Capítulo XII

E agora? Kagome estava perdida, com Naraku ali, que também havia entrado no quarto dela, nada poderia explicar para Inu-Yasha. Estava tudo bom demais para ser verdade. Ela contava que quando Inu-Yasha voltasse tudo estaria resolvido. Sentiu o coração se apertar.

– Meu Deus! Como gostaria de não poder enxergar nesse momento! – Inu-Yasha exclamou desesperado. – Eu confiei em você! Quando esse infeliz me disse que você estava me traindo eu não acreditei. Como fui tolo! – A decepção estava estampada em seu rosto.

Mas o que Kagome poderia dizer ali na frente de Naraku, como negar? Como afirmar que era inocente?

– O que você tem para me dizer? Não vai nem inventar alguma desculpa? – Inu-Yasha indagou, seu olhar agora era feroz. O silêncio de Kagome o enfurecera. Assumir assim a culpa sem nem ao menos se defender... aquilo doía... queria que ela dissesse algo... negasse... afirmasse que tudo era um engano, que havia uma explicação plausível.

Naraku decidiu tomar alguma providência, não podia deixar que a idiota fraquejasse e atrapalhasse tudo.

– Kagome, dê um fora logo nesse cara! – Ele exigiu. – E volte ao trabalho.

Juntando toda a força de vontade e coragem que possuía, Kagome fez uma prece e então disse, por fim:

– É obvio, demais até, o que se passa aqui. – Será que Inu-Yasha entenderia a mensagem? – Você foi muito ingênuo por acreditar que eu conseguiria ficar um mês no ócio. Você me conhece, sabe como sou entre quatro paredes. Precisa dizer mais? – explicou, a ousadia pontuando casa sentença.

Quando Inu-Yasha avançou para Kagome e depois recuou praguejando, Nakaru sorriu satisfeito.

Sem mais nenhuma palavra Inu-Yasha abandonou o quarto. E Houjo que havia ficado calado, resolveu mostrar "desagrado". Abraçando Kagome pela cintura reclamou:

– Detesto ser interrompido. Mas agora já está resolvido, espero não ter mais interrupções. – Disse para Naraku.

– A moça, agora é toda sua. Aproveite bem a sua vez. Já viu como é a disputa... – Debochou este.

Antes de sair, Kagome ainda lhe lançou um olhar repleto de ódio, que serviu para alimentar a impressão que Naraku possuía de que a sua vingança contra aquela garota estava saindo melhor do que esperava.

Não havia pensado na possibilidade do tal Inu-yasha chegar antes do previsto. Mas melhor assim. Já se livrara dele de uma vez por todas. Duvidava de que depois do que havia visto voltaria. O rapaz era tolo, mas nem tanto, não seria capaz de abandonar todo o orgulho para vir atrás de Kagome. Fim do problema.

Kagome dizia a si mesma que não iria chorar. Ainda não estava acabado. Quando prendessem Naraku ela ia atrás de Inu-Yasha e conseguiria fazê-lo entender o que havia acontecido. Mas era tão difícil... como poderia saber se tudo ia dar certo? Depois de tanto sofrimento, um dia a mais não deveria ser nada, não é mesmo? Mas era um dia que poderia mudar a sua vida inteira.


Seria possível suportar tanto sofrimento? O coração parecia querer parar, mas não havia nada que pudesse fazer para a dor passar.

E pensar que até dois meses atrás tinha uma vida vazia, mas calma. Foi só conhecer Kagome para tudo mudar, por que tinha que acabar assim?

Sua juventude a fazia ser tão volúvel assim? Ou lhe faltava caráter mesmo?... Estranho... ele se julgava um melhor juiz de caráter. Como poderia se enganar tanto?

"É óbvio, demais até, o que se passa aqui."

Muito óbvio mesmo, ela estava recebendo outro enquanto ele estava fora, mesmo ele tendo pago por ela. Bem, pelo menos era o que seus olhos tinham visto. Eles estariam enganados? Ou, melhor, o que os seus olhos não tinham visto enquanto esteve fora?

