Liam acordou com um som estranho. Como o de... um flash de câmera.
Ele queria simplesmente virar para o lado e ir dormir, mas sentiu uma movimentação do lado de fora. Tinha sono leve e uma curiosidade grande, então empurrou o edredom de cima de si e foi até a porta fechada do quarto.
— O que está acontecendo? — perguntou.
Os guardas do corredor estavam parados no meio do corredor, olhando para o nada.
— Nada, Alteza — os que cuidavam da porta de seu quarto aproximaram-se para voltar ao posto, assim como o resto.
— Uma das selecionadas esteve aqui — um dos guardas disse a ele, parecendo confuso, ainda olhando para as escadas — Tinha torcido o tornozelo.
Torcido o tornozelo e subido a escada até o terceiro andar? Ou subido a escada até o terceiro andar e torcido o tornozelo?
— Bem, e alguém a levou para a enfermaria? — ele perguntou.
— Ela disse que estava melhor e saiu andando.
Ninguém torcia o pé e depois saía andando como se nada tivesse acontecido. Obviamente era uma mentira. Talvez ela não esperasse ser pega de surpresa por tantos guardas cuidando do corredor e quis escapar sem represálias, ou estava servindo de distração para alguma coisa.
Liam fechou a porta de seu quarto, voltando para o escuro absoluto e confortável do cômodo.
Quem era a selecionada mesmo?
Ele decidiu pensar nisso só no dia seguinte.
— Eu não sabia que além das minhas obrigações de guarda, eu tinha me tornado seu assistente pessoal agora também — disse McKinnon com ironia, quando Liam perguntou a ele o que deveria fazer naquele dia — Não estou recebendo salário para isso!
Como se ele não passasse mais tempo fugindo de suas obrigações do que cumprindo-as de fato...
— Tudo bem, então — ele fingiu — Vou começar a pedir conselhos para Vance.
Marlin fez uma careta de desagrado, como Liam já esperava.
— Você só vai pedir conselhos a ele no dia em que quiser se livrar dessas garotas — o guarda retrucou — e de um modo bem esdrúxulo. Sinceramente, Vance não sabe como lidar com mulheres. Se eu fosse você, ficava bem de olho nele.
Liam já estava acostumado com as reclamações do melhor amigo em relação ao seu colega de trabalho, então não levou muito a sério o seu aviso.
— Tenho coisas melhores para "ficar de olho" — ele replicou — No momento, preciso pensar no que fazer para ocupar a minha tarde. De quebra, decidir a próxima eliminação.
— Eu tenho uma sugestão — disse McKinnon com seriedade — Escreva os nomes das selecionadas e os encontros que consegue pensar, e então faça um sorteio todas as vezes em que estiver em dúvida.
— Ajudou muito — Liam resmungou.
Não fez exatamente um sorteio, mas a primeira pessoa que apareceu nas fichas foi quem ele decidiu chamar para conversar um pouco, que era o que ele mais fazia.
Anneliese era psicóloga, e ele temia que ela levasse isso para as suas relações interpessoais. Odiaria alguém que o analisasse o tempo inteiro. Apesar de casamento se tratar sobre compartilhar as coisas, havia algumas coisas que ele gostava de manter para si mesmo.
Talvez ele mudasse de ideia caso se apaixonasse por alguma daquelas garotas.
Não sabia se torcia a favor ou contra.
Era tão cedo que todas as selecionadas ainda deviam estar dormindo. Decidiu escrever um rápido bilhete para que as criadas de Anneliese a entregassem assim que acordasse, pediria para que um guarda o fizesse e então aproveitaria um pouco daquele tempo livre para preencher alguns relatórios.
Antes que pudesse fazer isso, escutou as vozes dos guardas alteradas do lado de fora antes que as portas fossem abertas. Levantou-se rapidamente para ver o que tinha acontecido.
— Alteza, esta senhorita... — um deles tentou explicar-se, a mão em sua cintura, tentando impedi-la de entrar no quarto de Liam.
— Deixem-na — ele ordenou.
Os guardas obedeceram rapidamente.
