Disclaimer: Harry Potter, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a J. K. Rowling. Posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Ally Blake, que foi publicado na série de romances "Modern Sexy", da editora Harlequin Books (edição 71, publicada no Brasil em 2013).

OBS: Esta adaptação definitivamente terá OoC. Que ninguém diga que eu não avisei...


REGRAS DE COMPROMISSO

Capítulo 1

A Sand Bar, uma boate pequena e descolada que ficava na escondida Chapel Street, em Melbourne, estava lotada naquele sábado à noite.

- Ele é bonitinho ! - disse Luna Lovegood, gritando para se fazer ouvir.

Ginny Weasley mexia distraída em seu brinco longo de cristal enquanto olhava sonhadoramente para o galã musculoso, de jeans e camiseta, na outra ponta do balcão.

- Não é ? E para um tipo que parece viver ao ar livre, ele tem mãos muito bonitas. Estou certa de que toca piano.

Luna riu dentro de sua taça de coquetel, fazendo girar o mexedor de drinque em forma de flamingo.

- Se ele toca piano, então os rabiscos no bloquinho ao lado do meu telefone fazem de mim o próximo Picasso.

Ginny deixou a mão cair ao lado do próprio drinque e piscou várias vezes, sem entender.

- O que você quer dizer com isso ?

- Só você para enxergar potencial para marido em um primeiro encontro.

- Eu nunca ! Eu...

- Você sabe que sim ! - disse Luna, interrompendo Ginny - Você fica vendo coraçõezinhos e flores no ar, mas o que realmente precisa é de um homem que possa mantê-la na linha, que não a deixe cometer as bobagens que normalmente apronta. Você precisa de um homem que tenha vontade própria e que não se deixe submeter às suas vontades.

Ginny olhou de volta para o galã bem na hora em que ele murchava ainda mais sua barriga de tanquinho, enquanto duas moças loiras e ousadas passavam por ele. A boca de Ginny se retorceu.

- Acredite em mim, eu não estou ouvindo sinos de casamento desta vez.

Luna deu-lhe uma cotovelada de leve, e então cochichou pelo canto da boca:

- Mas você ouviu uma cama rangendo ?

Ginny lhe deu um tapa no braço.

- Nós nos conhecemos há apenas uma semana !

Luna balançou a cabeça, como se dissesse que isso não era resposta. Em seu mundo particular, na verdade, não era mesmo.

Ginny, por outro lado, não estava disposta a pular na cama com um sujeito qualquer só porque ele lhe provocava aquela doce agitação que, em geral, sentia ao conhecer alguém.

Esse nunca tinha sido o seu jeito de agir. Para ela, a atração tinha tudo a ver com o delicioso fogo brando do começo de um relacionamento.

Os olhares tímidos, os primeiros toques e beijos roubados e o acúmulo maravilhoso de tensão até que eles não conseguissem mais tirar as mãos um do outro. Era tão emocionante, tão melhor do que a realidade que sempre vinha depois. O galã, portanto, teria que esperar.

Ele olhou de volta para as garotas e sorriu. Grande, rústico e, honestamente, um pouco menos erudito do que ela gostaria. Mas Luna tinha razão: com aquelas covinhas e os cabelos negros, ele era absurdamente lindo.

Com um sorriso satisfeito, Ginny sinalizou para a amiga, que estava indo ao toalete se ajeitar.

Ela empertigou-se e foi costurando seu caminho por entre a multidão pulsante de freqüentadores da boate, típica de um sábado à noite.

Longe do tumulto, ela respirou, olhou em volta tentando se localizar e descobrir onde ficavam os toaletes, quando se virou e bateu de cara numa parede - ao menos fora essa a impressão que tivera.

Em seguida, ela estendeu a mão e a tocou, descobrindo que era quente e cedia um pouco. Além disso, trajava um terno.

Ela tentou se afastar, mas um grupo de moças que ia passando a empurrou para a frente.

- Epa - disse ela, meio rindo, meio se segurando para não cair enquanto se endireitava, usando a parede como guia.

Então, ela olhou para cima. E mais para cima. E mais para cima.

"Cabelo loiros e pálidos, olhos cinza, expressão sombria. Olá, bonitão".

Ginny olhou para dentro daqueles olhos cinza por um longo tempo.

Segundos ? Minutos ?

