[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]
2
O Segundo
Télos
- NÃO!
Acordei gritando mais uma vez e só me dei conta de que não estava na cama quando a cadeira pendeu para trás por causa do impulso. Acabei no chão, com as costas doendo e um cérebro confuso que tentava separar o mundo dos sonhos da realidade.
- O que aconteceu?! – Kyrios entrou correndo no quarto, me encontrando com as pernas para cima.
Seu olhar passou de preocupado para aliviado, então foi direto para "hora de caçoar do irmão mais novo", sua favorita.
- Pelo amor de Deus, Télos – Kyrios cruzou os braços, ele devia ter passado a tarde malhando porque estava suado e havia uma toalha seca em seus ombros. – será que terei que colocar grades na sua cama?
- Eu não caí da cama – respondi, dispensando sua ajuda para levantar – só tive outro pesadelo.
- Ninguém liga – Kyrios suspirou. Ele ligou para isso um dia, há muito tempo, mas como nada tinha mudado ele agora tinha outras coisas para se preocupar, como sua carreira – espero que seu novo colega de quarto goste de alguém que acorde berrando todas as noites, sabe que ele já está chegando não é?
Confesso que assenti sem entender do que ele estava falando, estava mais preocupado em tentar fazer com que minha cabeça parasse de girar, pois o que eu menos precisava agora era uma concussão.
- Vou tomar banho!
Kyrios não perguntou se eu estava bem, apenas bateu a porta ao sair, derrubando algumas telas que eu apoiava nas paredes já que não tinha permissão para pregá-las.
- Idiota – eu disse, colocando a cadeira no lugar.
Sentei na cama de baixo do beliche e esfreguei a parte de trás da nuca que ainda estava dolorida por causa do impacto da queda. Costumava ter pesadelos muito realistas quando criança, mas sua frequencia foi aumentando à medida que eu crescia. Agora sonhava quase todos os dias, sempre a mesma coisa, a mesma imagem que eu tentava recriar sem sucesso em uma tela vazia.
As coisas não podiam continuar desse jeito, especialmente agora que eu teria que dividir o quarto com alguém que não fosse o meu irmão. Não queria que ninguém levasse reclamações a senhora Talia, a proprietária da república. Se eu fosse expulso meus pais acabariam me arrastando de volta para casa, pois uma das condições em fazer faculdade tão longe foi de nunca me separar de Kyrios, mesmo que ele sempre estivesse se afastando de toda a família com suas manias de grandeza.
- Talvez seja uma coisa boa estar sonhando tanto – tentei pensar no lado bom de tudo isso – posso finalmente ter novas ideias para pintar...
Ideias novas seriam de grande ajuda, especialmente depois de passar semanas com um bloqueio criativo que me impediu de fazer qualquer coisa nas férias. Tentei esfregar o rosto para acordar, mas percebi que havia algo grudado em minha pele...
- Não! – saltei de volta para a escrivaninha que ocupava de maneira tão descuidada durante minha estadia solo no quarto e encarei a pintura que levei horas para completar.
O desenho estava parcialmente destruído, eu devia ter adormecido por cima dele enquanto a tinta ainda estava fresca e agora parte das formas haviam se prendido ao lado direito do meu rosto.
Queria ter gritado vários palavrões, mas isso não mudaria o fato de eu ser o único responsável por estragar meu trabalho. E eu pensando que seria esperto da minha parte pintar alguma coisa antes do início das aulas para me adiantar um pouco...
Por que as coisas não poderiam ser um pouco mais fáceis?
- Deve ser brincadeira – suspirei, olhando para a bagunça que meu quarto havia se transformado nas férias.
O beliche era grande e os colchões confortáveis, a cama de cima ficava na lateral direita da parede enquanto a minha encostada junto à janela, intercaladas como o gráfico de uma função matemática. Atrás da cama ficava uma estante, onde eu guardava todo o material de pintura e desenho, outra mesa empilhada de telas em branco e cadernos que eu havia estocado no semestre anterior pensando que teria férias produtivas, além de módulos na parede com livros.
Havia outra escrivaninha para o novo morador que eu também havia ocupado com rascunhos e roupa suja. Precisava tirar tudo dali o mais depressa possível.
