N/A: Finalmente cheguei ao fim da Fase 1! Esse capítulo ficou maior do que eu imaginei, mas tem partes muito legais e até uma partida de futebol (que eu tentei caprichar na descrição porque eu gosto do esporte). Enfim, agora eu vou parar um pouco e planejar os próximos capítulos e o final (parecido com o que eu fiz em Enquanto Lamentamos), vejo vocês em Julho! Se cuidem por favor!

(Ah, preciso dizer que quando postei o capítulo anterior não estava muito bem, mas agora estou bem melhor!)

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


11

Deuses

Sāmya

Não reagia a estímulos ruins desde que me lembro, por isso todas as vezes que ouvia algum comentário maldoso na época em que frequentava a escola simplesmente ignorava, o que só deixava os agressores ainda mais violentos, mas eu não tinha culpa de saber mais do que eles, muito menos de ser uma criança adotada nessa era.

Sibyl reagia de maneira oposta, se percebia que o ambiente estava contra ela então se encolhia ainda mais, como uma flor murchando na chuva. Suas emoções nunca estiveram sob total controle, por isso Apolo sempre soube como dominá-la quando queria.

Mas acho que estou me adiantando demais.

Por enquanto, ainda estava no jogo de futebol.

- Era pra chutar pra passar a bola para Kyrios ou Denis, esqueceu? – Télos me disse rapidamente antes de sair correndo com os outros em busca da bola que eu havia entregado de bandeja ao time adversário.

Acho que cometi um erro grave, pois até mesmo Nikos havia ficado sem palavras a beira do campo. Bom, sem palavras até perceber que eu ainda estava parado, então começou a gritar para eu correr também.

Olhei para Sibyl antes de obedecê-lo, estava fazendo uma lista mental de todos os favores que iria cobrar depois que voltássemos para o lado de Apolo. Jogar futebol com certeza me daria dois ou três pedidos irrecusáveis.

Quatro, talvez, se ganhássemos a partida.

Infelizmente nosso goleiro, um dos amigos de Nikos, não parecia estar em um dia bom. O jogador do time adversário chutou no ângulo direito da trave. O jogo mal havia começado e já estávamos perdendo.

- Isso foi culpa sua! – acho que foi Kyrios quem disse apontando para mim quando todos voltaram a suas posições.

- Acho que não expliquei direito – uma cópia dele apareceu, de voz mais mansa, que devia ser Télos – não precisa gritar com ele.

- Então dividam a culpa! – disse o outro.

Era muito mais difícil diferenciá-los quando estavam em movimento, por isso sugeri que Télos cortasse o cabelo, afinal já havíamos feito isso uma vez e isso o salvou de ser envenenado por engano.

O jogo continuou e eu tentei me manter concentrado. Kyrios era atacante, estava sempre na frente esperando receber a bola ou fazendo faltas desnecessárias. Télos jogava na lateral do campo e me colocou na mesma posição, só que no outro lado. Denis ficava no meio, uma boa posição para quem conseguia ler e entender o jogo rapidamente, criando jogadas para os companheiros.

Como estávamos perdendo percebi que Télos passou a sair mais de sua posição, tentando avançar um pouco mais com a bola, então tentei imitá-lo. Não pratiquei esportes durante meu breve tempo na escola, ainda recordava do duro treinamento que tive no Santuário, sem falar das provações que enfrentei no céu ao lado de Apolo, por isso decidi que meu tempo aqui, além de ter que vigiar Sibyl, seria para descansar o quanto pudesse.

Télos passou a bola para Denis, ele fez um cruzamento para Kyrios, mas o chute não foi forte o suficiente, então o goleiro do outro time acabou com a bola. Estávamos de volta à estaca zero. Decidi me mexer um pouco mais e filtrar os gritos que vinham da arquibancada. Acho que parte deles eram de Sibyl, mas não sabia se ela torcia para mim ou para Denis.

A infiltração pelo meio não estava funcionando, pois o outro time nos marcava bem, especialmente a Kyrios, quanto a mim, devido ao meu erro do começo, percebi que ficava livre na maior parte do tempo, e Denis também deve ter percebido, pois decidiu jogar comigo.