- Sinto muito - disse ela, ofegante, como se tivessem lhe tirado todo o ar dos pulmões.

Então, justamente quando ela decidiu que ele não iria responder, uma voz grave e aveludada murmurou:

- Mas por quê ?

Ela engoliu em seco. Tentou falar, mas sua boca estava seca.

Afastando a franja dos olhos e fingindo uma confiança que não sentia, ela olhou direto nos olhos dele e disse:

- Não tenho o hábito de me jogar nos braços de estranhos.

- Mas, ainda assim, você é muito boa nisso.

Ginny riu, e seus seios foram pressionados contra ele, contra o peito rijo e quente. Ela sentiu uma fraqueza na parte de trás dos joelhos e se segurou nas lapelas do paletó dele com mais força.

Ela queria poder enxergar melhor os olhos do homem à sua frente, de modo que pudesse ver se também estava sorrindo. O clube não estava exatamente escuro, mas de certa maneira ele parecia absorver a luz ao seu redor.

- Certo - disse ela - Então é um truque. Não é muito original. É um clássico, na verdade. E eu vou continuar com ele.

- Hum... há um motivo pelo qual os clássicos se tornam clássicos - disse ele, sua voz rica e aveludada fazendo com que os ombros dela se erguessem, como se alguém estivesse passando lentamente um dedo sobre suas costas.

- E qual é ?

- Eles funcionam.

Ela podia sentir a batida da música em seu corpo. Ou talvez fosse sua própria pulsação, rápida e forte, a não ser que fosse a pulsação dele. Eles estavam espremidos um contra o outro, perto o suficiente para que isso fosse possível.

- Ginevra Weasley. Ginny - disse ela, achando indelicado estar tão colada em um homem sem ao menos se apresentar. Ela deu um jeito de lhe estender a mão.

- Draco Malfoy.

- Prazer em conhecê-lo.

- Igualmente.

As luzes piscaram nesse momento, duas vezes, no ritmo de um sucesso dançante de décadas atrás, e Ginny finalmente viu o rosto dele. "Maravilhoso" não era o suficiente para começar a defini-lo. Tratava-se do tipo de rosto do qual ela teria que desviar o olhar, senão correria o risco de ser pega babando.

E, enfim, ele sorriu.

Não foi um sorriso largo, de modo algum. Mas o rosto sério se vincou de um jeito feito sob medida para acelerar o coração de uma garota, e os olhos cinza brilharam E isso foi o suficiente para fazer Ginny sentir-se como se tivesse levado uma pancada na cabeça.

Seu cérebro ficou enevoado. Pelo canto do olho, ela podia ver a maré de pessoas dançando, indo e vindo. Parecia que elas estavam se movendo em câmera lenta. A batida ritmada da música pulsava dentro de seu peito. E mais abaixo.

E agora, eles estavam se movendo no ritmo da música ? Se não, certamente parecia que estavam.

- Você é dançarino ? - perguntou. Mas assim que sentiu que ele puxava o fôlego para responder, ela o interrompeu - Na verdade, o que quero saber é... se você dança em lugares assim ? Não profissionalmente, é claro. Não quis dizer que você parece uma bailarina ou coisa parecida. E não acho que seria fisicamente possível girar de cabeça para baixo com esse terno.

Não houve resposta, mas ela não o culpava por isso. Embora o peito dele se agitasse deliciosamente contra o dela. Ele estava rindo ? Céus, ela estava literalmente tendo que se segurar para não enfiar o nariz no pescoço daquele homem, que tinha um cheiro tão gostoso e sorria em sua direção.

Ela sabia que devia deixá-lo em paz, recuar lentamente e ir aonde quer que ela estivesse planejando ir quando tropeçara nele. Onde era mesmo ? Mas ele tinha um cheiro tão bom, parecia tão sólido e a deixava tão deliciosamente arrepiada que Ginny não conseguia sair dali.

Por fim, ela percebeu que os braços dele envolviam-na.

Não inapropriadamente, de jeito nenhum. A música que estava tocando era do tipo que fazia com que metade da boate tentasse entrar na pista de dança, e ele estava apenas evitando que ela colidisse com outros freqüentadores, ou paredes. Tratava-se de um gesto de cavalheirismo.

