Marlene abriu os olhos e não reconheceu o lugar em que se encontrava. Tinha cortinas verdes ao seu redor e estava deitada em uma maca como a da Ala Hospitalar de Hogwarts.

A cortina correu antes mesmo que pudesse sentar e recobrar a sua memória dos últimos acontecimentos. Uma enfermeira sorriu para ela, tentando confortá-la.

— Onde estou?

— Está no St Mungos, senhorita Doe.

Doe?

— Não sabíamos o seu nome — ela explicou — Então a chamamos de Jane Doe. É o procedimento.

Lily queria ser medibruxa antes de toda aquela confusão. Ela certamente entendia sobre aquele tipo de coisa.

A cortina atrás de si abriu-se também e a enfermeira arregalou os olhos, empalidecendo, apavorada com a visão que teve.

— Achei você — escutou um sussurro feminino em seu ouvido.

Marlene acordou ofegante, como em todas as noites desde que chegou a Azkaban, no momento em que Bellatrix pôs as mãos em seus ombros.

Os pesadelos eram sempre camuflados em lembranças reais ou sonhos felizes, o que tornava as coisas piores. Os dementadores desonravam mesmo as suas memórias menos felizes. Não pensava que algumas coisas podiam ser piores do que realmente eram.

Esfregou o rosto, tentando afastar aquela visão de si.

— O almoço chegou.

Olhou para o lado. Aparentemente, a mão que sentiu no ombro era de Sirius tentando acordá-la.

— Obrigada — ela engoliu a saliva, apesar de escassa.

Ela acordava sempre mais tarde que Sirius, o que a fazia se questionar se ele sequer dormia durante à noite.

Eles almoçavam.

Os aurores passavam um jornal por entre as grades.

Sirius preenchia as palavras cruzadas enquanto Marlene se ocupava da sessão de esportes.

Depois do almoço, ele tirava uma soneca que durava horas.

Na hora do jantar, ela o acordava.

Naquele meio tempo livre, Marlene tentava ocupar a sua mente, criando anagramas, procurando enigmas nas palavras do Diário Profeta, tomando banho, riscando traços na parede, desenhando com o giz.

Colin ajudava. Não, o seu nome era Coby, não Colin. Nunca foi boa em decorar nomes.

Ela acordou de madrugada uma vez e não conseguiu voltar a dormir. Eles conversaram sobre quadribol em sussurros por um tempo antes de Sirius acordar de mau humor. Ele tinha sono pesado, então devia ter sido um pesadelo, mas ele se negou a contar.

Coby conseguiu até mesmo uma pasta de dentes para ela, trocando alguns favores. Parecia ser o tipo de coisa comum lá dentro, apesar dos aurores não costumarem ajudar os prisioneiros dessa forma. Sirius já parecia ter desistido completamente da sua higiene e ela não podia julgá-lo por isso. A água era congelante e parecia saída diretamente do oceano lá fora, a torneira não funcionava, a depressão a que eram submetidos naquele lugar parecia fazê-los desistir cada vez mais de viver, tornava pequenas coisas como se levantar da cama difícil.

— Qual é a dele? — Sirius perguntou em uma troca de turno de guarda dos aurores.

— De quem? — estava escovando os dentes, tinha enchido a garrafa de água do almoço enquanto não era recolhida para não precisar se molhar com o chuveiro.

— Aquele auror lá, pirralho.

Revirou os olhos, seu reflexo não era visível pelo espelho imundo.

— O que tem? — ela perguntou.

— Me diga você. Vocês estudaram na mesma escola, parecem bem próximos...

— Te disse antes que não nos conhecíamos.

Franziu o cenho, sem entender o que ele queria dizer com tudo aquilo.

— Eu só acho muito estranho ele fazer tantos favores a você — Sirius deixou no ar.

Se eles tivessem uma relação, ela diria que ele estava com ciúmes, mas parecia ser só o Sirius desconfiado de sempre.

A verdade era que muitas vezes Marlene precisava se lembrar que Ian estava morto, precisava se esforçar para não confundi-lo com Coby e se lembrar de que ele só estava fazendo um favor a Amelia.

Eles eram parentes? Tia e sobrinho? Não sabia qual era o sobrenome do garoto.

