N/A: Meu Deus não acredito que estou de fato postando hoje! O dia foi uma loucura, então finalizar esse capítulo foi uma vitória para mim. É isso, bem vindos ao segundo capítulo mais longo da fanfic! Aqui apresento alguns personagens novos, uma pena que não poderão aparecer mais, porém fiquei feliz de introduzi-los, foi interessante fazer o Asmita interagir com outras pessoas, e também tem umas referências de Enquanto Lamentamos, só quem leu vai entender haha!
Obs: O nome do perfil mudou! Perceberam? Está combinando com o meu novo Tumblr, passem lá pra me curtir!
[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]
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A Aranha e a Mosca
Sāmya
Antes de vir para cá fingir ser um estudante normal em um país diferente, tinha ido ao Santuário de Athena vigiar seus novos servos. Apolo não sabia desse meu plano e eu pretendi dizer a ele que tinha ido até lá para saber o que estava acontecendo em nome dele, mas é claro que os deuses sabiam tudo o que se passava em nossas cabeças, e em nosso coração.
Não me arrependi de ter ido embora do Santuário naquela época, nem de ter traído aquela que se chamava de Athena, se Sasha estivesse em seu lugar talvez as coisas tivessem sido diferentes, mas aquela garota nova, ela nunca inspirou lealdade de minha parte.
Mesmo assim, os cavaleiros dessa era me deixaram entrar no Santuário e me receberam como um irmão perdido. Eles conseguiram reconstruir e se esconder das novas tecnologias e desafios que essa era trazia, e se preparavam para o futuro, para a nova Guerra Santa e agora, graças ao meu aviso, para a cobiça dos outros deuses que ainda viam no Santuário uma oportunidade.
Quando comecei a me sentir a vontade demais naquele lugar cheio de lembranças soube que era à hora de ir embora. Já havia ignorado demais as chamas de Sibyl e precisava representar o meu papel de irmão mais velho. Agora os papeis haviam se invertido, pois dessa vez era ela quem queria distância de mim.
Meus pensamentos estavam longe demais quando o professor me fez uma pergunta, lembrando-me que ainda estava na faculdade enquanto tinha coisas mais importantes para fazer, mas consegui responder perfeitamente como sempre. Havia muito mais a aprender e discutir fora dessa sala de aula, mas não acho que ninguém aqui se dava conta disso, nem mesmo meu professor, que me olhava com ar de desdém já que eu nunca prestava atenção na aula, mas sempre acabava sendo o primeiro da turma.
Comecei a rir ao pensar nisso, o melhor da turma, o que isso significava? Para Sibyl, quase nada com relação a mim, já que segundo ela eu não a ajudaria no futuro com o que estava aprendendo aqui, ou fingindo aprender.
Apoiei o rosto em uma das mãos, mantendo os olhos abertos em respeito ao professor que palestrava sem dar espaço para as dúvidas dos alunos e qualquer tipo de discussão, o que por si só já era contrário aos princípios dos filósofos mais antigos da história humana. Eu odiava aquele lugar, odiava a sensação de superioridade de alguns e a necessidade de oprimir os outros, era um pesadelo, uma Guerra Santa sem sentido, por isso nada conseguia me distrair o suficiente, nem me fazer esquecer que minha irmã havia se afastado de mim.
Fazia duas semanas que Sibyl havia deixado a república, bom, pelo menos não oficialmente já que as coisas dela continuavam lá, o quarto fechado, as roupas limpas encima da cama, não tinha tido coragem de guardá-las ou de vasculhar suas gavetas a procura de repostas. Nem mesmo minhas mensagens podiam alcançá-la agora, pelo jeito nosso elo fraternal havia sido quebrado no momento em que a chamei de Dafne, e se não dei tanta importância a esse elo antes agora eu estava extremamente arrependido.
Assim que ela despertasse pediria desculpas, afinal não foi fácil nascer novamente.
- O que está desenhando? – a garota que sentava ao meu lado perguntou.
O nome dela era Luce, apenas 'Luce' de acordo com a mesma, e ela me irritava constantemente.
- Nada – respondi, ignorando o fato de que estava mesmo desenhando, acho que rabiscando seria um termo melhor.
