N/A: Como prometido, estou de volta! Não era minha intenção reaparecer no último dia de fevereiro, mas estive muito ocupada, porém o importante é que aqui está minha nova fanfic de CDZ! Para aqueles que acompanharam 'Enquanto Lamentamos', que terminou em janeiro desse ano, no último capítulo eu avisei que a fanfic teria continuação, e aqui está ela. 'O Ciclo dos Deuses' é uma continuação direta, porém nos dias atuais (sem pandemia na história), num ambiente universitário, bem inspirado nos doramas coreanos. Também vou publicar no AO3, com o mesmo nome.

Abaixo, algumas informações:

1. Você precisa ter lido 'Enquanto Lamentamos' para acompanhar essa fanfic?

Não! Você pode ler essa fanfic de maneira independente, mas vou frisar aqui que a relação de alguns personagens se iniciaram na fanfic anterior.

2. Quem eram os personagens de 'Enquanto Lamentamos'?

A maioria dos Cavaleiros de Ouro de Lost Canvas, tendo como principais: Defteros, Aspros, Dégel, Asmita (mais pro final); assim como Dafne (uma personagem original minha, uma pítia de Apolo).

3. Qual era a relação dos personagens principais de 'Enquanto Lamentamos' e isso vai continuar nessa fanfic nova?

Defteros x Dafne - amigos de infância, casal (ou quase um casal, foi complicado)

Dégel x Dafne - casal (a partir da metade da fanfic)

Dafne x Asmita - aliados

Se eu falar muito, é meio que spoiler nessa fanfic, mas as relações continuam por causa de um pedido direto aos deuses que aconteceu na fanfic anterior, mas dá pra acompanhar de maneira independente sim, até porque os personagens estarão com outros nomes e vidas "normais" (desafio vocês a adivinharem quem é quem).

Enfim, é isso, aproveitem essa fanfic nova, dessa vez não terei um dia certo para atualizar porque a pandemia afetou meus planos de novo (FIQUEM EM CASA!) e preciso me reorganizar. Muito obrigada a todos!

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


1

A Garota Nova

Sibyl

Não foi uma boa ideia pegar um táxi.

Tinha vários aplicativos de transporte no celular, alguns mais seguros do que outros, mas definitivamente todos mais baratos do que táxi de aeroporto.

Mantinha minha atenção no mapa aberto no meu celular e na paisagem que agora se tornava familiar enquanto o motorista dirigia, pois tinha certeza de que já tínhamos passado pelo mesmo bairro três vezes, mas ssim que decorei a arquitetura das casas quadradas do bairro e as coloridas caixas de correio, o carro finalmente entrou em uma esquina e parou logo em frente ao que seria meu destino final.

Dei uma boa e exagerada quantia ao taxista apesar da demora e isso o fez descer do carro e me ajudar a pegar a mala. Agradeci a gentileza, pois ainda estava com o corpo dolorido de tanto dormir na poltrona do avião e tive que me manter alerta enquanto estava no banco de trás de um estranho.

- República Olimpo – li a pequena placa ao lado da caixa de correios na frente da casa para ter certeza de que estava no lugar certo.

"Que nome presunçoso", pensei. Não era muito fã de mitologia grega, mas sabia que o Olimpo era o lugar em que os deuses viviam e aquilo me parecia muito competitivo e solitário. Um local bem parecido com a faculdade.

Chequei novamente no celular a foto da fachada da casa para conferir se era mesmo a certa ou se havia dado voltas em vão pela cidade. Dois andares, fachada retangular de tijolos marrons, jarros de plantas e flores coloridas no jardim. O local era idêntico ao da foto que a proprietária me enviou quando começamos a conversar para que eu tivesse a certeza de que não estaria me mudando para a casa de uma psicopata.

- Então é isso – respirei fundo e coloquei o celular no bolso antes de abrir o pequeno portão que levava ao jardim.

Senti um pouco de frio na espinha, pois não estava nos meus planos chegar sozinha, mas o voo de meu irmão atrasou mais do que o esperado. Desde que havia completado a maioridade Sāmya fazia o que queria e quando queria, deixando todas as responsabilidades nas minhas costas, por isso fiquei surpresa quando ele disse que entraria na faculdade já que não gostava de ficar preso no mesmo lugar por muito tempo.

Fiquei muito feliz por ele fazer isso, pois significava que não ficaria sozinha. Ele cumpriu sua promessa, pelo menos até nosso pai mudar de planos e nos mandar para cá, ainda mais distante dele.

