N/A: Voltei! Tá passada?

Brincadeiras a parte, consegui colocar um pouco da minha vida em ordem e estou postando esse capítulo hoje até como uma forma de me desligar um pouco das minhas obrigações, amanhã é um dia importante para mim no meio de toda essa loucura e esse capítulo me ajudou a relaxar um pouco. O título já diz tudo 'cenários', basicamente coloquei o Télos em várias situações pra que vocês tenham uma visão melhor da vida e dos sentimentos dele, além de apresentar outra personagem e no final acrescentei uma dinâmica que surgiu pra mim de forma completamente espontânea. Só falta mais um capítulo pra encerrar a Fase 1 e começar a Fase 2 da fanfic, preciso planejaaaaar! Me desejem sorte, fiquem bem e boa leitura.

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


9

Cenários

Télos

Jamie estava ocupada fazendo contas no caixa enquanto eu limpava as mesas da cafeteria. Tinha acabado de chegar da faculdade completamente absorto em ideias para uma nova obra já que minha motivação estava lentamente voltando, mas meu corpo sabia exatamente o que fazer antes mesmo de começar a atender então não me preocupei, só precisava guardar a mochila, colocar o uniforme, prender o cabelo e higienizar as mãos.

A cafeteria não estava lotada, mas um grupo de universitárias havia ocupado grande parte da mesa retangular que ficava perto da janela. Elas pediram café e fatias de bolo de chocolate no caixa e Jamie as atendeu como sempre, mas eu tive a sensação de que elas vieram até aqui por um outro motivo.

- Que expressão é essa? – Jamie perguntou. Ela havia trocado as roupas pretas habituais por um conjunto esportivo de veludo vermelho, que a deixava parecida com uma gota de sangue no meio da decoração clean da cafeteria que pertencia a seu tio.

- Você não me deixou usar uma máscara – respondi, mantendo minha voz baixa para que as clientes não nos ouvissem – agora elas não param de olhar para mim.

- É só dizer que você não é o Kyrios e pronto – Jamie estalou os dedos. Seu esmalte preto combinava com seu batom e com seu cabelo escuro. – sabe que se usar uma máscara aqui as pessoas vão pensar que está doente.

- Eu sei – suspirei. Olhei para trás por um momento para conferir se já havia limpado tudo. Uma das garotas levantou o celular e tirou uma foto com flash, muito sutil – posso ficar no balcão agora? Já terminei de limpar as mesas.

Jamie assentiu e eu rapidamente me escondi atrás das sobremesas, perto da máquina de expresso. Kyrios tirava sarro do jeito que ela se vestia, mas eu a achava incrível, além do mais Jamie era boa comigo e convenceu o tio a me contratar quatro dias na semana por meio período, o que tirou um grande peso das minhas costas com relação a dinheiro, além de sempre me indicar quando os amigos queriam uma ilustração ou uma pintura exclusiva.

Não queria ficar dependente dos meus pais para sempre, sem falar que não aceitaria nada de Kyrios, então todo trabalho era bem vindo, mas desde que o semestre começou tinha a sensação de que mal conseguia passar algum tempo na república, o que nunca me incomodou antes, mas agora era diferente. Havia uma pessoa lá que eu queria muito ter mais contato.

- O que foi? – Jamie perguntou.

- Nada – respondi, puxei um banco para me sentar e apoiei o rosto em uma das mãos – só estou pensando.

- Naquela garota da república?

Assenti em silêncio. Via Sibyl rapidamente pela manhã e às vezes pegávamos o mesmo ônibus, mas tínhamos horários diferentes, vidas diferentes. Além das mensagens que trocávamos pelo celular não tínhamos feito nenhum programa juntos desde que ela chegou à república.

Achei que curtir todas as fotos que ela postava era suficiente, mas Kyrios me chamou de desesperado.

- Já disse a você que se não falar nada vai acabar ficando para trás – disse Jamie, sempre muito direta.