O caderno a minha frente era apenas decorativo, Sibyl havia comprado para mim porque achava que eu não me importava com a faculdade, o que era verdade, mas eu conseguia acompanhar todas as aulas apenas como um bom ouvinte, sem falar que já tinha lido todos aqueles livros da biblioteca quando ainda morava com Apolo.
Senti um arrepio na espinha ao lembrar do deus. Ele ainda não havia se manifestado depois de Sibyl ter deixado a república, então só podia deduzir que foi ele o principal causador daquela confusão.
- Ele deve estar cansado de esperar – suspirei – tanto quanto eu.
- Vai continuar me ignorando? – Luce perguntou, percebi que ela me imitava, também com o rosto apoiado em uma das mãos.
- Não estou te ignorando – respondi – só não me importo com o que está dizendo.
Para a minha surpresa, Luce sorriu. Sua risada era gutural.
- Por que não está prestando atenção na aula? – perguntei. Talvez desse jeito ela me deixasse em paz.
- Vou te contar um segredo – disse Luce, como se quisesse chamar a minha atenção. Ela se aproximou e sussurrou em meu ouvido: - não gosto dessa aula.
- Que extraordinário – respondi. Agora os rabiscos em meu caderno tomavam a forma de uma árvore de galhos altos, devia ser a mesma que havia na propriedade Doron, onde Sibyl costumava subir para se esconder de mim quando éramos crianças. Ela ia até o topo e ficava de ponta cabeça para o desespero de nosso benfeitor.
Balancei a cabeça, não sei por que estava revivendo aquelas lembranças agora.
- Acho um absurdo como as filósofas são ignoradas, você não acha? – Luce continuava tagarelando - E não estou falando apenas das clássicas, mas das contemporâneas também, tem tanta coisa que podemos aprender com elas...
- Você tem razão – eu disse.
- É claro que tenho – Luce sorriu de novo, podia enxergar seu sorriso pelo canto do olho. Apesar de não nos darmos bem suas opiniões eram sempre pontuais.
Quando terminei de desenhar a árvore tive um sentimento nostálgico, eu não costumava me lembrar da minha nova infância com o mesmo carinho que Sibyl, ao contrário dela eu não tive uma segunda chance para nascer e crescer inocente, então o que era isso que estava sentindo agora?
- Você está com problemas?
Dessa vez olhei para Luce, que usava as roupas confortáveis habituais, jeans e uma blusa azul de alfaiataria que repetia toda semana, acho que devia ser sua favorita. A aula já havia acabado, alguns alunos conversavam enquanto outros saíam apressados. O cabelo dela era castanho e cacheado, rodeando seu rosto redondo quase que perfeitamente. Assim como as outras mulheres dessa época ela usava maquiagem, mas o tom dourado combinava no contraste com sua pele escura.
Como me demorei olhando para ela, percebi que Luce ficou ansiosa.
- Não é da sua conta – eu finalmente disse, fechando o caderno com raiva. Eu raramente me sentia assim.
- Ah, entendo, sua namorada deve ter te dado o fora.
Estava prestes a sair quando Luce disse aquele absurdo. Namorada? Que namorada?
- Ué – ela deve ter percebido minha confusão porque voltou a falar – achei que a garota do outro prédio era sua namorada.
Tentei lembrar as técnicas de respiração que utilizava no Santuário para não perder o controle quando Kardia e Manigold faziam alguma travessura, especialmente Kardia, já que sua casa ficava mais próxima. Mesmo assim, lembrar deles não foi uma boa ideia.
- Sibyl é minha irmã.
Peguei minhas coisas e deixei a sala antes que Luce continuasse a me perseguir com suas perguntas. Talvez não fosse necessariamente culpa dela, mas todos naquela manhã estavam me deixando irritados. Kyrios com suas teorias sobre o porquê de Denis ter partido e Télos com sua tremenda apatia com relação à Sibyl... Por que ele não ia atrás dela? Por que não resolvia o problema para mim? Não foi isso o que ele pediu a Athena? Uma nova vida, uma nova chance para ficar com ela...
Por que eu tinha que tecer os fios para que os dois ficassem juntos?