— Aqui — ela ofereceu a escova a ele.

— Não vou dividir escova, isso é nojento — ele retrucou.

— Eu não duvido que já pôs coisas piores na boca.

Apesar de sua relutância, aos poucos conseguia convencê-lo a se cuidar um pouco.

Observando as grades uma tarde, tentando fazer as barras de metal refletirem sua imagem, não pôde evitar fazer uma comparação com as prisões trouxas que tinha visto em alguns filmes com Lily.

Certamente não eram tão desumanas porque não tinham dementadores, embora já tivesse acontecido uma vez de um dementador fugir para uma prisão trouxa.

A ala de segurança máxima não era parâmetro, já que havia uma ala de Azkaban em que os prisioneiros tinham maior contato entre si. Talvez comessem em um refeitório e saíssem para tomar banho de sol, embora não visse nada além de nuvens negras eternas ao redor do complexo. Nunca tinha se interessado pelo assunto quando trabalhava como auror, achava repugnante.

Auror... As suas férias já teriam acabado? Já teria se passado quanto tempo? Dois meses? Três?

Eles tomariam banho em conjunto? Céus, aquilo parecia pior que a ala de segurança máxima, mas sabia que eles deviam evitar o contato entre Death Eaters. Por isso tanta segregação.

Uma vez James e Sirius quase foram pegos por policiais trouxas, não? Quase virou-se para perguntá-lo antes de lembrar-se que não podia.

Melannie McKornn, controle-se.
Eles estavam fugindo de Death Eaters na moto voadora de Sirius. Merlin, ela amava aquela moto. O que teria sido da Harley?

Passou a mão por seus cabelos. Fazia um tempo, mas era difícil de se acostumar com eles tão curtos. Sempre os manteve tão longos. Lembrava-se inclusive de dizer uma vez a Lily que ela nunca os manteria acima do ombro, assim como nunca se deixaria apaixonar.

É, pois é. Não funcionou.

Às vezes era difícil se lembrar o que a levava ali. E quando se lembrava era sempre doloroso. Se perguntava como Harry estava sobrevivendo aos tios, como isso interferiria no seu crescimento.

Os dementadores encontraram aquela brecha para atormentá-la com falsos acontecimentos. Acontecimentos em que Vernon Dursley batia na criança de apenas 4 anos de idade de várias maneiras diferentes. De como Petunia o tratava como um empregado, fazendo com que queimasse as mãos no forno.

Pardonnez-moi. Pardonnez-moi, soeur! J'ai rompu ma promesse...

Acordou chorando e praguejando em francês depois de um sonho particularmente forte.

— Melannie...

Ela deu um soco no rosto de Sirius.

Tentou se convencer de que estava desorientada pelo pesadelo, mas sentia tanta raiva, tanta vontade de estrangulá-lo e forçá-lo a confessar a gritos a sua inocência. Ela só queria sair dali e pegar Harry, fugir com ele das garras de Dumbledore e de qualquer um que pudesse fazê-lo mal.

"Você deveria se afastar".

Ela não era boa em seguir ordens.

Sirius estava sentado do outro lado da cela, enquanto Marlene esfregava o pedaço de giz no chão, fungando.

Nem sabia o que estava fazendo, só queria não olhar para o sangue seco do nariz dele.

— Doeu — ele cansou-se do silêncio.

— A culpa não é minha — ela resmungou.

— Ah, claro, foi Finn quem me socou.

Ela levantou o rosto.

— Finn? — perguntou.

— Que falta de educação a minha — ele foi até as grades da cela — Lhe apresento Finn e Damon.

Ele indicou os dementadores que acompanhavam à distância um prisioneiro que estava sendo libertado. Apesar disso, ele caminhava mecanicamente, não parecia nada feliz com essa notícia. Seria a presença dos dementadores? Ele comemoria quando estivesse longe ou nunca mais seria o mesmo? Onde estavam os aurores?

— Você deu nome aos dementadores?

Não sabia o porquê de ainda se surpreender.

— Tem ideia melhor? — ele perguntou.

Oh, ela tinha várias sugestões.

Walburga, Bellatrix, Vernon, Petunia...