Ela foi empurrada, cutucada, jogada para mais perto. Os braços dele enlaçaram-na de modo mais forte. A multidão retrocedeu, porém aqueles braços masculinos não. E subitamente o gesto não parecia mais tão cavalheiresco.

Ele mudou o peso de um pé para o outro. Ou talvez tenha sido ela. De qualquer maneira, eles estavam mais próximos. As coxas dela foram apresentadas à rigidez das dele. A fivela do cinto dele pôde conhecer o umbigo dela.

A pulsação dela ficou tão rápida e forte que sua cabeça pareceu girar.

Ginny sentiu-se como se o chão tivesse sumido sob seus pés e ela estivesse se equilibrando na borda de um penhasco. Se Draco se movesse da forma errada, ou, mais especificamente, da forma certa, ela seria obrigada a pular em seus braços, contornar sua cintura com as pernas e nunca mais soltar. Ele era tão forte, tão quente, que ela se pegou imaginando se haveria um beco nos fundos da boate, uma parede privativa contra a qual eles pudessem... e então ela se lembrou do cara no bar. O sujeito com quem ela estava. Aliás, qual era o nome dele, mesmo ?

Na verdade, foi menos por isso do que pelo fato de que seus dedos tinham começado a ficar dormentes com o esforço que ela estava fazendo, ficando na ponta dos pés para não ser completamente sufocada pela altura do homem, que ela voltou a descansar o peso, tremulamente, sobre seus saltos altos. Em seguida, afrouxou as mãos, cujos dedos estavam crispados no paletó do homem, desgrudou-se dele e deu um lento e incerto passo para trás. A música fez uma pausa. Algo mais lento e suave gemeu pelos alto-falantes exaustos. As luzes da pista de dança desapareceram e o lugar foi iluminado por uma luz mais suave.

- Bem, obrigada por não ter me deixado cair - disse ela, ainda precisando quase gritar para ser ouvida.

- Obrigado por permitir que eu não a deixasse cair.

Ela conseguiu rir, apesar das estranhas sensações em seu corpo. Então o rosto dele fez o vinco sexy novamente. Provavelmente, ela até tivesse dito algo como lindo.

Mas não. Ela não poderia ter feito isso. Isso seria embaraçoso demais, tanto quanto ficar com o vestido preso na calcinha.

Ginny checou discretamente a parte de trás do vestido e confirmou que não havia problema algum.

- Certo - ela fez um gesto na direção do bar, mantendo as mãos sobre os ombros - É melhor eu procurar minha amiga, antes que ela pense que fui abduzida por extraterrestres. Não que ela seja algum tipo de maluca que acredita em discos voadores e afins. Mas certa vez, já tarde da noite, nós duas vimos algo bem estranho e...

"Pare ! Vá ! Agora !"

- Certo, então. Até mais ! - disse Ginny.

Draco respondeu com um aceno de cabeça. Tinha um pequeno sorriso e um brilho no olhar que parecia um bocado com o tipo de atração intensa que ela própria sentia e com a qual ela estava lidando pessimamente nesse exato momento.

Ginny fez uma reverência. Uma reverência ! E então, ao dar um passo para trás, trombou em alguém, virou-se, desculpou-se profusamente. Mas, em seguida, colidiu com outra pessoa que dançava, virando-se, por fim, de novo para dar um adeusinho a Draco, de modo que ele não ficasse com uma imagem final dela dando uma cotovelada na cabeça de um desconhecido, e descobriu que ele tinha desaparecido.

Ela ficou um instante no meio da pista de dança, sentindo-se um pouco à deriva, na verdade.

Quando um grupo de rapazes sorridentes, vestindo camisetas idênticas com os dizeres "Turma do Bar", a rodeou, ela voltou a si rapidamente. Passou por baixo dos braços deles e mirou seus pés ainda instáveis na direção de Luna.

Enquanto seus joelhos tremiam, ela tentou, mas não conseguiu, lembrar-se de ter respondido de maneira tão intensa e imediata a um homem desde... bem, nunca. E tudo isso por causa de um pouco de contato físico, um olhar ardente e cinco minutos de quase conversa. Nada de olhares tímidos nem de primeiros toques atrevidos. Era como se uma bomba tivesse explodido dentro dela. Ginny pôs a mão sobre o peito tentando fazer com que seu coração desacelerasse.