— Estou em uma situação muito desagradável, Alteza — Valerie disse, evidentemente enfurecida, antes que ele pudesse cumprimentá-la — E espero que possa me ajudar.
Uma situação desagradável? Mas era tão cedo.
Resolveu não fazer piadas, ela não estava com humor para isso.
— Acalme-se, por favor — Liam saiu do quarto, sendo rapidamente acompanhado por ela, os guardas fecharam as portas atrás deles automaticamente — O que aconteceu?
— Eu fui furtada! — ela exclamou — A minha pulseira de brilhantes, que eu recebi do meu pai no meu aniversário de 15 anos, sumiu!
— Tem certeza de que a trouxe com suas coisas? Ou que não a perdeu? — ele perguntou com tranquilidade, enquanto caminhavam pelo corredor do 3º andar.
— Absoluta! — Valerie exclamou — Eu nunca a deixaria em casa! E a usei ontem! Ela não está nas minhas coisas hoje! Só pode ter sido Gema, foi ela quem guardou minhas joias da última vez!
Ele percebeu quando ela pôs a sua mão em seu braço, quase que o guiando para o corredor do 2º andar, mas não a afastou. Estava nervosa demais e a questão não valia a atenção.
— Alteza, eu juro! Eu juro que não fiz o que a senhorita está dizendo! — a empregada, que devia ser Gema, exclamou, claramente agoniada, assim que os viu aproximar-se.
— Mentirosa! — Valerie a interrompeu, soltando o braço de Liam e apontando o dedo na direção da criada — Ninguém mais tem acesso ao meu quarto...
Isso certamente não era verdade.
Antes que Liam pudesse apaziguar os ânimos, a porta atrás da selecionada abriu-se e outra selecionada, Queensley Shacklebolt, saiu de braços cruzados.
— Você a viu roubando? — ela perguntou.
Não era de se estranhar que todos do andar já estivessem inteirados. Não duvidava da potência dos gritos de Valerie depois de tê-la escutado falar um pouco mais alto.
— Não, mas... — a Yaxley pareceu ficar surpresa e recuar um pouco, talvez não estivesse acostumada a ser enfrentada daquela maneira.
Tinha prometido não julgar as castas mais altas, mas... É. Ela era mimada.
— Todas nós temos três criadas. Se for mesmo uma delas, como poderia dizer que foi ela? — Queensley voltou a retrucar.
Apesar do que tinha dito antes ao príncipe sobre achar ter sido Gema a guardar as suas joias, ela não repetiu o seu achismo, o que fez Liam pensar que talvez ela não tivesse tanta certeza assim.
De qualquer forma, bastava ver o estado da empregada para saber que ela era inocente, apesar de Liam não conhecê-la como conhecia as de Jane. A propósito, podia ver a selecionada observando a discussão com curiosidade, uma das criadas atrás dela, tentando levá-la de volta para dentro para que terminasse de se arrumar, e sendo claramente ignorada.
— Me diga o que foi roubado — Liam decidiu pronunciar-se, aproveitando a brecha dada pela advogada —, faremos uma busca pelo castelo e pelo seu quarto, talvez o tenha perdido por aí.
Acreditava mais na hipótese de ter perdido a pulseira do que de tê-la tido roubada.
— E se tiver sido alguma das outras selecionadas? — Valerie olhou na direção de Jane sem disfarçar.
— Entrar em nossos quartos é violação de privacidade — Queensley rapidamente argumentou, antes que Liam se estressasse com a loira por sua acusação infundada.
— Os quartos não são nossos, são da realeza — ela retrucou, exasperada.
— Que estão sendo doados temporariamente a nós. Portanto, nossos.
Se ele não intervisse, elas provavelmente continuariam com aquela discussão por horas.
Deus, agora entendia o que Marlin e Sirena tinham querido dizer sobre humores alterados.
— Não vou fazer uma busca nos quartos — ele declarou, mas completou assim que Valerie abriu a boca para protestar —, a não ser que tenha provas de que alguém pegou as suas coisas.
— Então devemos aceitar essa situação? — perguntou Valerie, ofendida.
