[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]
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Despertar – Parte 2
Sibyl
Acordei assustada no dia seguinte, com a respiração agitada e o coração acelerado como se tivesse sido atingido por um objeto pontiagudo, mais precisamente por uma flecha prateada que surgiu em meu sonho, que me fez levantar no mesmo instante em que atravessou o meu corpo.
Assim que terminei de examinar meu tórax a procura de ferimentos invisíveis e me certifiquei de que estava fisicamente bem, me dei conta de que estava no sofá da sala. A porta do quarto de Denis, de onde eu não devia ter saído, estava fechada, mas a janela que dava para a rua estava aberta, fazendo com que um sopro gélido de ar adentrasse a república, me dando calafrios.
- Foi só um sonho – sussurrei, imaginando que sentir calafrios não devia ser uma coisa boa, especialmente de madrugada – eu não estou morta.
"Ainda", pensei, e o fato desse pensamento surgir quase que automaticamente em minha mente me deixou angustiada, mas não com medo. Não, o medo veio depois, quando avistei na lateral da janela olhos escuros e brilhantes como duas pedras preciosas, que pareciam pendurados no vazio, me fitando com curiosidade.
- Ainda estou dormindo – eu disse – só pode ser isso.
Fechei os olhos por um momento, na tentativa de parar de enxergar coisas que não existiam, e deve ter funcionado, pois quando fitei a janela novamente não havia nada além da paisagem noturna do jardim.
Levantei do sofá depressa e fechei a janela com o máximo de delicadeza para não fazer barulho, afinal o quarto de Kyrios era o mais próximo e não queria acordá-lo. Olhei para o relógio que ficava na parede perto da porta. Os ponteiros marcavam exatamente três da manhã, mas respirei aliviada por ter conseguido fechar a janela, pois não sei o que poderia ter acontecido se seja já o que me observava fosse real.
Tentei fazer as contas de quantas horas havia dormido, mas estava atrapalhada demais para isso, então bebi um pouco de água rapidamente na cozinha e voltei para o quarto de Denis, pois não sentia vontade alguma de ficar sozinha em meu próprio quarto. Ainda estava usando a parte de cima de um pijama de botões que achei em uma das gavetas de Denis, pois não quis deixar seu quarto na noite anterior nem mesmo para trocar de roupa.
Como o pijama tinha mangas longas acabava escondendo muito bem o sinal em meu braço direito. Por mais que Sāmya dissesse que não via problema algum ele era o motivo para não usar roupas com mangas mais curtas, ao menos não na frente de desconhecidos.
Mas Denis não era um desconhecido.
Voltei ao quarto dele com passos leves e fechei a porta atrás de mim com cuidado. Ainda tinha duas ou três horas antes que ele levantasse para correr então precisava fazer silêncio até mesmo ao sentar na beira do colchão.
Esfreguei os olhos e tentei me distrair com alguma coisa naquele quarto até me sentir sonolenta de novo, pois meu coração ainda estava um pouco acelerado com o susto que tomei ao olhar a janela. As coisas de Denis eram categoricamente organizadas ao redor do quarto em suas estantes, todos os livros estavam em ordem alfabética e até mesmo seus cadernos eram etiquetados. Achava essa excentricidade um pouco engraçada, mas o admirava por isso, afinal foi graças a ele que consegui me sair tão bem nos exames após uma mudança tão extrema de cidade e de faculdade, sem falar nos problemas de Sāmya com nosso pai...
Balancei a cabeça assim que comecei a sentir que estava indo por uma direção perigosa de pensamentos que me deixariam agitada e preocupada o resto da madrugada. Voltei a olhar para Denis, até seu jeito de dormir parecia ordenado, pois mal se mexia, então resolvi procurar alguma coisa que me distraísse. Sabia que ele guardava algumas caixas debaixo da cama com coisas que não usava muito, pelo menos foi o que me disse depois de me mostrar algumas fotos devidamente selecionadas de sua antiga casa e depois colocá-las em uma das caixas que havia colocado ali.
Não acho que faria mal algum em vê-las de novo.
Mesmo relutante, abri um pouco a cortina para aproveitar um pouco da luz da lua e não acordar Denis com o celular, mas aquele lado da propriedade parecia seguro, sem olhos estranhos que apareciam do nada. Então sentei no chão e comecei a tirar algumas caixas de baixo da cama. A maioria tinha anotações velhas que ele ainda não havia jogado fora, até que finalmente achei a caixa que ele me mostrou em outra ocasião, uma caixa azul e pesada, de cobertura aveludada.
