N/A: Olá! Não estava nos planos publicar um novo capítulo hoje, mas as coisas estão difíceis, estava me sentindo meio pra baixo, então resolvi me animar enquanto revisava esse capítulo. O escrevi mês passado, quando ainda estava com um cronograma de tarefas... Vou escrever mais capítulos antes de voltar a publicar, eles já estão planejados, mas esse foi o último que escrevi, então, por favor, aguardem pacientemente em casa! Ah, nesse capítulo também tá muito fácil em descobrir quem era o Cavaleiro de Ouro na fanfic anterior... Foi muito divertido escrever essa perspectiva de um estudante youtuber, estou acompanhando vários ultimamente, fiz até 'comentários' dos vídeos fictícios, espero que tenha ficado claro e que ninguém se confunda (no meu word fiz até uma caixinha de comentários bonitinha, mas aqui não ficou no arquivo...). Até o próximo capítulo!
[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]
3
Degelo
Denis
- Acho que o conheço de algum lugar – ouvi a garota dizer antes de fechar a porta do quarto.
Aquela devia ser a garota nova.
- Ele está bem? – Kyrios perguntou, ignorante ao fato de que eu conseguia ouvir muito bem tudo o que se passava na cozinha mesmo com a porta fechada, por isso colocava fones que bloqueavam o barulho para estudar.
- Ele só deve estar cansado – respondeu Télos – por que não come mais um pouco?
Sorri com a tentativa dele de encobrir minha falta de educação. Eu devia ter me apresentado para a garota, mas não consegui fazer nada. Pelo menos nenhum deles pareceu perceber que meu rosto estava vermelho.
Aquela garota havia aparecido no pior dia, no pior momento, e é claro que já havia conhecido os gêmeos.
Meu celular começou a vibrar, mas ignorei as chamadas. Me arrastei até a cama, tirei os óculos e deitei com o rosto no travesseiro, ignorando a falta de ar e o calor por causa do casaco que estava usando. Eu costumava adorar reuniões familiares quando era criança, antes de crescer o suficiente para entender o que significava perder e sentir falta de alguém e o quanto isso alterava uma família.
- Prefiro me jogar da janela a ter que fazer isso de novo – eu disse quando a falta de ar se tornou insuportável e acabei fitando o teto. Mas é claro que isso não aconteceria, eu queria demais viver e para isso precisava suportar comportamentos desagradáveis daqueles ao meu redor.
Tirei o casaco enquanto lembrava do momento exato que tomei a decisão de cursar a faculdade tão perto de casa. Eu poderia ter ido para qualquer lugar do país, meu pai não se recusaria a pagar, seria outra tentativa fútil de se aproximar de seu único filho. Ainda não entendia o porquê de ter caído em sua conversa de que as coisas mudariam. No que eu estava pensando?
As coisas nunca voltariam a ser como antes e eu já tinha idade suficiente para entender esse fato.
Achar um lugar para morar se tornou minha prioridade já aos seis meses de faculdade, quando a convivência entre nós se tornou insuportável. Essa república mostrou-se perfeita quando cheguei, atendeu a todas as minhas exigências. A proprietária era educada, pude ficar em um quarto próprio e na época só precisava dividir o espaço comum com duas garotas, mas como os estudos me ocupavam durante todo o dia eu mal cheguei a ver o rosto delas.
A harmonia da casa mudou com a chegada dos gêmeos, eu não me importava em morar com Télos, pois ele tentava manter a paz, mas Kyrios só nos trouxe problemas... Será que teria de avisar a garota nova sobre que tipo de cara ele era?
"Não", pensei "o irmão dela também está vindo, ele que seja o responsável por ela".
Meu celular vibrou de novo e dessa vez resolvi checar. A tela estava coberta de notificações, a maioria eram mensagens de meu amigo, Nikos, perguntando como foi o jantar. Respondi que tudo correu péssimo como sempre e passei para as outras, todas de comentários sobre meu último vídeo.
annnnnx: Por favor, poste mais vlogs!
lightyear49: Adoro o seu canal, você é lindo!
xxxxm: Case comigo *.*
otoke1344: Ele é muito bonito, tem certeza de que não é um ator?
moonfighter: Qual a faculdade dele?