Sair de perto de Kyrios foi um alívio, mas ao contrário dele eu não tinha dinheiro suficiente para ficar sozinho em um quarto, então quando suas duas namoradas foram expulsas da república e a senhora Talia resolveu reformar o único espaço que ainda ficava trancado na casa me mudei sem pensar duas vezes, mas também tive a sorte do novo morador não ligar em dividir o espaço.
A senhora Talia não havia dado os detalhes a Kyrios ou a mim, apenas a Denis, que também era o administrador do grupo de mensagens da república. Não sei como, mas Kyrios descobriu que dois irmãos viriam morar conosco, pois todos os apartamentos da cidade misteriosamente haviam sido alugados.
Meu salvador poderia chegar a qualquer momento e eu ainda não tinha tido tempo para arrumar nada por causa dos turnos extras que peguei no trabalho durante as férias, sem falar nos pesadelos malucos que tinha assim que fechava os olhos.
Chutei o pé do beliche apenas para extravasar um pouco da raiva e da decepção. Acho que ouvi a campainha tocar, mas decidi que Kyrios seria o responsável por atender a porta.
Coloquei fones de ouvido e pus uma das minhas playlists para tocar enquanto fazia a única coisa que me acalmava quando acordava nervoso desse jeito: rabiscar tudo o que tinha visto em meus sonhos.
Ultimamente estava testando técnicas de desenho em carvão e decidi usá-lo para desenhar. Peguei uma folha de papel limpa e tentei me lembrar do que tinha visto. Colunas brancas no meio de uma montanha, o pôr do sol, uma garota de vestido branco.
Aquela garota... Ela me intrigava porque sempre estava presente nos meus sonhos. Às vezes o cenário mudava, apareciam árvores densas ao invés de colunas brancas, uma noite tão escura como o pedaço de carvão que utilizava para desenhar, ou até mesmo via planetas que pareciam ter surgido de repente em um espaço vazio a minha frente, mas a garota continuava lá como uma constante.
Eu nunca via o rosto dela, não diretamente, mas sabia que seu vestido estava sujo de sangue e seu braço... Havia um símbolo em seu braço direito.
Terminei um esboço bagunçado do que poderia ser o rosto da garota misteriosa, mas estava errado, por algum motivo, mesmo sem ter visto o rosto dela eu sabia que estava errado, então amassei a folha de papel e a joguei no lixo, junto com as outras tentativas falhas.
Suspirei de novo, mas apenas porque esses sonhos possuíam um estranho efeito sobre mim, como se algo estivesse faltando em minha vida, algo que eu precisava desesperadamente.
Só não sabia o que.
Passei mais duas horas consertando a pintura que eu esperava entregar em uma das aulas da faculdade, o novo semestre teria início essa semana e eu já estava uma bagunça por causa dos atrasos que cometi no anterior. Só tirei os fones de ouvido quando a playlist chegou ao fim, me dando conta de que tudo estava quieto demais do outro lado da porta.
Quando Kyrios ficava sozinho em casa, e ele considerava estar sozinho mesmo comigo presente já que nunca levava em conta minhas reclamações, ele fazia questão de ser barulhento, especialmente quando Denis não estava. Ele aproveitava todo o tempo para fazer exercícios vocais irritantes e gravar covers de músicas famosas.
- Está cozinhando? – perguntei ao abrir a porta, encontrando Kyrios na cozinha, usando um moletom cinza.
- Tem tinta no seu rosto – ele apontou o garfo para mim.
- Eu sei – respondi, me dando conta de que estava com fome – o que está fazendo?
- Minha especialidade – ele disse – macarrão instantâneo.
- Acho que prefiro comer qualquer coisa na loja da esquina – retruquei, provocando-o.
- Ah, preciso te avisar que... – ele começou a falar assim que ouvi um barulho vindo do corredor onde ficava o quarto que antes pertencia as duas garotas que Kyrios namorou. Não sei como, mas ele conseguiu esconder ambos os relacionamentos por quase um ano até que as coisas saíram do controle.
– Você acordou! - ele disse olhando para a pessoa que não estava aqui até aquela manhã.
Não consegui dizer nada ao olhar para a garota, nem mesmo respirar. Ela usava roupas pretas, daquelas confortáveis a ponto de servir para qualquer situação. Seu cabelo era castanho e caía em ondas até a parte superior do antebraço que estava coberto pelas mangas da blusa.
