Capítulo Único

Draco Malfoy

Voltar a Hogwarts depois da batalha e da derrota de Voldemort parecia algo sensato a se fazer. Quer dizer, eu tive meu último ano interrompido por aquele maldito sem nariz e ainda tive que passar por todo um processo traumático! Ainda bem que o idiota do Potter acabou com tudo e foi só final feliz.

Bom, não foram só finais felizes… Mas ao menos tudo está se ajeitando. Fico aliviado de ter tido meu nome limpo e poder finalmente respirar em paz, sem medo de uma ameaça à minha família ou de algum metido a herói.

Por Merlin, eu finalmente posso ser eu! Sem a pressão que uma marca faz em meu braço. Eu serei só Draco Malfoy. Entrarei naquele trem e irei mostrar que, apesar do clima pós guerra, eu estou feliz por poder recomeçar.

Com quem? Não sei. Não é como se eu tivesse amigos. Eu só quero ficar em paz. Estudar como um aluno normal. Mesmo que não tenha companheiros.

E é pensando nisso que vou atravessar a parede da estação 9 ¾ e começar do zero.

— Ei, Malfoy! Onde pensa que vai? Seu fuinha!

Claro, como um ex-comensal, não espero que gostem de mim e me recebam de braços abertos, mas me chamar pelo apelido do meu quarto ano? É uma maldade sem limites!

— Finnigan, sem criatividades para apelidos maldosos? Posso te ajudar, sou muito bom nisso.

— Não quero ajuda nenhuma, Malfoy! Eu quero é não ter que correr o risco de te ver na escola.

— Azar o seu, estarei lá. — Dei de ombros, indisposto para brigar com aquele idiota.

— Bom, isso é o que veremos!

E, rápido como um foguete, o maldito sacou a varinha e mirou em mim. Sequer tive tempo de revirar os olhos para aquela atitude ridícula e nem vi quando fui atingido por um raio verde.

Ah, pronto. Ótima hora para morrer, quando estou de bem com a vida.

Espera, espera. Eu não morri. Eu só estou menor. Bem menor...

O mundo parece ter triplicado de tamanho. O maldito Finnigan sorriu maldosamente e entrou na estação, me largando para trás, um sorriso cínico no rosto. Não faço ideia do que ele fez, mas não vai ficar assim!

Dei um passo em direção a parede e notei que usei minhas mãos no processo. Estou engatinhando? Será que voltei a ser um bebê? Ou pior…

Com enorme terror desci os olhos e encontrei uma pelagem branca por todo meu corpo minúsculo e esguio. Eu virei uma maldita fuinha! E ninguém viu. Estou destinado a morrer como um bicho, logo agora que…

— Que merda é essa?!

Levantei os olhos e encontrei pernas extremamente torneadas perto de mim, e céus, que visão privilegiada.

— Malfoy, não me diga que é você?

Ah, estou salvo, um ser inteligente conseguiu descobrir toda a verdade por trás do feitiço! Quem será minha salvadora de belas pernas? Não conseguia ver seu rosto.

— O brasão da família Malfoy está aqui, nas malas, que estão abandonadas na plataforma e do lado tem uma fuinha albina desesperada correndo em círculos. Só pode ser você. Quem fez isso?

"Foi o maldito Finnigan!"

Escutei com horror um chiado escapar da minha boca. Claro que eu não sei falar. Que grande merda.

— 'Tá legal, eu não sei um contra feitiço, mas a Mione deve saber. Vou te levar até lá e…

Mione? Ela quer dizer a sangue ruim? Nem a pau que vou deixar aquela garota saber que virei uma fuinha. Se aquilo chega ao abestado do namorado ruivo dela, é bullying 'pro resto da minha vida.

Falando em ruivo, os cabelos que entraram em meu campo de visão tinham essa coloração, e quando fui erguido no ar pela dona das belas pernas e cabelos de fogo, conclui que estou mais que ferrado.

Minha salvadora era a maldita Weasley fêmea!

[...]

Gina Weasley

'Tá legal, ou isso é uma brincadeira de mau gosto e estou sendo feita de besta, ou eu sou realmente muito azarada.

Fala sério, esperava voltar a Hogwarts e terminar meus estudos em paz, sem nenhum medo ou problema que não fosse as boas notas, mas aqui estou eu, levando Draco Fuinha Malfoy debaixo do braço, em direção ao trem.

Por que justo eu tinha que encontrá-lo? Seria errado largá-lo transformado em um bichinho. Ele podiaser um idiota completo e ter errado muito na vida, mas ele quer se redimir e tirar essa chance de alguem é covardia.

Bem que mamãe sempre disse que meu lado altruísta ainda me colocaria em encrenca.

O pior é que existe a probabilidade de essa ser uma fuinha comum e o Malfoy ter ido apenas ao banheiro. Isso seria vergonhoso e terrível. Mas aqui estou eu, pronta para arriscar.