A caixa não estava trancada então foi fácil de abrir. Para alguém tão organizado as fotos não seguiam ordem alguma, mas sabia que todas ali deviam ser preciosas já que ele trouxe todas de casa.
A maioria era de Denis com a mãe, em sua cidade natal, ele se parecia mais com ela do que com o pai, especialmente pelos olhos violeta. Em todas as fotos ele se agarrava a ela enquanto o pai ficava um pouco mais afastado, mas ao menos eles tinham uma foto em família.
Tentei me lembrar da última foto que Sāmya e eu tiramos com nosso pai, acho que ainda estávamos no fundamental, pois depois disso Sāmya se recusou a fazer qualquer coisa com ele presente. Até jantarmos juntos era um privilégio.
Passei por mais algumas fotos, havia uma de Denis com Nikos, que na verdade estava um pouco engraçada, pois Nikos sorria enquanto Denis olhava para o outro lado. Então me surpreendi por encontrar tantas fotos nossas já reveladas e devidamente guardadas ali, dentre todas as nossas eram as únicas que ele havia enrolado com uma fita e prendido todas juntas, além disso, ele não parecia triste ou forçado a tirar as fotos, olhava para a lente e sorria, bem diferente das fotos com Nikos ou com o pai. Aquele gesto me deixou emocionada e me fez sentir ainda mais culpada por tê-lo evitado e ido ao café de Télos ontem. Senti um arrepio na espinha só de lembrar Télos tocando o meu rosto, mas ao contrário do que sentia quando ficava sozinha com Kyrios, estar com Télos me dava uma sensação boa.
Já estava desistindo de vasculhar as lembranças do meu namorado quando algo me chamou a atenção, uma foto no fundo da caixa de Denis com uma garota de cabelo ruivo, o braço dela estava entrelaçado ao dele, que olhava para a câmera com o olhar inexpressivo enquanto a garota sorria. Pela paisagem e pelas roupas que ambos usavam a foto deve ter sido tirada em sua cidade ainda no inverno.
Atrás da foto havia uma simples nota de Denis com a data em que a foto havia sido tirada, além do nome da garota, que parecia ser o mesmo que ligou para ele ontem à noite.
Arrumei as fotos do jeito que estavam e coloquei a caixa de volta em seu lugar, depois me abracei a Denis sob as cobertas. Havia uma sensação estranha em meu peito, uma sensação de perda.
XXX
- Tem certeza de que isso funciona? – perguntei ao atendente da farmácia sobre os comprimidos que estava prestes a comprar.
Ele voltou a me assegurar que aquilo me faria dormir como um bebê, então entreguei o dinheiro e coloquei todos na mochila, escondidos de Sāmya e principalmente de Denis. Nem queria imaginar o que eles falariam se me vissem com isso. Sāmya provavelmente tentaria me fazer meditar para clarear a mente, mas Denis me daria um sermão por comprar remédios sem prescrição.
"Mas talvez assim ele finalmente me escutasse", pensei. Era mais fácil procurar por uma solução sozinha do que pedir ajuda.
Chequei minhas mensagens ainda no ônibus, antes de chegar à república. Sāmya tinha uma palestra aquela tarde, Denis estava na aula, Kyrios estava provavelmente sendo Kyrios em algum palco e Télos, bom, ele me mandou mensagens quatro vezes perguntando se eu estava bem e se precisava de alguma coisa. Acho que ele foi o único que notou meu mau humor no café da manhã.
Por isso precisava daqueles remédios, para dormir a noite inteira e não ficar perambulando de madrugada pela casa, olhando as coisas de Denis sem permissão e acabando encontrando algo que me deixaria perturbada pelo resto do dia.
Tudo o que eu estava sentindo agora, toda essa confusão e aflição eram culpa minha por ter sido curiosa e agora não podia perguntar a Denis sobre a garota, pois ele nunca havia mostrado aquela foto para mim antes e acabaria descobrindo que eu vasculhei sua caixa de memórias.
Desci do ônibus e caminhei até a república ainda falando sozinha e culpando a mim mesma pela minha situação atual até que encontrei a senhora Talia no jardim. Fazia algum tempo que não a via, desde aquela noite em que acordei com Sāmya velando o meu sono, e ele não queria falar a verdade sobre o que tinha acontecido, pelo menos não toda a verdade.
