Capítulo XIV - Especial I
A casa estava cheia. Aquela noite era diferente, pelo menos para uma jovem de nome Kagura. Uma garota de apenas dezessete anos que naquele momento se via obrigada a se prostituir.
A tempestade desabava do lado de fora, mas parecia que estava dentro do coração de Kagura. Estava desesperada, queria poder gritar de frustração. Era revoltante o que ia lhe acontecer, mas não havia ninguém para ajudá-la.
Tudo o que sempre havia sonhado era ser livre, mas no momento este desejo não poderia estar mais distante.
Sempre se gabara de conseguir tirar o melhor proveito em qualquer situação. Enfim, encontrara alguém mais esperto do que ela. Como é que tudo começara? Tinha que voltar ao passado, à sua infância...
Com oito anos apenas, se vira completamente órfã tendo como única parente sua irmã, praticamente uma recém-nascida. Ambas foram mandadas para um orfanato, no qual permaneceram até recentemente.
Já era bem grandinha quando fora para lá e por isso não teve chance de ser adotada, Kanna sua irmã, ao contrário, teve muitas oportunidades que foram desperdiçadas pelo fato das assistentes sociais se recusarem a separar as irmãs.
À princípio Kagura ficara agradecida, mas a medida que Kanna foi crescendo esta se deu conta do quanto perdera por causa da irmã e assim foram se distanciando. No final das contas acabaram se tornando duas estranhas.
Para complicar, o tratamento recebido na instituição não poderia ser pior. Quando chegara lá ninguém conseguia entender a revolta que sentia pela perda dos pais, e por isso, seus atos de rebeldia eram constantemente punidos. E, além disso, era obrigada a fazer inúmeros trabalhos pesados. Como geralmente se recusava a executá-los ou não os fazia a contento, vivia de castigo, apanhando ou ficando sem comer durante tempos intermináveis.
Quantas vezes sonhara fugir? Teria ao menos tentado se Kanna não tivesse se recusado a ir junto, apesar de não serem próximas não poderia abandoná-la depois de ela ter sido prejudicada por sua culpa.
Faltava um pouco mais de um ano para sair daquele inferno quando Naraku apareceu em sua vida. Chegou oferecendo tudo o que Kagura mais queria: liberdade! E o melhor é que poderia levar Kanna junto.
O sonho virou pesadelo quando depois de algumas semanas trabalhando como secretária para Naraku, ele revelou sua verdadeira personalidade. Mandou Kanna para algum lugar desconhecido e ameaçou-a exigindo que se prostituísse para ele em troca da vida da irmã.
Não pode fazer nada a não ser aceitar, quando insinuava para alguém o que lhe estava acontecendo todos lhe viravam as costas, de modo que, ali estava... à disposição de quem pagasse o maior preço. Naraku ganhara aquela batalha, mas a guerra... hum, aquele era só o começo de uma grande guerra, pois jamais se renderia!
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O "leilão" já se iniciara, mas Kagura se mantinha calma, não ia dar para ninguém o gostinho de vê-la desesperada ou com a cara de nojo ao contemplar aqueles velhos babões fazendo lances por ela enquanto comentavam alguma obscenidade entre eles.
Kagura olhava com desprezo a plateia quando seus olhos captaram outros olhos que a fitavam. Impossível saber o que se passava na mente daquele estranho. Nunca vira alguém demonstrar tanta frieza... não conseguia deixar de encará-lo. Fascinante! Era o mínimo que se podia dizer sobre ele... alto, longos cabelos prateados e olhos dourados... que olhos! Pena que fossem tão frios. Ele parecia continuar a encará-la e ela continuou a inspeção. Vestia um terno que lhe assentava perfeitamente, certamente feito sob medida, de longe se via que o tecido era de boa qualidade.
Estava tão distraída que mal se deu conta de que os lábios daquele desconhecido se mexiam. Fez força para entender do que se tratava e quando percebeu que ele fazia um lance por ela, seu rosto demonstrou todo o seu espanto.
A quantia surpreendeu a todos: era triplo do lance anterior.
– Dou-lhe uma, dou-lhe duas e... dou-lhe três! E a virgindade da nossa linda Kagura vai para o cavalheiro ali. – O prazer era evidente na voz de Naraku. – Enquanto o senhor acerta comigo, vamos mandar o seu prêmio te esperar na privacidade de um quarto.