Infelizmente, intensidade era, definitivamente, a última coisa que ela queria, ou de que precisava. Durante o final de seu último namoro, ela havia passado por intensidade suficiente para durar pelo resto da vida.

Harry, coitado, não havia lidado bem com o rompimento. E não era para menos: ele estivera tão seguro do relacionamento deles que chegara a lhe dar o anel de noivado que pertencera à avó. Mas o pânico havia tomado conta de Ginny, como inevitavelmente fazia, e ela terminara tudo.

Ela estremeceu, afastando o desconforto do incidente todo, que começara a cobri-la como um xale velho cheirando a naftalina. As coisas eram diferentes agora. Ela era diferente. Ou, pelo menos, tentava ser.

A princípio, ela havia tentado desistir de vez dos homens. Mas ficar sozinha e afundada no sofá toda noite de sábado quase a enlouquecera. Agora, Ginny decidira, com o apoio de Luna, que o que necessitava não era viver como uma freira, mas apenas de diversão simples e honesta. Um cara leve, tranqüilo, do tipo que não dava trabalho; um casinho sem conseqüências para limpar seu histórico romântico. Um sorbet romântico. Sorbet, aquele sorvete quase sem açúcar que os restaurantes caros serviam entre um prato e outro para limpar o paladar dos clientes para a próxima iguaria. Era disso que ela precisava.

- O que foi aquilo ? - perguntou Luna, praticamente quicando no banco do bar.

Ginny deslizou para seu próprio banco e fingiu estar fascinada por seu drinque, já morno.

- O que foi o quê ?

- Você e aquele homem de terno. Achei que vocês fossem arrancar as roupas um do outro bem no meio da pista de dança. Quem é ele ?

- Draco... não sei do quê.

- Bem, o galãzinho ali pode ser um sujeito bonito, mas aquele lá era um Homem.

Ela olhou para seu par e o viu virando cervejas com os amigos. Fez uma careta e virou-se novamente para Luna.

- Você quis dizer um homem com H maiúsculo ?

- Vá em frente e ponha todas as letras em maiúsculo.

Quando Luna ficou calada por mais tempo do que Ginny achou que fosse possível, ela ergueu a cabeça e viu que a amiga estava olhando fixamente para o outro lado do salão. Ginny não pôde evitar seguir o olhar dela. E lá estava ele, Draco... não sei do quê, de pé em meio a um grupo do outro lado da boate. Aparentemente confuso, observava uma mulher mais ou menos da idade dela, que usava asas de fada e movia os braços para ele, como se estivesse a ponto de levantar vôo.

Mais alto do que qualquer outra pessoa no lugar, ele tinha ombros largos, cabelos loiros e pálidos, terno escuro, expressão séria. Era como se, secretamente, ele cuidasse do mundo inteiro sozinho. Como se sempre conseguisse que tudo acontecesse à sua maneira.

Luna tinha razão, ele era completamente Homem. Ginny inspirou profundamente, procurando e encontrando algum rastro do perfume dele, que ainda se prendia à sua pele. E isso bastou para que a vibração voltasse, efervescendo dentro dela com força, como fizera no instante em que reconhecera o fogo nos olhos dele como um espelho fiel do que estava nos olhos dela.

Mas não importava o quanto seu corpo lhe dissesse que sim, sua cabeça sabia que ele era demais para ela. Toda aquela intensidade e calor eram um banquete, quando tudo o que ela podia agüentar agora era uma pequena refeição. Um sorbet romântico.

Pena.

Draco... não sei do quê discretamente olhou o relógio e observou ao redor, seu olhar quase colidindo com o dela.

Com as bochechas vermelhas e quentes, como tomates amadurecidos ao sol, Ginny virou-se de uma vez e agarrou o braço de Luna, tirando a amiga do transe em que estava.

- Pare de encarar - sibilou Ginny, como se ele pudesse ouvi-la - Você vai ficar vesga.

- Vai valer a pena.


Já era alta madrugada na boate enfumaçada, barulhenta e malcheirosa quando Draco decidiu que ele havia passado tempo suficiente no aniversário da irmã, Alexandra, e estava discretamente buscando o caminho mais curto até a porta.

Seu tempo raramente era seu de verdade. Ele ainda tinha meia dúzia de propostas de endosso para as quais precisava dar seu selo de aprovação final e mercados estrangeiros a checar antes de poder começar a pensar em ir dormir.