Meu celular tocou, o que coroava minha falta de sorte. Odiava aquele aparelho eletrônico e todo o resto, e quando vi o nome de Denis simplesmente joguei o telefone de volta na mochila. Ele estava ligando para mim constantemente, às vezes duas ou três vezes no mesmo dia, o que significava que Sibyl também não estava falando com ele.
"Eu lhe disse que poderia ficar com ela ao se render a Apolo", pensei, lembrando de nossa última conversa, num período que parecia bem distante agora. "Mas você não me ouviu, então morra sozinho de novo".
Depois de meses finalmente conseguia me movimentar pelo campus da faculdade sem um mapa, então consegui achar a sala de ensaios dos alunos de teatro com facilidade, e a garota que eu queria ver estava lá, parada em frente à janela, discretamente fingindo que olhava o pôster da nova peça em produção enquanto filmava secretamente o ensaio com o celular.
- Yui.
- Sāmya! – ela exclamou, assustada em me ver, depois se abaixou e me fez fazer o mesmo.
- Não precisa se esconder – eu disse – Kyrios sabe que está aqui.
- Ele sabe? – o rosto de Yui ficou vermelho, percebi que seu cabelo estava um pouco mais longo desde a última vez que a vi, e agora havia mechas louras nas pontas que antes costumavam ser escuras.
- Sibyl está por aqui? – perguntei. Não tinha tido coragem de ir ao encontro dela sozinho, pois da última vez que fiz isso ela me ignorou completamente.
- Ela já foi para casa – Yui engoliu em seco – para a minha casa.
- É claro que foi – suspirei.
Yui me soltou, então me encostei na parede enquanto ouvíamos a voz de Kyrios ecoar pela janela. Ele tinha mesmo talento, o que justificava seus fãs, o que era irônico para alguém que tinha feito tanta gente sofrer no passado, inclusive o próprio irmão.
- Estou preocupada com ela – disse Yui, ela usava um macacão rosa, nada discreto para quem estava espionando alguém – por isso deixei que ela ficasse os fins de semana lá em casa, não posso mandá-la embora daquele jeito.
- Ela está muito mal? – perguntei.
Pela expressão de Yui, deduzi que sim. Sibyl passava os fins de semana com ela, mas o resto dos dias não voltava para a república, então imaginei que ela estivesse em algum hotel ou quarto alugado. Tentei segui-la nos primeiros dias, mas Sibyl sempre me achava e fugia.
Ela sequer parava para discutir comigo, e isso era o que me deixava mais magoado.
- Posso jantar na sua casa hoje?
- É claro que pode – disse Yui – eu ia chamar vocês para jantar algum dia, inclusive Denis, mas...
- Ela não quer ouvir o nome dele, não é?
Yui assentiu. Sempre tive sensações boas estando perto dela e gostava que ela e Sibyl fossem tão próximas, então, vendo-a preocupada com a minha irmã me deixou um pouco mais calmo.
- Ela fica muito no telefone quando está sozinha – disse Yui – achei que estivesse falando com Denis, mas como ela não reage bem quando cito o nome dele imaginei que fosse com você, mas agora você está aqui me fazendo perguntas, então...
Yui parou, pensativa. Eu fiz o mesmo.
- Estarei na sua casa as sete, tudo bem?
- Claro – Yui sorriu, parecendo mais animada, às vezes ela me lembrava um coelho – vou te mandar o endereço.
- Mais uma coisa... – eu disse quando ela estava prestes a levantar para voltar a gravar o ensaio de Kyrios – Por acaso você notou algo de diferente em Sibyl?
A garota piscou, como se não estivesse entendendo.
- Ela está com o coração partido, Sāmya, só isso.
- Hum, está certo – eu disse, um pouco aliviado. Sibyl estava agindo como ela mesma então, não como Dafne, pelo menos na frente de Yui – obrigada por cuidar dela.
- Tudo bem – Yui deu tapinhas no meu ombro – te vejo a noite.
Deixei que ela voltasse a se concentrar em Kyrios, seria melhor que ele ficasse focado em seus afazeres enquanto tentava esclarecer as coisas com Sibyl. Ele não podia interferir de novo no destino dela.