- Sibyl! – minhas esperanças de entrar na república sem ser notada acabaram assim que ouvi o seu chamado, e eu não podia ignorá-la.
- Ah... Boa tarde – tentei fazer com que minha voz não tremesse ao falar com ela. Na verdade, desde aquela noite, eu não conseguia encarar a dona da República Olimpo por muito tempo.
- Você parece agitada, querida – ela disse ao chegar mais perto, tocando em meu rosto como se quisesse ter a certeza de que eu não estava febril.
Engoli em seco ao perceber como ela parecia mais jovem cada vez que nos encontrávamos e em como seu cabelo, antes grisalho, agora parecia ser tão prateado quanto à luz das estrelas.
- Já terminei aqui – ela indicou o jardim com a cabeça e fiquei aliviada ao poder desviar meu olhar um pouco para as ferramentas de seu jardim impecável. Os olhos dela também eram negros como aqueles que vi na janela da república de madrugada, mas ela não seria capaz de subir até a janela do segundo andar, seria? – por que não toma um chá comigo?
- Um chá? – eu disse.
- Sim, acho que isso lhe fará bem.
- Mas eu estava prestes a...
Ela não me esperou terminar a frase, me agarrou pelo pulso e me guiou até a parte de dentro do prédio onde ficava sua casa, abrindo a porta de madeira branca, que revelava um interior florido e de tons esverdeados.
- Sente-se aí – disse Talia enquanto tirava o avental amarelo que usava quando cuidava do jardim.
Obedeci mesmo me sentindo desconfortável, ocupando o espaço no canto do sofá de couro. Era estranho como já fazia meses que havia me mudado, mas ainda não conhecia a casa da minha locadora quando esta ficava logo abaixo da república.
Havia uma mesa de centro em frente ao sofá, cheia de livros de mitologia e um jarro cheio de glórias da manhã azuis e violetas. Algumas anotações estavam empilhadas de maneira ordenada ao lado dos livros e acabei reconhecendo a letra de Sāmya nos papeis.
- Seu irmão tem me ajudado com algumas traduções – disse Talia, que já estava de volta com uma bandeja de aparência pesada com um jogo de chá que parecia caro e delicado – e com o jardim.
- Eu sabia sobre o jardim – respondi – mas não sobre o resto.
- Ele é esperto, o seu irmão – ela tomou um gole do chá assim que terminou de servir, para a minha surpresa ela soube exatamente quantas colheradas de açúcar eu preferia sem nem mesmo perguntar.
- Sim, ele é – eu disse – só um pouco rebelde.
- Exatamente – a senhora Talia sorriu ao concordar.
Por algum motivo só me senti segura ao tomar o chá depois que ela o bebeu pela segunda vez. O gosto era bom, ela havia colocado um pouco de leite, deixando tudo bem equilibrado.
- Gostou da casa? – ela perguntou.
- Muito – respondi – gosto das cores; me fazem lembrar de uma campina no meio da floresta.
Ela deve ter percebido que estava olhando a decoração que deixava o ambiente parecido com uma casa de bonecas, ou com alguma seção de loja de decoração que queria representar uma casa de campo de alto padrão. Não havia nenhuma sujeira, nada fora do lugar, talvez por isso tivesse a sensação de que ninguém morava aqui, não de verdade.
- Acho que ainda não tive a oportunidade de agradecê-la por aquela noite – eu disse.
Minha locadora pareceu não entender. Ela cruzou as pernas elegantemente, fazendo o vestido azul ondular um pouco.
- Como assim?
- Aquela noite... Já faz alguns dias – continuei, mesmo sentindo que não devia dizer mais nada – acho que passei mal e a senhora me ajudou até Sāmya chegar e me levar para o quarto.
Pela primeira vez a senhora Talia não pareceu tão perfeita, pois o canto de seu olho tremeu.
- Você se lembra disso? – ela perguntou, parecendo um pouco chocada.
- Sim – respondi – acho que Sāmya deve ter lhe pedido para não dizer nada, mas eu me lembro.
Ela colocou a xícara de volta na bandeja e esfregou as mãos, como que apreensiva. Estava prestes a perguntar a ela qual era o problema até que notei um grande quadro próximo a passagem que levava ao corredor.