Antes de ser arrastada, Kagura ainda pôde ver que nada havia alterado na fisionomia dele.
Já ouvira tantas recomendações das outras mulheres daquele lugar, que não se importou com o que lhe diziam naquele momento. Sua mente ainda trabalhava tentando livrá-la daquela situação.
As coisas foram acontecendo sem que Kagura sentisse. O vestido indecente que trajava no leilão foi trocado por uma camisola que também não deixava nada para a imaginação. Os lençóis da cama já haviam sido trocados mais cedo, mas, então, as colchas foram afastadas da cama. Ajeitaram mais um ou outro detalhe e logo foi deixada sozinha.
Não poderia dizer quanto tempo se passou até que a porta foi aberta e ficou cara a cara com o estranho que a comprara.
Olhando para ele, decidiu que se ele podia ser frio, ela não ficaria atrás. Demonstrar o medo que sentia? Preferia a morte!
– Qual o seu nome? – Kagura decidiu perguntar. Quando sua voz soou firme, ficou extremamente feliz.
– Pode me chamar de Sesshoumaru.
E agora? Tentava puxar papo, ou tomava a iniciativa? Nem um nem o outro! O tal Sesshoumaru resolveu a questão ele mesmo agarrando-a de repente. Num instante estava na cama sob ele.
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Ele já havia ido embora há uma hora atrás, mas Kagura sentia sua presença. Nada do que lhe falaram, chegou perto do que havia acontecido.
Como alguém tão frio podia provocar as emoções que ela sentira? O pior é que ele em momento algum perdera o controle! Seria incapaz de sentir?
Ela adoraria descobrir, principalmente se fosse ela a conseguir fazê-lo demonstrar algum sentimento. Teria pelo menos a oportunidade de tentar? Esperava que sim, seria um ótimo passatempo enquanto não recuperava a sua liberdade.
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Na noite seguinte, para a alegria de Kagura, Sesshoumaru retornou e pediu... não... exigiu que ela fosse dele novamente. E o mesmo se repetiu nas noites seguintes. Frio e de poucas palavras como na primeira noite. Kagura ainda não conseguira fazer evoluir nenhum tipo de conversa com ele. Mas ela não se importava muito, desde que ele, pelo menos, era mais jovem e bonito do que os outros clientes, além de que também parecia rico. Se ela continuasse agradando-o quem sabe o que poderia acontecer? O que ele poderia fazer por ela? Quem sabe ele não seria o passaporte para sair daquele lugar?
A partir daqueles pensamentos ela decidiu que sua nova meta era chamar atenção suficiente de Sesshoumaru para conseguir que ele a libertasse. Mas era mais fácil pensar do que fazer acontecer. Todas as tentativas de aproximação de Kagura se mostraram vãos. Até que um dia, quando ela já estava jogando a toalha... Sesshoumaru iniciou uma conversa ao invés de ir embora após o sexo como era seu costume.
– Então... o que você está fazendo num lugar decadente como este? Você é jovem... poderia estar aproveitando melhor sua vida.
Kagura o encarou surpresa. O que responder? No fundo, sentiu uma pontada de raiva... pois sentia certo julgamento nessas palavras. Mas tinha que responder, depois de tanto tempo tentando que ele conversasse essa era uma chance única. Será que era melhor inventar uma história? Será que se contasse a verdade ele acreditaria nela?
Acabou optando pela verdade, não saberia explicar... mas sentiu que se quisesse ganhar a confiança dele, no mínimo deveria ser verdadeira. E assim foi:
– Sendo bem sincera com você, eu não estou aqui por vontade. Eu fui chantageada. A história é longa, não sei se é do seu interesse ouvir ou se você perguntou por perguntar. – Kagura respondeu encarando-o como se dessa forma pudesse transmitir toda sua sinceridade. Pela primeira vez ela percebeu que ele havia esboçado uma reação diferente da costumeira frieza... ele parecia indignado.
– Me conte sua história. – Ele pediu, deixando Kagura mais uma vez surpreendida.
Então ela detalhou para ele todas as circunstâncias que a levaram a estar naquele lugar até o dia em que eles haviam se conhecido. Sesshoumaru a ouviu pacientemente e em seguida foi embora pensativo.
Na vez seguinte, ele pediu que Kagura falasse mais sobre sua relação com a irmã Kanna e ele próprio acabou deixando escapar que também tinha um único irmão.