"Você foi muito ingênuo por acreditar que eu conseguiria ficar um mês no ócio."

Como assim? É claro que ela ficaria um mês no ócio! Eles ficaram um mês no ócio. Não é possível que aquela última noite juntos havia feito despertar um lado insaciável em Kagome. Não, ela não era assim. Ela, às vezes, podia ser uma provocadora mas era tão terna, tão doce e nada vulgar. Além disso, ele sabia que ela ficava muito sentida por ter que aceitar o dinheiro dele. Entristecia-a ser obrigada a vender seu amor para ele. A única coisa que deixava Kagome mais aliviada era saber que acima de tudo eles se amavam.

Quantas vezes tinha tido que assegurar a ela que ele não importava em gastar dinheiro para poder ficarem juntos e que se as circunstâncias fossem diferentes ele gastaria muito mais só para cobri-la de presentes?

Ela então ruborizava de raiva, e Inu-Yasha se apressava em afirmar que eles viveriam sob um teto de estrelas, numa cama de folhas secas e se alimentariam de beijos. E seriam muito felizes. Incapaz de continuar zangada se jogava nos braços de Inu-Yasha.

Não, agora ele podia afirmar. Não fora traído. Kagome só fora capaz de sentir prazer em seus braços porque havia amor.

"Você me conhece, sabe como sou entre quatro paredes."

Sim, conheci-a. Era gentil, apaixonada e generosa. Além de doce, muito doce. Incapaz de se aproveitar de alguém. Adorava provocar... mas na hora de tomar a iniciativa era tímida, hesitante.

Neste momento, tudo estava bem claro em sua mente: com certeza Kagome fora obrigada por Naraku a voltar a se prostituir. Nada do que havia visto era culpa da sua amada. Não ia fazer o jogo de Naraku.

As lacunas eram muitas. No tempo em que ficara fora muita coisa pode ter acontecido. Quanta indignidade deve ter sido infligida a Kagome?! Pelo que aquele miserável havia contado, tinha sido um homem diferente a cada dia.

A dor que sentia por Kagome, a pessoa amada, um ser humano, era maior que o sentimento de orgulho ferido, que bem no fundo sentia, por ter perdido a exclusividade de algo que considerava apenas seu.

Se seu sofrimento era grande, o de Kagome era maior ainda. Tão jovem, tão sofrida. Ele não aumentaria mais o sofrimento desprezando-a, pelo contrário, mais do que nunca ia dar um jeito de tirá-la de lá.


Havia tanto tempo que não se permitia pensar nela que Sesshoumaru teve a impressão de todas as recordações haviam se desvanecido, no entanto, não era verdade. Estava tudo ali, bem guardado sim, mas o importante era que ainda existiam.

Os cabelos negros, olhos vermelhos... inesquecíveis. Como era possível ele ter conseguido sufocar seus sentimentos por tanto tempo?

Tantos anos e ainda a mágoa de ter perdido a chance de ser feliz. A quem poderia culpar? Podia dizer que era de sua mãe por ter pressionado Kagura a abandoná-lo, desta por ter sido fraca demais e cedido ou de Naraku, aquele maldito, por ter cooperado com sua mãe.

Mas só conseguia culpar a si mesmo, afinal havia sido comodista demais para lutar pela mulher que amava. Era orgulhoso demais na época para se dar conta de que precisava de dois para manter uma relação.

Esperava, naquela época, que Kagura assumisse sozinha a tarefa de mantê-los juntos. Presumia que ela devia fazer tudo o que ele quisesse. Recebeu tanto, mas o que ofereceu em troca? Uma oportunidade frustrada e falsa de liberdade. Queria libertá-la para simplesmente aprisioná-la para si.

E depois que eles haviam terminado? Outra sucessão de erros. Casou-se com outra mulher para dar uma mãe para sua filha, mas foi incapaz de amar a pobre que fazia tudo para agradá-lo e cuidou e amou Rin como ninguém. No final, morreu ao dar a luz a um menino natimorto, que ela julgava ser o que faltava para que Sesshoumaru lhe amasse.

