N/A: Escritora avisa que retornaria em julho, mas só aparece um mês depois! Olá pessoal e mil desculpas por ter sumido. Acabei deixando um aviso no meu perfil e declaro que a partir de agora o meu perfil servirá como quadro de avisos para quando precisar me ausentar, ok? Então se eu sumir de novo vão lá porque posso ter deixado uma mensagem. Enfim, precisei me ausentar porque estava ocupada, mas agora está tudo bem, já fiz o planejamento dessa fanfic até o final, e sim, esse capítulo marca o início da FASE 2, que será mais curta, então não percam porque vai acontecer muita coisa! Ah, também tem fanfic nova de My Hero Academia chegando (em inglês), tenho muita coisa pra fazer, mas obrigada por não terem me abandonado!
Obs: provavelmente mudarei o nome desse perfil, não se assustem.
[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]
12
Despertar – Parte 1
Sibyl
Acordei na cama de Télos naquela madrugada, segurando seu pulso como se me agarrasse a um tesouro precioso. Por um momento, enquanto me levantava com todo o cuidado, na esperança de que ninguém percebesse minha presença, nem mesmo meu irmão, achei que escaparia ilesa, até que percebi que Télos estava encostado a parede, bem encolhido, deixando todo o espaço restante da cama para mim. Ele também estava descoberto, pois provavelmente me entregou o cobertor e decidiu suportar o frio sem nada além de suas roupas.
"Ele deve ter tentado me acordar, mas eu não respondi", pensei enquanto devolvia o cobertor. Télos também deve ter ficado com pena de acordar Sāmya, que parecia dormir profundamente na cama de cima, então tateei de volta para meu quarto com a cabeça pesada e o coração cheio de culpa.
Eu não sabia por que isso estava acontecendo, muito menos por que a cama de Télos parecia ser meu lugar favorito enquanto sonâmbula, mas na noite passada eu tinha certeza de que havia trancado a porta antes de deitar, por instrução de Sāmya.
Não consegui voltar a fechar os olhos até que o sol finalmente apareceu, então me arrumei depressa, comi o que encontrei na geladeira fui a primeira a sair para a faculdade, sem sequer esperar por Denis. Era difícil encará-lo depois que isso acontecia, já que não era na cama dele que meu inconsciente procurava conforto, e também não conseguia olhar diretamente para Télos depois disso.
O que ele estaria pensando de mim?
Sabia que não estava dormindo bem há algum tempo, tudo começou com sonhos estranhos, eu me via caminhando entre colunas de pedra e chorando pela perda de alguém que sequer conhecia. Meus sonhos eram vívidos, talvez vívidos demais, e havia uma luz que me cegava até mesmo de olhos fechados, então eu caía e tropeçava até acordar em qualquer lugar que não fosse a minha cama, mais precisamente na cama de Télos quando finalmente conseguia descansar, mas quando não tinha essa sorte, passava as tardes sem ânimo ou apetite, como um cadáver ambulante.
Tentei manter os olhos abertos de novo, dessa vez sem sucesso, o que me fez acordar foi quase ter batido a cabeça na carteira no meio da aula. Esse era o resultado de mais uma noite que passava em claro com medo de fechar os olhos e de acabar importunando Télos em seu descanso.
Os outros alunos começaram a levantar e a sair rapidamente da sala, mas minha mente estava tão cansada que não percebi o porquê até que Yui me puxou pelo braço. Sentávamos uma ao lado da outra na sala que tinha o formato de auditório e dividíamos nosso tempo entre copiar as anotações uma da outra e a conversar sobre qualquer coisa que Kyrios estivesse fazendo já que Yui, por algum motivo, o achava fascinante.
Ela me puxou de novo e dessa vez consegui ver seu rosto com um pouco mais de clareza enquanto minha cabeça clamava para que eu voltasse a fechar os olhos. Yui estava vestida inspirada em algum personagem de Gossip Girl, com uma saia xadrez e uma camisa social com um grande laço verde no pescoço, que combinava bem com seu cabelo escuro e curto, deixando-a parecida com uma fada do colegial.
- Você não vem? – Yui perguntou.
- Eu? – respondi, meus olhos finalmente se abriram um pouco mais, será que havia esquecido alguma coisa importante? – Para onde?
- O resultado da última prova saiu, não estava ansiosa para ver?
- O resultado! – repeti. Aquelas palavras tiveram um leve efeito energético, pois logo joguei todo meu material na mochila e desci as escadas correndo com Yui até o corredor.