Sem ter muitas pessoas a quem recorrer acabei indo até o café de Télos, que estava sendo um prometido muito questionável para a minha irmã. Honestamente se eu estivesse em seu lugar não acho que gostaria de ter renascido sem me lembrar de nada, especialmente de quem amava, isso dificultava as coisas, mas talvez o verdadeiro culpado nessa história fosse Denis, que mais uma vez se intrometeu aonde não devia.
- Eu realmente odeio as pessoas – sussurrei antes de entrar no café.
Télos estava no balcão como sempre, fazendo a limpeza.
- Ei, Sāmya! – ele me cumprimentou com um sorriso.
Ocupei um dos bancos que ficava de frente para o balcão para que pudéssemos conversar melhor, bloqueando a visão de um grupo de garotas que ainda o confundia com Kyrios.
- Não devia estar sorrindo, sabia? – respondi.
Minha expressão fechada deve ter desencorajado Télos, que parou de sorrir no mesmo instante.
- Aconteceu alguma coisa?
- Mas é claro que aconteceu, Télos! – respondi, minha voz soou um pouco alta, então tentei me controlar antes que Jamie, que estava limpando a máquina de café, acabasse me expulsando – Minha irmã não volta para casa há duas semanas enquanto você está aqui.
- Mas eu trabalho aqui – Télos disse.
Revirei os olhos. Por que ele teve que renascer tão puro?
- Quanto mais eu tenho que me humilhar antes de voltar para o céu? – perguntei a mim mesmo. Talvez Apolo me respondesse pela primeira vez, o que, é claro, não aconteceu, nem mesmo após tantos anos de serviço.
Então só me restava respirar fundo e pensar em algo.
- Sibyl só precisa de tempo – disse Télos. Não entendia como ele podia estar tão calmo e confiante.
- Estou indo jantar na casa da Yui hoje para tentar trazê-la de volta – eu disse – venha comigo.
- Mas eu não posso.
- Não foi um convite, mas uma ordem.
- Mas... Mas eu realmente não posso – Télos tentou se explicar, o lado esquerdo de seu cabelo tentava se livrar do boné que ele usava para esconder, caindo aos poucos sobre seu rosto – tenho que ir a uma exposição hoje.
- Uma exposição é mais importante para você do que a vida da minha irmã? – fui bem direto em perguntar e acho que deixei Télos assustado.
Suspirei, sentindo-me frustrado e contrariado, as lembranças de minha infância com Sibyl ainda me importunavam. Não estava acostumado a me sentir assim.
- Um jantar? – aquela voz me pareceu familiar, familiar demais. – Posso ir no lugar dele?
- Pelos deuses, Luce! – eu disse ao olhar para a garota que estudava comigo.
- O que foi? – ela respondeu – Sou cliente daqui.
Olhei para Télos esperando uma confirmação. Luce entregava um cartão a ele.
- Sim, ela está falando a verdade – ele respondeu, carimbando o cartão e o devolvendo a Luce, que bebia um café gelado – obrigada pela preferência.
- De nada – Luce respondeu. Ela se sentou no banco ao meu lado e colocou o café no balcão. Télos se afastou um pouco para nos dar privacidade, o que me fez revirar os olhos – então que jantar é esse?
Primeiro pensei em evitar responder, mas acabei cedendo.
- Um jantar na casa da amiga da minha irmã.
- Ah, e você está com medo de ir sozinho?
- Não estou com medo! – respondi – Talvez um pouco... Só quero que minha irmã volte para casa, se é que podemos chamar uma república de casa.
Luce assentiu, pela primeira vez ela não me olhou do jeito brincalhão de sempre, mas com compaixão.
- Então Sāmya Doron também tem problemas...
- Esse sobrenome não quer dizer nada – respondi – não para mim.
- Então vamos trocar – Luce pegou alguns guardanapos, havia derramado um pouco do café no jeans que estava usando – queria seus problemas, mas pelo menos teria dinheiro.
Luce me encarou por um momento, então acabamos gargalhando.
- Ainda está muito cedo para um jantar – disse Luce, olhando para o relógio de aparência antiga em seu pulso esquerdo, por um momento quis perguntar sobre ele, já que tudo nela parecia ter uma história por trás, mas acabei ficando quieto – por que não passamos o tempo aqui?
