— Alteza!

— Por favor, Alteza...

Os conselheiros pareciam um bando de repórteres atrás do próximo grande furo, a única diferença era que Liam preferia os jornalistas.

— Abraxas — ele disse, repentinamente, calando o pequeno grupo ao mesmo instante —, venha comigo. Quanto aos senhores, falaremos sobre as suas questões em outro momento. Ou, caso seja urgência, podem falar com meu pai.

Eles obedeceram-no, apesar de contrariados. Já estava acostumado a lidar com eles, mesmo que ficassem chateados por serem ignorados, em outro instante já estariam tão prestativos e necessitados de uma opinião que seria como se ele nunca tivesse os dispensado.

— Alguma notícia sobre os rebeldes? — perguntou ao conselheiro, enquanto afastavam-se pelo corredor.

— Nada de novo — Abraxas respondeu — Alguns guardas na fronteira tentaram impedir a fuga de um grupo, mas era um grupo pequeno.

— Que fronteira?

Alguns guardas passaram por eles.

— Lakedon — o conselheiro respondeu.

— Não há terras entre Lakedon e Bankston — ele estranhou — Só o mar.

— A menos que quisessem atravessar até Hudson sem passar por Labrador.

Ainda eram quilômetros e mais quilômetros de água.

— E se há alguma ilha por essa região? — sugeriu.

— Podemos verificar essa hipótese.

Escutou risadas vindas mais à frente. Novamente calaram-se, não conversavam sobre assuntos do reino por perto de outras pessoas, nem mesmo dos guardas.

Apesar de ser um grupo considerável de moças, os seus olhos pareceram ser atraídos para a moça mais calada de todas, a que estava atrás de todas, sem participar das brincadeiras. Sirena e Fabiane se destacavam como sempre, cada uma puxando um braço diferente de uma mulher que estava no centro.

Demorou algum tempo, mas ele reconheceu Gema, a criada de Valerie.

Ela parecia estar se soltando aos poucos, rindo das coisas que as selecionadas diziam a ela. No entanto, ela foi a primeira a notar a presença de Sua Alteza e arregalou os olhos.

Todas as moças pararam de caminhar, assim que Liam e Abraxas se aproximaram o suficiente. O loiro olhou curioso para a comitiva.

— Senhoritas — cumprimentou-as.

Observou-as cumprimentá-lo em tons de voz baixos. Pensou em seguir em frente, fingindo não ter notado, mas decidiu curvar-se levemente em direção a Gema.

— Está linda, senhorita — sorriu, cúmplice.

Ela sorriu de volta, agradecida e parecendo um pouco envergonhada.

Virou-se para Abraxas, que aguardava sem pronunciar-se, e voltaram a caminhar.

Procurou Jane discretamente com o olhar, mas ela parecia estar evitando-o.

Era difícil de compreender o que tinha feito de errado dessa vez. Tinha sido a sua conversa sobre Sirena que a incomodou?

— O palácio parece mais cheio de vida, não acha, Alteza? — o conselheiro perguntou, cauteloso.

Imaginava o motivo de sua cautela.

— São as pessoas — ele respondeu — Elas tornam o castelo mais... vivo.

— Estamos fazendo isso por elas.

Referia-se ao estudo sobre os rebeldes.

— Eu sei — suspirou.

Tudo o que fazia em sua vida era por elas.

Inclusive aquela Seleção.

— Estou indo para o meu posto! — Marlin tentou defender-se antes mesmo que ele reclamasse.

Estava jogado na sua cama, como se estivesse fugindo do inspetor da guarda, ou como se precisasse falar algo urgente com ele.

— Pode me fazer um favor? — Liam pediu, aproximando-se da mesa de escrivaninha.

— A minha patente não me permite negar.

Revirou os olhos, seu amigo podia ser bem idiota às vezes.

— Diga a Sirena para me encontrar nos jardins — ele disse.

Pôde ver através do espelho uma expressão estranha e indecifrável tomar conta de seu rosto.

— Sirena? — ele repetiu.

— Você sabe, eu preciso me encontrar com todas as garotas até o Jornal Oficial na sexta — Liam resmungou.

— E Jane?

Ele não trocava o disco.

— Ela... não quer falar comigo, eu acho — franziu levemente o cenho — É uma das coisas que quero conversar com Sirena. Você pode ou...?

— Certo.

Ele saiu do quarto ainda agindo estranho.

— O que deu nele? — perguntou a si mesmo.