Ah, e o maldito não fica quieto, fica fungando e se remexendo, quase como se estivesse gritando que odeia estar nessa situação — com toda certeza ele odeia! — e reclamando de estar sendo carregado por mim, uma traidora do sangue.

O mundo não dá só voltas, ele capota!

— Vamos lá, Malfoy, segura a onda e fica quieto. Quer ajuda ou não?

Funcionou. Ele parou de mexer e parecia ter aceitado a triste realidade em que nos encontramos.

— Quando chegarmos à cabine da Mione… AI!

A fuinha me mordeu. Que porra é essa?

— O que foi isso, seu imbecil?

Ele estava negando com a cabeça. Estou falando com uma fuinha. Que ninguém me veja nesse momento.

— Não quer ajuda dela? É isso?

E aqui estava o bicho concordando com a cabeça. Ótimo, o maldito é um besta.

— Minerva? — Negando de novo. — Flitwick? — Mais uma vez, estou ficando de saco cheio. — Você não quer que ninguém saiba?

Vivi para ver um bichinho fofo revirando os olhos em minha direção. Seria cômico se não fosse trágico. No entanto, faz sentido. Um idiota egocêntrico não gostaria que ninguém soubesse que foi transfigurado em fuinha.

Mas então só tinha uma opção.

— Quer que eu descubra como desfazer, não é? — O maldito concordou. — E depois disso, vai apagar minha memória?

Eu juro, que se ele concordasse, ia jogá-lo do trem. Mas, ao invés disso, ele apenas saltou do meu colo e entrou em minha bolsa, voltando com minha velha bolsinha de dinheiro, que se encontrava praticamente vazia.

— Está me chamando de pobre? — perguntei revoltada. — Está comprando meu serviços? Saiba que te ajudei porque é o certo, não quero nada em troca!

E ele deu de ombros, como se dissesse que era problema meu. Bufei revoltada e fechei a bolsa.

— Não ouse invadir minha privacidade de novo!

[...]

Draco Malfoy

Se eu não fosse tão orgulhoso, tudo estaria bem. Mas eu tinha que deixar o orgulho Malfoy falar mais alto, não tinha?

Que eu deixasse a Granger resolver a situação e aceitasse o bullying gratuito depois, dessa forma eu já seria eu de novo! No entanto, aqui estou eu, uma fuinha branca de estimação da Weasley.

Ela é muito legal, tenho que admitir, nunca imaginei que ela teria senso de humor e seria inteligente e determinada. As aparências enganam, ela parecia só uma ruiva burra e gostosa. Bom, ela é gostosa mesmo.

Só que ela é lerda! Ou se faz de sonsa. Não é possível que depois de duas semanas completas ela ainda não descobriu o contra feitiço. O Finnigan não é um mago Merlin, ele não pode fazer algo tão bom assim a ponto de não ser reversível.

Ou será que pode? Ah, pelos bruxos, será que estou fadado a ser uma fuinha albina? E pior — na verdade não é tão ruim —, ser o bichinho da Weasley!

Por que não é ruim? Bom, vou explicar a situação. A Weasley, descobri que ela se chama Gina, mas não sei se ela me daria intimidade para chamá-la assim, então mantenho o costume, é uma boa "dona" de pet.

Eu comia muffins duas vezes por dia, que ela roubava da cozinha, e ainda tinho purê de batata com frequência. E por mais que no início tenha sido estranho, eu estou me acostumando aos afagos que recebo.

Ela faz carinho na minha cabeça e é uma sensação muito boa! Que ninguém nunca saiba que estou admitindo isso, mas estou realmente gostando de passar tempo com a Weasley. Principalmente quando eu me enrosco nas pernas dela e cochilo. É confortante.

Falando nela, observo ela entrar no dormitório depois de um dia de aula e bocejar. Ela dorme pouco, pois passa a noite procurando em livros uma solução para o meu problema. Eu devo muito a essa garota, sem dúvidas!

Ela tira a longa capa e joga na cama. Desvio rapidamente, e a olho com uma expressão impaciente — pelo menos eu acho que pareço impaciente. Ela estica os braços e tira a blusa.

Pera aí, ela está se despindo na minha frente?!

Claro, ela é mesmo sonsa, possivelmente nem lembra que eu estou atrás dela, deitado na cama. Por mais que eu seja um homem e vê-la nua seja tentador, sou um cara de respeito. Se for para vê-la assim, ela tem que no mínimo estar ciente e eu tenho que ser um homem de novo.

Escondo-me debaixo da capa que ela arremessou na cama e espero pacientemente ela lembrar da nossa situação, ou pelo menos colocar uma roupa de novo.

— Aaah! — ela gritou. Possivelmente se lembrou que estou aqui — Malfoy… Ah, obrigada por não me observar.

Saio do meu esconderijo e reviro os olhos, ela já está com seu pijama longo. Ela acredita mesmo que eu ficaria espionando? Eu mereço…

— Eu realmente me esqueci de você — sussurrou. — O que é irônico levando em consideração que só penso nisso nos últimos dias.