Como passávamos muito tempo juntos desde que comecei a trabalhar acabamos nos tornando amigos. Jamie tentava me ensinar sobre a cultura gótica e me enviava playlists de rock enquanto eu pedia sua opinião sobre meus trabalhos como pintor. Quando comecei a trabalhar na cafeteria ela tinha uma namorada que estudava na minha turma, mas ela acabou se mudando para o exterior e Jamie passou a sair com um cara que trabalhava como ajudante de um desenhista famoso que ela recusava a revelar o nome.

– Não leu os artigos que te mandei?

- Aquelas matérias não são para adolescentes de quinze anos? – retruquei.

- Bom, você está se comportando como uma – Jamie sorriu, ela começou a procurar alguma coisa na gaveta que ficava embaixo do caixa – pelo que você me contou ela parece ser uma garota legal.

- E daí? – suspirei. Sibyl era legal, e estava sempre sorrindo, pelo menos quando nos víamos.

- E daí que outros caras também podem perceber isso e acabar avançando primeiro – ela tirou um cartão prateado da gaveta e me entregou – aqui está.

- O que é isso?

- Nosso cartão presente! – Jamie me olhou parecendo indignada por eu não reconhecer um dos nossos produtos – Um cara esqueceu aqui já faz duas semanas, como ele nunca mais voltou pode ficar, tem o suficiente para um café grátis.

- Desculpe, mas não suporto mais o cheiro de café depois de ficar aqui o dia todo.

- Não é para você! – Jamie tinha braços finos, mas o soco que ela deu em meu braço me machucou. Pude ouvir gritos de horror e surpresa vindos da mesa das universitárias – É para dar de presente para a garota.

- Você tem razão! – eu disse – Afinal ela nunca veio aqui! Como não pensei nisso antes?

- Que bom que chegou a essa conclusão sozinho – Jamie revirou os olhos e voltou para o caixa, mas eu estava tão feliz que acabei dando-lhe um abraço surpresa.

Jamie odiava afeição em público, por isso deu tapinhas no meu ombro. De repente a conversa na mesa das fãs de Kyrios ficou mais alta. Se eu tivesse sorte ele teria acabado de postar alguma foto em outro lugar e elas se dariam conta de que estavam perseguindo o cara errado.

- Obrigado! – guardei o cartão presente no bolso e voltei a me sentar já que todo tempo livre no trabalho era precioso.

- De nada – Jamie respondeu, tentando arrumar os fios de cabelo que haviam escapado. Não podíamos soltar o cabelo no trabalho então eu fazia o possível para prender o meu enquanto Jamie escondia o dela debaixo do boné – quer saber, pode ir embora.

- Eu? – olhei para o relógio, ainda eram quatro horas - Sério?

- Sim, não tem muito que fazer hoje e aquelas garotas estão me tirando do sério, pode deixar que direi pessoalmente que Kyrios não trabalha aqui.

Agradeci com uma mistura de alívio e vergonha e assim que saí em direção a sala dos funcionários pude ouvir as garotas se lamentando ao longe.

XXX

Não odiava segundas feiras, mas chegar em casa cedo numa segunda com certeza era um motivo a se comemorar. Acabei encontrando a senhora Talia no jardim assim que atravessei o portão, ela estava mexendo na terra, pois as plantas ficavam muito castigadas no inverno e acenou casualmente para mim ao me avistar subindo as escadas. Ainda estava devendo uma tela nova a sua galeria, por isso acenei e entrei na república as pressas enquanto o irmão de Sibyl, Sāmya, virou o rosto antes de voltar a ajudar nossa locatária.

Não havíamos começado do jeito certo eu acho, ou então ele só não estava interessado em ser meu amigo, de qualquer forma Sāmya era uma pessoa fácil de conviver se você ignorasse o fato de estar sendo ignorado por ele primeiro.

- O que estão fazendo? – perguntei assim que entrei na república e vi Sibyl e Kyrios sentados no chão, perto da televisão. Tirei os sapatos e me juntei a eles na sala.

- Estou instalando um aplicativo de streaming – disse Sibyl, concentrada nas palavras que surgiam na televisão e em seu celular quase que ao mesmo tempo.