Era como se todas as pessoas ao seu redor estivessem agindo diferente com ele, e não podia sequer imaginar as suas motivações. Isso acabava com ele.

Foi rapidamente até os jardins, sem esperar pelo retorno do amigo.

Não demorou muito para que a garota aparecesse, vestida exatamente como estava mais cedo.

— As garotas acham isso romântico? — ela perguntou, juntando-se a ele perto do chafariz.

— Não, elas acham entediante — ele respondeu, fazendo-a rir — Estou ficando sem ideias.

— Mas já?

— Não tive muito tempo para planejar.

A Seleção tinha iniciado-se às pressas. E ele era péssimo em improviso.

— Precisa da minha ajuda? — ela perguntou — Não sou a pessoa adequada para isso.

— O que estava fazendo no terceiro andar?

Ela tentou fazer-se de desentendida.

— Quando?

— Há alguns dias. Durante a noite.

Os seus olhos moveram-se, observando algumas flores, parecendo procurar por uma desculpa convincente. Podia ver as engrenagens girando em seu cérebro. Seria demais para o seu orgulho admitir que tinha falhado em ser discreta.

— Ah! — ela exclamou, como se tivesse se lembrado de qual dia era — Ah! Sim! Aquele dia... Eu...

Ela estalou os dedos, como se estivesse esperando que ela lesse a sua mente e dissesse em voz alta o que ela estava pensando.

— Eu ia perguntar... se você... se Vossa Alteza achava que a sua mãe talvez nos permitisse... — disse Sirena — Eu estava conversando com as meninas depois do horário de recolher e nós pensamos que seria muito interessante se fizéssemos uma festa do pijama, todas juntas, no Salão das Mulheres. Vi isso em um filme uma vez.

— Ia falar comigo ou com minha mãe? — perguntou, achando graça.

— Contigo. Não tenho tanta intimidade com a rainha.

— E nós temos?

Sirena deu de ombros.

— Touché — disse.

— Não pode dizer touché sempre que ficar sem respostas — Liam retrucou.

— Por que não? É uma excelente maneira de sair por cima — ela brincou — Mas o que acha? A sua mãe concordaria?

Ela não diria a verdade.

— Teria que perguntar a ela — ele começou a caminhar para longe do chafariz —, porém essa festa incluiria todas as meninas?

Ele frisou o "todas".

— Quase todas — ela tentou, sorrindo inocentemente.

— Foi o que pensei. Isso não é muito democrático.

— Vivemos uma monarquia.

Sirena saiu à sua frente, ditando onde iriam.

Sempre uma resposta esperta na ponta da língua.

— Senhorita — ele começou.

— Faça-me um favor, Alteza — ela o interrompeu — Enquanto estivermos a sós me chame de Sirena, não de senhorita.

— Nesse caso pare de me chamar de Alteza, senhorita.

Ela revirou os olhos, mas exibiu um sorriso contido.

— Certo, Liam.

Não era tão fácil assim para ele.

— Eu gostaria de perguntar uma coisa — ele disse.

— Então pergunte — ela disse com objetividade.

Eles alcançaram a ponte do pequeno lago do jardim do palácio. Ele amava como aquele jardim tinha tantas nuances, não era apenas um campo liso com plantações.

— Eu disse algo de errado para a senhorita Jane? — ele perguntou.

Sirena demonstrou surpresa por sua pergunta e então refletiu por um momento.

— Eu não acho que tenha dito ou feito algo — ela disse — Jane é meio reservada, parece ter dificuldades para demonstrar seus sentimentos.

Isso ele tinha percebido.

— Mas por que não a convidou para um encontro? — Sirena devolveu uma pergunta.

— Estive tão atarefado — Liam respondeu — Além do mais, pensei que conversando com a se... contigo primeiro seria melhor. Caso eu tivesse feito algo errado, não acho que ela gostaria de me ver.

Ela deu um sorriso misterioso para ele.

— Ou não precisa de um encontro porque no final das contas sabe que ela não vai ser eliminada?

Foi pego de surpresa.

Antes que pudesse responder, ouviu o som de galhos se partindo e um gritinho feminino.

Os dois olharam para trás, vendo Reyna, Jane, Marlin e uma das criadas de Jane afastados apenas o suficiente para não serem vistos. Teria dado certo se não fosse pelas duas garotas caídas.

Eles afastaram-se apressados, as garotas tentando cobrir os rostos com o cabelo. Jane não tinha o comprimento suficiente para que isso desse certo.

