um chá.

Depois de cuidar das ervas, ela preparou o jantar e serviu.

Dessa vez, Shiryu estava notavelmente mais à vontade e falante. Contou ao Mestre sobre os dois passeios de sua folga, no povoado e no bosque, e o que fariam no dia seguinte. O Ancião deu a mesma risadinha que dera à Shunrei mais cedo e sugeriu que aproveitassem bastante.

– Se prepare – Shunrei advertiu a Shiryu. – Na segunda-feira, ele vai pegar pesado com você.

– Tenho certeza que sim – riu o garoto sentindo-se pronto para qualquer tarefa que o Mestre lhe desse.

Depois de comerem, lavarem a louça e arrumarem a cozinha após o jantar, os dois foram para a sala assistir novela com o Mestre.

Shunrei colocou Shiryu a par dos acontecimentos do folhetim e ele ouviu tudo atentamente. Na verdade, não ligava muito, mas gostou de ficar com eles na sala, de se sentir parte, e quando o capítulo terminou, foi dormir feliz, com o coração acalentado.

No dia seguinte, a dupla desceu parte da montanha até o lago formado pela cachoeira carregando cestas de bambu com lanches. Enquanto os dois se divertiam na água, em um ponto mais acima e distante, o Mestre Ancião os observava e aproveitava para pescar.

Quando uma chuvinha insistente começou a cair, o trio foi forçado a voltar para casa. O Mestre satisfeito, carregando uma cesta com a boa pescaria do dia, Shiryu e Shunrei cansados das brincadeiras na água, porém felizes pelo dia leve, divertido e tranquilo.

Já em casa, Shiryu ajudou Shunrei a limpar e guardar os peixes na geladeira, separando alguns que ela temperou e pôs para assar no forno.

Jantaram juntos como todas as noites, assistiram a um programa na tevê e só depois cada um recolheu-se a seu quarto.

Antes de dormir, Shiryu, que não costumava rezar, fez uma pequena prece de agradecimento. Sabia que os dias seguintes seriam duros, que demoraria a ter uma folga como essa, mas sentia uma profunda gratidão por, pela primeira vez em sua curta vida, experimentar o gostinho de ter algo que se parecia com uma família.

Continua…


Cena extra:

Na segunda-feira, quando retornou à escola, Shunrei foi posta contra a parede por Mian.

– A Shu tava o tempo todo escondendo o jogo! O garoto é muito bonito!

– Ai, que droga, perdi de ver! – lamentou-se Li. – Sério que vocês nem conversam direito?

– Agora estamos conversando, sim. Ele é legal, só é quieto e tímido.

– E lindo – Mian fez questão de reforçar, deixando Shunrei mais encabulada do que já estava. – Os olhos parecem de jade, Li. E ele é forte para a idade.

– Ah, vamos para a aula! – ralhou Shunrei experimentando o amargor do ciúme pela primeira vez.

E não seria a última.


Hey, people!

Voltei! Amanhã é o aniversário do Shizão, não vai ter fic especial, infelizmente, pois as coisas estão um pouco corridas, mas pelo menos consegui finalizar esse cap. Já deixei o próximo bem encaminhado, talvez eu continue trabalhando nele. Tô pensando.

É isso! Parabéns pro Shizão querido! :3

Até mais!

Chii