N/A: Aqui estou, com mais um capítulo e o psicológico destruído... É gente, essa semana não foi legaL, muito grata por escrever e poder fazer algo que me deixe bem pelo menos por alguns momentos. Deixando esse tema triste de lado, preciso me corrigir porque na semana passada acabei passando uma informação errada - esse é o penúltimo capítulo da Fase 1, ou seja, ainda teremos mais um no sábado que vem pra encerrar esse ciclo e dar início a Fase 2, ok? Senti que estava faltando Télos nessa fanfic então coloquei logo 2 capítulos seguidos com ele e tem mais por vir, a Fase 2 vai acelerar as coisas. Boa leitura!

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


10

O Diário

Télos

- Vou te ajudar a conquistar Sibyl – Sāmya me disse quando acordei, horas depois de Sibyl ter tido um episódio de sonambulismo em nosso quarto.

- O que? – foi à única coisa que consegui responder. Ainda era cedo, tinha acabado de abrir os olhos, meu corpo mal havia começado a funcionar, pois sabia que eu precisaria de toda energia possível para sobreviver a faculdade e ao trabalho.

- Você quer minha ajuda ou não? – Sāmya disse, cheio de impaciência. Ele estava de pé no colchão com os cotovelos apoiados na cama de cima – Serei sincero, não acho que tem muitas chances, ainda mais com Denis envolvido.

- Está muito cedo para falar sobre Denis – puxei o cobertor até o alto da cabeça. Não queria levantar da cama, muito menos falar sobre Denis. Nós éramos amigos, ele sabia que eu gostava de Sibyl, não sabia? Ou eu achava que ele sabia enquanto na verdade nossa amizade não era tão verdadeira assim? Não, é claro que ele sabia, eu podia não ter falado com todas as letras, mas ele sabia.

Se Kyrios pudesse ouvir meus pensamentos agora ele diria que estava me comportando como uma criança.

- Télos – Sāmya me chamou, mas fingi que não o ouvi.

Então ele me deu um soco no estômago tão forte que me fez rolar para o lado e cair no colchão de baixo, enroscado no cobertor como a presa de uma aranha em sua teia.

- Você quer me matar?! – perguntei ao retomar o fôlego. Pelo menos não estava mais sonolento.

Sāmya me encarava com seu olhar frio e nariz empinado. Depois de me bater ele desviou elegantemente enquanto eu caía e agora estava de pé, as mãos escondidas nos bolsos do pijama azul de seda.

- Se eu fizer isso terei que voltar a esse lugar mais uma vez e estou farto – disse Sāmya – uma chance seria o suficiente, foi o que me disseram, mas você é muito idiota.

Continuei esfregando meu abdômen machucado enquanto tentava entender o que tinha acabado de ouvir. Que história era aquela e por que esse cara falava dessa maneira?

- Vou perguntar mais uma vez – Sāmya respirou fundo, comecei a me preparar para desviar de um possível chute – você gosta da minha irmã, não é?

Assenti devagar, imaginando que ele acabaria me batendo a depender da resposta.

- Então eu posso te ajudar a se aproximar dela com mais eficiência, já que o seu método é muito demorado e tem outra pessoa no caminho.

- Está falando de Denis?

- É claro que estou falando de Denis! – Sāmya suspirou – Você é pior do que eu imaginava...

- Eu não... – tentei me defender do que ele tinha dito, mas ainda não tinha certeza do que tinha ouvido – Por que está fazendo isso?

Achei que Sāmya daria outra resposta rápida, mas pela primeira vez ele pareceu ficar sem palavras por um momento.

- Você não entenderá – disse Sāmya – é muito complicado.

Mesmo parecendo incomodado ele ainda mantinha a aura de superior, algo que Kyrios odiava ver em outra pessoa que não em si mesmo.

- Então você aceita minha ajuda? – perguntou Sāmya.