Passes rápidos e precisos, primeiro para mim, depois consegui alcançar Télos, que se aproximou um pouco. Quando Télos devolveu a bola para mim, Denis estava livre perto da área, então passei para ele, que com um lance rápido conseguiu empatar o jogo, colocando a bola por cima do goleiro.

Denis recebeu abraços e palmas, mas eu decidi voltar calmamente para o meu lugar.

- Muito bem! – Télos me deu tapinhas nas costas antes de retornar para o outro lado do campo.

- Acho que não sou tão ruim – respondi.

- Também não é assim, novato – disse Kyrios.

Não respondi a sua provocação. Kyrios era extremamente semelhante a sua vida anterior e eu duvidava que algum dia ele chegaria a mudar, era como se sua alma não quisesse evoluir.

O jogo permaneceu empatado até o segundo tempo, mas até lá eu já consegui me movimentar melhor com a bola, mesmo que dessa vez a marcação do time adversário tivesse começado a me incomodar. Kyrios tentava chutes a distância na direção do gol, mas sem sucesso, logo percebi que ele preferia jogar sozinho a ter que colaborar com o resto do time.

Faltando alguns minutos para o fim, Denis me passou a bola novamente, eu estava perto da área, o goleiro adiantado, Kyrios estava livro, mas por que não tentar algo mais ousado?

Decidi fazer como ele e jogar sozinho, o chute não saiu do jeito que eu queria, mas como o goleiro estava muito a frente a bola acertou a rede em cheio.

Dois a um, tínhamos virado o jogo. Com exceção de Kyrios todos me deram parabéns.

- Acho que não sou tão ruim assim – eu disse a Télos, que parou um pouco para beber água antes do fim do jogo.

- Eu disse que tudo daria certo – disse meu antigo companheiro de batalha.

Queria que Télos recuperasse as lembranças do passado, assim como Sibyl, queria que os dois se resolvessem logo, sem que precisássemos passar por isso, mas ainda tínhamos um longo caminho a percorrer.

O jogo terminou mais rápido do que imaginei e ao contrário dos outros não fiquei tão cansado. Nikos tentou me dar um abraço, mas eu o evitei. Naquele momento ele me pareceu estranhamente familiar, como a presença viva de alguém que eu conhecia, mas deixei que a sensação passasse. Não podia lidar com outra pessoa voltando dos mortos agora.

XXX

- Você foi muito bem! – Sibyl me recebeu na arquibancada com uma garrafa d'água, que eu comecei a beber sem dizer uma palavra – Devia ter jogado quando estávamos na escola, devia ser profissional!

Molhei as mãos e joguei um pouco de água em seu rosto para que ela parasse de falar.

- Não exagere – eu disse.

Sibyl sorriu. Ela segurava uma câmera em uma das mãos e o celular na outra. A câmera devia pertencer a Denis, ela provavelmente o estava ajudando a filmar o jogo.

- Tirei várias fotos suas – ela disse – vou mandar para o nosso pai.

- Não faça isso – respondi, rispidamente.

- Por que não?

- Provavelmente ele deve estar ocupado com... – tentei imaginar o que empresários faziam – Números ou a destruição das florestas.

- Muito engraçado – Sibyl suspirou, guardando o celular no bolso.

Não foi minha intenção fazê-la se sentir mal, mas o fiz mesmo assim. Definitivamente eu não era um bom exemplo de irmão.

Denis logo se juntou a nós, beijando Sibyl timidamente no topo do nariz. Télos estava a alguns metros com o irmão e a garota chamada Yui, que entregava várias barras de cereal para seu irmão gêmeo. Ele virou o rosto, cheio de tristeza, mas não foi o único.

Sibyl arrumou os óculos de Denis, assim como seu cabelo. Ele não havia mudado muito nessa vida, internamente e externamente, até seus olhos violeta permaneceram os mesmos.

Procurei a mochila que havia deixado na arquibancada, meu celular tocava. Era aquele homem de novo. Recusei a chamada antes que Sibyl percebesse, mas não desliguei o celular. O que ele queria comigo? Estava me importunando a tarde toda.

Já havia cumprido meu papel de filho no jantar, pois Sibyl estava presente, mas não queria ter nenhum tipo de contato com ele a sós. Seria perigoso demais, especialmente agora que ele estava irritado por eu ter ido a Grécia.