— É claro que não. Roubo é inaceitável, isso está nas regras — Liam respondeu, pensando em uma solução por alguns segundos, algo que parecia um pouco óbvio — A partir de agora, todas vocês terão um guarda à sua porta para a segurança pessoal de vocês e de seus pertences.
Sim, ele tinha dois guardas às portas do seu quarto, elas deviam ter esse cuidado também, ainda mais com todos os relatórios de rebeldes... Se bem que eles não conseguiriam chegar a Angeles. Achava difícil que conseguissem.
A porta à direita dele fechou-se, provavelmente a criada tinha conseguido puxar Jane de volta, agora que a questão tinha sido resolvida.
— Era só isso? — Liam virou-se para Valerie, tranquilo.
Ela parecia bem contrariada com a solução, mas concordou a contragosto.
— Me informe se a sua pulseira aparecer — ele disse, prestativo — Se me dão licença, preciso retornar aos meus afazeres.
Queensley, que já estava pronta para descer, seguiu-o pelo corredor, mantendo uma distância respeitosa, até que ele parou de caminhar para ficarem no mesmo ritmo.
— Quais as suas impressões sobre o caso, senhorita Shacklebolt? — Liam brincou.
— Ela é inocente — ela não pareceu entender a brincadeira, ou apenas não estava com humor para isso — Foi crueldade a humilhação.
— Talvez ela só não esteja em um bom dia — ele deu de ombros.
— Se você quer saber como uma mulher é, veja como ela trata os seus inferiores, não os seus iguais — Queensley disse, sem hesitar e então respirou fundo — Desculpe, sabe como eu odeio injustiças.
— Temos sorte de tê-la no palácio, senhorita Queensley.
Ela devolveu o seu sorriso, parecendo um pouco mais relaxada.
— Ainda preocupado? — perguntou, perspicaz.
— As preocupações sempre me perseguem — Liam respondeu —, mas eu estou fugindo delas um pouco.
— Tentarei o mesmo.
Dividiram-se nas escadas, ela seguiu para o 1º andar e ele voltou a subir, indo em direção ao seu quarto.
— Eu fiquei sabendo sobre o que aconteceu ontem — Anneliese comentou com o príncipe, em algum momento da saída deles para os jardins.
Era um pouco repetitivo, mas não quando se passava tanto tempo trancado dentro do castelo.
— Do Jornal Oficial? — Liam perguntou, distraído.
Ele não se lembrava do que tinha ocorrido de madrugada até que ela tocou no assunto.
— Não, da Sirena no 3º andar — Anneliese respondeu.
Então tinha sido ela.
— Ah! Sim! — ele exclamou, ao lembrar-se do acontecido — Eu fiquei sabendo pelos meus guardas.
— De verdade? — ela pareceu surpresa — Pensei que estavam conversando e então ela tropeçou...
Os boatos sempre afastavam-se dos fatos verídicos.
— Não, eu estava dormindo quando fui acordado com essa confusão — Liam respondeu — Por sorte ela me pareceu bem hoje.
— Oh! Sim! — Anneliese sorriu, mas então tocou em um assunto um pouco mais sério — O senhor é muito bom.
— Senhor? — ele repetiu, achando graça.
— Vossa Alteza — ela corrigiu-se — O que fez por Gema foi muito legal.
— Eu não acho que ela seja culpada. E, de qualquer maneira, Valerie não tinha provas — dispensou a sua admiração educadamente.
Não se sentia muito confortável com elogios.
Antes, quem ficava no centro das atenções era Petuel, e então todos pareceram depositar suas esperanças da continuidade do reino em seus ombros.
— Nem todos têm a mesma atitude — Anneliese insistiu, antes de mudar de assunto — Por que tinha perguntado sobre o Jornal Oficial?
— Confesso que permaneço curioso pelo motivo que causou tanto riso — Liam disse — Fiquei pensando sobre isso e não encontro uma resposta.
— Ah! Eu a tenho! — ela pareceu conter-se para não voltar a rir — Skeeter nos chamou de moças meigas e gentis.
— E qual o problema nisso? — ele ficou genuinamente confuso.
— Bom, você viu o outro lado de Valerie hoje. Acha mesmo que ela é meiga e gentil?