Subi os degraus que levavam ao portão principal enquanto arrastava minha bolsa, as etiquetas do aeroporto se destacavam em meio à tonalidade preta do tecido da mala e das minhas roupas, mas consegui entrar sem problemas. A casa parecia ter sido dividida após a construção. Havia uma porta a esquerda, de madeira branca, e mais degraus que levavam ao segundo andar. Qual seria o caminho correto?

- Olá – ouvi uma voz feminina atrás de mim.

Me virei e me deparei com uma senhora de aparência elegante e sorriso simpático usando um sobretudo verde. Por um momento me perguntei se deveria mesmo chamá-la de senhora, já que seu rosto parecia ter sido esculpido em porcelana, mas havia algo de familiar nas tranças grisalhas de seu cabelo.

- Como posso ajudá-la? – ela perguntou de maneira melodiosa, quase como se estivesse assobiando.

- Ah, desculpe-me, sou Sibyl Doron, a senhora deve ser Talia, a proprietária?

- Ah, Sibyl! – ela sorriu como se finalmente me reconhecesse por trás da aparência cansada – A república fica no andar de cima, deixe-me ajudá-la.

- O que? – eu disse quando ela segurou minha mala sem muito esforço – Não precisa! Posso levar sozinha!

Minha insistência pareceu convencê-la. A senhora Talia me deixou ir na frente, assistindo de perto minha dificuldade com os degraus. Além daquela mala havia uma mochila em minhas costas, mas grande parte dos meus pertences tinha chegado antes, ao menos era o que eu esperava.

- Não se preocupe suas coisas chegaram ontem – ela disse, como se adivinhasse meus pensamentos – os meninos levaram para o quarto.

- Meninos? – fiquei surpresa por um segundo até lembrar que esta era uma república mista – Quantos são?

- Três – disse Talia – quatro com seu irmão, é claro.

- Certo – respirei fundo, estava suando por causa do casaco que usava, aqui não era tão frio como no aeroporto – e quantas meninas?

- Apenas você, querida.

Paramos, mas não pelo meu desconforto por ser a única mulher na casa e sim porque havíamos finalmente avistado a porta da república, também de madeira branca. A fechadura era eletrônica e imaginei que a senhora Talia devia ter a senha, mas ela foi educada em tocar a campainha.

Aproveitei o momento para descansar os dedos que haviam ficado vermelhos de tanto carregar peso. Ainda não acreditava que seria a única garota aqui, tinha certeza de que havia outras duas da última vez que falei com a proprietária.

- Os meninos são amigáveis – ela tocou o meu ombro, provavelmente sentindo minha tensão – não se preocupe, as meninas saíram semanas antes de você chegar, uma pena, mas foi necessário, então ficará sozinha no quarto.

- Necessário? – imaginei o que tinha acontecido, pelo jeito que ela falou as meninas deviam ter sido expulsas.

- Isso já é passado – ela sorriu, mas seus olhos negros estavam atentos aos meus gestos – e de qualquer forma seu pai ficou feliz em saber que ficaria em um quarto privativo, fiz as modificações que ele pediu.

Assenti em silêncio, será que meu pai tinha algo haver com tudo aquilo? Ele nem apareceu para se despedir de mim quando fui para o aeroporto, mas ao mesmo tempo falou pessoalmente com a dona da república para que eu ficasse confortável no único lugar disponível na cidade?

- Por que não estão atendendo? – a senhora Talia pareceu preocupada com a demora – Hoje é sábado, quase todos estão em casa.

Ela tocou a campainha de novo, mas estava prestes a digitar a senha na fechadura quando ouvimos passos e gritos apressados do outro lado da porta.

- Estou indo!

A voz era masculina, e logo seu dono se revelou ao abrir a porta.

Seu cabelo azulado estava molhado e grudado no rosto e nos ombros, e ele sorria, mas não foi isso o que me chamou a atenção. A parte inferior de seu corpo estava coberta apenas por uma toalha branca.

- A garota nova? – ele pareceu surpreso ao olhar para mim, mas continuou sorrindo enquanto apoiava as mãos nos quadris.

- Sim – a senhora Talia respondeu – não poderia ter se vestido primeiro?

- Sinto muito – ele coçou a parte de trás da cabeça – não vai acontecer de novo.

- Cuide dela – ela apontou para o garoto – estou falando sério.