- Você ainda não almoçou – ouvi Télos dizer – nunca come direito quando Sibyl não está por perto.
- Então é isso – Luce uniu as mãos – precisamos de comida.
Ela e Télos começaram a falar sobre o cardápio, foi quando me dei conta de que estava de fato com fome, desejando romãs.
XXX
- Acho que devíamos ter trazido algo – disse Luce.
Estávamos na porta do apartamento que Yui morava com os pais, não era tão longe do café de Télos.
- Por quê? – perguntei, olhando para ela.
- Me sinto estranha chegando sem nada – ela conferiu todos os botões da blusa que estava usando, como se eles pudessem saltar sem a sua permissão - além disso não fui oficialmente convidada.
- Não pode ficar nervosa agora, foi você quem quis vir.
Toquei a campainha e logo ouvi passos do lado de dentro do apartamento.
- Além do cara do café você não tem muitos amigos, não é?
- O homem solitário é uma besta ou um deus – respondi, citando Aristóteles.
- Te acho um pouco besta, então.
- Esse não é o sentido... Quer saber, esquece.
Foi o irmão mais novo de Yui quem nos atendeu, eles compartilhavam o mesmo cabelo escuro e o rosto de coelho.
- É você quem vai levar a Sibyl embora? – o garoto perguntou. Sua cabeça devia bater em meu peito e eu não entendia por que ele me olhava com tanta fúria.
- LEE! – Yui logo apareceu na porta, tirando o irmão da frente – Já disse para não intimidar as visitas!
Ela se recompôs por um momento, então sorriu para nós.
- Sejam bem vindos! – ela olhou para Luce, surpresa - Peço desculpas pelo meu irmão, geralmente meus pais o levam nas viagens, mas ele ficou conosco hoje.
Yui finalmente nos deixou entrar e nos indicou aonde deixar os sapatos e as mochilas.
- Obrigada – eu disse – trouxe uma amiga, se não for um incômodo.
Acho que amiga era o termo apropriado para Luce. Ela olhou para mim e fez um sinal positivo com as mãos.
- Não é incômodo nenhum – Yui respondeu – na verdade Sibyl disse que você viria acompanhado.
- Ela disse isso?
Yui assentiu. Acho que nem ela nem Luce notaram o quanto fiquei nervoso naquela hora. Minha irmã estava mesmo voltando.
O apartamento era relativamente confortável para uma família de quatro pessoas. A sala tinha janelas largas com vista para o parque que ficava perto daqui, os móveis seguiam a paleta de cores sóbrias, com um grande retrato da família na parede, perto da televisão.
- Ainda estamos terminando de cozinhar – disse Yui, ela usava um moletom laranja e o cabelo estava preso – Lee vai fazer companhia para vocês.
- Não vou fazer não – disse o garoto, sentado no sofá lendo mangá, tentando nos ignorar.
- Posso ajudar em alguma coisa, se quiser – disse Luce.
- Não precisa! – Yui sorriu – Podem ficar a vontade, não é, Lee?
- Já disse que não – o garoto repetiu.
Yui suspirou e nos deixou a sós na sala, e Luce correu para o lado do garoto para saber o que ele estava lendo. Não consegui me sentar ou ficar parado, podia sentir o cheiro da comida vindo da cozinha e sabia que Sibyl estava lá, será que ela não queria mesmo falar comigo?
- Então você também não gosta desse cara? – Luce perguntou ao garoto.
- Se ele for levar Sibyl embora, então não.
"Como as pessoas ainda tinham filhos hoje em dia?", pensei. Mal o conhecia e já estava desapontado.
- Sāmya?
Sibyl havia entrado na sala assim que me virei, e quando percebi já estava abraçando-a.
- Não precisa me abraçar desse jeito – Sibyl disse, ela nem se mexeu, nem mesmo para me abraçar de volta – sei que não gosta dessas "demonstrações de afeto".
Ela fez as aspas com as mãos bem na frente da minha cabeça.
- Mudei de opinião – respondi, ainda com os braços envolta dela. Queria pedir perdão, mas não estávamos sozinhos.