Não, ele não achava, mas não poderia dizer isso em voz alta.
Não ainda, pelo menos.
Mesmo assim, Anneliese tomou o seu silêncio hesitante como uma resposta.
— Muitas meninas são diferentes à sua frente, Alteza — ela disse.
— Suponho que não há nada que eu possa fazer em relação a isso — ele respondeu, embora um pouco frustrado — Era uma das coisas que eu mais temia que acontecesse em relação à Seleção. Como enxergar como elas realmente são por trás da máscara?
— Com o tempo, o se... — ela corrigiu-se a tempo, mas ainda assim arrancou um olhar divertido dele — Vossa Alteza aprende. Irá se acostumar.
Ele esperava que sim.
Se considerava bom em ler as pessoas, até aquele momento, mas sabia que podia conversar sobre isso com Reyna e Cara.
— Eu deveria resolver o assunto dos guardas — Liam disse, em um determinado momento, assim que considerou que o assunto já estava escasso e a selecionada devia desejar descansar um pouco.
— Boa sorte — desejou Anneliese com sinceridade — E espero não estar sendo impertinente, Vossa Alteza, mas sempre que precisar conversar... pode contar comigo.
Ela não lhe passou a sensação de analisá-lo o tempo inteiro, como temia.
Então considerou a proposta.
— Pode deixar — ele sorriu para ela.
Eliminar algumas garotas estava se tornando uma decisão bem difícil.
Ele já tinha o nome de alguns guardas que estavam em excesso pelo castelo, que havia algumas semanas seu pai estava considerando mandá-los para outro lugar, e agora teria uma utilidade para eles, pelo menos temporariamente.
Ao menos não precisaria pegar soldados de fora, que não estivessem tão familiarizados com as passagens secretas do palácio de Angeles.
E um deles era, é claro, Marlin.
— Você me designou para uma selecionada — ele observou, assim que se viram outra vez, segurando um papel em mãos.
— Eu tenho confiança em você, apesar de não acreditar — Liam alfinetou o amigo.
McKinnon cruzou os braços, não caindo muito em sua provocação.
— Você escolheu todos a dedo? — ele perguntou, antes de se responder — É claro que escolheu, você nunca deixaria uma decisão mais fácil.
— Qual é o ponto? — Liam perguntou, sem entender o que ele estava tentando dizê-lo.
— Por que Janeth Mirren? — o amigo foi direto.
Oh.
— Eu não sei — ele deu de ombros — Pensei que seria uma boa combinação.
— Você gosta dela? — Marlin perguntou, curioso.
Ele não devia tê-lo escalado. Não importava com quem ele o colocasse, ele pensaria sempre que tinha alguma coisa influenciando essa decisão.
— Por Deus, a Seleção começou não faz nem um mês! — Liam exclamou, exasperado.
— E tem prazo de validade para começar a gostar de alguém?
Não respondeu e, por algum motivo que ele não conseguia entender, o amigo resolveu não forçar. Talvez finalmente tivesse entendido que ele não se sentia à vontade com suas cobranças, que ele falaria quando estivesse com vontade — o que, sinceramente, nunca tinha acontecido.
— Quando eu começo? — McKinnon perguntou, em vez disso.
— Assim que meu pai aprovar o esquema — Liam respondeu, suspirando involuntariamente — Espero que Petuel não volte tão cedo.
— As coisas ficam mais calmas, não é? — ele deu um sorriso sarcástico.
Não exatamente.
Valerie não deixaria a questão da sua pulseira até que eles resolvessem isso, e sabe-se mais o quê as outras selecionadas resolveriam...
— Preciso falar com Jane — disse Liam, repentinamente — A propósito, ela não gosta de ser chamada de Janeth. Se vai ser o guarda dela, deveria saber disso.
McKinnon não falou nada, apenas continuou com seu típico sorriso malicioso.
— Leve isso para meu pai, por favor — ele resolveu ocupar o tempo do amigo, ou com certeza seria seguido — Quem sabe ele aprova e logo hoje você já começa a trabalhar de verdade.
Frisou as últimas duas palavras, vendo Marlin fazer uma expressão falsamente ofendida, enquanto pegava o papel que ele tinha escrito.