- O que é aquilo? – foi a minha vez de colocar a xícara de volta a bandeja, mas de maneira um pouco brusca demais para a delicadeza daquela peça, pois acabei derramando um pouco do chá.
- O que foi querida?
Já estava de pé antes mesmo de ouvi-la. Andei na direção do quadro, mas parei antes que chegasse perto demais.
- Essa pintura – eu disse, sentindo uma mistura de fascinação e terror – quem a fez?
- Vejo que gostou dessa – Talia disse atrás de mim, sua voz soava mais uma vez como um assobio, como na primeira vez que nos falamos pessoalmente – Télos tem talento para pintar galáxias, você não acha?
- Com certeza – eu disse, ainda hipnotizada pela pintura que quebrava toda a rigidez que aquele lugar apresentava.
A pintura parecia estar viva para mim, como se as galáxias ondulassem em meio aquele espaço de cativeiro criado pelas mãos de Télos.
- Se bem que você deve conhecê-lo por outro nome.
- Outro nome? – perguntei, sem entender muito bem o que ela dizia.
Estiquei a mão para tocar a tela mesmo sendo errado, mas então ouvimos a campanhinha da porta da frente tocar. Para isso acontecer não devia ser nenhum dos meninos.
- Não deve ser ninguém – disse a senhora Talia – deixe-me checar.
Assenti e enxuguei as lágrimas que se formaram no canto dos meus olhos sem que eu percebesse enquanto eu olhava a pintura. Depois que senti a vermelhidão do meu rosto sumir um pouco, peguei minhas coisas e fui até a porta da frente, já que ouvi uma voz que não conhecia vindo de lá.
- Sibyl – a senhora Talia disse ao me ver, sua aparência havia voltado ao normal, pelo menos se parecia mais com a mulher que conheci no primeiro dia – pode levá-la ao andar de cima? Acho que essa senhorita quer falar com Denis.
- Com Denis? – eu disse, então olhei para a garota que ainda estava parada na porta, com roupas quentes demais para o dia de hoje, segurando uma pequena mala em uma das mãos.
A garota não me cumprimentou, e eu senti uma onda de raiva e tristeza ao olhar para o seu rosto, pois aquela era a garota da foto que eu não devia ter procurado.
XXX
O nome dela era Arielle, perguntei mesmo já sabendo, pois tinha visto o nome na tela do celular de Denis e no verso da foto. Ela não se parecia com ele e eu sabia que ele não tinha irmãos, o tom avermelhado de seu cabelo devia ser falso, pois a raiz apresentava um tom castanho escuro, inclusive na franja que cobria sua testa. Ela não pediu permissão para se sentar, apenas o fez quando quis, deixando a mala no meio da sala.
Digitei tão rápido que nem percebi que acabei enviando uma mensagem para o grupo de conversa da república e não apenas para Denis. Kyrios foi o primeiro a perguntar quem era a garota, mas eu o ignorei.
- Ele já está vindo – eu disse quando recebi uma mensagem alguns minutos depois.
Para a minha surpresa Denis já estava a caminho, era o mais rápido que eu o via deixar a faculdade e vir para casa. Tentei não deixar transparecer os meus ciúmes, mas meu desconforto era palpável demais, pois a garota me olhou com um ar de desdém em seu rosto oval.
- Não devia se prender a ele – disse ela, que pelo jeito já estava me encarando há algum tempo, desde que eu mandei a mensagem pelo celular.
- O que disse? – perguntei.
- Que a vida de Denis aqui é temporária, ele precisa voltar para casa.
- E foi isso o que veio fazer? Levá-lo embora?
A garota assentiu. Ela era bem direta, uma característica que eu costumava apreciar nas pessoas, mas que no caso dela achei bem arrogante.
Assim que Kyrios entrou correndo na república, Arielle se levantou com um sorriso, que logo desapareceu ao se dar conta de que não era Denis quem havia chegado.
- Pode ficar aqui com ela?
Minha pergunta soou mais como uma ordem do que um pedido e Kyrios nem teve tempo de pedir explicações enquanto eu pegava a mochila que havia deixado na mesa e me apressava em sair daquele lugar.