Mas seus pés se recusavam a sair do lugar. Eles estavam fixos no chão, como se estivessem pregados ali, o que não tinha nada a ver com os vestígios grudentos de uma noite inteira de bebida derramada. Ele tinha apenas um certo alguém com olhos castanhos e sonhadores a quem culpar.

Olhos castanhos e sonhadores que não deixavam os seus em paz. E pele quente que parecera veludo sob suas mãos. Havia também aquela boca, uma boca rosada e macia que fora feita para ser beijada. Aliás, muito bem beijada.

Ginny... alguma coisa. Até o nome dela o fazia se agitar dentro dos sapatos. Sapatos que se mantinham grudados no lugar, enquanto seus olhos começaram a vaguear.

A multidão de corpos suados se movendo ao ritmo de alguma música obscura ia e vinha, revelando rápidos vislumbres de cantos distantes do local, antes de engoli-los novamente.

Draco passou a mão pela parte de trás da cabeça, com força, tentando se livrar da tensão acumulada. Um vislumbre era tudo o que ele queria. Uma visão rápida dos cabelos ruivos, da pele branca e das curvas quentes; uma lembrança para levar para casa, para sua cama vazia. A multidão se dividiu. E lá estava ela, sentada em um dos bancos do bar. Cabelo brilhando sob a luz suave, pernas cruzadas, salto alto subindo e descendo, ombros nus no vestidinho tão inocente que chegava a ser sexy.

Seu terno começou a lhe parecer apertado demais, quente demais. Ele se moveu, desconfortável, mas não adiantou nada. Se fosse honesto, saberia que só havia uma coisa que adiantaria.

Seus sapatos se soltaram do chão e ele começou...

- Rapaz, você parece que está com pulgas - disse Blaise Zabini, o marido de Alexandra, enquanto dava um tapa no ombro de Draco e o puxava de volta.

Draco expirou com força pelo nariz, feito um cavalo de corrida fechado atrás do portão de largada.

- Ou com uma coceira que precisa ser coçada - disse Blaise, apontando vagamente para o bar. Para ela - Vi vocês dois dançando mais cedo. Quem é ela ?

Ginny. Mais uma vez, o nome dela passou por sua mente como uma canção de sereia. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça e olhou para o cunhado.

- Não houve dança nenhuma, só uma porção de empurra-empurra. Eu estava tentando evitar que a moça fosse pisoteada.

- Certo - disse Blaise, com um sorriso tomando conta do rosto - Empurra-empurra.

Draco percebeu, tarde demais, que deixar Blaise notar que ele sabia quem era ela havia sido um grande erro. Ele arrastou os olhos de volta para a pista de dança.

- Era uma multidão e tanto.

- Ou uma garota e tanto.

Uma garota e tanto ? Só de pensar no resultado do empurra-empurra, o calor subiu por ele feito fogo em uma floresta com o chão cheio de folhas secas. Através dos bolsos, Draco se beliscou, mas não adiantou.

Sinceridade brutal era o único caminho.

Ginny era uma garota que claramente tinha um mecanismo de autodefesa defeituoso, a julgar pelo jeito como se derretera contra ele, um completo estranho. Ela estaria melhor com um sujeito legal, e não com um realista cabeça-dura como ele, apesar da atração sexual que ambos, sem dúvida, compartilhavam. Isso não era o suficiente para ir atrás dela. Especialmente considerando que Draco não sabia nada sobre Ginny, além do fato de que ela podia fazer seu sangue ferver com um simples olhar. O sobrenome Malfoy trazia algumas vantagens, mas essas mesmas vantagens atraíam elementos dos quais era melhor manter distância.

Seus olhos procuraram por Alexandra, que estava rindo e dançando.

Ela era tão jovem na época do acidente de seus pais. Tão desorientada pela avalanche de caos que eles deixaram para trás. Em síntese, um alvo perfeito para os tubarões que sentiram o cheiro de sangue na água.

Parecia fazer tanto tempo, agora. Na época, ele tinha vinte e dois anos e fora sobrecarregado não apenas com uma irmã traumatizada de dezesseis, que ele mal conhecia, mas também com a carcaça em putrefação do negócio centenário da família. O futuro que havia imaginado para si desaparecera em uma nuvem de fumaça.