— Ei! Eu trabalho aqui! — ele exclamou.
— Trabalha muito — Liam respondeu, ironicamente.
Não esperou o guarda retrucar, indo em direção ao Salão das Mulheres.
Ele realmente devia ir se encontrar com seu pai agora, estava inclusive arrumado para uma reunião militar, mas supunha que podia uma vez ou outra dar um tempo da sua agenda, eles tinham mexido com a sua rotina sem pedir permissão.
Tecnicamente, eles pediram, mas não era como se ele pudesse responder "não", então foi praticamente uma imposição.
Não eram todas as mulheres que estavam no Salão, apenas um pequeno grupo, provavelmente conversando sobre as entrevistas que dariam lugar ao Jornal Oficial na sexta-feira. Ele estava enlouquecendo porque Rita não o avisou com maior antecedência e tinha que arrumar a maior quantidade de encontros de última hora, como fez com Anneliese.
Isso os diários dos fundadores não o ajudavam a administrar.
Não tinha permissão para entrar no Salão, apenas a sua mãe poderia dá-lo essa permissão e ela não estava presente, como ele constatou quando abriu as portas para procurá-la. As selecionadas perceberam rapidamente a sua presença levantando-se — Stelle tinha uma estranha peruca loira em sua cabeça, que caiu quando se levantou. Por um instante, considerou perguntar se ela estava fingindo ser Rita Skeeter, mas decidiu ir direto ao assunto que o levou até lá.
— Jane, poderia vir aqui fora, por favor? — ele perguntou.
Jane levantou-se e foi silenciosamente até ele, parecendo um pouco aliviada de sair de lá e ao mesmo tempo extremamente pensativa. As outras selecionadas permaneceram de pé, observando-a sair, até que ela fechou as portas atrás delas.
Liam podia jurar que escutou alguma cadeira caindo lá dentro.
— O que acha de darmos um passeio agora? — sugeriu.
Ele não colocaria a mão no fogo de que nenhuma das selecionadas os escutaria conversando, isso sem contar os guardas que tomavam conta do Salão das Mulheres e estavam escutando-os, apesar de fingirem habilidosamente que não.
— Ótima ideia — Jane respondeu, os seus olhos inconscientemente indo até as portas duplas do Salão.
Pareciam pensar na mesma coisa.
Eles caminharam por alguns minutos pelo corredor em silêncio, até que Liam resolveu quebrá-lo:
— Você parece incomodada.
Não sabia se tinha usado a palavra certa.
Talvez fosse apenas uma impressão errônea.
— A situação de mais cedo me incomodou — ela respondeu, parecendo desculpar-se — Aliás, perdoe-me por ter ficado olhando para a conversa, Foi falta de educação da minha parte.
Ele não a culpava, faria o mesmo em seu lugar, mas não disse isso.
— Queensley também estava lá, e Reyna — ele comentou — Se fosse um assunto tão formal, teria pedido que saíssem.
Jane desviou o olhar dele, um leve rosado surgiu em suas bochechas, mas apenas por alguns segundos.
— Foi agradável? — ela perguntou, aparentemente antes que pudesse se frear, já que pareceu arrependida quando completou a pergunta — O encontro com Queensley.
Sentiu-se curioso. Talvez ela não soubesse que ele tivesse saído com Anneliese naquela manhã, e resolveu não corrigi-la.
— Todas vocês são agradáveis — respondeu.
Não sabia o porquê sempre usar respostas mecânicas quando o perguntavam sobre assuntos como aquele.
Talvez ele só se sentisse pouco à vontade mesmo.
— Alguma vez já foi até a cidade? — Jane perguntou, assim como a pergunta anterior.
Ela parecia não saber como conversar direito e então fazia perguntas aleatórias para ver se conseguia puxar assunto, ou ela apenas dizia o que lhe vinha à cabeça mesmo.
— Raramente — Liam admitiu, quase conseguia lembrar-se de todas as ocasiões — Houve uma revolta em Likely uma vez e os rebeldes já invadiram Baffin também.
Não comentou sobre os ataques rebeldes recentes.