XXX
Fiquei aliviada pela senhora Talia não ter voltado a sair de casa, pois desse jeito consegui ficar sozinha no lado de fora, nos degraus que levavam a porta da frente, agarrada com a mochila, com medo de que alguém a vasculhasse e visse os remédios, pensamento estúpido esse, mas aquela garota poderia fazer isso, não poderia? Talvez para mostrar a Denis como ele deveria partir com ela...
Eu nem queria saber o que Kyrios faria para distrair a garota, só de estar em um lugar diferente já me deixava um pouco menos aflita.
Como sempre tinha uma garrafa d'água na mochila, peguei um dos comprimidos que havia comprado e o coloquei na boca, depois tomei o máximo de água possível para engolir sem sentir seu gosto amargo. Queria que o efeito fosse imediato, queria adormecer ali mesmo e fugir daquele problema, acordar quando tudo já estivesse resolvido e com Denis ao meu lado, como devia ser.
Sāmya e Télos chegaram alguns minutos depois disso, foi quando percebi que não estava tão cedo quanto pensava e que o sol já estava se pondo no horizonte, deixando o jardim com um ar acolhedor do campo que me trazia boas lembranças de casa.
Não sei se foi minha expressão ou pelo jeito que estava apoiada nos degraus, mas Sāmya foi o primeiro a correr até a minha direção e me dar um abraço apertado. Geralmente eu tiraria sarro dele por me dar atenção, mas dessa vez acho que ele sentiu que eu estava precisando de carinho.
- Não está muito cedo para você chegar? – perguntei quando Sāmya me soltou.
- Sāmya disse que era uma emergência – disse Télos, sentando um degrau abaixo de nós, mas com o olhar fixo em mim.
- Não é tão grave assim – respondi – eu acho, só não quero ficar no mesmo cômodo que ela.
Minha aversão ao falar sobre a garota francesa deve ter tido algum efeito sobre Sāmya, pois percebi que meu irmão entendeu o que eu estava querendo dizer. Não sei como ele conseguia, mas às vezes acontecia; por mais que parecêssemos seguir caminhos diferentes nos momentos em que eu mais sofria Sāmya ficava ao meu lado.
- Afinal quem é a garota? – Sāmya perguntou.
- Deve ser uma prima que ele tem na França – disse Télos, procurando por algo na mochila, provavelmente qualquer coisa comestível. Ele não precisava ter ficado do lado de fora comigo, por isso apreciava ainda mais sua companhia. – não são primos de sangue, mas ele a considera assim.
- Ela não age como uma prima – respondi – ou como uma amiga.
- Mas você não devia ficar preocupada – disse Télos. Ele procurou minha mão e quando a segurou foi como se eu não pudesse mais soltá-lo.
- Télos está certo – disse Sāmya – só porque estão com problemas não quer dizer que...
- Sāmya... – eu o repreendi com o olhar.
Não queria falar sobre nada relacionado ao meu relacionamento na frente de Télos, na verdade não queria falar sobre nada, apenas ficar em silêncio, escondendo a sensação ruim que crescia em meu peito e que estava quase me sufocando. Talvez a única coisa que estivesse me impedindo de desmaiar fosse o toque de Télos, firme e seguro.
Denis não ficará comigo por muito tempo, era isso o que estava sentindo, mas a garota não era o problema, sentia que havia algo que ela viera contar a ele.
Télos apertou minha mão, trazendo-me de volta ao presente e me afastando daqueles pensamentos ruins. Eu queria tanto abraçá-lo, mas ao fazer isso eu não estaria admitindo que sentia algo por ele também?
- Ela está lá dentro?
O som da voz de Denis me fez soltar a mão de Télos num impulso desajeitado. Eu não o vi chegando, Télos também não, quanto a Sāmya, tinha certeza de que ele não nos avisou de propósito.
- Sim – foi meu irmão quem respondeu, mais uma vez adivinhando o que tinha acontecido – e não foi nem um pouco educada com Sibyl.
- Sāmya – eu o interrompi antes que ele falasse mais alguma coisa.
Denis parecia ofegante, deve ter vindo às pressas. Ele olhou para mim, parecendo querer dizer algo, mas então desistiu ao fitar Télos e entrou na república.
Senti outro toque em minha mão, dessa vez de Sāmya, um que eu podia aceitar sem culpa. Ele estava se comportando melhor ultimamente, estava mais presente, mesmo que eu o afastasse sem explicação.
"É tudo por causa dos sonhos", pensei, "quando voltar a dormir melhor tudo ficará bem".