É claro que não falamos muito sobre isso no jantar, não poderíamos com Sibyl por perto, portanto evitá-lo era a melhor escolha por enquanto.

- Já estou indo – disse Sibyl – os rapazes vão ficar mais um pouco.

- Quer que eu vá com você? – perguntei, imaginando que aquele homem poderia muito bem estar por perto da república.

- Não, fique e se divirta um pouco – Sibyl ordenou como uma irmã preocupada por achar que eu não socializava o suficiente.

Ela tentou me dar um abraço, mas eu a impedi com a desculpa de que estava suado demais. Apesar de se sentir rejeitada minha querida irmã assentiu em silêncio, pegou suas coisas e deixou o campo com Yui.

Bebi um pouco mais da água até a garrafa estar completamente fazia. Eu sempre tinha cuidado em manter uma distância segura entre nós, mas dessa vez acho que exagerei um pouco. Não foi apenas isso, rejeitar um abraço, mas ter viajado sem avisar e voltar quando achei que seria a hora.

Esses últimos anos tinham sido ainda mais difíceis para mim, mas se Sibyl acabasse me cortando de sua vida, o que o deus faria comigo quando se desse conta de que eu não era mais necessário aqui?

- Você está bem? – Télos perguntou. Não me dei conta de que ele estava ao meu lado.

- Sim – menti, pois a mentira era necessária para manter os humanos calmos – o que foi agora?

- Kyrios trouxe bebidas – tentei protestar, mas Télos foi mais rápido – não precisa beber nada se não quiser, só fique um pouco conosco.

Assenti em silêncio. Por um momento tive uma sensação estranha, de que precisava ter ido com Sibyl de volta para a república.

- Está se sentindo bem? – Télos perguntou.

Ele achou que eu estava com dor de cabeça de novo, mas não era isso, era diferente agora. Meus olhos estavam bem.

- Sim – respondi – vamos lá.

O gêmeo do bem sorriu, se é que eu devia chamá-lo assim. Télos era muito amigável nesta vida, quase inocente demais, talvez ele tivesse sido assim na outra era se Kyrios tivesse lhe dado uma chance.

- Uma para você, outra para você... – Kyrios dizia enquanto ia distribuindo as bebidas. Peguei uma apenas por educação.

Assim como eu, Denis também não parecia inclinado a beber, afinal tínhamos aula no dia seguinte e ele devia estar focado nas provas do semestre.

- Que tal jogarmos algo divertido? – propôs Kyrios.

- Como o que? – Télos perguntou, ele já havia tomado metade da primeira lata em um só gole.

Kyrios se aproximou de mim, tirando a garrafa de água vazia das minhas mãos e colocando-a no centro. Nikos e os amigos ainda estavam ali e se aproximaram para jogar também.

- Verdade ou desafio? – perguntou Denis, com um leve toque de escárnio em seu tom de voz.

- Se você não se achar bom demais para isso pode escolher não jogar.

- Então não vou jogar – Denis respondeu, virando o rosto. Era por esse tipo de atitude que eu ainda não sabia se devia ou não gostar dele.

- Chato como sempre – Kyrios disse antes de tomar um gole da bebida – vou girar primeiro, faço a pergunta para o sorteado.

"Por favor, qualquer um menos Télos", pensei. Eu iria ajudá-lo, mas ao mesmo tempo não queria me indispor com os outros. Ser invisível era o melhor caminho.

- Télos! – Kyrios gritou de felicidade.

Fiquei tentado a analisar a garrafa para ter certeza de que tudo ocorreu mesmo por acaso.

- Verdade ou desafio? – Kyrios perguntou ao irmão.

Télos estava sentado ao meu lado, portanto tentei sussurrar para ele discretamente que escolhesse desafio, pois não queria dar nenhuma chance a Kyrios de complicar as coisas ainda mais...

- Verdade – Télos respondeu, muito seguro de si.

Olhei para ele, atônito, quase abrindo a lata de cerveja.

- É verdade... – Kyrios pensou na pergunta, mas eu já tinha uma ideia do que ele faria – Que você gosta de alguém que conhecemos?

Silêncio. Todos ficaram esperando pela resposta, inclusive Denis, que olhava para Télos com um pouco de culpa.

- Você sabe que é verdade – Télos respondeu, tomando outro gole da cerveja.

- Ah, é mesmo, esqueci que temos o 'trio DST' bem aqui.