- O que ela disse – Kyrios respondeu, ele segurava um pacote de salgadinhos e já estava de pijama, parecendo bem diferente da figura que ele mostrava ser na internet – e o que está fazendo aqui tão cedo? Foi demitido?

Aquelas palavras pareceram chamar a atenção de Sibyl, pois ela me olhou com um ar de preocupação.

- Não é isso! – respondi – Precisei sair para que suas fãs malucas não me atacassem.

- Muito engraçado – Kyrios comeu uma batata e voltou a olhar para a televisão – quando isso vai terminar?

- Não falta muito – disse Sibyl – achei que íamos escolher um filme primeiro antes de começar a comer.

- Você é rica, pode comprar mais – disse Kyrios, se jogando no sofá e ocupando todo o espaço antes que eu pudesse me sentar. Tentei ir até a poltrona no lado direito, mas Kyrios me jogou para perto de Sibyl e gesticulou alguma coisa que não entendi.

- Não sabia que Kyrios era tão famoso assim – disse Sibyl, ainda olhando para o computador – mas até as garotas do meu prédio ficam perguntando sobre ele.

- Elas não perguntariam se de fato vivessem com ele – olhei para Kyrios, que não pareceu nem um pouco incomodado – mas por que você está instalando isso? Não me lembro de termos combinado nada...

- Não precisa se preocupar – Sibyl respondeu, aparentemente o aplicativo estava nos últimos passos da instalação porque ela colocou o notebook na mesa de centro – estava cansada de assistir tudo no computador, gosto de telas maiores, então além do meu perfil e de Sāmya criei um para a república.

- Na verdade Télos quer saber se vai precisar pagar alguma coisa – Kyrios me provocou.

"Por que ele tinha que dizer isso e me constranger dessa maneira?", pensei. Eu fazia o possível para ficar longe e não atrapalhá-lo, mas mesmo assim ele...

- Não precisa agir desse jeito, Kyrios – Sibyl o cortou antes que ele pudesse continuar com suas provocações sem sentido, então ela olhou para mim e sorriu – é um presente, Télos.

Sentia meu coração acelerar todas as vezes que ficava perto dela, mas dessa vez a sensação foi ainda mais forte, talvez por estarmos de fato perto um do outro. O rosto de Sibyl tinha o formato de coração e ela arrumou o cabelo castanho de modo que deixasse seu ombro esquerdo à mostra. Fiquei tão extasiado olhando para seu sorriso que só depois me dei conta de que ela usava um short jeans e uma blusa listrada por baixo de uma jaqueta.

Apesar de casuais, senti que poderia me casar com ela vestida mesmo daquele jeito.

- Ei, Télos – senti os pés de Kyrios cutucando minha cabeça.

- O que você quer agora? – perguntei.

- Está lembrado que temos um jogo na quarta, não é?

- Sim – respondi enquanto empurrava seu pé para longe. Havíamos marcado uma partida de futebol com Nikos já há alguns dias para nos distrairmos um pouco antes das primeiras provas do semestre – você vai, não é Sibyl?

- Claro que vou! – ela respondeu – Sāmya vai jogar, preciso registrar esse momento.

Sorri diante de seu entusiasmo. Mesmo não tendo muito contato com Sāmya era visível o quanto ela se preocupava com o irmão e ter uma relação como essa me fazia sentir um pouco de inveja. Quando olhei para Kyrios ele estava fingindo vomitar.

- Pronto! – Sibyl bateu palmas quando a instalação do aplicativo terminou, mas confesso que sequer tinha ouvido o sinal do fim da instalação – Todos podem assistir agora.

O efeito do sorriso dela passou e finalmente consegui respirar. Aquilo não podia ser normal, não acho que a reação de alguém apaixonado era daquela maneira, não tão forte... Será?

- Muito obrigada! – Kyrios se jogou encima dela antes que eu pudesse voltar ao normal e encheu o rosto de Sibyl de beijos e farelos de batata, depois pegou o controle remoto e voltou para o sofá, tagarelando alguma coisa sobre finalmente termos uma programação decente.