- Sim senhora! – ele fez uma continência, espalhando água pelo chão.

A senhora Talia balançou a cabeça em desaprovação, mas lançou um olhar reconfortante para mim antes de descer as escadas.

- Pode entrar – ele abriu a porta por completo para me dar espaço.

- Obrigada – eu disse, tentando evitar contato visual.

Depois de horas no avião e no táxi tudo o que eu menos queria agora era dar de cara com meu novo colega de casa completamente sem roupa.

- Pode deixar os sapatos aí mesmo e guardá-los depois, seu quarto fica... – ele olhou para mim, se dando conta de que eu ainda estava tentando evitá-lo – Espere, vou vestir alguma coisa.

O garoto saiu correndo, deixando um rastro de pegadas molhadas pelo chão de madeira. Aproveitei o momento a sós para respirar fundo novamente. Senti alívio ao tirar os sapatos e subi o degrau para poder entrar com a mala.

A república era charmosa e bem conservada, mais bonita do que qualquer outra nos anúncios, provavelmente porque fora decorada pela senhora Talia. Nem parecia que três universitários estavam dividindo aquele espaço, ela devia mesmo prezar pela limpeza.

A sala era ao lado da cozinha, sem paredes separando os ambientes. Havia um sofá de três lugares e uma poltrona com almofadas que pareciam bem confortáveis no canto. A televisão ficava em uma estante de madeira, de costas para a entrada, perto de uma mesa de centro cheia de controles e revistas.

- Essa é a sala – disse o garoto da toalha, ele havia colocado uma calça de moletom, apenas isso, deixando seu abdômen à mostra. O cabelo longo ainda estava grudado em suas costas.

Ele havia saído da primeira porta na ala esquerda da casa, então deduzi que ali devia ser seu quarto.

- É muito bonita.

- A senhora Talia adora decorar o Tártaro.

- O que?

- O Tártaro – ele sorriu como se eu fosse uma boba por não entender – essa é a república Olimpo, não viu a placa?

- É claro que vi... – eu disse, porém baixo demais.

- Seu quarto fica depois do corredor – ele apontou para a ala direita, perto da cozinha – não sabíamos o que fazer com as caixas, então deixamos tudo lá.

- Obrigada – eu disse, mesmo que agora ele estivesse vestido ainda não conseguia sustentar seu olhar – posso encontrar o caminho sozinha.

- Já que estou aqui... – ignorando minhas últimas palavras ele tirou a mala da minha mão e a mochila das minhas costas. Por algum motivo senti calafrios quando ele se aproximou de mim e senti seu hálito fresco – Vou te escoltar até o quarto.

O garoto foi na frente, mas fiquei em dúvida se devia chamá-lo de garoto, pois ele aparentava ser mais velho do que eu. Não suportei mais o calor e tirei o casaco pesado que estava usando.

- Quando o seu irmão chega? – ele perguntou.

- Sāmya deve aparecer em alguns dias.

- Ele vai dividir um quarto, mas você tem sorte de ficar sozinha – ele se virou e sorriu – também prefiro ter essa liberdade.

Não sabia o que ele esperava que eu fizesse, mas resisti à vontade de sair correndo.

- Esse é o seu quarto – ele abriu a porta atrás dele, revelando um quarto com janelas grandes e bem iluminado – com banheiro próprio, que sortuda.

Esperei que ele colocasse minhas coisas no chão, ao lado das outras caixas que escondiam à cômoda e a escrivaninha de madeira branca. Ver o nome de Sāmya escrito em algumas das caixas me deixou com o coração apertado.

- Me chamo Sibyl – me dei conta de que ainda não tinha me apresentando – qual o seu nome?

- Kyrios – disse o garoto, não tinha percebido como sua voz era rouca – Kyrios Amyntas.

- Obrigada por me ajudar, Kyrios.

- Não há de quê – ele sorriu de novo ao me encarar – acho que devo te deixar sozinha agora.

Dei um passo para trás quando ele se moveu para frente. Kyrios andou devagar de propósito e pareceu sorrir quando fechei a porta depressa.

Estava com uma sensação estranha em minha garganta quando fiquei sozinha, quase de desespero.

XXX

Acabei cochilando no colchão de tão cansada que estava assim que deitei a cabeça, sem travesseiros ou cobertores. Quando abri os olhos percebi que a luz que vinha da janela estava mais fraca, devo ter dormido demais, mas pelo menos meu corpo doía menos agora.

