Tentou mover suas mãos, mas elas estavam amarradas. Respirou fundo, tentando manter a calma.
Sirius logo apareceria para salvá-la.
Não. Sacudiu a cabeça, Sirius estava na cela deles em Azkaban. Ela estava em Azkaban. Era 1984...
Era 1979.
A porta atrás de si se abriu.
Escutou o salto bater contra o piso antes mesmo de Bellatrix aparecer. Ela enrolava o cabelo cheio e cacheado com a varinha, dando um sorriso psicopata.
— Seu cabelo deve ter ficado uma graça em Azkaban, não acha? — perguntou irônica, doida para tirar aquele sorriso de seu rosto.
Ela jogou a cabeça para trás, soltando outro berro quando o auror jogou mais água em cima de si, reacendendo as faíscas de eletricidade que ainda circulavam.
— Eu vou perguntar mais uma vez.
Marlene piscou os olhos, tentando enxergar, mas era difícil. Seus olhos ardiam, assim como todo o seu corpo. Sentia o cheiro de queimado, as linhas em seus braços quase em carne viva. Não sabia como abriria a boca se os seus lábios ressecados também ardiam e sua garganta doía.
— O que você sabe?
Aquela era uma pergunta bem ampla.
— Sobre o quê? — sussurrou.
— O desaparecimento de Millicent Bagnold.
Quem era essa?
— A ministra da magia — o auror vociferou.
Harold Minchun tinha se aposentado?
Tinha perdido as contas de quanto tempo estava naquela sala. O Ministério sabia sobre aquela sala de tortura ou era mais um dos segredos que os aurores de Azkaban escondiam de todos? Aquele lugar era um pesadelo.
Lembrava-se de Lily falar uma vez sobre uma tal de cadeira eclética...
O seu pensamento foi interrompido quando mais água saiu da varinha do auror direto em seu rosto, fazendo-a engasgar e estremecer com as faíscas de eletricidade.
"Elétrica. Cadeira elétrica, Marlene. É a forma mais cruel de se matar alguém".
Bom saber.
— Eu não sei de nada — tentava manter os olhos abertos.
Sabia que se os fechasse e perdesse a consciência, corria grande risco de morrer. E ela não pretendia morrer deixando Sirius Black preso em Azkaban. Bellatrix não tinha conseguido matá-la e não seria um aurorzinho de quinta categoria que conseguiria.
Não via diferença alguma entre eles e os Death Eaters.
— Então você vai me dizer onde estão James e Lily Potter — disse Bellatrix, enrolando o cabelo dela com a sua varinha.
— Só por cima do meu cadáver — e então Marlene cuspiu no rosto da bruxa das trevas.
Ela viu o rosto da bruxa ficar vermelho de ódio e então teve o seu cabelo puxado com força para trás.
A sua respiração estava ofegante, tentando recuperar-se dos berros que deixou escapar, e nem estava mais consciente.
— Não se preocupe. Você não vai sair viva daqui — escutou o sussurro da bruxa ao pé do seu ouvido.
— Acho que não foi isso o que aconteceu, não é?
Estava enlouquecendo.
Dialogando com as suas próprias lembranças.
— Vai ter que fazer melhor do que isso.
Mas ela não disse isso para Bellatrix, disse para o auror sem nome.
— Talvez os dementadores possam persuadi-la? — perguntou o homem.
Persuadi-la do quê?
Precisava arrumar um jeito de sair dali.
— Quer nomes? Há tantos... disseram... Maldição Imperius...
Ela não podia desmaiar.
— É mesmo? Quem?
— Malfoy. Crabbe. Goyle. MacNair.
Disse todos os nomes conhecidos pela Ordem sem ser interrompida nem uma vez.
— Que conveniente. Os mesmos nomes que Karkaroff e todos os outros disseram — o auror soltou uma risada debochada.
— O ministro não pode perder a sua renda de propina, não é mesmo?
Ela não tinha mais tanto cabelo, mas mesmo assim ele puxou a sua cabeça para trás com brusquidão.
— Marlene!
Aquele grito parecia tão familiar...
Foi ficando mais alto conforme a sala ia ficando mais fria.
Então aquele era o seu fim...
— Um a mais ou menos... — escutou um murmúrio.
— ...levá-la...
— Não sabemos se...
Quando adolescente, ela já tinha bebido muito, mas uma alta resistência à bebida a impedia de sentir-se exatamente daquele modo: irreal. Como se as coisas ao redor estivessem longe demais dela para afetá-la, como se ela não tivesse controle do próprio corpo ou mente.
Sentiu a dor quando os seus joelhos cederam e o chão de pedras cortou as suas pernas, quando os aurores tiraram-na da sala e a carregaram arrastando pelos corredores da prisão.
Para eles, ela era apenas mais uma criminosa que não merecia a dignidade.