- Essa deve ser sua amiga – Sibyl me afastou para poder cumprimentar Luce, que logo ficou de pé – a comida está quase pronta, tivemos que fazer dois pratos já que Sāmya não come carne.
Luce respondeu alguma coisa, mas não ouvi, e o garoto deve ter lançado outro comentário ácido sobre mim, mas também não ouvi.
- Podemos conversar um pouco antes do jantar? – Sibyl perguntou.
Assenti na mesma hora. Olhei para trás antes de seguir pelo corredor e vi quando Luce fez outro sinal positivo para mim, eu não sabia o que ela estava pensando.
O quarto de Yui era exatamente como ela, vibrante e alegre, com vários CDs e um pôster enorme de Kyrios atrás da porta.
- Não acredito que está dormindo com isso aqui.
- Eu sei! – Sibyl sorriu – É estranho, mas Yui diz que a acalma quando não consegue dormir.
- Ela realmente não mora com Kyrios.
O sorriso de Sibyl murchou, ela se sentou na cama de Yui e eu afastei algumas almofadas para fazer o mesmo.
Na república ela tinha bochechas cheias e olhos alegres, mas agora parecia ter emagrecido, algo que não conseguia esconder nem com a camisa xadrez que usava por cima do conjunto preto, e seus olhos tinham uma aparência cinza, como os de um fantasma.
- Como está todo mundo?
- Télos está bem – respondi – Kyrios continua nos ensaios... Denis me liga todos os dias pra saber de você, mas eu não falo com ele.
- Ele também me liga – disse Sibyl – mas não me sinto bem em responder.
Ficamos em silêncio por um tempo, com Sibyl desviando o olhar do meu a cada dois segundos.
- Não está aqui só por causa de Denis, não é? – finalmente tomei coragem para perguntar. Queria evitar que ela saísse correndo como da outra vez, quando a chamei de Dafne, mas a porta do quarto estava fechada.
Sibyl cruzou os braços, parecendo mais séria, apesar das roupas mais atuais, ela me lembrou muito a pítia que conheci no vilarejo perto do Santuário.
- Está esperando que eu diga algo estranho, não é?
- Não – engoli em seco – claro que não.
- Eu conheço você, Sāmya, desde o dia que nosso pai nos apresentou, estávamos em orfanatos diferentes, mas mesmo assim fomos adotados no mesmo dia... E você está com o mesmo olhar de quando me viu pela primeira vez.
Não respondi aquela afirmação. Na verdade não me lembrava muito de como agi naquele dia, apenas da minha apatia com relação a tudo. Sibyl se aproximou de mim, as mãos recolhendo meu cabelo preso em um rabo de cavalo baixo.
- Você era o estranho naquela época, sabia disso? Uma criança que não sorria, que não falava com ninguém, até se recusava a brincar comigo mesmo eu sendo sua única amiga.
Meu cabelo havia crescido desde que cheguei à república e não voltei a cortá-lo. Sibyl o penteava com a ponta dos dedos com certa satisfação.
- Queria que fôssemos irmãos de sangue para entendê-lo melhor – Sibyl suspirou – mas acho que isso é impossível.
Quando terminou de trançar meu cabelo, que ainda precisavam de muito mais tempo para ficar do mesmo tamanho de quando vivia no Santuário, as lágrimas já escorriam por seu queixo. Queria ter dito algo, que isso era apenas temporário e que logo acabaria, que ela não precisava se culpar por nada.
Eu havia escolhido esse caminho e fui designado a cuidar dela, mas estava fazendo um péssimo trabalho, por isso ela estava sofrendo.
- A república me faz ter sonhos ruins, por isso corri pra cá, não tenho esses sonhos quando estou com Yui, quando pareço uma garota normal.
A camisa xadrez de Sibyl não tinha mangas longas, apenas o suficiente para cobrir o sinal que ela tinha no braço. Suspirei ao levantar sua manga direita, a marca de Denis ainda estava lá, ou melhor, a marca que Dégel deixou nela antes de morrer, feita com seu próprio sangue. Talvez por isso ele tenha conseguido chegar até aqui.