Seu instinto de autopreservação havia sido bem afiado. Fora preciso. Nunca mais ele seria tão inocente nem ficaria atordoado até a medula, como ficara pela fraude sistemática e egoísta que seus pais perpetraram tão dissimuladamente antes de morrerem.

Mas se Ginny fosse um tubarão em roupas de donzela, ele mudaria seu nome de Draco para Emily.

Diferentemente de outras mulheres que conhecera, Ginny não o havia olhado como se ele fosse a resposta a seus sonhos adolescentes de casacos de peles e diamantes. Tudo acontecera mais como se ela fosse uma viciada em doces e ele, o maior sonho recheado que ela já vira.

Draco se sentia encalorado, abafado, sentia-se plenamente acordado. Em matéria de excitação, parecia que a marca própria dela, de franqueza sexual óbvia e sem disfarces, era a que funcionava melhor para ele.

Será que ele poderia ? Ou deveria ?

- Certo, eu vou embora - disse ele, alto demais para seus próprios ouvidos, apesar de o volume de sua voz provavelmente ter se perdido na batida da música, também alta demais.

Ele bateu nas costas de Blaise e procurou pela irmã. Encontrou-a pulando de um pé para o outro, as antenas em sua cabeça e as asas nas costas balançando junto com ela.

- Ei, irmão ! Não me diga que está indo embora.

- Sinto muito, mas preciso. Tenho uma videoconferência às seis horas.

- Então fique até lá. Venha, dance comigo ! - ela fez um passo na frente dele para provocá-lo.

- Infelizmente deixei minhas sapatilhas de sapateado no carro.

Parando de dançar, ela o encarou.

- Pelo menos jure que você se divertiu.

- Mais do que eu poderia dizer, querida - ter uma mulher tão atraente como Ginny enroscada nele definitivamente havia sido um dos melhores momentos da noite. Draco, contudo, não era ingênuo a ponto de contar isso a Alexandra.

- Tudo bem - disse ela, suspirando dramaticamente - Vá e aproveite seu sono. Não ficaria bem para a fundação você aparentar ser qualquer coisa menos que implacável.

Depois de lhe soprar um beijo, ela voltou dançando e rebolando para o meio da multidão, até desaparecer. Ainda que houvesse coisas que ele pudesse querer mudar em seu passado, ter acabado de criá-la nunca seria uma delas.

Draco resistiu à vontade de olhar para o bar mais uma vez e se virou na direção da saída.

Alguma coisa deslizou por seu pescoço abaixo. A sensação era de algo com pernas compridas o suficiente para ser uma aranha comedora de pássaros, então ele abanou e estapeou o próprio paletó feito louco, o suficiente para que aquilo, fosse o que fosse, tivesse voado para longe ou sido sumariamente esmagado.

Draco deu um passo e logo sentiu seu pé escorregar. Conseguiu recuperar o equilíbrio, fez uma pausa para recobrar o fôlego e, por fim, ergueu o sapato, para encontrar algo cintilando no chão de madeira escura.

Arriscando-se a contrair alguma doença ao deixar sua mão tocar a camada de sujeira pegajosa do chão, ele se abaixou para pegar o objeto.

Era longo, brilhante. Não se tratava de uma aranha comedora de pássaros.


- O que você está fazendo ? - perguntou Luna - O táxi está esperando.

Ginny, que naquele instante estava de quatro no chão, com guardanapos de papel impedindo que suas mãos ou joelhos realmente tocassem o imundo assoalho da Sand Bar, soprou uma mecha de cabelo que lhe caíra no rosto.

- Perdi um brinco.

Luna jogou as mãos para cima, implorando:

- A esta altura, ele pode estar em qualquer lugar !

- E é por isso que eu preciso continuar procurando por ele.

Com um arrepio de repugnância, Ginny sacudiu do pulso um pedaço de fruta que horas antes enfeitava um coquetel.

- Eles eram da vovó. Os candelabros com florzinhas no fecho.

- Oh - disse Luna, parecendo apropriadamente compreensiva. Ela sabia que os brincos tinham história. Ainda assim, ela olhava ansiosamente na direção da porta, onde o sujeito com quem havia passado metade da última hora dançando sensualmente esperava para levá-la ao paraíso, com passagem de ida e volta.