Procurei pelo celular até me dar conta de que ele ainda estava em meu bolso e chequei as mensagens. Avisei a meu pai que havia chegado mesmo que aparentemente ele não se importasse, depois pedi que Sāmya me desse notícias, mas ele raramente visualizava as mensagens que recebia.

Meu irmão era muito inteligente, mas tecnologia não era o seu forte.

Esfreguei os olhos e dei uma boa olhada no quarto, havia uma porta do lado direito que devia levar ao banheiro, minhas coisas estavam misturadas com as de Sāmya e eu precisava tirar metade daquelas caixas para poder deixar tudo como eu queria e começar a me sentir em casa.

Tirei a carteira da mochila e uma bolsa menor, vi um supermercado perto daqui enquanto o taxista dava voltas pelo bairro e decidi fazer as compras que precisava antes de perder o ânimo, lidaria com o problema das caixas depois, mas talvez tivesse que pedir ajuda... Estremeci ao pensar que poderia ter que pedir que Kyrios entrasse no quarto.

Joguei água no rosto para acordar e tirar esses pensamentos estranhos da cabeça. Coloquei o celular para carregar antes de sair. Se moraria aqui pelos próximos anos precisava enfrentar o que estivesse do lado de fora.

Senti um cheiro bom vindo da cozinha e tentei controlar os roncos da minha barriga, fazia horas que não comia nada. Quando cheguei no outro cômodo, Kyrios estava cozinhando, mas ele não estava sozinho.

Havia outro garoto com ele, com o mesmo cabelo azulado e os traços fortes, mais do que isso, seus rostos eram idênticos.

- Você acordou! – acho que foi Kyrios quem falou primeiro, ele havia vestido a outra parte do moletom.

O garoto ao lado dele olhava para mim, mas ficou completamente parado, como uma estátua. Nem consegui dizer que havia manchas coloridas em seu rosto, como se ele tivesse adormecido sobre uma lata de tinta aberta.

- Ah esse é o meu irmão, Télos – Kyrios se aproximou do outro e lhe deu uma chave de braço – somos parecidos, não somos?

Kyrios sorria normalmente enquanto o irmão tentava se desvencilhar do aperto em seu pescoço. Acabei dormindo demais e por isso estava com uma marca no rosto. será que era por isso que ele estava me encarando tanto?

- Vocês são gêmeos – eu disse, apesar de parecer idiota. Era óbvio que os dois eram gêmeos, tinham o mesmo nariz arrogante, se bem que em Kyrios isso era mais proeminente, assim como a cor azulada presente no cabelo e nos olhos.

- Sim, mas é claro que eu sou o mais bonito e popular – Kyrios abriu um largo sorriso ao soltar o irmão.

- Não vejo diferença – sussurrei, desviando o olhar.

- Aonde vai? – Kyrios perguntou.

- Preciso fazer compras – abri a geladeira para olhar para outra coisa. Tudo estava organizado do jeito que imaginei, cada etiqueta indicava o dono da comida e havia um espaço vazio provavelmente destinado a Sāmya e a mim. Além de Kyrios e Télos também havia etiquetas com o nome daquele que devia ser o outro morador da república, Denis.

- Tudo bem – Kyrios assentiu – acho que meu irmão pode...

Ele olhou para trás assim que eu fechei a porta da geladeira. O outro garoto, Télos, não estava mais lá, mas vi quando ele bateu a porta que ficava depois da cozinha, em um canto perto da outra janela.

- O que deu nele? – perguntei.

Kyrios olhou para mim, depois para a porta.

- Ali fica o nosso banheiro - ele sorriu, um pouco envergonhado, e voltou a prestar atenção no conteúdo da panela - seu primeiro jantar na casa será por minha conta, não se preocupe.

Agradeci, mas ainda um pouco confusa pelo que tinha acontecido. O outro garoto, Télos, havia me achado tão repugnante ou desinteressante assim para sair correndo? Ou será que era um pervertido, pois pareceu tão impressionado... Mas impressionado com o que? Será que ele nunca viu uma garota de verdade antes?

Assim que saí da república me dei conta de que ainda não havia pedido a senha da fechadura eletrônica, mas fiquei envergonhada demais para voltar, além do mais não queria ficar sozinha com aqueles gêmeos a tarde toda.

Suspirei alto, me sentindo presa mesmo do lado de fora, desejando que Sāmya viesse depressa.

Continua...