Ela pensa em mim, é isso mesmo? Sorrio de lado e tenho certeza que a expressão que apareceu na fuinha que eu sou agora foi terrível, pois ela me encarou com medo.

— Você está bem?

Desisto. Não dá para manter uma conversa com a Weasley nesse momento. Eu preciso da minha vida de volta!

[...]

Gina Weasley

Um mês. Um mês que Draco Malfoy desapareceu e desistiu de vir à escola. E esse é o assunto mais falado do momento. E adivinha quem sabe a verdade e sente a pressão de descobrir como mudar isso?

Eu mesma!

O pior é que esse idiota não me deixa pedir ajuda. E, pelo que parece, não é um feitiço qualquer. Não é uma simples transfiguração e isso piora tudo. Seja lá quem fez isso, pensou muito bem antes de agir.

Falando nisso, estou com algumas desconfianças sobre quem pode ter sido. Outro dia passeei com o Malfoy pelos jardins, para ele não ficar só preso no quarto, e quando passei ao lado de Simas e ele me cumprimentou, a fuinha entrou em desespero e se escondeu dentro da minha blusa.

No dia eu xinguei até a última geração dos Malfoy, mas depois, analisando a situação, era a primeira vez que ele agia assim, desesperado. O que me fazia crer que havia descoberto o culpado da situação.

— Malfoy — chamei e vi ele se espreguiçar em cima das minhas pernas. — Eu preciso saber uma coisa.

Ele balançou a cabeça, mostrando estar entendendo e esperando que eu continuasse.

— Quem fez isso com você foi o Simas Finnigan?

Na mosca! O Draco Fuinha Malfoy concordou com a cabeça várias vezes, possivelmente muito feliz que eu tivesse descoberto aquilo.

— Sabia! — exclamei. — Vou dar um basta nisso agora!

Eu nunca diria em voz alta, soaria ridículo, mas era a coisa mais fofa do mundo quando aquela fuinha arqueava as sobrancelhas, de maneira duvidosa.

— Vou usar legimência e descobrir qual feitiço ele usou! E antes que pergunte como, eu treinei bastante esse tipo de feitiço no último verão.

Malfoy concordou com a cabeça, parecendo feliz e orgulhoso. Sorri e deixei ele na cama, me levantando e pegando minha varinha. Era hora da verdade!

.

.

.

Pelos céus, como nunca pensei nisso antes? Tudo faz sentido agora!

Deixei Simas desacordado em seu dormitório e me esgueirei para fora. Ele ficaria bem e não se lembraria de ter falado comigo ou de ter enfeitiçado Draco. Tudo voltaria ao normal.

Malfoy só precisaria de uma desculpa por ter ficado fora um mês. Mas isso não seria problema para ele.

Entrei no quarto empolgada e sorri. Malfoy pulou da cama e se esfregou em minha perna, como um gato faria. Confesso que sentirei falta disso. Quem diria que Malfoy Fuinha se tornaria importante para mim.

— Vou sentir falta disso. — Ri, me abaixando e acariciando o bichinho, que me encarou. — Acho que você também vai, né?

E ele concordou. Céus, quem diria que me tornaria amiga de Draco? Acho que só nessa situação mesmo.

— Eu descobri a verdade — contei. — Simas usou um ótimo truque! Ele não te transfigurou, ele te transformou em um animago!

Vi quando Draco pareceu paralisar e raciocinar o que eu tinha dito.

— Resumindo, você tinha poder o tempo todo para voltar a ser humano, mas como você não sabia, imagino que seu subconsciente tenha travado esse poder. De qualquer forma, é só voltar, e de brinde pode ser uma fuinha sempre que quiser.

Novamente observei aquele rostinho pequeno arqueando as sobrancelhas e ri. Claro que ele não voltaria a ser uma fuinha tão cedo. Ele se colocou um pouco distante e fechou os olhos, e em segundos eu vi aquela pequena fuinha se tornar um homem.

O único problema é que ele estava nu. Completamente pelado e com um sorriso no rosto, parecendo não se dar conta disso.

E só me restou uma reação, fechar os olhos e jogar minha capa em cima dele.

Alguns hábitos não mudam.

[...]

Draco Malfoy

Anos depois:

— Gina — chamei a ruiva ao meu lado, que resmungou e se virou, continuando a dormir.

Sorri de lado e me transfigurei em fuinha, parando em cima dela e lambendo seu rosto.

— Draco! — ela exclamou, me empurrando, nervosa.

Voltei à forma humana e ri. Me deitando ao lado dela e puxando-a para um abraço.

— Já são quase três da tarde, vai dormir para sempre?

Os olhos castanhos se abriram de repente e me encararam. Era incrível como aprendi a amar aquela mulher e fiquei tão dependente dos seus afagos. Era o tipo de coisa que parecia irônico, mas real.

Bastou que eu me tornasse um fuinha para me aproximar da pessoa que me ensinou o que era amor, carinho e amizade. E bem, serei grato ao maldito Finnigan para sempre, afinal, foi graças a ele.

[...]