Vanessa conseguiu ser rápida, dada a urgência com que Lin tinha falado na ligação, ela deixou Sebastian com seus pais por um instante e depois foi se encontrar com Lin e o tal amigo que tinha aparecido de repente.
-Oi - ela foi falar diretamente com o marido - eu vim assim que pude, quem é seu amigo?
-Hã… - Lin se sentiu sem graça, procurando as palavras certas para explicar aquela situação - sr. Hamilton, essa é a minha esposa, Vanessa. Van, esse é o Alexander Hamilton, o verdadeiro.
-Que? Você só pode tá brincando… - ela murmurou, incrédula - sério isso?
-Creio que sua surpresa se deve ao fato de eu não ser desse século, sei que é muito inconveniente, mas se serve de consolo, sra. Miranda, também estou tentando entender o que está acontecendo - Alexander deu um passo a frente, expondo sua opinião.
-Ele é um ator? - Vanessa levantou a possibilidade.
-Não, não é, eu sei que é inacreditável mas você precisa confiar em mim - Lin suplicou - ele não pode ficar aqui, por motivos que você sabe…
-Então ele não sabe… - Vanessa compreendeu completamente, procurando ajudar o mais rápido possível - tá bem, eu entendi, mas você ainda me deve explicações.
-E vou dar assim que puder - garantiu Lin.
-Bom, sr. Hamilton, agora que fomos apresentados, teria a bondade de me acompanhar em um passeio por Nova York? - Vanessa olhou para Alexander.
-Suponho que sim, talvez a senhora me dê as respostas que procuro - Alexander disse de forma afiada, Lin sentiu a alfinetada.
-Então vamos, a gente se vê depois - Vanessa se despediu.
Lin só esperava que aquela história toda fizesse algum sentido eventualmente.
Vanessa, por sua vez, enquanto dirigia, tentava digerir o fato incrível de que o pai fundador da nota de dez dólares e que tinha sido a inspiração para o musical de seu marido estava sentado ao seu lado.
-Será que eu… posso te fazer umas perguntas? - ela puxou assunto, extremamente curiosa.
-Claro, não vejo porque não, mas a senhora promete responder as minhas em troca? - ele aproveitou a negociação.
-Sim, claro que sim - Vanessa sorriu com compreensão - bom, como é que o senhor veio para aqui no século 21?
-Eu não sei, não sei mesmo como, a única coisa que me lembro antes de vir parar aqui é estar frente a frente com Burr em um duelo em Weehawken - Hamilton foi sincero - eu senti uma força me empurrar, uma dor, algo do tipo, quando me dei por mim, estava naquela rua com os quadros animados…
-Ah você quer dizer a Times Square? Sim, foi uma coincidência e tanto você parar logo ali - ela respondeu.
-Por que coincidência? Por acaso se refere ao fato de meu nome estar em todo lugar naquele teatro? - Alexander pensou ter chegado ao x da questão.
-Bem, sobre isso, eu estou disposta a te contar, mas prefiro fazer isso quando chegarmos em casa - ela deu um sorriso sem graça, se preparando ao máximo para contar à figura histórica que agora ele era objeto de um grande musical.
-Prometo tentar ser paciente, sra. Miranda - disse Alexander, ainda intrigado com tudo ao seu redor.
Vanessa o apressou para entrar em sua casa quando eles chegaram a Washington Heights, temendo que alguém o visse e perguntasse quem era ele. Ela o convidou para se sentar em sua sala de estar, Hamilton olhava tudo ao seu redor, curioso ao ver com seus próprios olhos como era uma casa construída pelos parâmetros modernos.
-O senhor está com fome? Quer um copo d'água ou algo assim? - Vanessa ofereceu.
-Não, estou bem, muito obrigado por oferecer - ele foi educado - agora, se for possível, quero minhas respostas.
-Sim, sim - Vanessa sentou-se na frente dele e suspirou - o senhor foi um político importante do seu tempo, não foi? E um soldado na Guerra de Independência?
-Sim, está tudo correto - ele assentiu, não fazendo ideia de onde ela queria chegar.
-Pois bem, tudo o que o senhor fez deixou um legado que perdura até hoje - Vanessa prosseguiu - você se tornou história do nosso país, e meu marido, Lin, bom ele conheceu mais a fundo sua história.
-Conheceu? Conheceu como? - Hamilton começou a se assustar.
-Um historiador chamado Ron Chernow escreveu sua biografia, Lin leu tudo e ficou tão inspirado que escreveu uma peça musical sobre a sua vida - Vanessa contou tudo, preocupada em como o homem à sua frente estava reagindo.
-Quer dizer que… me conhecem bem, no futuro? Por causa dos historiadores… - ponderou Hamilton.
-Não por eles, mas mais pelo musical… - Vanessa foi sincera, era exatamente isso que estava acontecendo - mas também te conhecemos por uma outra coisa, espera só um instante.
Ela se levantou e foi buscar algo, Hamilton a observou com curiosidade. Quando ela retornou, entregou em sua mão o que parecia ser uma cédula de dinheiro. Ele se sobressaltou ao reconhecer a figura desenhada no papel.
-Esse… esse é mesmo… sou eu nessa nota? - Alexander perguntou impressionado para a mulher.
-É sim, você é um dos nossos pais fundadores, então foi homenageado no nosso dinheiro - Vanessa continuou explicando.
-Meu Deus, eu consegui, eu consegui mesmo, eu tenho um legado, eu deixei um legado, será que eu deixei? - Alexander deixou de absorver as informações do futuro para pensar na sua atual condição - eu ainda não sei explicar o que aconteceu comigo, como foi que eu vim parar aqui e tudo mais, a última coisa de que me lembro foi de enfrentar Burr num duelo em Weehawken.
-Ah eu não sei se deveria lhe contar… - Vanessa opinou, preocupada.
-Acho que não será necessário sra. Miranda - ele compreendeu tudo - eu morri, não foi?
-Foi isso - ela assentiu lentamente, triste por ter que confirmar tal notícia.
-Eu sei, já esperava por isso - confessou Hamilton - eu nunca participei de um duelo, mas, há uma sensação estranha que te dá a certeza do que vai acontecer com você, por mais que o Burr fosse sempre reservado, eu sei o tamanho do ódio que ele tinha por mim, nada mudaria sua decisão, só há uma coisa que eu não consigo compreender.
-O que? - Vanessa perguntou.
-Como e por que eu vim parar no futuro? O que me fez aparecer aqui e agora bem no último suspiro da minha vida? - Alexander procurava uma resposta para isso.
-Hum, eu não sei exatamente porque, mas por enquanto, vamos concluir que foi um milagre especial - sugeriu ela.
-Acho que é só o que me resta - concordou Hamilton.
Ele ficou por um tempo refletindo no que tinha lhe acontecido, era algo extraordinário, que o deixava inquieto e pensativo, não sabia quanto tempo ainda teria no presente, mas o usaria bem, tentando buscar respostas às suas indagações.