Télos engasgou com a bebida e ouvi Denis finalmente ceder e abrir uma lata. No outro lado do grupo, percebi que Nikos lançou um olhar nada amistoso a Kyrios.

Os amigos de Nikos começaram a rir e eu me perguntei o que estava fazendo ali no meio daqueles seres primitivos...

- Sāmya!

Voltei à realidade ao ouvir o meu nome. Kyrios havia girado a garrafa de novo, mas por quê? Não seria a vez de Télos agora?

- Não estou...

- Verdade ou desafio?

- Verdade – suspirei. Qualquer coisa para não ter que me levantar, afinal não tinha nada a esconder.

- Muito bem – Kyrios me encarou cheio de segundas intenções – me diga em quem você está interessado.

- Interessado? – retruquei, tinha certeza de que aquele jogo não funcionava daquela maneira.

- Sim, o nome de quem você quer...

- Eu sei o que quer dizer... E ninguém – respondi. Nem precisei pensar duas vezes.

- O que? – Kyrios piscou.

- Não tenho interesse em ninguém, nem em garotas ou garotos antes que comecem a pensar demais no assunto.

Silêncio novamente, mas encarei Kyrios até que ele se cansasse. Pela minha expressão séria ele não tentou fazer nenhuma gozação.

Meu celular vibrou antes que novos desafios idiotas começassem, então o tirei do bolso e o mostrei a Télos.

- O que é isso? – perguntei, apontando para a notificação.

- A... Acho que você recebeu uma mensagem – Télos respondeu, sem conseguir esconder o choque em sua expressão pela minha resposta.

Mensagens... Sibyl tinha me ensinado como poderia lê-las, eu só precisava desbloquear a tela e clicar na notificação... Então tentei superar minha aversão a tecnologia atual e tentar ler tudo o mais rápido possível.

- Será que podemos acabar com isso agora? – perguntou Denis.

- Não tenho mais perguntas a fazer – Kyrios respondeu, satisfeito – acho que vocês já sabem todas as respostas.

- Acho que foi mais do que o suficiente – disse Nikos.

A mensagem na tela do celular fora direta e clara: eu já havia fugido demais.

- Tá tudo bem? – Télos perguntou, já na segunda lata de cerveja – Você está pálido.

- Não – respondi – preciso ir agora.

Então peguei minhas coisas e saí sem me despedir, indo ao encontro daquele que me criara.

XXX

A cidade em que Sibyl e eu estávamos agora, com a nada simples missão de fazer uma pítia ter seu último desejo atendido por um deus mesquinho que também era seu pai, era calma e bem desenvolvida, com um rio que a atravessava de um lado ao outro, cujas margens serviam de ponto de encontro para várias pessoas quando queriam se divertir ou apenas se refrescar do calor. Mas aquela noite estava fria e o local ao qual fui convocado não era acolhedor ou movimentado, pelo contrário, ficava em uma parte mais deserta da cidade, onde coincidentemente a iluminação pública apresentava defeitos.

O homem que se dizia meu pai estava lá, sozinho em seu carro brilhante, situação em que ocorria em momentos como este, quando ele precisava falar comigo a sós, sem máscaras.

Mas eu ainda precisava ter certeza do que ele queria.

- Se queria falar comigo podia ter isso até a república – eu disse ao me aproximar.

Andrew Doron, essa era sua forma humana escolhida para esta era, onde podia andar livremente entre os humanos e dinheiro ilimitado. Ainda me lembrava de quando ele nos escolheu no orfanato, apontando para mim como se eu não passasse de um prato em um restaurante. Eu já sabia que precisava proteger Sibyl, então não me importei muito, nada do que aconteceria naquela existência importaria depois que Sibyl realizasse seu desejo.

- Sabe que ela não pode nos ouvir, Asmita.

Engoli em seco, ele usou meu nome verdadeiro, então não havia mesmo vindo até aqui como humano, mas como deus.

Sua aparência mudava quando estava como Apolo, seus olhos castanhos se transformavam em brasa, e seu cabelo adquiria uma tonalidade rubra, ondulando ao redor de seus rosto como se estivesse debaixo d'água, ou numa dimensão que os humanos não tivessem permissão de conhecer.