- Sem mais flechas prateadas – sussurrei sem perceber.
De repente senti as mãos de Sāmya nos meus ombros, os dedos frios e esguios, tentando me consolar.
- Não precisa ter medo, Dafne, eu estou aqui.
Sāmya disse aquelas palavras baixo em meu ouvido, de modo que Télos não escutou porque havia acabado de encontrar um chocolate em sua mochila que tomava toda a sua atenção.
Dafne. Não era a primeira vez que Sāmya me chamava desse jeito, mas já fazia muito tempo que não acontecia.
Quando nossos olhos se encontraram ele sabia que eu estava zangada, mais do que isso, furiosa por tudo o que estava acontecendo agora e por coisas do passado. Dafne. Era assim que ele se dirigia a mim até que eu o convenci a me chamar pelo meu nome. Eu não sabia quem essa Dafne era, mas Sāmya devia vê-la como sua irmã verdadeira e não a mim.
Aquilo foi mais do que eu podia suportar naquele momento.
- Preciso sair daqui... – eu disse ao soltar a mão de Sāmya e descer os degraus correndo, deixando Télos para trás com o resto das minhas coisas.
- Espere, Dafne! – Sāmya me chamou por aquele nome de novo.
Seus passos estavam bem próximos dos meus e ele me alcançou assim que abri o pequeno portão de entrada e segui pela rua que agora já estava ficando escura.
- Dafne, espere... – Sāmya me segurou pelo pulso e me fez encará-lo – Achei que estava desperta... Sempre sei quando está desperta!
- Desperta... O que quer dizer com isso?
Sāmya ficou estático, ele ainda me segurava ao mesmo tempo em que tentava esconder a preocupação que havia tomado o seu rosto. Ele estava escondendo alguma coisa de mim.
- Sāmya! – Télos veio correndo atrás de nós, a boca ainda suja de chocolate. Ele percebeu que Sāmya me segurava com muita força, então afastou as mãos dele.
- Vamos voltar para dentro – disse Sāmya, ainda me olhando de um jeito que nunca fez antes, seria desconfiança que percebia em seu olhar?
- Télos me levará para dentro – me apressei em dizer, então olhei para Télos – não é?
- Sim, pode voltar Sāmya – Télos disse. Acho que ele também percebeu a estranheza que havia tomado o rosto de meu irmão, pois ficou perto de mim até que Sāmya voltasse para dentro da república.
- O que foi isso? – perguntei.
- Não importa – Télos disse, suas mãos deslizaram até as minhas – aqui, vamos.
Seguimos pela esquina da república e só paramos quando não pudemos ver mais o jardim e tivemos a certeza de que estaríamos seguros dos olhares de Sāmya.
Télos continuou segurando minha mão quando me sentei na calçada mais próxima, e só a soltou para apoiar meu rosto enquanto eu respirava com dificuldade. Mesmo ao ar livre sentia como se estivesse presa, me afogando no infinito de pensamentos que surgiam de uma só vez.
Me arrependi de ter tomado o remédio, pois a corrida me fez ficar enjoada. Coloquei a cabeça entre as pernas para fazer o enjôo passar enquanto Télos massageava minhas costas.
- Estou bem agora – eu disse, erguendo o rosto.
- Tem certeza? – Télos perguntou.
Assenti devagar. Talvez o remédio finalmente estivesse fazendo efeito, pois os pensamentos sumiram, todos eles.
- Pode me distrair?
- Claro... – Télos respondeu rapidamente, então pensou um pouco sobre o que diria a seguir – Acho que conseguirei um trabalho novo.
- Mesmo? – devo ter soado animada demais de repente, pois Télos pareceu surpreso, mas minha reação foi sincera.
- A garota que trabalha comigo conhece um cara que pode me ajudar, não tenho experiência com quadrinhos, mas acho que pode dar certo.
- Acho que você pode desenhar qualquer coisa – respondi – vi sua pintura na casa da senhora Talia, a galáxia...
- Foi à primeira coisa que pintei quando cheguei, eu nem tinha contado a ela que era estudante de artes, mas mesmo assim ela me pediu uma tela assim que desfiz as malas.
- Isso foi estranho, não acha?
- Foi o que pensei na época – disse ele – mas honestamente não ligo mais.
Sorri para Télos, talvez pensar um pouco menos fosse à chave para o meu problema.