Ao contrário dela eu vestia o jeans mais largo que consegui encontrar no armário com uma blusa preta simples. Sinceramente nem tinha ideia de como consegui me vestir pela manhã sem tropeçar ou cochilar, então torci para que o efeito energético do resultado final dos exames ao menos me ajudassem a andar um pouco mais ereta.
Yui abriu caminho em meio ao grupo que se aglomerava na frente da lista no mural e logo achou o seu nome. Ela havia ficado em 14º, o que era um ótimo resultado para uma turma de quarenta alunos. Esperei ver meu nome no fim da lista, mas não o encontrei. Yui foi mais rápida.
- Terceiro lugar! – ela disse enquanto apontava para o meu nome entre os primeiros da lista.
Ela me abraçou em comemoração enquanto me tirava do meio do grupo que voltou para olhar a lista com mais calma.
- Você não está contente? – Yui perguntou, mas sua expressão logo mudou. Acho que fiquei tempo demais sem demonstrar reação alguma.
- É claro que estou – forcei um sorriso – só estou cansada, não tenho dormido bem ultimamente.
- Eu percebi – Yui me ofereceu o braço como apoio e eu aceitei – tem alguma coisa errada?
- Não, é claro que não! – outro sorriso falso junto de uma mentira.
Não podia falar para ela que nem eu sabia o que estava de fato acontecendo comigo, muito menos que aquele terceiro lugar que ela tanto celebrou foi uma derrota para mim, uma das piores. Tudo o que eu queria agora era encontrar um lugar calmo e vazio para chorar, mas estava cansada demais até mesmo para isso.
- Devia passar o final de semana na minha casa – Yui disse de repente, ou então foi só a parte que consegui ouvir, pois estava um pouco aérea – meus pais vão viajar e já que temos um trabalho para concluir em algumas semanas poderíamos fazer uma sessão de estudos na minha casa e depois assistir alguns filmes.
- Filmes? – perguntei, mais uma vez não consegui escutar tudo.
- Ou ver vídeos de Kyrios na internet! – Yui sorriu, mas eu não compartilhei do mesmo entusiasmo - Você sabia que ele fala três idiomas?
- Sério?
- Não acredite em tudo o que ouve por aí – aquela voz me pareceu familiar, mas eu só me dei conta de que era Sāmya quem falava quando ele afastou o braço de Yui e se colocou em seu lugar para me apoiar.
- Isso não é mentira – disse Yui, quando o assunto era Kyrios ela ficava bem séria – posso confirmar.
Sāmya revirou os olhos e então me encarou, abaixando um pouco a cabeça para ficarmos da mesma altura.
- Você está bem? – ele perguntou.
Assenti rapidamente com a cabeça, mas apenas para que ele se afastasse, pois seus olhos azuis me deram calafrios. Não acho que ele sabia que eu lembrava o que aconteceu na noite do jogo de futebol, havia disfarçado muito bem, mas desde o acontecido ele mudara seu jeito de agir quando estava perto de mim, havia parado de me afastar e de preferir ficar sozinho com seus pensamentos, agora me buscava na saída das aulas e me acompanhava pelo campus, até ouvia as conversas de Yui sobre Kyrios sem reclamar muito.
- Ela foi a terceira da turma no último teste – Yui levantou o dedão para mim – impressionante.
- Claro que minha irmã é impressionante – Sāmya afagou minha cabeça, mas eu me retraí na mesma hora.
- Preciso ir agora – Yui disse depois de receber uma mensagem – vejo que já está em boas mãos, Sibyl, pense sobre o que te falei, tá legal?
Queria ter tido forças para pedir para Yui ficar, mas não consegui, e ela provavelmente iria se infiltrar no ensaio de Kyrios de novo, por isso saiu tão apressada.
- Terceira da turma – Sāmya disse quando Yui já estava longe, estávamos andando devagar, quase na saída do meu prédio – não está feliz?
Balancei a cabeça, meu silêncio era mais do que suficiente, mas não consegui impedir que algumas lágrimas escorressem pelo canto dos meus olhos.
- Não deve se sentir assim – disse Sāmya – você foi bem.
- Você não sabe de nada, Sāmya, você nem se esforça.
- É claro que eu me esforço – ele suspirou.
Tentei fazer com que ele me soltasse, o que foi em vão, o máximo que consegui foi que ele me ajudasse a sentar no banco mais próximo. Minha cabeça estava girando, ficava pior quando ele estava perto de mim.
- Não precisa mentir para mim – eu disse – eu sei que não se importa com o nosso pai ou com o sobrenome Doron, mas...
- Eu me importo com você – disse Sāmya – não com aquele homem.