Eles prometeram deixar Ginny em casa no caminho, porque sua carona tinha se evaporado. O galã não estava mais ali para acompanhá-la. Havia desaparecido na madrugada, depois que Ginny deixara claro, ao não permitir que ele enfiasse a língua em sua orelha, que não iria para casa com ele naquela noite.

Ginny não estava tão decepcionada assim. Não com aquilo. Por outro lado, os brincos da avó significavam algo para ela. Seu coração ficava apertado diante da idéia de perdê-los para sempre.

- Pode ir - disse ela, empurrando o tornozelo de Luna, que era a única parte da amiga que ela podia alcançar de onde estava - Talvez eu demore.

Luna mordeu o lábio e olhou de Ginny, em sua pose indiscutivelmente patética, para o homem misterioso de jaqueta de couro parado na porta com ar pensativo.

- Vá !

- Tudo bem ! - disse Luna, enrubescendo furiosamente, e então se inclinou por sobre o balcão, chamando a atenção do barman - Ivan ! Garanta que nossa amiga Ginny pegue um táxi em segurança, está bem ? E se alguém achar um brinco por aí, é dela.

Ivan deu uma olhada em Ginny, sorriu e assentiu.

Luna disse:

- Não estarei em casa hoje à noite. No lugar de sempre amanhã, para relaxar ?

- Se não tiver outro jeito.

Luna sorriu e foi embora correndo.

Ginny passou os dez minutos seguintes olhando para o chão sem chegar a lugar nenhum. Cada minuto que ela passava ali parecia uma hora e, quanto mais longe ela ia, mais preocupada ficava.

Ela e o pai escolheram aqueles brincos para sua avó quando Ginny tinha onze anos. Não importava o quanto fossem curtos seus períodos de folga em casa, entre as turnês, ele sempre dera um jeito de encontrar algum tempo só para eles dois. Mas, ainda assim, se lembrava daquela ida às lojas com ele com mais clareza que das outras.

Quando ele saiu em turnê depois daquela vez, nunca mais voltou.

Algo brilhou debaixo de um dos bancos do bar ! Ela se abaixou mais, olhou e...

- Ginny ?

Diante do chamado inesperado de Ivan, ela olhou para cima tão depressa que bateu a cabeça na parte de baixo do assento do banco. Mordendo o lábio para não xingar feito um marinheiro, ela esfregou a cabeça, olhando com a testa franzida para o barman, e o viu segurando um brinco longo e reluzente feito com uma dúzia de pedaços de vidro trabalhado e uma flor no fecho.

Ginny se pôs desajeitadamente de pé, agarrou o brinco e o segurou contra o peito, girando de tal maneira que seu cabelo lhe batia no rosto. Ela, entretanto, não se importou.

- Oh, Ivan ! Meu querido Ivan ! Eu o amo mais do que você pode imaginar !

- Ame a ele - disse Ivan, com um sorriso, inclinando a cabeça para a direita - Foi ele quem encontrou o brinco.

Ginny parou de girar e mergulhou em um par de olhos cinza já conhecidos.

- Draco - disse ela, seu nome um suspiro sussurrado em seus lábios. De perto e intimamente, ele havia sido impressionante. A uma distância suficiente para ver o conjunto de uma só vez, ele era de tirar o fôlego. Alto, sério, tranqüilo e com um rosto que faria uma garota pensar que estava demasiadamente vestida.

Felizmente, ele pareceu não notar os tremores femininos a que ela fora reduzida. Ele apenas se inclinou contra o bar, parecendo estar ali olhando-a rastejar há um bom tempo e aparentando ter ficado perfeitamente feliz em tê-lo feito.

- Você o encontrou ? - perguntou ela, de modo redundante.

Apesar disso, ela ficou bastante impressionada consigo mesma por ter conseguido dizer algo que fizesse sentido, considerando a altura em que sua pulsação martelava em seus ouvidos.

- Eu pisei nele - disse Draco, sua voz grave reverberando dentro de Ginny como se ela fosse oca - Se não fosse pela minha graciosidade natural, você e seu brinco poderiam ter me derrubado de costas no chão.

Draco, deitado de costas. A imagem que aquela frase criou deveria ser guardada para nunca mais se esquecer. Tratava-se de uma imagem que ela sabia que tiraria da gaveta em longas, frias e solitárias noites de inverno.