– E como se chama seu irmão? Ele é mais novo ou mais velho do que você? – Perguntou Kagura, aproveitando que naquele momento Sesshoumaru parecia mais disposto a conversar.
– Ele se chama Inu-Yasha e é mais novo do que eu. – Sesshoumaru respondeu de forma seca. E então Kagura preferiu deixar o assunto de lado, intuindo que houvesse algum tipo de problema naquela relação fraterna.
Mas aquele parecia ser o único ponto proibido, pois nas semanas seguintes Sesshoumaru foi se abrindo de forma gradual contando amenidades sobre sua vida. Até que um dia eles perceberam que tinham muitas coisas e gostos em comum. E aquele também foi o dia em que Kagura fez uma importante descoberta: sem saber como, havia se apaixonado por Sesshoumaru.
A partir de então a sua meta era simplesmente descobrir o que ele sentia a respeito dela. Ansiava que seu amor fosse correspondido. E como se os céus tivessem ouvido a súplica de Kagura, o desejo dela foi atendido. No fim de uma noite Sesshoumaru disse:
– Eu percebi que você era o que estava faltando em minha vida. –Sorriu e virou as costas sem dizer mais nenhuma palavra. Kagura estava estupefata... era a primeira vez que ele sorrira para ela. Mas não foi a última. Após esse dia, vieram mais sorrisos, risos e alegria que culminaram num pedido de casamento. Naquela altura, Kagura mal se lembrava de que um dia apenas queria usar Sesshoumaru para recuperar sua liberdade. Naquele momento a única coisa que sabia é que queria passar o resto da vida com ele e pelo visto, ele com ela.
Mas aquela felicidade não estava fadada a se concretizar. Sesshoumaru comunicou a Kagura que viajaria para contar a novidade para os pais e logo estaria de volta.
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– Você está louco! Você não pode se casar com uma prostituta. Se você se atrever a casar com ela, esqueça que você é meu filho.
– Calma, Kazumi. Deixa o rapaz tomar as próprias decisões. – Disse Inu-Taisho tentando apaziguar os ânimos.
– Você fique fora disso. É tudo culpa sua! Seu filho herdou esse mau gosto de você, não há dúvida. – Retrucou Kazumi.
– O único mau gosto que tive foi me casar com você. – Irritou-se Inu-Taisho com a esposa.
– Estou falando da prostituta, mãe do seu bastardo.
– Olha, Kazumi. Você está me fazendo perder a cabeça! E esse não é o tipo de conversa para ter na frente de Sesshoumaru.
– Não se incomodem por mim. Vocês nunca se importaram de discutir na minha frente quando eu era criança... então agora que sou um adulto, para mim não faz diferença. Eu também estou indo embora, já fiz o que tinha que fazer. Eu não vim em busca de consentimento. Eu tenho vinte e um anos e já posso tomar minhas próprias decisões. – Dizendo isso Sesshoumaru deu as costas e partiu.
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Quando retornou para junto de Kagura, Sesshoumaru não teve coragem de contar a verdade para ela. Limitou-se a dizer que ele tinha acertado tudo com os pais dele e que eles se casariam dentro de um mês e, nesse meio tempo, ele iria correr atrás de livrar Kagura das garras de Naraku.
No entanto, essa omissão acabou se tornando um erro crucial, pois, Sesshoumaru subestimou o que a própria mãe era capaz de fazer para vê-lo longe de Kagura.
Logo depois da saída intempestiva de Sesshoumaru, Kazumi contratou um detetive para segui-lo e descobrir informações sobre Kagura. De posse de toda informação obtida, a mãe de Sesshoumaru se dirigiu ao prostibulo e pediu para falar com Naraku. Kazumi saiu da sala deste com a permissão para ver Kagura e ele foi muito bem pago por isso.
Naraku ao perceber o brilho de determinação no olhar da mulher, decidiu que a situação não demandaria sua interferência. Em pouco tempo aquele romancezinho de Kagura se tornaria cinzas.
Kagura se sobressaltou ao ouvir sua porta se abrir de repente, dando passagem para uma mulher muito bonita no final da casa dos 40 anos. Era praticamente impossível não dizer que aquela senhora era mãe de Sesshoumaru. Esta fechou a porta atrás de si e aproximou-se de Kagura.