- Sāmya... – suspirei. Odiava quando tínhamos esse tipo de conversa, o que ficava cada vez mais frequente à medida que crescíamos e as responsabilidades surgiam – Já parou para pensar que o fato de você não se importar só deixa o fardo ainda mais pesado para mim?
Sāmya não respondeu, na verdade ele finalmente desviou o olhar e me deixou respirar. Era a primeira vez que eu dizia aquilo em voz alta.
Aproveitei o momento para olhá-lo de perfil, seus traços eram afiados e seus olhos pareciam guardar segredos de mim. Talvez por isso estivesse me vigiando desde o dia em que acordei com ele segurando minha mão, ainda vestido com as roupas do jogo de futebol.
- Preciso de café – eu disse, procurando por algo na mochila que havia ganhado de alguém que queria muito me ver – você conhece esse lugar?
Entreguei o cartão da cafeteria de Télos para Sāmya, que abriu o sorriso mais largo que eu já vi pela primeira vez em muito tempo.
- Então você conhece.
- Não vai sair com Denis? – ele perguntou.
- Hoje não, ele tem aula até mais tarde...
Não terminei a frase, a verdade era que Denis havia me convidado para almoçar, mas eu não queria ir.
- Então vamos à cafeteria – disse Sāmya – está na hora de encontrar seu cavaleiro.
Ele disse aquilo naturalmente, mas então pareceu se dar conta de que havia dito algo que não devia, pois olhou para mim quase que assustado, especialmente por eu ter prestado atenção na última palavra.
- Quer dizer... – Sāmya tentou disfarçar – Vamos encontrar Télos.
Assenti em silêncio e deixei que ele chamasse o carro, Sāmya estava ficando muito bom com o celular e cada vez pior em contar mentiras.
XXX
- Tem certeza que é aqui? – perguntei ao descer do carro, conferindo se a foto do cartão presente era o mesmo da fachada. Sāmya tinha dado a volta para abrir a porta para mim e não soltou o meu braço até que estivéssemos do lado de dentro da cafeteria.
- Por quê? Não gostou?
- Pelo contrário – respondi, admirando as janelas que deixavam o ambiente iluminado e as poucas colunas no centro do prédio, contribuindo para deixar o tudo mais aberto – é muito bonito.
O lugar estava cheio, mas Sāmya encontrou uma mesa no canto e tirou a placa de 'reservado' com tanta naturalidade que me deixou em choque.
- Tem certeza de que podemos ficar aqui? – perguntei.
- É claro que podemos, afinal fui eu quem fez a reserva.
- Você?
Sāmya assentiu com um sorriso, mostrando o celular. Ele provavelmente havia mandado uma mensagem a Télos avisando que estávamos chegando.
Me esforcei para não deixar que meu lado fraternal orgulhoso se manifestasse, senão Sāmya acabaria achando que estava tudo bem, o que não estava. Nada estava bem, e acho que Sāmya sabia, pois ele parecia prestes a me perguntar algo quando Télos apareceu segurando dois cafés.
- Sejam bem vindos! – ele disse com um sorriso no rosto.
- Obrigada – respondi, um pouco surpresa - Mas ainda não pedimos nada.
- Sāmya sempre pede chá gelado e bom... Vo... Você gosta de baunilha – Télos gaguejou um pouco, mas logo se recompôs e colocou o café um pouco mais perto de mim.
- Ah, aqui está – entreguei o cartão presente a ele. Télos o segurou como se fosse algo raro e quando percebeu que eu ainda olhava para ele começou a ficar vermelho.
- Não vai sentar com a gente? – Sāmya perguntou.
- Daqui a pouco – a pergunta foi de Sāmya, mas Télos a respondeu olhando para mim – o café está cheio, mas eu volto logo, eu prometo.
Assenti em silêncio, ainda olhando para cima, tentando entender como todo o seu cabelo cabia debaixo do boné. Ele era tão alto que o avental da cafeteria parecia pequeno.
- O que há com vocês? – Sāmya perguntou. Foi quando finalmente paramos de nos encarar e percebemos que ele já havia bebido metade do chá.
- Nada... – Télos pigarreou – Eu volto logo!
Sorri enquanto o assisti correr de volta para o balcão e pegar o pedido das outras mesas. Peguei a xícara de porcelana branca e senti o aroma da baunilha invadir meus sentidos. O café estava do jeito que eu gostava, bem doce, acho que ele devia estar prestando atenção enquanto eu bebia ao seu lado pela manhã.
Beber aquele café foi o melhor momento que tive em semanas, como se o tempo parasse apenas para que eu o apreciasse do jeito que merecia.
Aproveitei que o lugar estava cheio para observar Télos sem que ninguém percebesse, as luzes sobre o balcão iluminavam seu rosto, e o verde do avental combinava com sua pele, deixando-o com boa aparência, ele parecia ser gentil e atencioso com os clientes, especialmente com as crianças.