Voltou o seu olhar para Sirena e isso bastou para que os dois caíssem na risada.

— Elas resolveram ter um dia de criadas? — Liam perguntou — Depois de terem ajudado Gema.

— Eu não tenho a menor ideia do que acabou de acontecer aqui, mas acho melhor eu ir — disse Sirena, categórica — Preciso tirar umas satisfações.

— Farei o mesmo.

Eles despediram-se e foram cada um para um lado.

Foi difícil encontrar Marlin. Ele parecia estar fugindo de uma conversa. Por fim, encontrou-o fazendo a guarda no corredor das selecionadas.

— Difícil te encontrar — ele comentou assim que o viu.

— Estava trabalhando — o guarda respondeu, olhando para a frente.

"Conta outra" pensou.

— Estava fazendo o quê nos jardins mais cedo? — o príncipe perguntou.

— Estava tentando fazê-las voltar — respondeu McKinnon — As vi pela janela.

Não sabia o que responder.

Não acreditava no que ele dizia, mas não tinha ideia do porquê ele estava agindo estranho ou mentindo para ele.

— Nos vemos mais tarde — deu um tapinha no seu ombro antes de afastar-se.

Liam já estava acostumado a usar farda cheia de medalhas. Ele amava aquela roupa, apesar de ser pesada. Era o tipo de roupa que usava em eventos reais. Ele tinha mais medalhas do que Petuel, é claro, mais medalhas próprias do que herdadas de seu pai, que foram para o filho mais velho.

Lembrava-se de quando Petuel fez aquelas fotos com as poucas selecionadas restantes da época. Ele estava bem longe de chegar àquele número. O fotógrafo tinha brincado se ele não queria se juntar, o irmão não gostou da brincadeira.

Imaginava como seria se Jane tivesse sido fotógrafa oficial.

Em vez disso, ela estava na fila das selecionadas, tentando puxar a faixa para cima. Aqueles vestidos eram diferentes das seleções anteriores.

Estava olhando na direção errada quando veio outro flash, então precisou piscar um pouco para voltar a enxergar.

— Tudo bem aí, Alteza? — perguntou o fotógrafo, preocupado.

Liam tirou a mão da cintura de Anneliese, pressionando dois dedos contra os cantos internos de seus olhos.

— Talvez um descanso? — a psicóloga sugeriu ao fotógrafo ansioso.

— Não, tudo bem — Liam mostrou a palma da mão para o homem, ainda piscando os olhos — Eu me distraí, perdão.

Ele voltou a se posicionar, pondo a mão na cintura dela.

— Ponha a mão do lado da faixa. Fica de lado. Olha pra cá — o fotógrafo instruiu a selecionada.

Com um alto "próxima" ele as dispensava e deixava alguns segundos para Liam dar um beijo na mão delas ou começava a resmungar pela demora, analisando as fotos tiradas e trocando o filme da câmera.

Considerou que ficar observando fixamente enquanto Jane aproximava-se não era uma boa ideia, então ajeitou as suas medalhas, mesmo sabendo que o uniforme estava impecável.

— Sem mais crises? — ele puxou assunto.

Não queria apenas tirar fotos com ela.

Queria saber o que tinha acontecido, o porquê da relação deles ser tão complicada.

— Terminei de tomar as vitaminas, se é o que está perguntando — ela respondeu.

Não era exatamente isso o que ele queria dizer, mas também.

Não prestou atenção no flash da câmera, enquanto Jane observava cada uma das medalhas, como se soubesse o que significavam.

— Isso é bom, me deu um susto e tanto — Liam comentou.

— O quê? Não está acostumado a ver garotas passando mal?

Pôs as mãos na cintura dela, prestando atenção nas instruções do fotógrafo, puxando-a para mais perto.

— Na verdade, não.

Não estava acostumado a ver mulheres no geral, mas não disse isso a ela.

— O que acha de nos vermos mais tarde? Tem um lugar que eu queria te mostrar.

Jane demorou para responder. Ele já estava considerando que ela recusaria quando ela por fim disse:

— É, pode ser.

Ela não esperou pela despedida. Assim que o fotógrafo a liberou, ela afastou-se dele e, próxima da porta, arrancou a faixa do vestido.

Particularmente o vestido ficou bem bonito assim.

Escutou Minerva repreendê-la por sua atitude, ao mesmo tempo em que o fotógrafo olhou para trás e gritou:

— Próxima!