A garota disse alguma coisa que eu não consegui entender. Tinha certeza de que falávamos o mesmo idioma já que Kyrios parecia responder sem problemas, deve ter sido o choque de ter visto o seu rosto, mesmo marcado, indicando que ela devia ter dormido por longas horas. Ela era... Afinal, quem ela era?
- Ah esse é o meu irmão, Télos – consegui ouvir a voz de Kyrios– somos parecidos, não somos?
Chegou um momento em que senti que estava ficando vermelho de tanto prender a respiração, mas então senti o braço de Kyrios em meu pescoço, me colocando para baixo como se eu fosse um brinquedo.
A garota disse outra coisa, mas só consegui vê-la de novo quando consegui me livrar do aperto de Kyrios. Ela olhava a geladeira... Mas é claro! Ela devia ser a moradora nova, a que ficaria sozinha no outro quarto, e devia estar com fome, isso quer dizer que teria de fazer compras nesse bairro novo e estranho...
Será que ela aceitaria minha companhia? Será que eu conseguiria dizer algo?
Lembrei que não poderia fazer nada antes de lavar o rosto e tirar a tinta seca que ainda cobria minha cara. Mas que vergonha!
Corri para o banheiro antes que a garota se virasse para me encarar de novo. Respirando fundo aquele cheiro de produtos exageradamente artificiais quando tranquei a porta. Eu devia tê-la deixado desconfortável.
Tirar a tinta do rosto não foi um problema, mas acabei demorando muito e molhando parte do meu cabelo que por acaso não penteava há semanas. Quando voltei à cozinha vi que Kyrios estava sozinho, revirando a geladeira.
- Onde ela está? – perguntei. Percebi que ele estava mexendo na comida de Denis, mas estava apressado demais para dizer algo agora.
- Foi fazer compras – disse Kyrios – por que saiu correndo? Está com dor de barriga ou...
- Vejo você depois!
Bati a porta sem querer ao sair e calcei os sapatos enquanto descia a escada. Só havia um supermercado por perto então deduzi que esse seria o que a garota escolheria para fazer compras rápidas. Já tinha traçado uma rota perfeita na minha cabeça, mas não precisei dela, pois quando pulei o portão do jardim a vi andando mais a frente.
- Espere! – gritei enquanto corria para alcançá-la, o que não foi uma boa ideia.
A garota se assustou, é claro, como não se assustaria? Mas sua expressão ficou um pouco mais calma quando me aproximei.
- Você fica melhor sem a tinta no rosto – ela disse.
- Obrigada – eu disse, ofegante, não pretendia fazer exercícios aquele dia – Sinto muito se te assustei, eu só... Espera, você sabe que eu sou o Télos, não é?
- Claro que sei – ela disse sem hesitar.
Fiquei um pouco surpreso com sua segurança, pois até mesmo meus amigos mais antigos tinham dificuldade em identificar Kyrios e a mim.
- Quer me acompanhar, é isso? – ela perguntou, então olhou por trás do meu braço – E o seu irmão?
- Meu irmão? – não consegui esconder a tristeza quando ela perguntou por ele. Quanto tempo Kyrios ficou sozinho com ela? Foi o suficiente para encantá-la por completo? – Ele ficou na república.
Ela teve uma reação diferente de qualquer outra garota quando eu dizia que meu irmão não se juntaria a nós.
- Que alívio – a garota sorriu, mas então o cobriu com uma das mãos quando se deu conta do que tinha dito em voz alta.
Seria essa uma mania recorrente? Por que eu tinha achado aquele gesto tão atraente?
- Você devia estar com pressa – ela apontou para os meus sapatos.
- Ah – quando fitei meus pés, percebi que havia calçado tênis de cores diferentes – só não queria te perder de vista.
Agora que estava mais perto dela, ficava evidente que suas roupas eram de boa qualidade, bem diferente do jeans surrado que eu estava vestindo e do casaco azul que eu dividia com Kyrios.
- Tudo bem – disse a garota, sorrindo de leve. Seus olhos eram castanhos, mais escuros que seu cabelo – já podemos ir?
XXX
Sibyl, esse era o nome dela, de origem grega como o de Kyrios e o meu, mas resolvi omitir por ora a origem de minha família, que tinha muita ligação com meu interesse pela história e mitologia. Eu só estava ajudando-a a conhecer o bairro, não queria assustá-la em dizer que seu nome significava profetisa ou oráculo, além do mais, pelo pouco que ela me contou, sua família parecia vir de um lugar mais distante.