- Oh, deus Apolo, é uma honra estar em sua presença – fiz uma pequena reverência, mas apenas por obrigação.

- Poupe-me de suas falsas demonstrações de devoção – disse Apolo.

Eu não conseguia olhar diretamente para ele quando se revelava, por isso encarava seus ombros. Sibyl conseguia, mas talvez por ter um pouco de seu sangue divino nas veias.

- Como queira – respondi – como posso lhe servir hoje?

O canto esquerdo de seu lábio se esticou um pouco, Apolo quase sorriu, mas nem todas às vezes isso significava algo bom.

- Depois que foi a Grécia sem a minha permissão esperava que se empenhasse um pouco mais em sua missão.

- Mas estou me empenhando, agora tenho a confiança daquele que carrega a alma de Defteros...

- Não é o suficiente – Apolo começou a caminhar, e a cada passo o asfalto sob seus pés parecia derreter.

- Seria o suficiente se ele estivesse sozinho, se Dafne estivesse sozinha, mas há outros interferindo.

- Aquela deusa traiçoeira! – Apolo exclamou.

O modo que ele se referiu a Athena me encheu de tristeza por um momento. Nos tempos antigos eu mataria quem se referisse a ela com tamanho ódio.

Então comecei a rir, no que eu estava pensando? Não tinha mais o direito de defendê-la.

- O que é isso? O que está fazendo? – Apolo se aproximou de mim, segurando meu queixo e me forçando a olhar para ele. Seus olhos em brasa queimavam os meus, dificultando ainda mais a minha visão.

Aquela era uma forma de repreensão, mas também de punição destinada somente a mim.

- Tem muita coragem em pensar naquela em que traiu – Apolo me soltou, mas como num sopro vindo dos céus logo me vi ajoelhado diante de sua figura – deve ter se esquecido de que só o mantive em minhas tropas depois da batalha no Santuário porque Dafne intercedeu por você, ela estava ávida por companhia depois que se tornou a última pítia.

- Mais fácil de controlar, você quer dizer, especialmente comigo por perto.

Apolo gargalhou, e o som quase rasgou os meus tímpanos. Não acho que ele tinha noção do quanto sua presença divina podia machucar um humano. Além disso, outra coisa acontecia quando ele estava em sua verdadeira forma, algo que refletia apenas em sua única filha...

- Enfim – ele continuou – continue ajudando Dafne, porém mais depressa

- Senão haverá consequências? – perguntei. O que mais ele podia fazer já que já era dono de nossas almas?

- As consequências já estão acontecendo, mas acho que você já sabe, não é?

Ele estava certo. Quanto mais ele falava mais sentia minha visão embaçar. Levei as mãos ao rosto, procurando desesperado pelas cores que Dafne me mostrou quando acordei naquela hospedaria perto do Santuário na primeira vez que voltei a este mundo. Eu não podia voltar a perder a visão, não depois de presenciar tantas coisas, de adquirir mais conhecimento do que poderia em minhas andanças e em minhas meditações no escuro.

Apolo me deu a visão de presente e eu me apeguei a ela com mais fervor do que imaginei e ele sabia disso, por isso me castigava e ameaçava dessa maneira, pois sabia que eu não queria perdê-la.

Já estava arranhando o rosto antes mesmo de me dar conta, sentindo o sangue escorrer quando minha visão voltou, e me vi ainda no chão, a meia luz nas margens do rio, enquanto Apolo voltava para seu carro, para seu disfarce humano, curando meu rosto antes de me deixar para que sua filha não desconfiasse de nada quando eu voltasse para junto dela.

Foi só quando pensei em Dafne que comecei a ouvir seus gritos, distantes, porém cheios de sofrimento. Ela sempre dizia que a voz de Apolo era serena, que lhe passava a sensação de poder e liderança, que os sacrifícios que fazíamos eram necessários para que ele continuasse a governar nos céus.

E agora Dafne sofria pelos meus descuidos.

Precisava voltar para casa.

XXX

Quando consegui chegar a república graças a uma função muito útil em meu celular que permitia que eu realizasse algumas funções apenas com minha voz, já que minha visão ainda não suportava muito brilho, consegui um carro que me levou diretamente para casa. Fui rezando silenciosamente pelo caminho, pedindo aos deuses que não permitissem que Télos, Denis e muito menos Kyrios estivessem com ela, pois como explicaria tal crise para eles?

