O dia seria agitado para Lin, como todos tinham sido desde que ele tinha tido a ideia de transformar a vida de Alexander Hamilton em canções, se ele fosse parar para considerar essa questão. O sucesso que seu musical se tornou o surpreendeu, já que quando ele começou o longo e trabalhoso processo muitos duvidavam de que aquela ideia inusitada realmente daria certo. Mas no fim, perseverar valeu a pena, por onde passava, as pessoas reconheciam Lin como "o cara do Hamilton", cantavam as letras de suas canções de cor e salteado para ele, e cada situação dessa, deixava o compositor lisonjeado e agradecido, era maravilhoso ter seu trabalho reconhecido e, lá no fundo, mais do que isso, Lin sentia que valia a pena trazer a história de Hamilton à tona novamente, quando ela tinha sido bastante ofuscada.

Naquela tarde, por volta das 4 da tarde, ele chegava ao Teatro Richard Rodgers, ali teria mais duas apresentações pela frente durante o período da noite. Por enquanto, a fila do teatro estava vazia, mas logo mais ela se formaria e dobraria a esquina, disso Lin não tinha dúvida. Mas ao se aproximar, olhando mais de perto, ele notou que a frente do teatro não estava tão fazia assim como ele imaginava.

Uma figura no mínimo estranha e inusitada observava a placa que anunciava o nome do musical com certo espanto. Apesar do clima relativamente ameno, o estranho que Lin viu usava uma capa preta enorme em torno de si, bem parecida com as que ele e Leslie usavam ao fim do musical, bem na parte do duelo final entre Hamilton e Burr.

Lembrando-se disso, Lin imaginou que aquele se tratava apenas de um fã usando um cosplay muito bem feito. Entusiasta como sempre, o compositor viu que ainda teria um tempo antes de começar a se preparar para as apresentações, e fez questão de cumprimentar o suposto fã.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o estranho interrompeu Lin.

-Será que o senhor poderia me ajudar? - perguntou o estranho, com desespero na voz, e logo o compositor percebeu que não havia só uma coisa errada, mas uma porção de coisas erradas, na verdade.

-Claro, sim, o que precisa? - Lin foi cordial, enquanto processava o que tinha imaginado, aquele homem não podia ser um fã do musical, porque se fosse, teria o reconhecido na mesma hora, ele poderia muito bem estar perdido, mas nada ainda explicava ele usar uma capa que vinha diretamente do século 19.

-Por que está escrito Hamilton em todos os lugares desse edifício? - requereu o estranho, que também gostaria de entender onde estava, mas por enquanto, julgava ser essa a pergunta mais importante a se fazer.

-Hã… é porque estamos apresentando um musical sobre Alexander Hamilton, sabe? O secretário do Tesouro, o primeiro deles na verdade! - Lin tentou explicar - ah! O cara da nota de dez dólares!

-Cara? Como assim cara? - o estranho estreitou os olhos, estranhando aquele termo - eu só sei de uma coisa senhor, Alexander Hamilton é o meu nome e eu fui secretário do Tesouro de Washington.

-Ah meu Deus… - Lin murmurou, achando que aquele homem só podia estar delirando - espera, isso é uma pegadinha, não é? Só pode ser, não tem outra explicação pra isso…

-Eu estou em meu perfeito estado, eu suponho - continuou Alexander - só não reconheço esse lugar estranho, eu de repente acordei aqui, e pensando melhor, acho que posso estar sonhando, embora tudo pareça muito real…

-Eu tenho quase certeza que sou eu que não estou sonhando - Lin respondeu, meio atônito.

Ele se deu ao trabalho de olhar bem nos olhos do homem que afirmava ser Alexander Hamilton, eram de um tom de azul violeta, seu cabelo grisalho ainda tinha pouquíssimos fios ruivos. Não restava dúvida.

-Meu Deus, você é ele! - exclamou o compositor, muito assustado.

-Ele quem? Eu sou Hamilton! - reafirmou Alexander, seu tom também tirava todas as dúvidas.

-É melhor vir comigo, Alexander, quer dizer, sr. Hamilton, sr. Hamilton - Lin corrigiu sua maneira de chamá-lo, queria que Alexander o compreendesse e aceitasse o que ele estava propondo.

-Está bem, contando que me dê respostas, senhor - exigiu Hamilton.

-Vamos lá então - murmurou Lin, meio perdido, com medo de onde aquela história ia dar.

Ele mostrou o caminho a Alexander pela entrada do teatro, e eles passaram para dentro juntos.