Enquanto Sibyl estivesse com ela, ele continuaria voltando até terem a chance de viver o que ele buscava.
Sibyl afastou minha mão e cobriu a marca numa mistura de vergonha e medo. Acho que parte daquilo era culpa minha, nessa vida por tê-la incentivado a esconder aquilo, e na outra por ter contribuído diretamente para a morte de Dégel.
"Pode me punir", mandei uma mensagem a Apolo, "a culpa é minha, estou entendendo agora".
Pelo olhar de Sibyl acho que ela se lembrava mais do que estava me contando, mas decidi deixar que ela me contasse aos poucos, pois não queria que ela reagisse de maneira negativa mais uma vez.
Estendi os braços para que minha irmã encontrasse conforto em meu peito, deixando-a chorar mais um pouco. Seria melhor assim, que ela se livrasse de todo ressentimento que guardava em seu coração e seguisse em frente, com todas as memórias ou não.
- Ainda não entendo uma coisa – Sibyl disse quando parou de chorar, ainda apoiada em mim. Ouvíamos vozes vindo da sala, acho que a comida estava pronta.
- O que foi? – eu disse - Pode me contar.
- Télos... – disse Sibyl – Por que me sinto diferente perto dele?
- Como se sente exatamente? – perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
- Me sinto bem, me sinto segura.
Tentei segurar o sorriso, mas foi impossível, e quando dei por mim já estava gargalhando, mas do jeito mais sutil que pude. Agora eu entendia tudo, por que Télos parecia tão bem mesmo com Sibyl longe.
- Você tem falado com ele, não tem?
Ela assentiu, limpando o rosto depois de manchar minha camisa.
- Acho que é o destino – dei de ombros, não podia falar mais do que isso – é difícil de explicar.
Sibyl assentiu, dando tapinhas nas minhas mãos, que agora já estavam em seus ombros, aceitando aquela explicação pífia melhor do que eu imaginei.
- Vamos jantar – ela disse – fiz suco de romã para você.
XXX
A comida estava boa, deliciosa. Berinjelas recheadas ao forno se tornaram meu novo prato favorito, mas talvez tenha sido apenas porque foi à primeira refeição que tive depois de me reconciliar com a minha irmã. Não tive coragem de pedir perdão a Sibyl, mas porque ainda não era o momento, quanto mais eu falasse sobre o passado mais ela se distanciaria do presente. Talvez essa crise fosse um sinal de que eu precisava viver um pouco mais como Sāmya, esquecendo Asmita até que fosse possível retornar.
Do mesmo jeito que Dafne estava fazendo.
- Então – Luce andava ao meu lado quando deixamos o apartamento, eu me ofereci a levá-la até em casa, mas ela disse que acompanhá-la até o ponto de ônibus era o suficiente para uma noite – sua irmã está melhor?
- Sim – respondi. Ela teve a chance de conversar com Sibyl durante o jantar e as duas acabaram se dando bem – ela voltará para casa na segunda.
- Então a república passou a ser a sua casa?
- Muito engraçado – respondi com um sorriso, mas aquilo serviu para me fazer refletir um pouco – acho que agora aprendi que minha casa é onde minha irmã estiver.
- Você parece ser um bom irmão – disse Luce, ela apertava a alça de sua bolsa com uma força exagerada – deve ser difícil conviver com uma pessoa no estado dela, mas não devia desistir tão fácil.
- No estado dela?
- Ela me parece ser alguém que está sofrendo, ansiedade, talvez? Desculpe se entendi errado...
- Tudo bem – eu disse, seria melhor que ela pensasse desse jeito.
Estávamos andando devagar, acho que levaríamos a noite toda para chegar a algum lugar desse jeito.
- Como classificaria esse dia que passou comigo? – Luce perguntou – Aposto que não sou tão chata quanto pensava.
- De jeito nenhum – respondi – foi interessante.
- Interessante? – Luce me encarou um pouco espantada – Isso é um elogio?
- Ainda não sei.
A garota sorriu. Ela sorria muito quando estava comigo, foi algo que percebi, mesmo quando eu me recusava a falar com ela ainda na sala de aula.
Luce tentou segurar minha mão, mas eu as escondi rapidamente nos bolsos.