- Ele deve ter se soltado quando nós nos conhecemos - aquele homem fazia "conhecer" soar como uma palavra suja - e suja no bom sentido. Suja do tipo que se fala entre quatro paredes.

Draco acenou com a cabeça para Ivan, que pareceu entender qualquer que fosse o sinal que ele havia enviado, e saiu de perto.

Algo fez com que Ginny quase chamasse Ivan de volta. Como se ficar a sós com esse homem, sem a ajuda de música alta, uma multidão compacta e luz fraca fosse um tipo de perigo que ela não conseguisse enfrentar sozinha.

Draco afastou-se do balcão e se aproximou. Ginny encolheu os dedos dos pés para não perder o equilíbrio. Mesmo de salto alto, ela precisava erguer a cabeça para olhá-lo nos olhos.

Draco estendeu a mão e pegou a dela, fazendo com que Ginny prendesse a respiração. Em seguida, virou sua mão, com a palma para cima, e abriu seus dedos um a um. O brinco maravilhosamente chamativo de sua avó brilhou, como se piscasse para ela. O alívio a percorreu novamente, em parte porque ela se lembrou do motivo pelo qual ele estava ali; não para alguma cena de sedução aleatória, mas para devolver a ela sua propriedade perdida.

Ela inspirou profundamente, equilibrou-se o melhor que podia, com o cheiro morno e masculino dele envolvendo-a, e virou o brinco na palma agora úmida.

- Está tudo certo ? - perguntou ele.

A barra na parte de trás estava um pouco torta, mas, a não ser por isso, o brinco estava em perfeitas condições.

- Você é bem leve para um cara do seu tamanho. Poderia tê-lo amassado completamente, mas mal está arranhado. Com um pouco de carinho, vai ficar como novo.

Ela se arriscou a olhar para Draco e acabou com os olhos presos nos dele, cinza, que agora passava a ser sua cor favorita. Ficou difícil para ela respirar, afinal não havia como fugir do desejo que transparecia na expressão de Draco. Desejo por ela.

As luzes do bar lentamente se acenderam, encorajando os últimos bêbados a ir embora cambaleando. O pânico a dominou. Seu cabelo devia estar uma bagunça, o batom meio comido, o rímel meio borrado. E, no entanto, a expressão no rosto dele não mudou. Se houve alguma mudança, foi que o brilho em seus olhos aumentou. Queimando-a.

Oh, Deus !

E para uma garota que no passado vivera para a adrenalina trazida pela mera possibilidade de um novo relacionamento, ela se sentiu como se estivesse em queda livre para dentro daqueles olhos cinza ferventes.

"No passado" era a parte mais importante da frase. Ela não estava procurando aquele tipo de intensidade incandescente, que podia deixar uma garota sem chão antes que ela percebesse o que estava acontecendo.

Ela queria diversão e frivolidade. Ginny precisava de... um sorbet romântico.

De repente, partes do corpo dela pareceram deslizar e se encaixar, como uma tranca de cofre que se abrisse com a combinação certa.

O que ela mais precisava era de catarse emocional.

O que queria era tirar o gosto ruim que seu noivado fracassado havia deixado em sua boca.

Um sorbet.

Que tipo de sorbet necessitava, Ginny não sabia com certeza, já que seria a primeira vez que ela faria esse tipo de coisa. Sorbet vinha em um milhão de sabores diferentes e, se o dela viera com o aspecto de um estranho alto, loiro e bonito, que ela não tinha a menor dúvida de que poderia apagar a lembrança de todos os homens que já conhecera na vida, bem, então, quem era ela para discutir ?

- Hora de fechar - gritou Ivan, trazendo-a de volta para o presente.

Sua respiração falhou enquanto ela se perguntava exatamente como fazer para galantear um estranho sexy em um bar.

- Com fome ? - perguntou ela, antes de pensar no que estava dizendo.

- Morrendo - respondeu Draco, sem um segundo de hesitação.

"Bem", pensou ela, enquanto ele passava a mão pela cintura dela, descansando-a possessivamente em seu quadril, e a levava até a porta, até mesmo esse toque suave fazendo-a se sentir como se lava corresse por suas veias, "então é assim".


P. S.: Nos vemos no Capítulo 2.