O silencio era a única coisa que se podia ouvir na Caverna de Esporos Selvagens, local aonde se encontrava o QG da tão famosa Gangue Shane.
O grupo considerado por grande parte de SlugTerra como os grandes protetores da ordem e da paz, liderados pelo atual Shane, Eli Shane, o grupo era formado por:
Beatrice Sting, ou Trixie para os mais íntimos, a Especialista em Lesmas e líder temporária do grupo quando Eli se encontra ausente.
Kord Zane, um Ogro da Caverna, o mecânico da equipe, responsável por aprimoramentos nos Mecas e nos lançadores quando a situações se faz necessária.
E por fim, Pronto, um Molenoide, dono de sentidos aguçados, o que o tornam o rastreador e guia oficial da equipe.
O grupo ostentava de um vasto arsenal de lesmas, que recebiam um tratamento peculiar que a maioria das lesmas recebiam, não sendo consideradas munições, mas sim, amigos, camaradas e partes da equipe.
Porém, havia uma lesma em especial que se destacava das outras, dona de uma pele alaranjada com detalhes flamejantes.
Burpy, a pequena e poderosa lesma Infernus encontrava-se naquele momento, escorada numa das janelas da base, enquanto seus olhos se focavam em seus companheiros lesmas que estavam descansados, assim como os seus atiradores, da ultima batalha que havia acontecido a poucas horas atrás contra os asseclas do Dr. Blakk que estavam levando uma carga de agua escura para alguma caverna que Burpy não fazia questão de se lembrar, afinal, já havia lutado tantas vezes contra pessoas de péssima índole querendo dominar ou destruir SlugTerra por tantos anos, que ele já sabia como aquilo funcionava:
Vilão aparecia, ele e o seu portador impediam o plano dele, o matando, o prendendo ou seja lá o que o Shane atual iria fazer.
Ele só se perguntava por quanto tempo ele teria que lutar aquelas batalhas sem fim?
Quanto tempo ele esperaria para finalmente poder descansar?
Mais mil anos?
Até envelhecer e se tornar uma velha lesma com a chama já se apagando?
Se for essa a opção certa, ele com certeza vai ter que aprender a ser paciente, porém, ele havia sido paciente por mais de mil anos, lutando, protegendo, vendo um por um, lançadores, amigos, companheiros, morrerem de velhice e o passarem para seus filhos, netos ou sobrinhos que logo logo iriam se tornar velhos e então o entregar mais uma vez para o próximo protetor de SlugTerra, sempre foi assim, por dois mil anos desde que era uma jovem e inexperiente lesma.
Ele ainda se lembrava do seu primeiro portador, um ancestral de Eli, um jovem e assustado indígena, que havia perdido a sua tribo em um ataque dos Profundos que infestaram a superfície americana naquela época.
Ele se lembrava de quando o Clã das Sombras haviam o encontrado escondido em uma das cavernas que levavam até SlugTerra e o levaram para o Santuário das Sombras, aonde o treinaram e o ensinaram os vários segredos das lesmas, para no fim, o transforma-lo em um poderoso guardião, criado com o objetivo de acabar com o reinado de terror dos habitantes das Cavernas Profundas e as memorias dos dias da guerra ainda se mantinham frescas na mente da lesma de fogo, gritos, sangues, triplas, tudo para no fim, os Profundos serem levados de volta para o lugar de onde havia saído.
— E tudo isso, para nada...
A lesma Infernus murmurou, recordando-se das recentes ações do Dr. Blakk enquanto virava os seus olhos carmesim em direção a janela, tendo o vislumbre do belíssimo cenário dos grandes cogumelos fluorescentes, emanando uma fraca luz azulada, que fazia Burpy se recordar das estrelas no céu, um dos seus passatempos favoritos que ele fazia toda vez que estava na superfície com algum Shane.
— Pensativo hoje Burpy. — A voz do Elemental da Energia chamou a atenção da lesma de fogo que se virou, vendo Doc andando em sua direção, até ficar do seu lado.
— Sem sono?
— Como eu conseguiria dormir sentindo sua energia estando tão... depressiva? — Burpy soltou um suspiro pesado ao escutar aquelas palavras saindo da boca de seu 'tio', voltando a olhar para os grandes fungos. — O que lhe atormenta tanto?
— O passado... O presente... e o futuro... — Doc focou seu único olho sobre a lesma de fogo, já percebendo o que afligia o seu companheiro.
— Sabe, eu entendo como se sente... — A lesma energia se colocou do lado do amigo, vislumbrando da belíssima cena. — Eu já estive na mão de varias pessoas antes de finalmente chegar ao Eli, conheci pessoas boas, conheci pessoas ruins, conheci pessoas que me fizeram ter vários tipos de experiências de vida, que me fizeram perceber que antes de eu ser a Lesma Ancestral da Energia, eu ainda sou uma lesma, tive amigos que nunca esquecerei, tive inimigos que respeitei, tive amores que nunca reencontrei.
— Como você consegue? Como consegue viver sabendo que irá presenciar a morte dos seus amigos que irão envelhecer e morrer enquanto você anda esta vivo? — Burpy olhou para a lesma verde que só deu um pequeno sorriso.
— Sabe, eu já pensei como você antes, porém, a muito tempo atrás, eu conheci um homem, um sábio, no qual passou toda a vida em uma eterna busca do sentido da nossa existência e foi só no dia de sua morte que ele descobriu.
— E... ele lhe contou?
— Não, não contou, mas não foi necessário, eu descobri, ao mesmo tempo que ele... — O Elemental da Energia pousou sua mão sobre o ombro do seu 'sobrinho', não tirando aquele singelo sorriso de seu semblante. — A razão de nossa existência, é viver de acordo com nossas ambições, com nossos desejos, sem arrependimentos, sem lamurias, sem dor e carregando sempre em seu peito, as boas lembranças que teve com amigos, família e amores, por isso Burpy, não se doa tanto pelos seus antigos companheiros, pois eles ainda estão vivos... aqui... — Doc cutucou o peito da lesma de fogo, bem na região do coração. — Bom, estarei descansado, espero que faça o mesmo, afinal, teremos um dia cheio amanha.
Essas foram as ultimas palavras de Doc antes de deixar Burpy sozinho naquela janela, com uma expressão pensativa sendo visível no semblante da lesma Infernus, que deu uma ultima olhada para a janela, antes de começar a andar em direção ao quarto de Eli, seu atual companheiro, seu atual amigo e que assim como os seus antecessores, ele sempre guardará em suas memorias, até o fim de sua vida.