Ele não percebeu, é lógico que não, que a deixou desconfortável e assustada, pois Sibyl saiu de fininho da sala. Meus pés começaram a se mover antes que eu me desse conta e logo a alcancei antes que ela pudesse entrar em seu quarto.

- Você está bem? – perguntei.

Sibyl se virou para me encarar, depois levantou uma das mãos e respirou fundo.

- Estou – ela respondeu – só tive uma sensação estranha, só isso.

Queria perguntar se sua reação tinha alguma coisa haver com o que aconteceu naquela noite, mas resolvi não dizer nada, não devia ficar tão paranóico.

- Kyrios é exagerado, não ligue para ele.

- Eu sei, só estou tentando descobrir o que é isso... Às vezes tenho a sensação que ele...

- Que ele... – esperei até que ela conseguisse me responder, mas Sibyl engoliu em seco e por um momento achei que fosse desmaiar.

Não esperei que ela pedisse e apertei sua mão com força, para que ela soubesse que eu estava ali, como se eu pudesse dar um pouco da minha saúde para ela, então sua respiração relaxou e ela voltou ao normal.

- Obrigada – disse Sibyl – não quero que me ache rude, Télos, só acho que contato físico com seu irmão está fora de cogitação.

- É isso o que acha que pensarei de você? – perguntei – Isso só me deixa mais aliviado.

Seu sorriso me fez sorrir junto, mas acho que ela não percebeu que eu estava aliviado por ela aparentemente não querer esse tipo de relação com meu irmão, algo que nunca acontecia quando gostava de uma garota.

Me aproximei de Sibyl, mas continuei segurando uma de suas mãos, e tirei os farelos de batata de perto dos seus olhos.

- Será que eu devo cortar o cabelo para tornar mais fácil para você diferenciar a gente?

Pensei que ela teria uma reação diferente, mas Sibyl balançou a cabeça veementemente, como se eu tivesse acabado de dizer um xingamento.

- Não preciso que mude o cabelo para te reconhecer! Quer dizer... – Kyrios aumentou o volume da televisão a uma altura insuportável – Gosto do seu cabelo assim, não precisa mudar nada.

Assenti devagar, tentando manter uma expressão normal enquanto sentia fogos de artifício em meu estômago. Ela disse mesmo que gostava de mim, não disse?

Lembrei das palavras de Jamie e tirei o cartão do bolso.

- Pegue – eu disse.

- O que é?

- Um presente do meu trabalho, vale um café de graça.

Não me dei conta de que Sibyl precisava soltar a minha mão para pegar o cartão, e quando ela o fez senti a necessidade de abraçá-la para o resto de minha vida.

- Ah, é mesmo, ainda não visitei a cafeteria! Mas foram tantas coisas que...

De repente Sibyl parou e olhou na direção da sala, mais precisamente para o outro lado do ambiente. Eu não havia percebido a chegada de Denis, sequer o ouvi entrar em casa por conta do barulho da televisão. Ele olhou com desgosto para Kyrios, que se divertia com algum filme de ação, e depois se demorou um olhando em nossa direção, como se avaliasse o que estávamos fazendo.

Sibyl então guardou o cartão no bolso da jaqueta e foi na direção dele antes que pudéssemos terminar nossa conversa. Acho que nunca vi Denis cumprimentar alguém com um sorriso antes, um sorriso tímido, como se estivesse se segurando para não fazer algo mais. Não consegui ouvir o que eles diziam por causa do barulho, mas Sibyl disse algumas palavras para ele, palavras que pareciam normais, até que Denis a puxou pela mão e a levou até seu quarto, fechando a porta ao entrar.

Acho que Jamie estava certa, outro cara havia avançado.

XXX

Fazia tempo que não sonhava daquele jeito.