A última coisa que viu foi Sirius levantar-se do outro lado das grades antes de apagar.
Boa notícia: ela não teve pesadelos.
Má notícia: quando acordou, sabe-se lá quanto tempo depois, estava sozinha na cela.
Levantou-se, sentindo o seu corpo inteiro reclamar. Os seus braços e pernas gritavam a cada movimento que fazia, a pele repuxando as feridas não cicatrizadas. Pôs as mãos na grade da cela, tentando enxergar algo no corredor, embora não soubesse o que era.
Só sabia de uma coisa: ela não entraria naquele chuveiro com as feridas como estavam, seria pedir para morrer. Não sem uma boa dose de firewhiskey.
Para onde tinham levado Sirius?
Só de pensar na possibilidade de terem levado-o para interrogatório como tinham feito com ela... Céus, ele não merecia isso. Por que ele não tinha protestado? Por que não tinha tentado um julgamento? Por quê? Sentiu a sua garganta arder quando deixou escapar um soluço.
Por que ele aceitava todo aquele tratamento sendo que era inocente? Por que ele se castigava por algo que não era a sua culpa?
As mangas de sua blusa ainda estavam arregaçadas, expondo as suas feridas ao ambiente frio. Desarregaçou-as, incomodada ao pensar em quanto tempo Sirius tinha ficado por perto. O quanto ele devia ter visto antes de ir pelo mesmo destino...
Como as pessoas podiam ser tão cegas em relação a Azkaban?
Ela não aguentava mais, estava no seu limite. Ela só queria contar a Sirius de uma vez quem ela era e então arrancar uma confissão da sua cabeça dura. Por que as coisas tinham que ser assim? O que tinham feito de tão errado para serem castigados dessa forma?
Ian não merecia o que aconteceu, nem James, nem Lily, nem Dorcas, nem Harry...
Nenhum deles.
— Você escolheu isso.
— Cale a boca — a sua boca mal moveu-se.
Quantas torturas como aquela Sirius tinha visto acontecer? Teria ele sido torturado antes? Eles sequer tinham provas! Certo que a ministra da magia tinha desaparecido, mas mesmo assim...
Talvez algum daqueles prisioneiros soubessem alguma coisa.
Ela não estaria tão afetada se não estivesse entre eles.
Não soube quantas horas passaram-se quando os aurores arrastaram Sirius de volta para a cela.
Boa notícia: a sua alma ainda estava no seu corpo.
Ela precisava parar com aquele jogo ou acabaria dando um murro na própria cara.
Um dia inteiro passou-se e Sirius não acordou. Ela enfiou um pedaço de tecido no chuveiro com a água gélida e o pôs na testa do bruxo, esperando que isso ajudasse. Eles já tinham passado por alguns maus bocados durante as missões de aurores e da Ordem, mas aquilo era um outro nível.
Devia ser por isso que nenhum bruxo nunca considerou infiltrar-se em Azkaban.
Só ela tinha sido idiota o suficiente para isso.
Coby tinha desaparecido, assim como o outro auror. Sem mais guardas em frente à cela, apenas os dementadores passeando e sugando toda a sua felicidade. Precisava pôr-se à frente de Sirius, ou tinha certeza de que seria o seu último suspiro. Estava fraco demais, os dois estavam.
— Ele é inocente e vocês sabem disso, seus asquerosos — xingou os dementadores.
Eles não deram importância, é claro.
Malditos parasitos.
Sentia falta de conversar com outras pessoas e dos exemplares do Profeta Diário.
Um auror apareceu somente três dias depois. Marlene estava muito preocupada, já que a febre de Sirius não tinha abaixado ainda.
— Ele precisa de um medibruxo — ela tentou dizer.
— Calada — ele apontou a varinha para ela — Black. Acorde!
Ele fez barulho nas grades para acordá-lo e Marlene não pôde fazer nada, já que tinha sido silenciada com um feitiço não verbal.
Por fim, o auror gritou:
— Ele não vai levantar. Se quiser falar com ele, terá que vir até aqui...
Ela sentiu o sangue gelar.
Escutou passos pelo corredor e só teve tempo de esconder-se dentro do banheiro.
— Boa sorte — o auror disse a alguém, antes de afastar-se.
Por alguns minutos, só pôde escutar o som da sua própria respiração acelerada e então ouviu um sussurro:
— Padfoot?
Era Remus Lupin.
O que ele estava fazendo em Azkaban?
Sirius escolheu esse exato momento para começar a delirar.
— Me desculpe... me desculpe...
Ela fechou os olhos, sentindo uma lágrima escorrer. Ele devia estar sonhando com James e Lily outra vez. Eram sempre os mesmos sonhos.
Esperou que Remus dissesse algo, mas isso parecia o suficiente para ele, que foi embora sem dizer mais nada.