Deixei mais dinheiro do que o necessário com o motorista e entrei as pressas na república, desviando das portas e grades do jardim, pois já tinha criado o hábito de memorizar qualquer caminho para o caso de punições como esta.

Subi as escadas da entrada depressa, quase caindo, mas já era tarde demais. Dafne estava na casa da serva de Apolo, pois eram de lá que vinham seus gritos e não da república no segundo andar. Abri os olhos levemente por causa da luz, a porta estava aberta, ela sabia que eu seria o primeiro a chegar, por isso deixou tudo pronto para mim.

Seu disfarce era impressionante, mas logo caiu quando eu cheguei, pois não acreditei em nenhum momento que todas as almas reencarnadas se reuniriam no mesmo lugar ao mesmo tempo.

- Ela estava gritando – disse Talia. Dafne estava com o rosto molhado apoiado em seu colo, os olhos fechados.

- Eu ouvi – eu disse – deixe-a comigo.

- Sua visão ainda não voltou ao normal – Talia me alertou. Seu cabelo branco adquiria um tom mais prateado quando ela se revelava, assim como seus olhos negros que se transformavam em duas turmalinas.

- Posso carregá-la! – afastei as mãos da Musa e peguei Dafne com cuidado, levando-a até o andar de cima.

A Musa foi na frente, digitando a senha da porta e me ajudando a entrar, depois colocando a mochila que eu havia deixado cair na escada sobre o sofá.

- Pode ir agora – eu disse quando entrei no quarto com Dafne, colocando-a gentilmente na cama, com travesseiros apoiando sua cabeça e suas costas.

A Musa me obedeceu mais rápido do que imaginei, e logo senti que estávamos a sós na república. Foi quando Dafne finalmente abriu os olhos, ela ainda era ela mesma e não a garota que havia nascido nesta era.

- Eu vi – ela gemeu.

- Você lembrou – eu a corrigi.

- Sim.

- Mas vai esquecer de novo.

- Quando? – Dafne ergueu um pouco a cabeça para perguntar.

Seu estado de agora era diferente de quando estava sonâmbula. Totalmente desperta ela não tinha barreiras para sua memória, lembrava-se de tudo, do passado e do presente, das coisas boas e ruins.

- Logo, eu prometo.

Respirei fundo, finalmente sentindo minha visão se acomodar um pouco ao ambiente escuro. Acendi um abajur que Dafne mantinha perto da cama, meus olhos não reclamaram. Beijei o rosto de Dafne sem que ela pedisse, como não fazia já há algum tempo.

Dafne, minha cúmplice e irmã. Eu não queria admitir porque seria uma fraqueza, mas às vezes sentia que Apolo sabia que o tempo me fez amá-la como se fosse minha família, por isso ele me ameaçava machucando-a, ferindo seu próprio sangue para atingir alguém sem salvação como eu.

Por isso passei a sair sozinho, a viajar sem sua permissão e presença, pois eu seria aquele quem ajudaria Athena se outros deuses voltassem a interferir no Santuário como da última vez, eu avisaria meus eternos companheiros para que se preparassem melhor para o que viria e Apolo sabia disso, era óbvio que sabia, mas eu não me importava com minha própria vida, ficaria melhor morto do que cego, por isso ele fazia isso com a própria filha, para me atingir.

Não fui uma criança comum nessa encarnação, pois nasci com o conhecimento e com o dever, mas Dafne sim. Pela primeira vez ela experimentava ser uma humana comum, assim como Defteros e os outros que a seguiram com seu próprio propósito.

"Deixe-a", era o que eu queria dizer, "deixe-a viver sozinha, fora do ciclo dos deuses".

- Sāmya? – ela me chamou pelo outro nome. Havia voltado ao normal, às lembranças haviam sumido.

Eu havia voltado a ser apenas o irmão evasivo.

- Estou aqui – eu disse.

- O que aconteceu?

- Você teve um pesadelo e me pediu para ficar aqui, não se lembra?

Ela se demorou um pouco olhando para as sombras do quarto e por um momento me perguntei se Apolo viera ver os frutos de sua punição ou então se as lembranças daquele pesadelo foram permanentes.

- Obrigada por ficar comigo – disse Dafne.

- Sempre, Sibyl.