Sabia que devia pensar um pouco já que as coisas que Sāmya falava pareciam fantasiosas demais em alguns momentos, mas por outro lado... Por outro lado eu não tinha chance nenhuma sozinho, não enquanto Denis estivesse com ela.

- Sim – respondi – por favor.

Engoli em seco logo depois, achando que Sāmya me daria outro sermão ou viria com novas histórias, mas ele sorriu, até que seu sorriso se tornou grande demais para o seu delicado rosto. Logo ele estava com as mãos no joelho e segurando o estômago de tanto gargalhar.

- Não acredito que você disse 'por favor' – Sāmya secava as lágrimas dos olhos enquanto sentava ao meu lado – que hilário!

- Hilário? – perguntei, um pouco assustado – Mas por que?

- Não tem graça se seu explicar! – ele deu mais algumas boas risadas antes de parar por completo, então seu rosto voltou a ter uma expressão de pedra – Na verdade é uma pena você não entender, ou talvez uma benção, nunca é vantajoso para os humanos saberem demais.

Sāmya suspirou e encostou a cabeça na parede.

- Mas tenho uma condição para que obtenha minha ajuda.

- Pode falar – eu disse. Toda a situação era tão caótica que não podia piorar.

- Enquanto estiver com você vou falar o que eu quero, mesmo que não compreenda, só preciso desabafar com alguém, estou cansado de queimar coisas por aí.

Queimar. Foi o que ele disse. Por mais que Sāmya tentasse esconder já tinha visto o isqueiro que ele mantinha no bolso, mas nunca o vi fumar, nem mesmo suas roupas cheiravam a cigarro e seus dentes eram perfeitamente brancos. Quer dizer que ele queimava suas próprias anotações?

- Como um diário? – perguntei.

- Sim - Sāmya sorriu – você será o meu diário, o que acha?

Aquela era uma segunda situação em que deveria tirar um tempo para pensar, porém Sāmya, mais do que qualquer um naquela república, parecia precisar de um amigo. Talvez suas histórias fossem apenas isso, fruto de sua solidão.

- Serei o seu diário – respondi – mas quero que saiba que Sibyl...

- Você gosta dela de verdade – Sāmya me interrompeu – eu sei disso, senão não estaríamos presos nesse lugar por causa de uma estúpida promessa.

Queria ter perguntado se o jeito que ele falava era típico de filósofos, mas acabamos sendo interrompidos por batidas apressadas na porta.

- É Sibyl – disse Sāmya – pode abrir.

- Como você sabe?

Tentei colocar o cabelo para trás, mas é claro que foi em vão, então acabei encarando Sibyl pela manhã com um ninho de passarinho na cabeça e o rosto amassado. Ainda me perguntava como Kyrios conseguia acordar com a aparência tão boa.

- Bom dia, Télos – Sibyl pareceu aliviada ao me ver, mas segundos depois o nervosismo pareceu tomar conta de seu corpo, pois ela agitava as mãos e não conseguia me encarar direito – eu fiz alguma coisa ontem, não fiz?

- Deixei um bilhete para ela – ouvimos a voz de Sāmya. Deixei que Sibyl abrisse a porta um pouco mais para vê-lo já no beliche de cima, como se tivesse acabado de acordar.

- Sim – disse ela – Sāmya sempre faz isso quando fico sonâmbula, foi um pedido meu.

Sibyl fitou o chão, era visível que estava envergonhada.

- Enfim – ela respirou fundo para criar coragem – me desculpe por hoje mais cedo.

- Tá tudo bem – respondi – quer dizer, você só falou sobre lasanha e molho de tomate.

- Eu disse isso mesmo, não disse? – Sibyl sorriu. Ela já estava pronta para sair, provavelmente para acompanhar Denis em sua rotina perfeita – Acho que estava com fome...

- Não foi nada demais – disse Sāmya – é melhor ir ou seu namorado vai se atrasar.

- Sāmya! – Sibyl disse entredentes, o repreendendo com o olhar – Também vim me despedir, vou dormir na casa da Yui hoje à noite, se precisar de alguma coisa...