Mas o pior de seus erros, foi a incapacidade de dar carinho a sua filha por que simplesmente era impossível olhar para a menina e não se lembrar da mãe dela, que havia perdido.

Incrível, olhava os olhos castanhos da filha e via a mágica da genética que misturara os seus olhos dourados com os vermelhos de Kagura para originar os de Rin. Ao seu ver a natureza não poderia ter sido mais generosa mesclando e selecionando as suas e as características de Kagura tão sabiamente... seu tom de pele, os cabelos negros de Kagura...

Enfim, tudo isso apenas serviu para atormentá-lo. Quando não havia mais quem ocupasse de sua filha, achou melhor despachá-la para um lugar que pouco permitia vê-la.

Inu-Yasha estava certo. Hora de mudar, tomar as rédeas de sua vida e deixar de ser indiferente. Sua filha precisava dele, assim como ele precisava dela. E o principal, ambos precisavam da mãe de Rin... precisavam de Kagura.


– Quero o divórcio.

– Você enloqueceu, Inu-Taisho? – Kazumi protestou indignada.

– Sinto que é impossível eu estar mais lúcido.

– Não me venha com esse absurdo. Eu não serei preterida. Imagine o que os outros vão pensar?! Vão achar que fiquei velha e fui rejeitada.

– Depois de tanta plástica, é impossível que alguém te ache velha. – Ele ironizou.

– Inu-Taisho! Pare de gracinhas. Você sabe muito bem que eu não lhe concederei o divórcio.

– Não? Então tudo bem. Estou saindo de casa para pedir a separação litigiosa.

– Nunca!

– Então vamos entrar num acordo, eu deixo sua ilesa e você não me cria problemas. Se não quiser sair humilhada dessa história, é só dizer que o pedido de divórcio partiu de você. Invente uma desculpa qualquer... incompatibilidade de gênios, que você me trocou por um modelo mais novo... sei lá, de nós dois você é que tem a mente mais retorcida.

Fez-se um silêncio. Kazumi parecia refletir sobre as palavras de Inu-Taisho, estava tão séria que nem ao menos deu importância para as ironias que ele havia dito.

– Tudo bem. – Respondeu ela por fim. – Mas saiba que arrancarei até o seu último centavo.

– Não seja por isso. Qualquer coisa vale a pena para me livrar de você. – Ele disse.

– Só acho que você está velho demais para ir atrás da tal Izayoi. Ela está na flor da idade, enquanto você já está com o pé na cova.

Sem esperar resposta, virou as costas e saiu. Sozinho em seu escritório, Inu-Taisho se pôs a pensar:

"Finalmente estaria livre. Sabia que Izayoi nunca se casara. Haveria uma nova chance para ele? Será que Kazumi estava certa? Estaria tão velho assim? Ainda recebia muitos elogios por sua aparência e muitas jovens o achavam atraente... mas e Izayoi? O que pensaria dele? Inu-Taisho tinha conhecimento de que ela continuava linda, a idade só lhe oferecera uma maturidade, que muito contribuiu para torná-la mais bela. Isso tudo levando em conta que a vira apenas de relance, uns meses atrás.

Bom, na verdade, o que ele precisava era ganhar o perdão de Izayoi, por ter sido tão fraco. E então veriam se um recomeço era possível.

Quanta saudade daqueles olhos violetas, era impossível encarar o filho sem se ressentir com o destino. Teria sido muito mais fácil se Inu-Yasha não houvesse herdado os olhos da mãe, mas no final deveria ter assumido a própria culpa e ter sido um pai melhor.

Como queria estar ao lado da única mulher que amara. Ah, se ela o aceitasse... passaria o resto de sua vida recompensando Izayoi por todo o sofrimento que causara."


Havia chegado o dia, ou melhor, o momento. Kagome estava um pouco ansiosa, mas contente. Souta, seu irmão, já estava em segurança. Houjo garantira que não dariam falta dele. A não ser pela manhã.

Aos poucos os policiais estavam se reunindo ao redor da casa. Para não causar suspeitas alguns se encontravam dentro, se misturando aos demais clientes.