Estremeci com toda aquela atenção, foi um dos vídeos com mais visualizações do canal desde que o criei há dois anos, geralmente gravava enquanto estudava, mas foi a primeira vez que fiz um vlog com minha rotina nas férias. Não me senti muito confortável, especialmente porque acabei filmando o meu rosto sem querer e não cortei a cena enquanto editava por achar que ninguém se importaria, mas era só nisso que as pessoas falavam agora e não no meu esforço diário para ser o primeiro da turma.
Respondi um simples obrigado em alguns comentários e ativei o despertador para as sete horas. Devia sair do quarto, tomar banho e revisar todo o conteúdo que estudei durante a semana, mas não consegui levantar. Acabei adormecendo naquela posição desconfortável sem nem perceber.
XXX
Devia ter esfriado durante a madrugada porque acordei com um incômodo na garganta. Não era nada grave, um pouco de água me faria bem, além de precisar com urgência de uma xícara de café.
Tirei as roupas que usei para ir ao restaurante na noite anterior e estava prestes a sair do quarto quando lembrei que não podia mais fazer isso, afinal tínhamos novamente uma garota na república. Era cedo demais para estar de pé em um domingo e ela devia estar cansada da viagem, mas não quis arriscar, então vesti um pijama qualquer e resolvi tomar banho depois.
Este era o único ponto fraco da república Olimpo, não ter um banheiro em todos os quartos.
Assim que abri a porta do quarto, que ficava de frente para a cozinha, a garota estava lá, de pé, em frente à mesa. Parecia ter acabado de tomar café porque estava tirando os pratos e colocando na pia que surpreendentemente Kyrios devia ter limpado antes de dormir. Me perguntei por quanto tempo ele manteria aquele bom comportamento.
- Ah! – ela pareceu assustada ao me ver, como se visse um fantasma, mas logo se recompôs – Bom dia.
- Bom dia.
Minha voz pareceu deixá-la congelada, porque ela não se mexeu mais, apenas ficou me olhando enquanto eu perambulava ainda sonolento, tentando entender o que precisava fazer antes de começar a estudar.
- Eu sou Sibyl – disse a garota, mas sem meus óculos ficava difícil ver os traços de seu rosto – ainda tem um pouco de café, se quiser.
Assenti em silêncio enquanto colocava um pouco na minha xícara, sentia que meu corpo não funcionava direito antes da primeira refeição. Todos precisavam ter seus próprios objetos e utensílios pessoais então fiquei feliz por ela aparentemente já saber dessa regra.
- Não sabia que levantava tão cedo, senão te chamaria para tomar café comigo.
Olhei para a garota por um momento, pelo tom de sua voz ela não parecia estar flertando, apenas sendo gentil, então porque me senti tão incomodado por ter sua atenção?
- Sabe que temos que limpar a sujeira que fazemos, não é? – perguntei, me referindo à louça suja.
Mesmo sem meus óculos, percebi que Sibyl entortou levemente a boca, mas assentiu em silêncio, provavelmente me xingando em seus pensamentos.
Desviamos o olhar um do outro ao mesmo tempo e isso só me deixou ainda mais agitado. Eu não tratava as pessoas assim, Nikos dizia que eu era frio, mas nunca chegava a ser rude dessa maneira. Quando olhei para ela novamente Sibyl não me deu mais atenção e me senti envergonhado. Ela devia estar se preparando para alguma atividade porque usava um casaco e uma calça esportiva justa, além do cabelo preso.
Sibyl não falou mais comigo enquanto dividimos a cozinha naquele curto espaço de tempo. Ela lavou sua louça e correu para o quarto quando seu celular tocou.
"Será que ela tem alguém especial para ficar tão animada desse jeito por causa de uma ligação?", pensei.
Balancei a cabeça, devia estar com muita fome para me perguntar aquele tipo de coisa, mas minha disposição para a cozinha estava tão baixa que comi apenas duas barras de cereal.
A porta ao lado da minha abriu e logo Télos apareceu correndo na cozinha.
- Sibyl já levantou? – ele perguntou como se a casa estivesse em chamas.
- Sim – respondi.
- Droga! – Télos coçou a cabeça como sempre fazia quando estava nervoso, deixando seu cabelo ainda mais desarrumado. Pela minha visão embaçada era como se houvesse uma aranha gigante em sua cabeça cujas patas o envolvessem até abaixo dos ombros.
- Esse não é o seu dia de folga? Por que está acordado?