- Meu amigo Télos vai me ajudar, não se preocupe.

Sibyl pareceu mais chocada ao ouvir aquelas palavras do que envergonhada pelo que tinha acontecido. Mais uma vez ela me fitou com um pouco de culpa antes de se virar e ir embora.

O celular de Sāmya começou a tocar enquanto eu observava Denis e Sibyl saírem de mãos dadas. Então eu fechei a porta.

XXX

Sāmya passou a me seguir desde que se comprometeu a me ajudar com sua irmã, se bem que até agora, quase dois dias depois, nada de interessante tinha acontecido. Foi estranho no começo, pois não achei que ele levaria toda a história de 'diário' a sério, mas ele parecia mesmo estar precisando desabafar, então acabei aceitando sua companhia nos intervalos das aulas, mesmo que na maioria das vezes eu não entendesse nada do que ele dizia.

Havia algo sobre a Grécia, ruínas antigas, um amigo do passado cujo nome eu não consegui pronunciar direito e que aparentemente também estava morto. Ele também falava muito sobre Sibyl, ou Dafne, como ele a chamava quando estava comigo. Às vezes ele pronunciava esse nome diversas vezes e olhava fixamente para mim como se esperasse que eu demonstrasse alguma reação, mas logo se cansava quando eu tentava me concentrar em meus desenhos.

Jamie passou meu contato para o namorado e acabei enviando alguns desenhos do meu portfólio. Nunca pensei em trabalhar com revistas, mas se tivesse alguma oferta e o dinheiro desse para pagar a faculdade não tinha como dizer não. Eu não tinha uma namorada rica como Kyrios e mesmo se tivesse não acharia certo pegar tanto dinheiro emprestado.

Gente rica sempre cobrava os favores com juros.

Como o café precisou fechar por uns dias por causa de uma reforma arranjei tempo para estudar para as provas e acabei ajudando Sāmya a treinar um pouco para a partida de futebol que teríamos essa noite. Ele fitava a bola como se tivesse aversão ao esporte, mas cobrava faltas com perfeição o que já era um ponto positivo.

Agora que dividíamos o quarto há algum tempo percebi que Sāmya era um observador, tanto que chegava ao ponto de me deixar desconfortável. Ele sempre parecia olhar para todos como um veterinário em um zoológico, como se soubesse de alguma coisa mais profunda e sinistra e todos os outros não passassem de meros fantoches, até mesmo para sua irmã, e isso me assustava.

Mas mesmo com seu jeito excêntrico Sāmya parecia se importar de verdade com Sibyl. Na noite em que ela passou fora ele acabou telefonando cinco vezes para perguntar se ela estava bem e acabou me perguntando como podia mandar mensagens rápidas pelo celular. Enquanto o ajudava ele recebeu ligações de um homem chamado Andrew, mas Sāmya não o atendeu, simplesmente o ignorou.

Quando Sibyl voltou evitei ficar com ela e Denis no mesmo cômodo. Pela maneira que ela repreendeu o irmão era óbvio que ela sabia sobre meus sentimentos, apenas não correspondia. Nós éramos amigos, já tinha liberdade para mandar mensagens engraçadas e andar ao seu lado, mas tudo o que ela me dava em troca era sua ternura natural, semelhante a que oferecia ao irmão.

Como não podia dividir essa experiência com Kyrios sem que ele risse da minha cara Sāmya também passou a ser meu confidente, mas é claro que meus problemas pareciam ser mais reais. Sinceramente ainda não entendia porque ele falava tanto sobre a Grécia.

Mesmo conseguindo evitar Denis e Sibyl na república surpreendentemente acabei encontrando-os na biblioteca naquela tarde, mas foi pura coincidência.

Não, a coincidência tinha nome e sobrenome.

Sāmya sabia que eu queria estudar um pouco antes do jogo, portanto reservou assentos na biblioteca com uma vista quase perfeita para Sibyl e Denis que ocupavam uma mesa inteira perto da janela mesmo não havendo nenhum livro com eles.