— Quanto tempo você foi condenada mesmo? — Sirius perguntou.

— Você sabe o seu tempo? — ela retrucou.

— Assassinato é perpétua.

Marlene voltou a sentar-se em sua cama precária.

— Eu não matei ninguém — ela disse — Mas eles dizem que sim.

— Você disse que roubou identidades e varinhas — ele disse, como que tentando se lembrar da conversa que tiveram.

— Eles já estavam mortos.

— Você não chamou os aurores.

Ela deu de ombros.

— Não havia nada que pudesse fazer — não deu importância àquilo.

— A pessoa de quem estava fugindo, ou as pessoas, elas estão aqui?

Sirius era bom em ler as pessoas.

— Está — disse, mas não entrou em detalhes.

— Dentro da cela ou fora dela?

Marlene franziu o cenho, sem entender.

— Não é procedimento padrão os prisioneiros dividirem cela — explicou Sirius.

— Como sabe tantas coisas?

— Estou aqui há mais tempo.

Não era a resposta que esperava escutar.

Ele não facilitava mesmo as coisas.

Marlene acordou com o som de uma porta pesada fechando-se em algum lugar do complexo. Sirius estava próximo das grades da cela, tentando ver ou ouvir alguma coisa, parecendo tenso.

— O que houve? — ela perguntou.

— Inspeção do Ministério.

O quê?

Ficou nervosa.

Ninguém podia vê-la! E se algum dos seus antigos colegas do Ministério da Magia aparecessem e a reconhecessem? Era um milagre que Sirius não tivesse feito isso ainda!

Tinha posto poucos feitiços para mascarar a sua aparência, sabendo que o tempo de permanência em Azkaban faria dela irreconhecível uma hora ou outra. E de fato estava irreconhecível quando se viu no espelho que Amelia lhe mostrou.

Era uma sombra do que Marlene McKinnon havia sido um dia, assim como aquele Sirius Black não parecia nada com o que ela tinha conhecido.

Mesmo que... Às vezes, quando não sabia que ela estava olhando, ele a observava de uma forma estranha. Como se a reconhecesse de alguma forma, mas provavelmente pensava ser uma ilusão criada pelos dementadores.

Aquele lugar era enlouquecedor, não se cansaria de repetir isso.

E pensar que tantos criminosos estavam à solta, fingindo controle mental ou coisa do tipo. O ministro era mesmo um imbecil.

Mas não foi o ministro cercado de aurores que caminhou por aqueles corredores.

Era um auror que Marlene nunca tinha visto na vida, e isso era difícil considerando que ela conheceu ao próprio Alastor Moody.

— Não, não acredito que os prisioneiros mais antigos teriam informações — o homem dizia a dois guardas da prisão que ela nunca viu antes.

— Se surpreenderia em como as notícias correm rápido por aqui — disse um dos guardas.

Marlene afastou-se de perto das grades, mas mesmo assim o auror parou em frente à cela deles.

Sirius tinha uma expressão sombria no rosto, como se já tivesse visto aquilo acontecer antes e já soubesse como terminava.

— McKornn — o auror disse — Você vem comigo.

Um dos guardas apressou-se a abrir a porta da cela, enquanto outro mirava a varinha em Sirius, como que impedindo de fazer algo.

— Algum problema, senhor? — pronunciou a última palavra sarcasticamente.

Ela não se moveu, obrigando os guardas a invadirem a cela para pegarem-na. Sirius tentou aproximar-se, mas o auror apontou a varinha para ele.

— Eu não faria isso se fosse você, Black.

O olhar que compartilhavam era de puro ódio, como se eles já se conhecessem de longa data.

Aquela inspeção era muito estranha.

Por que decidiram vir logo atrás dela?
Dumbledore teria descoberto algo? Amelia cansou-se de esperar por resultados? Estava sendo expulsa de Azkaban? Aquele conceito soava cômico demais.

Pôde ver o seu desespero espelhado nos olhos de Sirius e perguntou-se se naquele mínimo tempo compartilhado tinham conseguido estabelecer alguma relação de convivência. De afeto.

Esperava que essa capacidade não tivesse sido destruída nele pelo tempo de isolamento.

Tentou não sentir tantas esperanças.