– Sua vadia! Como se atreve a colocar as suas garras sobre meu filho? – Assustada com o repentino ataque, Kagura não encontrou palavras para se defender. – Você é uma ninguém e uma mulher perdida! O que você acha que pode trazer de bom para meu filho? Pois eu te digo: nada! A única coisa que você irá trazer é desgraça na vida dele.
– Mas ele me ama! – Kagura tentou argumentar.
– Ama nada. Ele está com a cabeça virada! Você com certeza o enfeitiçou com alguma técnica sua de prostituta. Vocês são mestres nisso. Mas meu filho não precisa de nada disso, ele já tem uma noiva de boa família que irá ajudá-lo na carreira de advogado. – Mentiu Kazumi.
Kagura ficou atônita, nunca imaginara que Sesshoumaru tinha uma noiva. Seria invenção da mãe dele? Ou ele havia mentido mais uma vez para ela? Já que ele mentira ao dizer que estava tudo resolvido com os pais dele, aquela poderia ser mais uma mentira dele.
Num misto de decepção e desespero, Kagura ouviu Kazumi ameaçar:
– Que fique bem claro, que se você insistir em se casar com o meu filho, ele será deserdado e ficará na miséria. E essa carreira de advogado com a qual ele tanto sonhou irá pelo ralo, pois, ninguém irá contratá-lo depois de saber que ele foi renegado pela própria família! – Dizendo isso Kazumi saiu de lá batendo a porta e deixando Kagura em frangalhos.
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Depois dessa visita inesperada e carregada de veneno, abateu sobre Kagura um sentimento de prostração. Ela não tinha ninguém a quem recorrer. A única pessoa que estendeu a mão para ela em todos esses anos foi justamente Sesshoumaru, a quem não queria jamais prejudicar ainda que estivesse se sentindo enganada.
"O que fazer?" – Ela se perguntava, sabendo que faltavam poucas horas para se encontrar com Sesshoumaru.
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Naquela noite, Kagura após pensar muito, decidiu terminar tudo com Sesshoumaru.
– Sesshoumaru, eu quero terminar!
– De onde saiu isso? Até eu sair daqui ontem estava tudo bem! Naraku te ameaçou de alguma forma? – Ele se espantou.
– Não. Eu descobri que você tem uma noiva! – Ela respondeu.
– Você enlouqueceu? De onde tirou isso?
– Sua mãe veio me ver hoje e me disse coisas terríveis. – Kagura disse e encarou Sesshoumaru para ver a reação deste. O olhar de culpa fez com que ela presumisse que tudo era verdade, enquanto que na realidade Sesshoumaru se sentia culpado apenas por ter omitido a verdadeira reação de sua mãe à notícia de seu casamento com Kagura.
Kagura sentiu-se repentinamente zonza, e desmaiou. Antes que pudesse cair no chão Sesshoumaru a acolheu em seus braços.
Quando acordou estava em um ambiente não familiar, que ela imaginava ser o quarto de um hospital. Ainda com a mente meio enevoada ela conseguiu distinguir Sesshoumaru conversando com um homem de jaleco branco.
– Ela está grávida. – Disse este último.
Com profundo horror Kagura soube que essas palavras se referiam a ela.
Nem bem havia digerido aquela novidade quando Naraku chegou lá enquanto o médico se retirava. Sesshoumaru havia praticamente o obrigado a permitir que Kagura fosse levada ao hospital, mas, agora estava ali para garantir seu retorno. No entanto, ao descobrir a novidade sobre Kagura disparou:
– Grávida?! Não posso permitir que siga adiante. Ela deve interromper a gravidez.
– De forma alguma. Esse filho é meu! – Alegou Sesshoumaru.
– E Kagura é uma de minhas garotas. Quem vai arcar com o prejuízo dos meses em que ela ficará parada? E, além disso, o que ela vai fazer com essa criança?
– Eu vou ficar com meu filho, obviamente, e arcarei com seu "prejuízo". – Sesshoumaru respondeu com visível desgosto. Achava um ultraje pegar pela vida de seu filho, mas, em hipótese alguma, permitiria que ele fosse destruído. Havia outras questões mal resolvidas a serem tratadas com Kagura, no entanto, para isso precisava que Naraku fosse embora primeiro.
– Ótimo! Porém, só teremos acordo se você providenciar o pagamento imediatamente.
Aquilo jogava por terra todos os planos de esclarecer seu relacionamento com Kagura, mas Naraku não parecia aberto para negociações.