Ele não estava sozinho, havia uma garota com ele no balcão, cuidando do caixa, mas sempre atenta ao trabalho dele. Télos ia até ela quando aparentemente tinha alguma dúvida e as vezes ela comentava alguma coisa que o fazia sorrir. Acho que foi isso que fez meu paladar mudar e deixar meu café amargo.
- Você está olhando muito para Télos hoje – Sāmya disse depois de algum tempo em silêncio.
- Não, não estou – coloquei a xícara na mesa, empurrando-a para o centro – estou cansada, nem sei para o que estou olhando.
Sāmya olhou para trás, para Télos e a garota do balcão. O cabelo dela tinha a aparência sedosa e a maquiagem escura a deixava com uma aparência misteriosa que os garotos deviam gostar. Será que Télos gostava de garotas assim?
- Jamie é a chefe dele – Sāmya disse quando voltou a olhar para mim.
- Não estou preocupada com isso – respondi – quer dizer, não é da minha conta.
Sāmya disse alguma coisa, mas dessa vez eu não escutei. Continuei fitando a mesa pálida, como o resto da decoração, até ouvir uma notificação chegar no meu celular. Era Denis, dizendo que chegaria tarde de novo por causa das aulas práticas.
Comecei a digitar palavras que sequer faziam sentido, formando um parágrafo furioso sobre como me sentia, até que parei, respirei fundo, e apaguei antes de enviar.
- Desculpe a demora – Télos finalmente apareceu com uma bandeja com pedaços de torta e mais bebidas. Não percebi que a cafeteria finalmente havia se esvaziado, então ele puxou uma cadeira e se juntou a nós – não podem ir embora sem provar nada.
- Não precisava fazer isso – me apressei em dizer.
- Mas eu quis – Télos respondeu, colocando uma fatia de bolo perto de mim – você deve estar cansada, precisa se alimentar.
Engoli em seco, não falávamos sobre as noites em que eu aparecia em seu quarto de madrugada, era um segredo velado que ficaria melhor só entre nós.
Quando olhei para o assento de Sāmya ele estava vazio, ele deve ter ido ao banheiro exatamente na melhor hora possível, pois suas coisas continuavam ali.
- Sei que está com problemas para dormir – disse Télos.
- São as olheiras que me denunciaram? – perguntei, ciente da minha aparência e das bolsas escuras sob meus olhos.
- Sim – Télos sorriu – as olheiras.
Ele tocou em meu rosto, num gesto completamente involuntário, pois seus dedos se retraíram assim que tocaram em minha pele e ele bebeu um pouco do que restava do chá gelado de Sāmya em um só gole. Foi rápido demais, mas ao mesmo tempo extasiante.
- Posso contar com você se estiver com problemas...
- É claro que pode! – disse Télos, mesmo que eu não tenha feito pergunta alguma.
Comi um pouco da torta de chocolate, realmente estava muito boa, e Télos se limitou a me assistir comer, com o ar preocupado.
- Sinto que as coisas estão estranhas – eu disse – que estão...
- Erradas?
Parei de comer ao assentir, acho que já tínhamos tido aquela conversa antes, mas de outra maneira.
Télos segurou minha mão por baixo da mesa ao perceber a mudança na minha expressão, e eu senti aquilo de novo, o mesmo êxtase que tomou cada pedaço do meu corpo em apenas um segundo. Se rosto estava próximo do meu, e acho que nunca o tinha visto tão de perto antes, mas mesmo assim tive uma súbita necessidade de tocá-lo.
Foi quando Sāmya voltou à mesa, me fazendo recolher a mão como se estivesse fazendo algo errado, e de fato acho que eu estava. Télos pareceu triste e envergonhado quando fiz aquilo, e eu queria ter dito que não era culpa dele, mas não tive tempo, pois acabei indo embora da cafeteria sem dizer uma palavra a ninguém.
XXX
A república estava vazia quando voltei, aliviada por Sāmya não ter me seguido e por não ter encontrado ninguém no andar de baixo. Queria ficar sozinha por um momento para colocar os pensamentos em ordem, mas não fui para o meu quarto e sim para o de Denis.
Ao entrar, joguei a mochila no chão e me joguei em sua cama, procurando pelas roupas que ele tinha usado para dormir na noite anterior apenas para sentir seu cheiro. Seu cobertor, seu travesseiro, suas roupas, estava envolta em seu aroma adocicado, bem diferente do de Télos, que cheirava a café forte, o que não era ruim, mas eu não queria pensar em Télos agora.