- Sibyl pediu ajuda – disse Sāmya, ele folheava um livro de filosofia com desinteresse, pois disse que não precisava estudar de verdade.

As provas estavam chegando e eu ainda não havia feito nada que me ajudasse a tirar boas notas.

- Ajuda? – perguntei, tentando manter os olhos nas páginas – Com o que?

- Um cronograma de estudos, eu acho – Sāmya bocejou.

Ele fechou o livro e o jogou na mesa, mas a biblioteca era tão silenciosa que o barulho ressoou por um longo tempo. Tive que cobrir minhas orelhas que acabaram ficando vermelhas de vergonha e esconder o rosto, pois não usava máscara na biblioteca e as pessoas poderiam acabar me confundindo com Kyrios e tudo o que eu menos precisava agora era de mais atenção.

- Uau – disse Sāmya – eles nem olharam para cá.

Suspirei e me forcei a olhar novamente para Sibyl e Denis, ele digitava alguma coisa no notebook que eu sabia ser de Sibyl porque estava cheio de adesivos, então parou por um momento apenas para olhar para ela.

"Eles devem estar juntos desde aquele dia que chegaram tarde", pensei.

– Você sabia que ele posta vídeos na internet?

- Sim – assenti, tentando me lembrar o momento em que me tornei sadomasoquista para observar a garota que eu gostava de queixo caído por outro – acho que Denis me falou há alguns meses, mas confesso que não assisto o canal, não tenho tempo.

Sāmya suspirou, ele tirou o celular do bolso e digitou alguma coisa em um aplicativo, depois colocou o celular na mesa. Lá estava, o último vídeo de Denis, que incluía cenas em um restaurante. Uma garota apareceu rapidamente gesticulando na tela, mas foi à risada de Sibyl que me chamou a atenção.

Baixei a cabeça e voltei a rabiscar em meu caderno, precisava estudar algumas coisas para a prova de artes visuais, mas não estava conseguindo me concentrar nas palavras, o que era péssimo, especialmente hoje que não precisava ir ao café e o estúdio estava fechado para que nos concentrássemos nas provas teóricas.

- O que está desenhando? – Sāmya inclinou a cabeça em minha direção e tirou minha mão da frente do caderno.

- Não é nada demais – respondi, não costumava mostrar meus desenhos para qualquer um – faço isso quando estou nervoso.

- São galáxias – disse Sāmya.

- Ah, são? – olhei para o papel com mais atenção, não havia me dado conta de que estava desenhando o espaço de novo.

Sāmya puxou o caderno para si e começou a folheá-lo. Esse era novo, havia ganhado de presente de Jamie que se compadeceu depois de me ver desenhando nos guardanapos. Ainda não o havia usado por completo, tinha várias páginas em branco além de tentativas falhas de reproduzir o rosto da garota dos meus sonhos e corpos celestes.

Sāmya pareceu interessado no meu último desenho.

- Não está muito bom – eu disse – galáxias ficam melhores numa boa tela, onde posso colocar mais cores, a senhora Talia diz que são suas favoritas, já consegui vender algumas na galeria que ela administra.

- Você é muito talentoso – disse Sāmya. Acho que me enganei, mas tinha certeza de que ele fez uma pequena careta quando ouviu o nome da proprietária da república – por um momento achei que estivesse desenhando minha irmã.

- Não! – respondi, depois cobri minha boca para me impedir de gritar novamente – Quer dizer... Eu desenho pessoas, às vezes, uma mulher, mas não a sua irmã.

- Que pena – disse Sāmya.

- O que?

- Eu disse que pena – ele repetiu – você continua bobo e indeciso como da última vez que nos vimos.

- Nós já nos vimos antes? Quer dizer, essa manhã?

- Diários não retrucam – Sāmya suspirou.

- Ah, sim, desculpe – peguei o caderno de volta, era difícil lembrar do nosso acordo que mal tinha dois dias de vida.