– Eu preciso falar com meu pai. Mas enquanto isso Kagura permanece no hospital, o médico disse que ela ainda não está bem para receber alta.
– Tudo bem. Eu te acompanho e no caminho nós combinamos os detalhes.
A contragosto, Sesshoumaru acompanhou Naraku, deixando Kagura para trás sem poder ao menos garantir a ela que tudo seria esclarecido e que eles, então, ficariam juntos. Além disso, eles nem mesmo puderam comemorar a descoberta de que o amor deles rendera um fruto.
Depois de sair do hospital, Naraku tirou da carteira o cartão que Kazumi lhe entregara. Havia mudado de ideia. Pelo visto aquele romancezinho precisava de mais um empurrão para acabar de vez.
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Sesshoumaru acabara de falar com o pai e conseguir a ajuda necessária. No entanto, devido à alta quantia, seria necessário comparecer com o pai até o banco para resolverem a transferência. Ligou para Naraku e este lhe deu um prazo de 24h para resolver tudo. Mesmo com o coração partido, percebeu que a única alternativa era partir sem, mais uma vez, esclarecer os mal-entendidos com Kagura.
Enquanto isso, Kazumi fazia o caminho inverso para se dirigir ao hospital com uma carta na manga.
No dia seguinte, a mãe de Sesshoumaru conseguiu chegar até o quarto de Kagura em companhia de uma bela e refinada moça.
Quando viu aquela cena, o peito de Kagura se apertou, pressentindo que algo de ruim estava para acontecer.
– Kagura, eu soube que você está grávida de meu filho.
Kagura não disse nada e a outra continuou.
– Estou aqui porque espero que você faça a coisa certa. Está é Sara, a noiva de meu filho. Como você pode ver, é uma moça elegante e de boa família. E apesar de tudo, está disposta a criar o seu filho.
A outra moça não disse nada. Apesar de bonita e rica era totalmente sem personalidade.
– Eu quero que se lembre de que se você insistir em ficar com o meu filho, ele perderá tudo e o filho de vocês será criado com dificuldade. Mas se você aceitar deixa-lo, seu filho terá uma boa vida. E eu ainda posso te dar algum dinheiro...
– Suma daqui! Não quero seu dinheiro! – Até então Kagura ouvia tudo calada, mas, a menção a dinheiro a enfurecera... e pensar que no início cogitou usar Sesshoumaru. Será que o que estava lhe acontecendo era um castigo por sua ganância inicial?
Ao ouvir os gritos de Kagura, uma enfermeira apareceu e fez com que as duas visitas indesejadas se retirassem. Mas a conversa ficou martelando na cabeça de Kagura que naquele momento se sentia fragilizada e desamparada.
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Foi após horas remoendo aquela conversa que Sesshoumaru apareceu e então o ânimo de Kagura era péssimo. Ela se sentia cansada e vazia. Depois de pensar muito, chegara à conclusão de que eram muitos fatores contra seu romance e via que deveria abrir mão de Sesshoumaru como uma forma de penitência pela maneira como a história deles iniciara.
Sesshoumaru entrou no quarto e eles se encararam. Tanto um quanto o outro pareciam incertos sobre o que dizer. Mas por fim, Kagura decidiu se pronunciar:
– Eu quero que você desapareça da minha vida.
– Kagura, não! – Exclamou Sesshoumaru. – Eu posso explicar tu...
– Não, Sesshoumaru... eu não preciso de explicação. Eu percebi que eu estava apenas te usando, mas agora eu não preciso de você... sua mãe me deu dinheiro. – O peito de Kagura se apertou com tamanha mentira.
Sesshoumaru a olhou chocado, mas em seguida sua expressão se tornou fria. Aquilo doeu em Kagura mais do que tudo. Ela havia desejado nunca mais ver aquele tipo de expressão no rosto dele e agora tudo parecia perdido.
– Eu não quero te ver novamente até que a criança tenha nascido. – Finalizou Kagura.
Sesshoumaru saiu sem tentar mais nenhum argumento. E Kagura desatou a chorar. Depois desse fatídico dia, a saúde dela se deteriorou tanto que foi preciso que ela permanecesse em repouso e fosse enviada para uma clínica.
Quando ela estava no sétimo mês de gestação, Sesshoumaru se casou com Sara e ela inadvertidamente leu a notícia no jornal, o que antecipou o parto da criança, que naquele momento ela já sabia tratar-se de uma menina.