- Porque prometi ajudá-la na mudança! – Télos puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, me encarando – Eu disse que levaria as coisas do irmão dela para o meu quarto, mas tudo está uma bagunça e ela não pode ver aquilo!
Télos disse tudo de uma vez só, então parou para tomar fôlego.
- Será que poderia deixar algumas coisas no seu quarto só por alguns dias?
Ergui a sobrancelha direita, era óbvio que não deixaria. Meu quarto era a parte mais preciosa da casa.
- Por favor! – Télos suplicou.
Suspirei, Télos não era uma pessoa ruim, só não tinha muita sorte. A maior prova disso era seu irmão gêmeo.
- Tudo bem – eu disse.
- Ótimo! – ele sorriu e ficou olhando para o corredor de onde Sibyl poderia sair a qualquer minuto.
Télos sequer comeu ou bebeu alguma coisa, assim que deixei a xícara já limpa no escorredor ele pegou dois sacos de lixo e jogou tudo o que ocupava na parte destinada a seu colega de quarto.
- Você é tão cuidadoso com seus materiais – eu disse enquanto o via se movimentar como um louco para preencher os sacos – por que está tão nervoso?
- Sem perguntas – disse Télos - só esconda isso por uns dias.
Fiz o que ele pediu, coloquei tudo embaixo da escrivaninha, de modo que não atrapalharia quando fizesse meus vídeos de estudo.
- Você já está encantado pela garota nova.
Aquilo não foi uma pergunta e Télos percebeu.
- Não esperava isso de você, de Kyrios talvez, mas ele se encanta por qualquer garota que...
- Ela é diferente – disse Télos – e não disse que estou encantado, eu só...
Fiquei esperando por uma justificativa, mas Télos desistiu. Ele comeu um pão com manteiga e engoliu tudo junto com o que sobrou do café.
- Não comente isso com Kyrios, tá? – ele pediu depois de recuperar o fôlego.
- Está bem, mas você a conheceu ontem.
- Isso não interessa...
- É impossível já terem se conectado de alguma maneira.
- Talvez para você, que precisa fazer um questionário para cada pessoa que conhece antes de decidir se ela se encaixa na sua vida ou não.
- Nossa, me senti ofendido – respondi, mas Télos não pediu desculpas.
- Que bom que acordou! – ouvi Sibyl dizer quando viu Télos. Ela sorriu para ele, me ignorando completamente – Já tomou café? Pode me ajudar agora?
Télos assentiu na mesma hora, indo na direção do quarto da garota.
Ela o reconheceu, mesmo estando de costas? Ou deduziu que seria ele porque a porta do quarto de Kyrios ainda estava fechada?
Não demorou para que ele a ajudasse a carregar as primeiras caixas, mas mesmo assim era a primeira vez que via Télos tão animado em muito tempo.
Os finais de semana não eram muito especiais para mim porque sempre os passava estudando e revisando a matéria da faculdade já que não deixei de estudar mesmo nas férias, mas esse domingo foi ainda pior porque não tive tempo de estudar no dia anterior, então quando terminei já passava das oito da noite, mas Télos me trouxe comida no quarto em agradecimento por tê-lo ajudado mais cedo.
- Não acredito que passou seu último dia livre desse jeito – disse ele.
- Me deixe em paz, obrigada. – respondi. Nikos me dizia isso há dias, não precisava de outra pessoa me criticando, especialmente alguém que usou sua única folga na semana para ajudar a uma desconhecida.
Télos sorriu ao me deixar sozinho, mas antes de ele fechar a porta vi Sibyl por um momento, me fitando com seus olhos de águia, fingindo não se importar.
XXX
Abri os olhos ao primeiro toque do despertador no dia seguinte. Por ser o começo do semestre precisava me readaptar a minha rotina o mais depressa possível e isso incluía correr um pouco todas as manhãs, especialmente agora que iniciaria o treinamento médico na clínica da faculdade. Saí o mais depressa possível para dar algumas voltas no quarteirão, o bairro era tranquilo, principalmente pela manhã. A maioria das repúblicas da cidade ficava perto do centro, mas esta ficava numa área residencial, com exceção daqueles que precisavam trabalhar cedo não havia muita gente na rua àquela hora da manhã.