- Enfim, se desenhar alguma pessoa, posso ver?

- Acho que sim... – respondi.

Sāmya finalmente sorriu, até que seu celular começou a vibrar, ele o tirou do bolso e o olhou rapidamente, lá estava o nome "Andrew" novamente na tela, mas ele desligou o aparelho.

Segundos depois seu rosto de mármore pareceu entrar em choque.

- Está se sentindo bem? – perguntei – Quer que eu chame...

- Não precisa alertar Sibyl, é apenas uma dor de cabeça! – ele respondeu.

Pela expressão de Sāmya aquilo parecia muito pior do que uma dor de cabeça. Seus olhos ficaram estáticos e ele passou a movimentar as mãos automaticamente a procura de sua mochila, quando a encontrou sobre a mesa, abriu o zíper lateral de onde tirou um frasco pequeno de líquido incolor e deixou cair algumas gotas nos olhos. Sāmya respirou fundo por dois segundos e logo sua expressão voltou ao normal, o rosto estóico.

- Sinto muito por isso – disse ele – acontece às vezes.

- Não sabia que tinha problemas nos olhos.

- Não é um problema sério – ele olhou para mim e um pouco do colírio escorreu por seu rosto, dando a impressão de que ele estava chorando – só não achei que sentiria algo parecido agora, não depois de ele ter ido embora...

Sāmya apontou para o celular.

- Ele? – perguntei – Quer dizer que esse Andrew é seu pai?

Sāmya suspirou de novo, ele guardou o colírio calmamente e pegou a mochila.

- Vamos – ele disse – você precisa se sair bem no jogo de hoje.

- Você também – respondi – acontece que Nikos não vai conseguir jogar e você será o substituto, não viu a mensagem?

- Sim, sim, grupos de mensagens, coisas de mortais.

Sāmya saiu resmungando pela biblioteca enquanto eu o seguia. Deixamos os livros na mesa. Acho que foi a primeira vez que ele conseguiu me fazer sorrir.

XXX

O campo ficava perto da faculdade, só precisávamos reservar um horário e aparecer. Nikos era o capitão e ele sempre cuidava de tudo, Kyrios e eu entramos no time por conveniência já que alguns amigos de Nikos tinham se formado, nós já conhecíamos Denis e sabíamos jogar, então foi tudo bem rápido.

- Vocês vão ficar no mesmo time, não é? – Sāmya perguntou, apontando para mim e meu irmão.

Havíamos chegado mais cedo para que ele treinasse um pouco mais.

- Sim, somos todos do mesmo time – respondi – e tem alguns amigos de Nikos, não precisa se preocupar.

- Que bom – Sāmya respirou aliviado – ainda não sei diferenciar vocês dois, já pensou em cortar o cabelo, Télos?

- Cortar o cabelo? – Sibyl apareceu de repente na companhia de uma amiga, ela estava sorrindo, mas assim que ouviu as palavras do irmão pareceu um pouco tensa – Télos não precisa cortar o cabelo.

- Só estou tentando facilitar as coisas – Sāmya se inclinou um pouco para que Sibyl pudesse dar-lhe um beijo no rosto. Era irônico que ele estivesse usando chuteiras emprestadas de Denis, mas as roupas eram suas, uma calça preta esportiva e uma camisa branca.

- Olá! – disse a garota que estava com Sibyl – Me chamo Yui!

Ela primeiro acenou para mim, mas então Sibyl sussurrou alguma coisa em seu ouvido e ela se virou para Kyrios.

- Sou sua fã! – disse Yui, ela estendeu um presente para Kyrios, que tentava manter distância de Sāmya, mas precisou se aproximar para atender a garota nova.

As mãos de Yui tremiam, mas o cabelo curto e os olhos castanhos a deixavam parecida com uma fada usando roupas quentes de inverno. Kyrios sorriu de volta e até aceitou tirar uma foto com ela, ele era mesmo muito diferente na frente dos fãs.