Acho que finalmente consegui dormir, pois lembro que quando fechei os olhos ainda podia ver a luz do sol castigar as paredes, mas quando os abri havia apenas uma luz fraca vindo da escrivaninha. Meu irmão devia ter me procurado, mas achado melhor me deixar aqui, e provavelmente havia centenas de mensagens não lidas de Yui no meu celular.
Denis já estava em casa, seu cabelo estava molhado e ele usava roupas leves, então deduzi que já devia ter chegado há um tempo e tomado banho. Ele demorou a se dar conta de que eu estava acordada, parecia entretido demais com o pesado livro da faculdade e com suas anotações.
Então, como se tivesse enviado alguma mensagem por telepatia, Denis olhou para mim.
- Você acordou – ele disse, fechando o livro.
Estendi os braços e deixei que Denis deitasse ao meu lado, repousando minha cabeça em seu peito enquanto ele me abraçava. Fazia tempo que não ficávamos próximos daquele jeito, pois Denis estava ocupado demais com a faculdade, mas eu prometi a mim mesma que não faria reclamações sobre isso. Denis queria muito ser médico e eu devia apoiá-lo.
- O que está acontecendo com você? – Denis perguntou – É como se estivesse fugindo de mim há dias.
Dei de ombros, simplesmente não queria falar sobre isso, pois então teria que falar sobre Télos.
- Está doente? – Denis insistiu no assunto, ele apoiou meu rosto em suas mãos e começou a me analisar como um paciente, depois me beijou várias vezes nos lábios e sob os olhos.
- Não estou dormindo bem – respondi – apenas isso.
- É mais do que isso – Denis me corrigiu. Para a minha surpresa ele estava mais atento do que eu esperava.
- Mais do que isso – repeti.
Denis esperou até que dissesse alguma coisa, o que não aconteceu, então o distraí do jeito que consegui, com meu toque e meus lábios, tentando de todas as formas fazê-lo ficar em silêncio e presente do jeito que eu precisava, o que funcionou por um tempo, até que Denis me afastou, e até mesmo para isso suas mãos eram delicadas.
- O que foi? – perguntei.
Havia um problema, é claro que havia, e devia ser eu.
- Não está ouvindo? – disse Denis – Todos estão na sala, você quer mesmo...
Meus pensamentos finalmente pararam de me atormentar por um segundo até que consegui ouvir a voz de Kyrios do outro lado da parede, na cozinha, havia um cheiro bom vindo das frestas da porta. Devia ser a hora do jantar, pois Sāmya também comentava alguma coisa que passava na televisão e então ouvi a terceira voz, a voz de Télos. Ele já estava em casa.
Dessa vez fui eu quem acabou empurrando Denis e me sentei na cama, um pouco neurótica e envergonhada. Ele pareceu não perceber a verdadeira razão da minha hesitação, porque sentou ao meu lado e me beijou no rosto até ver um leve sorriso em meu rosto.
- Está tudo bem – ele disse, já voltando para a escrivaninha – por que não saímos e vamos comer um pouco?
- Quero dormir aqui – eu disse.
- O que?
- Quero dormir aqui, por favor, estou com medo de fechar os olhos e acabar...
Engoli em seco, me acovardando novamente em falar a verdade, mas sentia minhas mãos tremerem.
Denis estava prestes a responder quando seu celular tocou. Enquanto estávamos juntos ele acabou deixando-o na cama, ao meu lado, e consegui ver claramente o nome de uma garota.
- Quem é? – eu perguntei, mas Denis já havia recusado a ligação.
- Ninguém – ele respondeu, desligando o celular com pressa.
Eu conhecia as colegas de Denis, ele havia me contado sobre sua família, seus professores... Eu até sabia sobre a aversão de Nikos ao nosso relacionamento e mesmo assim tentava me dar bem com ele, mas o nome daquela garota era completamente desconhecido para mim.
Denis deve ter percebido o meu desconforto porque voltou para a cama e me abraçou novamente, colocando-me com cuidado sobre o travesseiro.
- Pode se juntar a eles se quiser – eu disse – não estou com fome.
- Tem certeza? – ele perguntou, pressionando minha cintura.
- Sim, só me diga se posso dormir aqui...
- É claro que pode.
- E que promete não me deixar sair do quarto.
- Por que você sairia? – Denis perguntou, ele sorria.
Suspirei, ele não sabia, é claro que não sabia.
Quando Denis me deixou sozinha em seu quarto, evitei olhar para a porta para não ver Télos nem que fosse por míseros segundos, continuei em sua cama, fitando o teto, lembrando de coisas que eu sequer deveria ter vivido.