Assim que Sesshoumaru ficou sabendo do acontecido, sua filha já havia chegado ao mundo, saudável apesar do começo adverso. E tão logo a menina, que recebeu o nome de Rin, ganhou alta, o reencontro de Kagura e Sesshoumaru aconteceu.
Sem saber como, Kagura foi capaz de reprimir as lágrimas. Não podia desabar ali, na frente de Sesshoumaru. Tinha que ser forte pelos dois, ou melhor, três.
Naquele momento a trouxinha rosa se movimentou, como que para lembrar Kagura de sua existência. Como seria sua filha? Com quem se pareceria? Não teve coragem de encará-la. Como poderia? Sabia que não conseguiria abrir mão dela se de outra forma procedesse.
Enfim, ele se aproximou. Fim da linha, tudo acabado.
Entregou-lhe a filha sem encará-lo. Não suportaria seu olhar de recriminação. Não trocaram palavras. O que poderia dizer?
Contar o quanto estava triste, como gostaria de ter tomado outra atitude e que tudo tivesse dado certo? Que não queria ter que abandoná-lo, que o que mais desejava era ser livre para ficar junto dele e da filha deles?
Nada poderia apaziguar a dor que estavam sentindo. Não havia como voltar atrás. Amava-o, mas seu coração estava aprisionado, não era seu para dá-lo a alguém. Este foi seu maior erro: acreditar que podia ser livre.
– Kagura... – Sesshoumaru sussurrou.
Ela não teve como não encará-lo. E o que viu deixou-a transtornada. Esperava ver raiva, ódio, mágoa ou quem sabe tristeza, mas não aquela expressão vazia.
Ele voltara a ser o mesmo Sesshormaru de quando se conheceram, frio e sem coração. Sentiu uma pontada no peito. Não era para ser assim.
Sem aviso, ele puxou-a para si ao mesmo tempo em que segurava o bebê e beijou-a. Mas não era um terno beijo de despedida. Fora agressivo e brutal para que a deixasse marcada.
Soltou-a dando as costas, mais a frente um carro com chofer o esperava, este segurou o bebê enquanto o pai da criança entrava no carro. Logo eles partiam.
Havia sido forte até aquele instante, mas não podia mais aguentar. As lágrimas caíram ali mesmo, com ela na calçada da rua em frente ao hospital.
Não queria chorar, mostrar debilidade por que logo Naraku viria buscá-la. Exigira privacidade para entregar sua filha ao pai. Foi concedido, mas não mais que isso.
Atormentada como estava, mal percebeu o encontrão de alguém que deixou cair um papel. Quando pegou para devolvê-lo percebeu seu nome escrito nele. Abrindo-o viu tratar-se de um bilhete.
"Kagura,
apenas posso imaginar sua dor de mãe. Sei que nem quis olhar para a criança. Mas posso apostar que se sentirá melhor se souber que a menina será bem cuidada. No momento certo você receberá notícias dela, se você estiver de acordo. Aguarde novo contato"
Não havia assinatura. Quando olhou para frente tentando encontrar quem poderia ter esbarrado nela apenas viu um vulto de cabelos prateados.
Sesshoumaru? Impossível! Ele acabara de sair dali num carro... quem seria aquela pessoa?
Mesmo assim, de por entre as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, Kagura encontrou certo consolo naquelas poucas palavras.
Sete anos depois...
Kagura acordou subitamente. Era madrugada e felizmente estava longe do alcance de Naraku já há uma semana. O que a acordara naquele momento eram os relâmpagos e uma forte ventania anunciando um temporal daqueles.
Uma melancolia atravessou seu peito. Momentos como aquele traziam lindas recordações, porém extremamente dolorosas, daquele a quem amou, mas perdeu. Sentimentos desencontrados, felicidade e tristeza... amor e dor... mas no fim, parece que a tempestade a acalmava fazendo sobressair os bons momentos.
A chuva começou a cair de forma intensa e Kagura decidiu voltar a dormir embalada por aquele doce som. Talvez sonhasse com as lembranças de dias melhores... ou quem sabe com um futuro promissor?
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Fiquei um bom tempo sem computador e por isso este capítulo demorou bastante. Espero que no próximo eu não tenha tantos contratempos. Este capítulo é acompanhado de uma música que eu não coloquei aqui devido as regras do site, mas vocês podem ver a versão "completa" no meu blog. A quem continua me acompanhando, o meu muito obrigada.