Desde o começo do semestre minha mente entrou em modo automático, eu acordava, estudava, pintava e trabalhava no ritmo de sempre, sem tempo para descansar, mas naquela noite, depois de ter me dado conta de que Denis e Sibyl poderiam estar juntos, o sonho da garota ensaguentada voltou com a mesma força de um filme em 3D.

Quase a alcancei dessa vez, por pouco não agarrei um de seus braços que continha uma marca feita com sangue. A persegui pela floresta densa usando uma armadura pesada e dourada até me deparar com um espelho que cortou meu caminho e me fez perdê-la de vista. Lembro de olhar para o meu reflexo com estranheza, pois a imagem que eu via não era a minha apesar de o rosto ser o mesmo.

Acordei suando frio e com a respiração agitada, mas sem gritos dessa vez já que meu companheiro de quarto dormia profundamente na cama de cima do beliche enquanto a chuva castigava o jardim no lado de fora.

Fechei os olhos novamente enquanto procurava meu celular entre as cobertas. Odiava acordar de madrugada, pois tinha uma imaginação fértil demais para encarar as sombras dos móveis, então tateei pelo colchão a procura do aparelho e quando o alcancei olhei à hora de dentro do cobertor, depois o desliguei e tentei voltar a dormir, até que senti algo gelado agarrar o meu pulso.

- Está errado.

Meu corpo reagiu automaticamente àquela voz e acabei levantando tão rápido que quase bati a cabeça no topo do beliche. Aquela voz, eu a reconhecia, por isso abri os olhos.

- Sibyl? – eu disse assim que a vi.

Ela estava ajoelhada ao lado da cama, seus dedos firmes em meu pulso. A janela, que há momentos atrás eu vi que estava fechada havia sido aberta e a chuva estava começando a molhar os lençóis e as mãos de Sibyl, por isso ela estava tão fria. Apesar de seus olhos estarem abertos eu duvidava que ela estivesse enxergando alguma coisa.

- Sybil? – voltei a falar, tentei manter o tom de voz baixo para não acordar Sāmya, mas então comecei a me perguntar se não deveria acordá-lo, afinal ele era irmão dela e devia estar acostumado a lidar com isso – Consegue me entender?

- Isso está errado – ela disse, apertando meu pulso ainda mais.

- Claro que não – respondi, tentando fazê-la me soltar – está tudo bem.

- Tem certeza? – ela perguntou. A cabeça de Sibyl pendia um pouco para o lado, ela estava mesmo adormecida, o que tornou o sorriso que ela me deu um pouco perturbador – Você está errado, de novo.

"Errado de novo?", pensei. Será que ela estava querendo me dizer alguma coisa com isso?

Segurei a mão de Sibyl, mesmo hesitante, mas isso a fez afrouxar um pouco o aperto e a me soltar devagar, porém entrelaçou os dedos aos meus.

- Você vai partir?

- Par...Partir? Eu? – balancei a cabeça, mas então percebi que ela não devia estar me enxergando. Sibyl devia estar sonhando, e seus sonhos deviam ser mais vívidos do que os meus. – Claro que não, vou ficar aqui.

Respondi com toda a segurança que consegui reunir na madrugada. Sibyl não estava usando o pijama com orelhas de gato, mas uma camisola com botões e um casaco que cobria seus braços. Pode ter sido impressão minha, mas achei que ela suspirou aliviada por um segundo ao ouvir minha resposta.

- Ela é sonâmbula.

O som da outra voz me assustou mais do que a visão de Sibyl velando o meu sono, talvez porque não esperava que Sāmya acabasse despertando. Ele saltou diretamente para o chão com mais habilidade do que esperava de alguém que não parecia se interessar por nada em específico e sentou ao lado de Sibyl.

- Eu não sabia... Eu não queria...

- Você não fez nada de mais – disse Sāmya. Sua pele pálida o deixava ainda mais parecido com um vampiro.

Ele conseguiu desentrelaçar nossas mãos, então se virou para Sibyl.

- Está tudo bem, quando ela vai a um lugar sozinha sempre tranca a porta, mas deve ter se sentido a vontade demais comigo aqui – disse Sāmya. Ele pronunciou as próximas palavras gentilmente: – ainda não é à hora, pode dormir, Dafne.