Me arrumei depressa e conferi pelo menos duas vezes meus materiais antes de sair de casa. Meu tablet era a coisa mais preciosa que possuía, graças a ele tinha abolido várias anotações em papel, mas ainda levava comigo cadernos de emergência, post-its e canetas, além da minha câmera, acho que acabaria filmando alguma coisa sobre a volta as aulas e ainda precisava comprar os materiais das rotações clínicas, seria um longo dia.
Resolvi comer em alguma padaria pelo caminho. Foi a primeira vez que fiz isso, correr de minha própria casa com medo de encarar meus colegas, minha colega. Ainda não estava pronto para encarar Sibyl naquela manhã, à hora perfeita para pedir desculpas já havia expirado e agora tudo seria estranho e desconfortável para ambos.
Pelo menos foi isso o que pensei para justificar novamente minha covardia em encarar uma simples garota.
Sempre pegava o ônibus para ir para a faculdade, o percurso não era longo e não estava tão cheio. Tínhamos sorte de o ponto de ônibus ser logo em frente ao portão principal e, no meu caso, tinha ainda mais sorte pelo prédio onde atendia a maioria das minhas aulas ser o primeiro a direita.
- Denis!
Encontrar Nikos perto do prédio de medicina foi um alívio, mesmo que já estivesse acostumado com isso. Ele sempre vinha me cumprimentar pelas manhãs, seu prédio ficava a esquerda do campus, mas o caminho até sua casa era próximo do meu portão e ele criou um hábito de me esperar desde que nos conhecemos.
- Nossa, senti sua falta! – ele me abraçou sem nenhuma cerimônia, dando tapinhas em minhas costas.
- Nos vimos semana passada – respondi.
- Eu sei – ele me deu um soco no ombro. Nikos usava uma calça escura e uma camisa vermelha, além de tênis Nike brancos,seus favoritos. Ao contrário dele eu sempre optava por tons sóbrios, meu cabelo esverdeado já era chamativo o suficiente – e depois disso você recusou todas as minhas tentativas de te tirar de casa.
- Não vou a encontros as cegas, você sabe disso.
"Além disso, se tivesse uma família como a sua faria questão de passar todos os dias ao lado dela", pensei. Nikos tinha dois irmãos mais novos e pais amorosos, acho que ele sentia que eu precisava de um pouco de sua energia positiva todos os dias.
Conversamos pela primeira vez durante a orientação do primeiro dia há três anos. Lembro que Nikos estava perdido e acabamos ficando amigos mesmo sendo de cursos diferentes. Ele estudava educação física e era ótimo em esportes, por isso Kyrios e Télos logo o recrutaram para qualquer competição esportiva que participassem.
- Tá bom, não vamos discutir no primeiro dia de aula – ele respirou fundo, soprando o cabelo escuro para longe do rosto.
Acho que o mandei cortar o cabelo há duas semanas, mas é claro que ele não me ouviu, ele sempre me rebatia dizendo que eu não poderia falar do cabelo de ninguém enquanto não cortasse o meu. Será que teria problemas na clínica por causa disso?
– Mas por que chegou tão cedo?
Olhei para o relógio digital na parede do prédio, estava mesmo cedo demais até para mim. Provavelmente precisaria tomar mais café para sobreviver às aulas da tarde.
- Não queria encontrar uma pessoa – respondi. Foi doloroso admitir aquilo em voz alta.
- Quem?! – Nikos era expressivo demais, então sua pergunta assustou algumas calouras que passavam ao nosso lado na hora.
Estava prestes a falar sobre Sibyl quando algo estranho aconteceu, acho que a vi por um momento, passando atrás de Nikos. Por um segundo achei que tinha sido apenas uma miragem, mas a garota inclinou um pouco o rosto para a direita e pude reconhecê-la. A dona da silhueta embaçada que vi na cozinha.
- Espera, aonde está indo?
Saí andando ao ver que ela entrou no prédio do hospital. Seria ela uma caloura de medicina ou, pior do que isso, estaríamos no mesmo ano?
- Quem é a garota? – Nikos perguntou, dessa vez em um tom mais baixo.
Estávamos do lado de fora do hospital, olhando para a recepção através da parede de vidro. Sibyl estava no balcão, falando com umas das recepcionistas, pelo vestido e jaqueta preta parecia que estava pronta para um funeral.
- Será que está doente? – perguntei baixinho, mais para mim mesmo do que para Nikos. Por algum motivo essa possibilidade fez meu estômago revirar, mas me convenci de que era o nervosismo pelas novas matérias.