- Há quanto tempo vocês moram na república? – Sibyl perguntou.
Ela escolhia tudo em dobro, comida em sua maioria, mas também toalhas e roupas de cama novas, mesmo quando eu disse a ela que havia algumas nos armários da república.
- Dois anos, vivíamos em outro apartamento mais distante antes de encontrarmos o lugar. Kyrios está no último ano, mas eu ainda tenho outro pela frente.
Omiti que havia reprovado um semestre e que agora precisava trabalhar o dobro na faculdade para me formar a tempo. Era cedo demais para ela conhecer a bagunça que era a minha vida.
- Vocês estudam a mesma coisa?
- Não – balancei a cabeça veementemente – já era demais dividir a casa, o quarto e a faculdade, ao menos precisávamos de carreiras diferentes.
Sibyl sorriu. Ela era simpática, mas tímida, talvez por isso teve dificuldades quando conheceu meu irmão, ele era incisivo demais ao falar com as pessoas.
- Irmãos tendem a ser diferentes.
Estávamos na seção dos congelados, Sibyl olhava tudo com atenção.
- O seu irmão também faz direito? – perguntei quando escolheu um prato de carne que estava em promoção.
- Filosofia – Sibyl colocou a comida no carrinho, então olhou para mim – não vai fazer nenhum comentário?
Ela fez aquela pergunta como se já tivesse ouvido várias semelhantes.
- Bom, vai levar apenas uma carne? – eu disse.
- Ah – ela parou ao perceber que eu tinha notado o padrão de suas compras – Sāmya não come carne.
- Peço desculpas então.
Sibyl sorriu. Será que eu tinha dito alguma besteira? Sentia que não estava me comportando do mesmo jeito que me comportaria com qualquer outra pessoa, estava agindo estranho demais, interessado demais no que ela fazia ou dizia...
- O que foi? – perguntei.
- Meu irmão não chegou, ainda não conheço o tal de Denis, acho que você é tudo o que me resta na república... Quer dizer, seu irmão também parece legal, só que...
Ela não terminou a frase, mas mesmo assim me senti mais confiante. Ele ainda não a tinha conquistado e isso deve ter tido algum tipo de efeito sobre mim porque senti meu rosto queimar no meio da seção dos congelados.
- Vo... Você se acostumará com todos logo – tentei encorajá-la sem gaguejar, pois sabia como era difícil não se ajustar.
- Por enquanto só quero que meu irmão chegue logo – Sibyl suspirou, já estávamos perto dos caixas – mas estou aliviada por ter encontrado alguém com quem conversar, você tem uma voz doce, sabia?
Ela colocou alguns pacotes de salgadinhos no carrinho como se não tivesse percebido o que tinha acabado de dizer. Ninguém tinha elogiado minha voz antes, não antes de perceber que eu não era Kyrios.
- Vamos? – Sibyl perguntou.
Eu tinha feito de novo, tinha olhado para ela por tempo demais.
Meu rosto ainda queimava.
XXX
- Aqui está – disse Kyrios – tudo o que eu posso pagar.
Ele serviu um pouco do macarrão para Sibyl, que por mais que ele se inclinasse para frente, evitava olhar para seu rosto. Depois jogou um pouco no meu prato.
Ajudei Sibyl a carregar as compras até aqui, mas ela fez questão de marcar cada alimento sozinha e arrumar seu lado na geladeira.
- Tem carne aqui – eu disse.
- Peguei um pouco na geladeira – ele pegou um pedaço grande de carne e o mastigou depressa.
- Era de Denis, não era?
- Não podia deixar a moradora nova se alimentar apenas de macarrão instantâneo no primeiro dia!
Sibyl bateu com a palma da mão na mesa. Enquanto discutíamos ela já havia devorado metade do prato.
- Está uma delícia – ela disse depois de beber um pouco de água – não comia nada desde o aeroporto.
Kyrios olhou para mim e arqueou a sobrancelha esquerda. Resisti à tentação de dizer a ele que seu joguinho de sedução não funcionaria com Sibyl, então comecei a comer.
- Então você faz direito – disse Kyrios.
Tivemos a mesma ideia, a de comer apenas um prato para que Sibyl recebesse mais comida e ela parecia agradecer.