A sessão demorou mais do que esperava.

Tentou ser o mais rápido possível, seguindo as instruções do fotógrafo e evitando conversar com as garotas, por mais arrogante que isso pudesse soar.

Já conseguia pensar em levar Jane para aquela câmara secreta perto da biblioteca, qual reação ela teria.

— Prontinho — o fotógrafo disse.

Poucas selecionadas permaneceram para observar o final dos ensaios, seja para esperar amigas, por curiosidade ou por esperar uma oportunidade de conversar com o príncipe.

— Foi um prazer, senhorita Edge — ele deixou um beijo em sua mão e então afastou-se.

— Quer ver como ficaram? — o fotógrafo perguntou a ele.

Jane o agrediria se confessasse que não guardava o nome daquele profissional, que não era o primeiro trabalho dele no palácio.

— Não, eu confio em você — ele deu um tapinha no ombro do homem.

Foi apressado até as portas do Salão, ignorando o chamado de algumas selecionadas.

Nem passou em seu quarto para trocar de roupa, mesmo sabendo que receberia uma bronca de sua mãe se ela soubesse que ele estava andando com aquele uniforme por aí.

"É importante demais para você ficar andando por aí com ele" imaginou-a ralhando com ele, como quando era criança "Imagine só se uma das medalhas cai e quebra".

Ele duvidava.

Era mais por questões simbólicas do que por manutenção.

Marlin estava na porta do quarto dela olhando entediado para o teto. Nada que ele já não fizesse, a diferença era que ele sentava-se.

— Aí, Liam, meu turno vai ser 24 horas? — ele reclamou — Você podia pelo menos me dar uma cadeira, né.

— Vou pensar no seu caso.

Então ele percebeu que o amigo não passaria reto e seus olhos quase brilharam.

— A chamou para um encontro? — perguntou.

Liam fez um gesto para que ele falasse mais baixo. Marlin deu duas batidas na porta em seu lugar, ainda virado para ele e esperando por uma resposta.

— É, eu chamei.

Antes que pudessem continuar a conversa, a porta abriu-se bruscamente e antes que pudesse se virar para falar, Jane fechou a porta atrás de si, como se escondesse algo no seu quarto, e o empurrou para trás, já que ele impedia o seu caminho.

— Vamos? — ela perguntou, ignorando o seu olhar de surpresa.

Ainda usava o vestido das fotos, mas sem aquela faixa. Imaginava se ela tivesse o arrancado antes de sua sessão.

— Alteza — McKinnon fez uma reverência com um sorriso malicioso em seu rosto.

Conteve a sua necessidade de estapeá-lo. Era uma vontade bem recorrente.

— Vamos — Liam respondeu, mas sem poder conter sua curiosidade — Algo que eu deveria saber?

Jane olhou-o confusa e em silêncio.

— Você parecia estar fugindo — apontou para a porta atrás dela.

— O quê? Queria entrar no meu quarto? — ela cruzou os braços — Você já o conhece.

Ele ficou sem resposta. A garota parecia estar na defensiva praticamente desde que se conheceram. Ajeitou o cabelo na falta do que responder ou dizer, tentando ignorar o olhar do guarda, que certamente seria debochado.

— Você disse que tinha algo para me mostrar — ela disse, ainda estava com os braços cruzados.

Ele limpou a garganta nervosamente.

— Certo, me siga.

Ele saiu à frente, guiando-a até o terceiro andar, que até aquele momento era proibido para as selecionadas. Elas só teriam acesso àquele andar quando precisassem elaborar uma recepção, pelo que ele se lembrava, pois precisariam ir atrás de informações sobre os países.

Quais seriam os países? Eles talvez se sentissem ofendidos por não terem sido incluídos na última Seleção.

Como ela não conhecia o local, ele absteve-se a apresentar apenas as salas mais importantes.

— Essa é a biblioteca — indicou as portas duplas mais próximas da escadaria — Ali do lado fica a sala de reuniões, é onde nos reunimos quando temos que nos resolver com o conselho, mas eu quero te mostrar outra coisa.

Jane observou em silêncio o ambiente ao redor deles. Não era tão diferente do segundo andar ou o resto do castelo, do ponto de vista de Liam. Tinha bastante madeira, quando se esperava-se que castelos fossem forrados de pedras.

Ele foi para uma parede mais afastada, arrastando a madeira que dava espaço para a passagem de certa forma secreta.