Sibyl esperava uma resposta da recepcionista enquanto lia os folhetos do balcão, ela tocava em tudo como uma criança, então olhou para trás e seu olhar encontrou o meu.
Minha tentativa de sair correndo falhou porque Nikos estava ao meu lado direito, bloqueando minha passagem, então tudo o que consegui depois de contorná-lo foi andar rápido atrapalhadamente.
- Vejo você depois! – o ouvi gritar para mim.
Agradeci silenciosamente por ele não pedir explicações.
Nos encontraríamos no almoço, no mesmo lugar de sempre.
XXX
Já passava das sete horas quando voltei para a república, como havia tratado Nikos daquele jeito estúpido pela manhã resolvi compensá-lo e acabei aceitando comer em uma lanchonete nova que havia aberto perto da faculdade. A comida não era ruim, mas preferia ter ido ao café que Télos trabalhava por ser mais silencioso.
Parte de mim queria ter chegado em casa mais cedo, mas talvez tenha sido uma boa ideia dar a Nikos um último dia comigo já que agora estaria mais ocupado do que nunca. Ele ainda me acompanhou enquanto comprava os jalecos que usaria durante o semestre. Meu pai me mandou outros materiais como estetoscópio, uma lanterna pequena de metal e outros indispensáveis para a rotação clínica. Aquele foi seu último presente antes do nosso jantar.
Como a república estava vazia deduzi que Télos ainda não tinha voltado para casa por causa do trabalho, Kyrios devia estar comemorando alguma coisa ou ensaiando e Sibyl... Olhei de relance para o corredor do outro lado da cozinha. A porta de seu quarto estava fechada, mas podia ver a luz acesa...
O barulho da porta abrindo me fez correr em direção ao meu quarto e me trancar como um garoto assustado.
"Por que estou fazendo isso?", pensei.
Olhei para a cozinha pela fechadura, foi apenas um alarme falso. Respirei fundo, coloquei a mochila e as compras na cama e me apressei para o banheiro já com uma muda de roupa. Quando terminei de fazer tudo o que precisava voltei para o quarto e posicionei minha câmera depois de arrumar a luz e meus materiais na escrivaninha.
A matéria que adiantei nas férias não tinha sido o suficiente, precisava reforçar meus estudos, especialmente em sistema digestório. Escolhi alguns livros e sentei na cadeira, então iniciei a transmissão ao vivo.
Comecei criando uma nova tabela de estudos, separei cinquenta e oito tópicos essenciais e dividi os dias em que estudaria no mínimo quinze. Desse jeito ficava mais fácil de acompanhar meu progresso e criar soluções para possíveis problemas, sem falar que ficaria muito ocupado nos dias da rotação clínica, por isso fui o primeiro a pegar livros novos para identificar doenças e tratamento de pacientes. Também tinha recebido o crachá que usaria durante os atendimentos, foi uma sensação emocionante.
Só queria ter alguém para compartilhar tudo isso.
Não demorou muito até que o público viesse, lembro que no começo do canal Nikos mandava comentários do tipo "VAMOS SAIR", ou "VÁ DESCANSAR". Geralmente não estudava dessa maneira na primeira semana, sempre tinha um cronograma de vídeos, mas precisava tirar da cabeça o meu medo pela minha nova colega de república e o estresse do início do semestre.
Depois de duas horas de leitura e anotações, olhei para a quantidade de pessoas que estavam me assistindo. Vinte mil. Eu não podia ignorá-los para sempre, ainda mais porque era o maior público ao vivo que conquistava desde a criação do canal, então me forcei a parar por alguns minutos para responder os comentários.
Uma pessoa me pediu para acenar, então olhei rapidamente para a câmera e acenei timidamente. Espero que a pessoa do outro lado da tela tenha ficado feliz porque me senti desconfortável.
Aquilo me fez sorrir de leve, fazendo a onda de comentários triplicar, mas um em especial me chamou a atenção:
sibylyn: Sabia que te conhecia de algum lugar...
Não consegui esconder minha surpresa ao ler o comentário, então rapidamente me afastei da câmera, de modo que apenas os materiais encima da escrivaninha ficaram visíveis como de costume.
Aquele nome...
Por acaso pertencia a quem eu estava pensando?
Continua...