Kagome estava sentada numa mesa com Houjo e outros policiais disfarçados quando sentiu-se observada, virou-se dando de cara com o olhar de Inu-Yasha que estava sentado num canto do salão. Como era possível? O que ele estaria fazendo lá? Só de encará-lo não conseguia desvendar nada, ele estava muito sério e parecia... determinado?!

Como num transe ele se levantou e foi em sua direção. No mesmo instante em que Naraku percebeu o que estava acontecendo e se pós em movimento também. Quando eles chegaram em sua mesa Kagome se levantou. Naraku foi o primeiro a falar.

– O que você veio fazer aqui? Voltou com o rabinho entre as pernas?

– Como assim? O que eu vim fazer aqui? Simplesmente vim usufruir o que o meu dinheiro pagou, e ainda por cima adiantado. – Inu-Yasha explicou sem nenhuma emoção na voz, seus olhos estavam frios.

– Mas ontem... – Kagome gaguejou. Não sabia o que dizer, se ficava feliz por vê-lo ou se assustada com a maneira como ele estava se comportando.

– Não se preocupe, entendi perfeitamente o seu recado. Agora vamos. Temos contas a acertar, não é mesmo?

Naraku apenas estava observando, havia sido pego de surpresa e pela primeira vez em sua vida não sabia o que fazer.

"Inferno! O que esse imbecil está planejando? Não é possível que ele ainda tenha interesse por essa menina! Ele sempre pareceu tão cheio de si, orgulhoso..."

Naraku não chegou a concluir o pensamento. Nesse instante, alguém disse "é agora" e então a casa mergulhou no caos. Várias pessoas foram presas, mas quando um profundo silêncio se instalou, é que foram se dar conta da situação: Kagome era feita refém por Naraku e este se protegia utilizando a garota como escudo, enquanto se aproximava de uma janela. Houjo, esboçou uma reação, mas Naraku revelou estar preparado para eventualidades, retirando um revólver de dentro da roupa e apontando para a cabeça de Kagome.

– Acho melhor ficarem quietinhos, não é mesmo? Ou será que querem ver como explodo a cabeça da garota? – Perguntou com crueldade, nem quando a situação parecia desesperadora ele se rendia.

– Vamos ter calma. Podemos negociar sua rendição. – Houjo tentou barganhar.

– Me render? Jamais! Aqui não há o que negociar, se vocês querem que ela permaneça com a cabeça no lugar vão ter que atender todas as minhas exigências.

– Você não está em posição de exigir nada. Você não vê? A casa está toda cercada. Não tem para onde fugir.

– Como você mesmo salientou, eu não tenho mais nada a perder... mas posso levar alguém comigo. Então se não quiserem a morte de um inocente na consciência vão ter que fazer tudo o que eu mandar. – Neste momento, Naraku baixou a guarda, afastando o revólver da cabeça de Kagome... e então Inu-Yasha agiu. Enquanto Naraku estava distraído com Houjo, Inu-Yasha foi se aproximando até se atracar com o criminoso tirando-o de perto de Kagome.

A luta não durou muito, mas o suficiente para deixar todos em suspense, até que se ouviu um tiro. Ambos caíram no chão. Junto com a arma que foi arremessada para longe num canto do salão.

Continua...


E exatamente 15 anos depois de ter começado a publicar essa fanfic... aqui estou eu. Muita coisa se passou nesse longo tempo, mas eu nunca perdi a esperança de terminar essa história e agora espero que eu possa ir até o fim.

Dificilmente deve me restar algum leitor daquela época... rsrs... mas se eu tiver algum leitor ou se aparecerem novos, eu peço desculpas por quaisquer erros... sejam gramaticais ou de sequência na história. Eu precisava reler tudo, mas se eu fizesse isso provavelmente eu ia perder a coragem de continuar porque ia querer mudar muita coisa na história...

Não tenho previsão para o próximo capítulo, tudo que posso dizer é que vou me empenhar para ir até o fim dessa vez.

Até a próxima!