Era um pouco depressivo pensar que ele só saía da fortaleza para resolver questões do povo, questões que deveriam ser resolvidas por Petuel, mas achava que era melhor que nada.
Eles já estavam chegando aos jardins e ele decidiu parar de caminhar antes de chegar às portas transparentes guardadas pelos guardas, finalmente entrando no assunto que ele queria tratar, considerando o momento apropriado. Não tinha sido apressado demais, mas também seria breve.
— Poderia lembrar às suas amigas que o terceiro andar é proibido?
Jane o olhou confusa por alguns segundos e então pareceu entender do que ele estava falando. Claramente Sirena tinha lhe contado o que fez.
— Aconteceu algo? — fez-se de desentendida.
Não pediu desculpas por Sirena nem tentou explicar as atitudes da amiga.
Ela era uma amiga leal.
Ficava feliz que pelo menos isso a sua indesejada Seleção pudesse construir.
— Os guardas viram Sirena caminhando por lá — ele respondeu brevemente.
Ela pareceu perceber que ele não daria uma bronca nela pela amiga, o que sequer fazia sentido, e então assentiu com a cabeça:
— Certo, eu direi.
Liam escutou passos atrás de si antes mesmo que pudesse se revirar e McKinnon sussurrou em seu ouvido.
É, ele não conseguiria escapar da reunião com seu pai.
— Eu preciso ir — ele dirigiu-se à Jane, dando um beijo de despedida em sua mão — Nos veremos em breve.
— É claro — ela respondeu, polidamente.
Permaneceu parada enquanto ele se afastava com o amigo.
— Essa é a Jane? — Marlin não pôde evitar perguntar, enquanto eles afastavam-se.
— Cale a boca — foi apenas o que Liam respondeu, temendo que ela tivesse escutado-os.
O amigo soltou uma risadinha.
A ideia de torná-lo guarda dela era péssima, estava arrependido já.
— Fugindo de mim, Liam?
Sentiu-se aliviado por serem apenas eles e McKinnon na sala de reuniões.
Nada de vinte conselheiros do reino para dificultarem uma decisão tão simples quanto o imposto de importação das laranjas.
— É claro que não, pai — ele respondeu, puxando uma cadeira próxima.
Charles deu uma olhada para Marlin, que ainda estava de pé, com uma sobrancelha erguida e ele então também puxou uma cadeira para sentar-se.
— O que aconteceu para você decidir tomar essa decisão? — o rei ergueu o papel que ele tinha pedido para o amigo entregar — Não que esteja errada, toda precaução é pouca.
— Uma das selecionadas relatou um furto de uma joia — Liam disse.
— Coitada de quem pegou, não vai conseguir nada — Charles comentou.
— As criadas sabem disso, não sabem? — perguntou McKinnon — Elas devem saber a diferença entre uma joia real e uma falsificada, já que é parte do trabalho delas o armazenamento.
— Não foi uma das joias do palácio — Liam explicou — Foi uma pulseira de brilhantes que ela trouxe de casa.
— Isso complica a situação — Charles disse —, mas você não acha que foi a empregada, ou isso já teria sido esclarecido.
— Achei que a ideia dos guardas seria melhor para evitar futuros acontecimentos. Não acho justo pedir uma revista no quarto das selecionadas, já que não temos provas. Com sorte, a pessoa que fez isso vai tentar de novo e então será flagrada.
O rei concordou.
— Se isso não funcionar, teremos que pensar em alguma coisa antes que a senhorita Valerie seja eliminada — ele disse — Ou então repô-la.
Era justo.
— A não ser que seja um presente sentimental — argumentou McKinnon.
Ele achava difícil.
— É uma boa solução para esse problema e dar um trabalho a esses guardas sobrando — Charles lançou um olhar para Marlin, que fingiu não ter percebido — Concordo com a sua organização. Vou aprovar para hoje mesmo e mandar para o chefe de segurança.
— Posso ir? — Liam perguntou.
— Não vai conseguir escapar dos assessores — o seu pai respondeu, sem olhá-lo — Eles estão por aí te esperando.
Soltou um suspiro descontente.
Sentia falta de quando eles corriam atrás de Petuel.