- Qual o nome da tela?
- Não pensei em um até hoje, acredita nisso? – Télos sorriu – Já tinha desenhado o espaço antes, mas não daquele jeito, tão rápido e perfeito, foi como se pudesse segurar uma galáxia com as mãos...
- Talvez tenha sido excesso de inspiração – eu disse.
- Talvez – Télos repetiu. Seu cabelo estava preso em um coque baixo desajeitado, então eu o soltei. Gostava como o cabelo dele combinava com o tom azul de seus olhos, e de como mesmo estando sonolento por causa do trabalho ele nunca hesitava em ajudar alguém.
Acho que ele era o primeiro amigo de verdade de Sāmya desde que deixamos o orfanato e passamos a viver essa vida materialmente suficiente e emocionalmente turbulenta.
Apesar de ficar olhando para Télos por um tempo, muito tempo na verdade, ele parecia não se importar, e só desviou o olhar do meu quando recebeu uma mensagem no celular que deixou guardado no bolso da camisa.
- A garota foi embora – disse Télos – Denis quer saber onde estamos.
Puxei o tecido da calça que estava usando, como se os fios da roupa me prendessem ao chão. O enjôo voltou de repente.
- Você quer falar com ele? – Télos perguntou.
- Sim – respondi – é inevitável.
XXX
Télos só foi embora quando Denis nos encontrou perto da loja de conveniência que costumávamos frequentar quando queríamos comida rápida e barata. Estávamos a uma distância segura um do outro quando Denis substituiu Télos ao meu lado, que voltou para a república constantemente olhando para trás.
- Eu vi a foto dela – comecei a falar, pois seria mais fácil desse jeito. Denis só suspirou – de Arielle, por isso me assustei por ela ter aparecido de repente.
- O irmão dela tirou aquela foto antes de eu vir para cá – Denis tentou se explicar como se tivesse feito algo de errado - ela disse algo ruim, não disse?
- Nada que eu já não soubesse – respondi – e não adianta perguntar como eu sei, acho que sonhei com isso na noite passada.
Denis segurou minha mão. Não acho que ele acreditaria na minha explicação, mas pelo menos era verdadeira.
- Antes que eu diga qualquer coisa... – arrumei os óculos em seu rosto que caíam por seu nariz. Denis se desconcentrou e por um momento tudo pareceu ser como antes quando vi o seu sorriso, e ele me beijou no queixo enquanto passava a mão pelo meu cabelo, que devia estar bem desalinhado agora por causa do vento, me fazendo esquecer completamente a angústia que estava sentindo.
- Você vai embora, eu já sei.
- Mas não por que eu quero – disse Denis – aconteceu uma coisa com meu pai e eu preciso vê-lo.
"Um recado", pensei, então eu estava certa.
- Ele vai ficar bem – eu disse de repente, não com palavras que as pessoas usam na esperança de que tudo fique bem, mas com toda a certeza do mundo, como se pudesse ver o futuro.
Denis esboçou um sorriso, ele não acreditava em mim, apenas na minha gentileza.
- Quanto tempo vai ficar fora? – perguntei.
- Alguns dias, talvez algumas semanas.
- Semanas então – eu assenti, também tinha certeza do que tinha acabado de dizer.
Denis deve ter achado que eu estava brincando, ou talvez evitando o problema. Ele segurou minhas mãos perto do peito.
- Quanto a Arielle, ela é atrevida, mas também é apenas uma mensageira. Sabe que não costumo atender os telefonemas de casa, ela achou que me convenceria com mais facilidade falando comigo pessoalmente.
- Tudo bem – eu disse, mesmo sem saber por quê.
- Mas ela não significa nada, nunca tivemos nada...
- Denis... – tentei fazê-lo parar de falar, mas ele não me escutava. Dessa vez ele encostou o rosto em meu ombro para que ficássemos mais próximos.
- O que nós temos é verdadeiro, você não sente isso?
- Sinto – respondi, e então mais palavras vieram a minha mente sem que eu soubesse como – sinto que precisávamos nos encontrar agora, mas ao mesmo tempo...
Hesitei mesmo sabendo que não poderia. Denis era racional demais para acreditar em sonhos e pressentimentos.
- Ao mesmo tempo... – ele tentou me fazer falar.
- Não importa – suspirei, afastando-o – pois não faz sentido.