— E essa é a galeria de arte — ele ficou ao lado da abertura, dando completa visão e passagem a ela.

Quando viu que ela não se moveria, passou à frente para a câmara que ele considerava estreita. Não era o melhor lugar para guardar tantas obras, apesar de seguro, mas não tinha muitas opções de reforma em um palácio construído havia séculos.

Foi direto para uma caixa em meio às prateleiras repletas de quadros fora da moldura, enrolados como se fossem um folder de lona. Apenas alguns estavam expostos nas paredes laterais.

Era um hobby de sua mãe. Lembrava-se de quando ela o levou para um leilão na França. A rainha não precisava submeter-se a isso, mas ela gostava do ambiente. Foi a primeira vez que viu a mãe fora das joias caríssimas e os vestidos estonteantes.

— Isso são... — Jane disse quando ele aproximou-se dela segurando a caixa e lhe dando para segurar.

Ela estava de frente a "Tempestade no Mar da Galilea". Poderia contá-la sobre como aquela obra pintada em 1633 permaneceu perdida por séculos, mas não sabia se ela gostava daquele tipo de arte.

— Fotos — respondeu — Abra.

Jane olhou ao redor procurando por algum lugar para sentar-se e encontrou um banco. Não havia espaço para majestoso sofá. As pessoas no geral ignoravam aquela câmara, mesmo as que sabiam de sua existência.

Ela pôs a caixa de madeira em seu colo e então puxou a tampa para cima, inicialmente admirando sem tocá-las, como se fossem relíquias que exigissem luvas especiais. Então ela arriscou-se para observar mais de perto um marinheiro e uma enfermeira beijando-se.

— Mas essa foto é da Segunda Guerra Mundial! — demonstrou o seu espanto.

— Do final dela, na verdade — ele sorriu, apoiado contra uma prateleira.

Se a prateleira cedesse, sua mãe o mataria.

— Isso é lindo, Liam — identificou uma emoção em sua voz.

Sentiu um calor na região do coração. Parecia que tinha conseguido derrubar as muralhas daquela jovem. Admirou os seus olhos brilhando, a boca entreaberta inconscientemente enquanto suas mãos acariciavam cada foto envelhecida.

E ainda teve um detalhe: ela o chamou pelo nome. Não de Alteza, príncipe ou qualquer coisa. Chamou-o de Liam.

— Obrigada por me mostrar isso — ela levantou os olhos para olhá-lo, antes de voltá-los para o conteúdo da caixa, como se estivesse sendo atraída magneticamente.

— Não precisa agradecer, Jane.

Parecia natural chamá-la assim, sem um "senhorita" na frente.

De todos os encontros que teve, aquele foi o que mais o deixou feliz. Sentiu que finalmente tinha conseguido acertar, depois de tanto pensar no que fazer.

— Sobre o que é essa foto? — ela pareceu finalmente conseguir soltar a foto do beijo, mostrando-lhe outra.

Eram os Romanov antes da Revolução Russa matá-los.

Ele puxou um banco para sentar-se mais próximo dela e explicar o que tinha aprendido sobre o assunto.

O seu interesse pelo assunto o fez se questionar se ela se interessaria pelos quadros na mesma proporção, ou quem sabe alguns documentos jornalísticos que sobreviveram ao tempo.

Desejou que o tempo parasse ali mesmo, mas ele não obedeceu-o.

— O que significa isso?

Liam ainda ficaria surdo por causa dos gritos de Petuel.

— Que bom lhe ver, irmão — ele comentou, sarcástico — Foi produtiva a sua viagem?

— Deve ter sido muito produtiva para você, não é mesmo? — o príncipe jogou uma pilha de papéis grampeados em cima de sua mesa, onde ele antes analisava a ficha de algumas selecionadas.

Ele suspirou.

É claro que depois da tarde maravilhosa que passou ao lado de Janeth Mirren, algo como aquilo apareceria para despencá-lo das nuvens.

Pegou a pilha de papéis, dando uma lida lenta e atenciosa no que estava escrito, mas Petuel não suportou a espera e voltou a gralhar.

— Plenos poderes administrativos! — ele vociferou — A você! Todas as decisões que eu, o herdeiro direto do trono, tomar terão que ser aprovadas por você!

Só então ele notou que Veta também estava presente, tentando acalmar o noivo.

— Eu não sei nada disso — Liam disse, calmamente.