As palavras dele agiram como um calmante. A cabeça de Sibyl pendeu para o lado e seus olhos se fecharam enquanto me fitavam. Quando seu corpo pareceu perder o equilíbrio tentei segurá-la, mas Sāmya foi mais rápido. Ele a pegou no colo e a deitou em minha cama.

- Tem algum problema se ela ficar aqui? – ele perguntou – Temo que se levá-la de volta para o quarto ela acabará voltando.

- Voltando para cá, mas por quê?

- Ela pode ficar ou não?

- É claro que pode – respondi.

Afastei o cobertor para que Sāmya a acomodasse melhor e a cobrisse. Ele fez tudo com muito cuidado, mas também como se já estivesse acostumado.

- Há quanto tempo isso acontece? – perguntei.

- O sonambulismo? Depende...

- Do que?

- Se nosso pai está perto ou não – Sāmya suspirou – o pai dela.

Assenti em silêncio mesmo sem entender, mas em parte porque estava com sono.

- Pode perguntar – disse Sāmya – eu não ligo.

- Não estou curioso – menti.

- Continua um péssimo mentiroso – Sāmya respondeu. Ele mal falava comigo, mas agora que o fazia falava de um modo estranho, como se de alguma forma fôssemos próximos.

Ele segurou a mão de Sibyl e se sentou no chão, eu fiz o mesmo para não parecer invasivo.

- Não somos filhos do homem que nos criou e minha tarefa é olhar por ela enquanto estamos aqui, só isso.

Não sabia o que devia responder, então permaneci quieto. Sibyl murmurou alguma coisa sobre lasanha e molho de tomate e Sāmya sorriu. Era a primeira vez que o via sorrir desde que chegou à república, o que o deixou menos assustador, mas ao mesmo tempo havia algo que me incomodava.

- Por que a chamou de Dafne? – perguntei. Além de tudo de estranho que ele havia dito, acho que essa era a pergunta mais segura.

- Finalmente resolveu fazer uma pergunta? – ele olhou para mim – Então você ouviu?

Assenti. Sāmya me encarou por um minuto que pareceram horas. Ele tinha olhos azuis penetrantes demais, como se não pertencessem a um ser humano.

- Estranho, você não parece incomodado ou intrigado ao ouvir esse nome.

- Eu devia me sentir incomodado?

- Esqueça – Sāmya murmurou – não é à hora certa para ela, nem para você.

Ele apoiou a cabeça no colchão e respirou fundo, o que marcou o fim da nossa primeira conversa de verdade como colegas de quarto. Como não sabia se o que ele falava era real ou não, resolvi aceitar suas respostas, ou a falta delas.

- Pode deitar em minha cama, vou ficar aqui até que ela esteja completamente adormecida, então a levarei de volta para o quarto.

- Tudo bem, mas... – olhei para Sibyl, que se parecia com uma princesa de conto de fadas adormecida em um lugar estranho – Ela ficará bem?

- Completamente bem se fizer o que estou mandando.

Assenti em silêncio mais uma vez, com um pouco de medo de contrariá-lo. Subi devagar até a cama de Sāmya, mas não consegui mais dormir. Fiquei em silêncio, no escuro, observando sua postura no chão, segurando a mão de Sibyl como um guarda-costas, os olhos fechados como se estivesse adormecido, mas tinha a impressão de que ele poderia enxergar qualquer coisa mesmo daquela forma.

Horas depois Sāmya finalmente levantou, carregando Sibyl de volta ao seu quarto. Ela não voltou a falar nem a abrir os olhos, permaneceu imóvel enquanto o irmão a carregava de volta a sua cama como se ela pesasse o mesmo que uma pluma.

Não sei como nem o que aconteceu depois disso, pois acabei pegando no sono antes que Sāmya retornasse, sonhando novamente com a garota da floresta, que além do braço marcado com sangue agora trançava coroas de flores para túmulos abandonados.