- Não faz sentido eu amar você?
Não consegui responder a sua declaração, e Denis foi paciente, ele me esperou, e tive a sensação de que ele esperaria por muito tempo se eu pedisse, mas fiz o contrário do que ele queria e pedi para ficar sozinha por mais alguns minutos antes de voltar para a república. Denis atendeu ao meu pedido, me beijando no rosto antes de ir.
Passei a observar a loja de conveniência nos momentos que estive sozinha, havia um casal na mesa do lado de fora, dividindo um sorvete e conversando tranquilamente sem prestar atenção nos outros ao seu redor.
- O que aconteceu com você? – a voz era feminina, e soou no meu lado esquerdo. Pertencia a uma garota de olhos escuros e brilhantes, mas sua aparição repentina não me assustou dessa vez, pelo contrário, fiquei feliz em vê-la.
- Estava me despedindo de alguém – respondi casualmente, como se falasse com uma velha amiga.
A garota assentiu, pareceu me entender mais rápido do que qualquer outro. Suas roupas eram comuns, jeans e uma jaqueta de couro marrom, mas o que me chamou a atenção, além do canivete que ela segurava e girava com habilidade entre os dedos, foi à tiara prateada em sua cabeça.
- Consegue lembrar o meu nome? – a garota perguntou.
Balancei a cabeça, me sentindo um pouco mal por isso, acho que ela era alguém que eu deveria me lembrar.
- Sinto muito – respondi – mas sei que você não mudou nada.
Seus lábios esboçaram um sorriso. Seu rosto era delicado, e seus olhos brilhantes pareciam sedutores, porém tristes e solitários.
- Então até a próxima vez – a garota disse ao levantar, guardando o canivete no bolso e desaparecendo na rua ao lado como fumaça.
Voltei a olhar para a loja de conveniência depois que a garota estranhamente familiar se foi, ainda interessada no casal que conversava no lado de fora.
- Dez, nove, oito...
A mulher se distraiu procurando alguma coisa na bolsa, enquanto isso o homem levou a mão ao coração.
- Três, dois, um...
O homem desmaiou assim que terminei a contagem. A mulher gritou por ajuda enquanto o atendente da loja de conveniência logo veio seu encontro, digitando o número da emergência no celular.
Inclinei a cabeça para o lado. Sabia que ele sofreu um ataque cardíaco e que passaria semanas no hospital, mas que depois voltaria para casa. De repente comecei a me sentir sonolenta e cansada, sem saber por que olhava para aquela cena de horror de maneira tão apática.
Estava na hora de voltar para a república, e enquanto Denis fazia as malas pegaria qualquer coisa que coubesse na mochila e correria para a casa de Yui, mesmo sem ter certeza de que ela me aceitaria alguns dias mais cedo.
N/A: Olá! Como é bom postar normalmente no sábado! Primeiro preciso dizer que não sigam o mesmo caminho da Sibyl com os remédios para dormir, tenho experiência com esses sintomas dela e é péssimo se sentir desse jeito, então, por favor, procurem ajuda e alguém que escute vocês.
Então pessoal, esse é oficialmente o capítulo mais longo dessa fanfic, já agradeço MUITO a quem chegou até aqui. Foi muito complicado, mas muito gratificante em escrever porque consegui juntar alguns ponto da fanfic 'Enquanto Lamentamos' com essa (meio que o título desse capítulo já é uma boa dica) e também por ter conseguido inserir uma personagem que criei na outra fanfic aqui, não direi o nome dela porque a Dafne ainda não lembrou, mas quem leu sabe quem é! É isso, a fanfic está chegando ao fim, será menor que 'Enquanto Lamentamos', já fiz toda a outline, e sim, esse foi a despedida do Denis (Dégel), sinceramente foi triste ter que descartá-lo agora porque na outra fanfic ele também teve momentos felizes, mas não conseguiu vivê-los até o fim, mas seja como for essa fanfic é da Dafne e do Defteros (acho que já posso dizer o nome dele agora porque acho que todo mundo já sabe) e eu amo muito esse casal. Olhando agora, perto do fim, acho que faria essa fanfic com menos personagens para poder explorá-los melhor, mas enfim, não posso voltar atrás agora. Mais uma vez obrigado a todos que estão acompanhando, amo muito escrever e vou continuar fazendo isso pra sempre! Até a semana que vem!