O seu irmão parecia que ia explodir. Ele puxou o arquivo de sua mão com tamanha agressividade e força que quase bateu-se com Veta. Saiu pisando duro e fechou a porta com força. Sorte que essa não era de vidro.

Pressionou os cantos interiores de seus olhos com os dedos, respirando fundo. Seu irmão parecia uma criança contrariada às vezes. Não entendia o porquê de seus pais terem tomado aquela decisão, embora não os julgasse por isso.

Considerou permanecer na sala fazendo suas coisas, sentindo-se quase sem apetite depois daquilo.

E então lembrou-se que seus pais estavam na Sala de Jantar junto com as selecionadas. E ele certamente ia tirar satisfação com eles, sem esperar pelo término do jantar. Ele não tinha tanto sangue frio.

Suspirando, Liam levantou-se de sua cadeira e apressou-se pelo corredor em direção a Sala de Jantar.

— Devemos obediência às majestades e ao príncipe, não a você — escutou a voz de uma das selecionadas dizer.

As portas estavam abertas pela entrada abrupta de Petuel e Veta. Os guardas não pareciam ter coragem de aproximar-se para fechá-las.

— O quê? — Veta perguntou, indignada.

Não tinha dúvidas de que ela por trás de seus pais ficava pondo ideias na cabeça de Petuel, que já não era muito sensato.

— Se esse é o problema, ordeno que saiam agora — seu irmão saiu em defesa da noiva.

Somente nesse instante ele chegou às portas do salão.

— Você não manda aqui — sibilou.

Não ia permitir que Petuel e Veta fossem desagradáveis com as selecionadas. Principalmente com uma delas, embora não fosse admitir.

— Senhoritas, por favor, nos deixem a sós. O resto do jantar será servido em seus aposentos, se assim desejarem.

Rachel parecia a mais estressada das selecionadas. Veta a olhava mortalmente, mas calada pela presença de Liam. Era como se ele a intimidasse, já que as majestades não se atreveriam a ser indelicados com ela apesar de suas atitudes, ao contrário dele que não hesitaria se ela mexesse com suas selecionadas e seus pais — coisa que ela tinha acabado de fazer.

Petya observou decepcionada para a mesa posta, mas obedeceu, assim como todas as outras. Rachel saiu como um raio furioso, com certeza tinha sido a voz que escutou antes discutindo com Veta. Reyna parecia assustada pela discussão. Severina observava cada uma das pessoas em silêncio, não com curiosidade. Já Lucy parecia curiosa, apreciando mais do que devia o conflito.

— Fechem as portas — Liam instruiu os guardas, que obedeceram, deixando-os a sós.

Esses foram os segundos que Petuel suportou calado, o rosto ficando vermelho.

— O que pensa que está fazendo? — foi a sua vez de descontrolar-se.

— Chega! — Doralice gritou, pondo-se entre os dois antes que Petuel pudesse responder — Liam, Veta, saiam daqui agora! Teremos uma palavra a sós com o nosso filho! Uma conversa e não um festival de berros, Petuel Evans, contenha-se!

Ele não questionou. Perderia a cabeça se ficasse mais um segundo no mesmo ambiente daquele idiota. Já Veta reclamou com o noivo por ser posta de lado outra vez, ele não ficou para ver mais aquela discussão.

Cumprimentou Jones antes de bater na porta do quarto de Rachel. Foi a própria garota quem atendeu, não teve tempo de trocar de roupas.

— Senhorita Rachel, eu gostaria de me desculpar em nome de meus pais e do meu pelo que aconteceu — ele disse.

A expressão no rosto dela ainda estava furiosa e ele a entendia, devia estar da mesma forma.

— Alteza, eu considero uma grande desvantagem para a escolhida ter que conviver nesse castelo com aqueles dois — ela foi direta — Se eu fosse o senhor, consideraria o quanto amará essa mulher.

Ele não pôde evitar esboçar uma risada por suas considerações.

— E se quiser falar mal deles, pode me procurar. Tenho muito a dizer.

— Certamente tem — Liam balançou a cabeça, cansado — O nosso caráter é o valor da nossa conduta.

— Aristóteles — ela identificou.

— Quando precisar de alguma frase motivadora, virei te procurar.

— Quando precisar xingar o seu irmão, te esperarei.

Ele deu um último sorriso, antes de afastar-se.

Olhou para trás, mais especificamente para uma porta.

Como ela agiria com ele da próxima vez que se vissem? Voltaria a ficar autodefensiva? Ou tinha conseguido recuperar a sua confiança?