- Sim, estou no terceiro ano, Télos disse que você é veterano.
- Ah, então falaram sobre mim – ele se inclinou para frente e apoiou o braço na cadeira que Sibyl ocupava.
Chutei seu joelho por baixo da mesa, Kyrios se afastou.
- Faço teatro musical – Kyrios disse sem ninguém ter perguntado – esse é o meu último semestre, mas tenho algumas propostas de trabalho para quando me formar, meu agente disse que serei muito famoso.
Ele tinha que falar no agente, é claro. Revirar os olhos não foi o suficiente para mim.
- E você, Télos? – a voz de Sibyl me fez voltar a presta atenção. Por um momento achei que ela faria outra pergunta, mas acabou desistindo.
- Eu? Está interessada no que eu faço?
Não sei por que soei tão surpreso. Kyrios me olhou como se eu fosse um completo estranho no ninho perto de sua aura confiante enquanto eu só conseguia focar em como as marcas no rosto de Sibyl haviam sumido. Mesmo cansada ela me parecia bonita, principalmente enquanto comia, pois pela primeira vez parecia um pouco mais a vontade.
- Faço artes visuais, estou me habilitando em pintura.
- Então você é um artista! – ela não disse aquelas palavras com pena, mas com admiração. Fiquei grato por não estar mais comendo porque não conseguia fechar minha boca.
- Eu pinto – respondi – e faço o que os professores mandam, só isso.
- Está sendo modesto – disse Kyrios. Se ele tinha se exibido então eu tinha que me exibir também – a senhora Talia tem uma galeria de arte e sempre expõe os quadros dele.
- Só para me ajudar a pagar as contas – retruquei – e também faz semanas que não pinto nada que preste...
- Télos não consegue pintar rostos – disse Kyrios. É claro que ele não me exibiria muito, apenas o suficiente para me deixar desinteressante depois – apenas corpos e paisagens, e nem são corpos nus interessantes.
- Cala a boca – eu disse, depois olhei para Sibyl, ela parecia interessada no que eu tinha a dizer – estou com um bloqueio, só isso...
- Talvez só precise de inspiração – disse ela.
Assenti, foi muito educado de sua parte dizer isso. Ao contrário de Kyrios, que gostava de me colocar para baixo quando tinha a chance, Sibyl me deu apoio apenas algumas horas depois de me conhecer.
- Seu quarto está cheio de caixas – resolvi mudar de assunto, odiava ser o centro de qualquer conversa – pode deixar que levarei as coisas do seu irmão amanhã.
Aquilo me forçaria a arrumar o quarto, o que não seria ruim, além de ficar mais tempo perto dela.
- Obrigada por me ajudar – disse Sibyl, depois olhou para Kyrios – e pela comida.
Ele abriu o sorriso que julgava ser sedutor de sempre, mas Sibyl desviou o olhar como se estivesse diante de um predador perigoso, pousando o olhar sobre mim por alguns segundos, o que me deixou em êxtase. Era a primeira vez que alguém parecia mais a vontade comigo do que com meu irmão, já que eu sempre fui o segundo para todo mundo.
Ao olhar novamente para Kyrios percebi que ele tinha parado de sorrir, mas continuava encarando Sibyl. Havia alguma coisa no olhar dele, mas não era interesse, ele parecia tão intrigado quanto eu, mas de um jeito completamente diferente.
Ouvimos a fechadura eletrônica apitar e logo não éramos mais os únicos na república. Denis havia acabado de voltar do jantar com o pai, ele deixou os sapatos na entrada e arrastou os pés pela sala. Pela expressão em seu rosto parecia que algo o incomodava profundamente.
Ele parou por um segundo quando avistou Sibyl, então entrou em seu quarto sem cumprimentar ninguém.
Continua...
N/A: Publiquei esses dois primeiros capítulos já para vocês terem uma ideia de como a fanfic fluirá, como já deu pra perceber, cada capítulo terá o POV de apenas um personagem, desse jeito vocês saberão sobre suas vidas e detalhes que só eles notam. Com esses dois primeiros capítulos eu acho que já tá muito fácil de saber quem é quem (hahaha). Como eu disse no capítulo anterior, não sei quando atualizarei a fanfic, mas ainda em março com certeza. Muito obrigada por lerem!