Quando olhei para Sibyl, que usava um short jeans e um casaco grande demais para seu corpo, ela tirava fotos de um entediado Sāmya como se fosse uma mãe orgulhosa na primeira competição escolar do filho. A cena era cômica, mas também um pouco comovente. Pelo que Sāmya me dizia enquanto estudava eles não deviam ter tido uma vida fácil.

- Olá, Télos – reconheci a voz de Denis antes mesmo de me virar para encará-lo. Ele já estava pronto para o jogo e deixou a mochila na pequena arquibancada do campo.

- Oi – respondi, com um pouco de incômodo e vergonha, mas precisávamos acabar com isso.

- Sobre as coisas que deixou no meu quarto...

- Ah, é mesmo elas ainda estão lá, não é? Vou pegá-las amanhã.

Denis assentiu, era como se houvesse uma barreira de gelo entre nós, mas nenhum tivesse coragem para quebrá-la.

- Sobre Sibyl, preciso dizer que...

- Todos prontos para o jogo?! – Nikos falou em alto e bom som assim que nos encontrou. Ele estava com o ombro enfaixado, mas o sorriso não havia abandonado seu rosto delicado. – O outro time já está pronto.

- O que aconteceu com você? – Kyrios perguntou. Achei que ele apareceria com a garota rica que o seguia para todos os lugares, mas ele estava sozinho.

- Coisa de homem – disse Nikos.

- Ele deslocou o ombro carregando os irmãos – retrucou Denis.

- Exatamente – Nikos piscou para ele, então nos puxou para perto, como um verdadeiro técnico – vamos nos concentrar!

- Você vai se sair bem – ouvi Sibyl dizer a Sāmya antes de entrarmos no campo – se sentir alguma coisa só precisa...

- Não vou sentir nada – Sāmya a interrompeu.

Sibyl assentiu e deixou que ele se afastasse. Fiquei para trás para conferir minhas chuteiras pela última vez, foi quando ela se aproximou de mim.

- Obrigada por convidá-lo.

- Quem?

- Sāmya – Sibyl apontou para o irmão, ela ainda parecia constrangida perto de mim – ele não costuma fazer isso.

- Jogar futebol?

- Participar das coisas – disse Sibyl, o delineador em seus olhos havia deixado seu rosto ainda mais bonito – obrigada.

- Não foi nada, ele é legal, na verdade.

- Mesmo? – Sibyl acabou rindo de sua própria falta de confiança no irmão.

- Olha, Sibyl...

- TÉLOS! – ouvi a voz de Nikos à distância – PRECISAMOS COMEÇAR AGORA!

Se ele estava mesmo tão preocupado com o jogo não devia ter se machucado.

- Já estou indo! – gritei de volta, então me virei para Sibyl novamente, mas não sem antes perceber um incomodado Denis no centro do campo.

- Tudo bem – ela disse – podemos conversar mais depois.

- Que tal se conversarmos no café onde eu trabalho? Eu te dei um cupom, esqueceu?

- Claro que não esqueci – Sibyl assentiu – no café, assim que as provas terminarem.

- Estarei atrás do balcão – respondi.

Ela sorriu, e a sensação de fazê-la sorrir foi como se borboletas elétricas estivessem dançando no meu estômago. Eu poderia vomitar ou ter uma crise de riso a qualquer momento.

Sibyl puxou Yui, que não conseguia parar de gritar palavras de incentivo para Kyrios e foi se sentar ao lado da mochila de Denis, provavelmente vigiando-a para o namorado.

- Vamos lá, honrem o meu nome! – Nikos dizia enquanto caminhava ao lado do campo cheio de entusiasmo, como se fosse à final de algum campeonato importante.

Um conhecido de Nikos seria o árbitro do jogo e Sāmya foi o escolhido para dar o primeiro lance. Assim que árbitro apitou Sāmya chutou a bola para o time adversário. Kyrios começou a xingar.

Aquele jogo poderia se tornar um desastre.