[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


15

Linha do Tempo

Kyrios

- Télos? – eu batia na porta do banheiro enquanto o chamava – Já está pronto?

Eram cinco da manhã e precisávamos estar na estrada em até dez minutos se quiséssemos fugir do trânsito. Como meu irmão não me respondeu fui novamente checar as janelas dos quartos e buscar a última pessoa que faltava.

- Não pode entrar aqui sem bater! – Sibyl disse.

"Como se eu quisesse ver algo mais assustador", pensei, encarando sem intenção a mancha em seu braço direito. Por mais que Télos tentasse me convencer de que era uma marca de nascença e que eu não devia falar nada, aquilo não devia ser natural.

- Tarde demais – respondi. Fui até a janela, ela havia trancado do jeito que ensinei. Na verdade, Sibyl devia me agradecer por eu ter mantido seu quarto em segurança no tempo em que ela esteve fora, já que seu irmão parecia um vira lata perdido e Télos fingia não saber de nada – não quero que a senhora Talia nos responsabilize por qualquer invasão.

- Ninguém vai invadir – Sibyl resmungou. Ela colocou as últimas peças de roupa na mochila, um carregador e pegou o maior fone de ouvido que conseguiu encontrar, daqueles que cobriam as orelhas e ficavam apoiados na cabeça.

- Você não pode prever isso – peguei o casaco que ela havia esquecido na cama e joguei em sua cabeça - agora vamos.

Sibyl olhou para mim como se estivesse me desafiando. Ela estava diferente desde que voltou a ficar permanentemente na república, menos sorridente e prestativa, mas especialmente mais atenta ao que eu fazia. Não queria admitir, mas se antes ela me intrigava agora seu olhar me dava calafrios.

Ela não gostava que eu chegasse muito perto ou que tocasse nela, então segurei a porta e esperei que ela saísse do quarto primeiro.

Não precisei apressar Sāmya, ele já estava pronto no sofá desde as quatro da manhã, com a aparência muito melhor que a minha, como se a manhã não o afetasse. Sibyl jogou a mochila no sofá e encostou a cabeça em seu ombro. Enquanto ele usava tons de bege, ela havia escolhido um short jeans e uma blusa preta, do mesmo tom do tênis. O sinal estranho e avermelhado em seu braço direito, que agora ela se recusava a esconder, ainda me assustava, mais uma vez tentei não encarar muito.

Olhei para o relógio, Télos ainda estava no banheiro. Já estávamos atrasados.

- Télos! – gritei – Se não sair do banheiro agora vamos sem você!

- Já estou pronto! – ele abriu a porta. Pude sentir o cheiro de rosas que ele havia se esforçado em deixar para trás.

- Então vamos! – tirei Sāmya do sofá, que levava uma sonolenta Sibyl pela mão.

- Não acredito que está tão animado para ir para casa – Télos disse enquanto fechava a república. Ele havia ficado mais atrevido agora que havia parado de servir mesas – é a primeira vez que te vejo assim.

- Não se acostume – respondi, arrastando uma das malas para fora, ainda nem havíamos chegado aos degraus, mas já estava com dificuldades – precisa mesmo de todo esse material de pintura?

- A mamãe gosta que eu pinte alguma coisa quando vou lá, então prefiro levar as tintas que gosto.

- "A mamãe" – zombei do seu jeito de falar. Além das tintas ele ainda havia empacotado dezenas de telas vazias – já não está desenhando demais? Não é isso o que tem feito no porão essas semanas?

- Aquilo é para a faculdade – Télos respondeu, enquanto me ajudava com as malas – e é um estúdio, a senhora Talia é muito gentil em me deixar usar sem pagar aluguel.

- Claro... – revirei os olhos. Falar com Télos sobre isso era perda de tempo, mas era verdade que ele estava passando mais tempo no estúdio que ficava no subsolo do que na república.

Descemos em silêncio para não acordarmos a senhora Talia, que já nos havia desejado uma boa viagem no dia anterior. Enquanto atravessávamos o jardim vimos Sibyl encostada no carro que alugamos, ela havia se agasalhado com o casaco esportivo que havia jogado em seu rosto e nem me agradeceu por lembrá-la que fazia frio de madrugada.

- O quão distante é a casa de vocês? – Sāmya perguntou. Sua mochila era ainda menor que a de Sibyl, mas não me lembro de vê-lo trocar muito de roupa.

- É como uma viagem a Mordor – respondi, analisando a bagagem de todos. Pelo jeito a nossa era a única que precisava ir no porta malas.

- Não exagere – disse Télos, um pouco ofendido. Ele também colocou sua mochila ao lado da nossa bagagem.

- Vamos entrar – disse Sibyl, esfregando os braços – está muito frio aqui fora.

- Talvez se estivesse usando algo mais quente...

- Vamos entrar logo! – Télos destravou o carro antes que eu pudesse terminar a frase.

Ele tinha se oferecido para dirigir, então ocupei o banco do carona. Sibyl e Sāmya se acomodaram no banco de trás. Ela colocou os fones de ouvido logo após regular o cinto de segurança, parecendo desinteressada e irritada. Percebi que Télos ficou um pouco decepcionado.

- Se não se importam, vou meditar um pouco até lá – Sāmya disse, fechando os olhos no mesmo instante.

Télos e eu nos entreolhamos, não era assim que imaginamos uma viagem de carro, mas o que poderíamos fazer? Ligamos o rádio baixo e tentamos nos distrair com as notícias matinais.

Meu telefone tocou assim que Télos deu a partida, era Selena, havia comentado com ela que iria visitar meus pais e ela havia insistido em vir junto, mas consegui fugir.

- Vamos, depressa – eu disse.

Realmente não havia nada melhor do que um bom feriado.

XXX

A viagem só ficou interessante quando deixamos os prédios para trás e a paisagem começou a mudar, dando lugar a montes cada vez mais verdes. Às vezes avistávamos algumas casas entre eles, mas nada além disso. Até o trânsito era inexistente nessa região, pois a maioria das pessoas preferia passar o feriado em lugares mais interessantes, como praias e lugares mais turísticos, não em uma plantação.

- Está bem mesmo para dirigir? – perguntei a Télos depois que vimos à quinta criação de gado pastando.

Ele estava trabalhando até mais tarde ultimamente, depois se trancava no estúdio para pintar. O semestre estava chegando ao fim e ele estava mesmo se esforçando.

- Não precisa se preocupar, irmãozinho – Télos respondeu.

- Então além de arrogante o novo trabalho está te deixando brincalhão demais.

- Não estou arrogante! – ele retrucou, depois sorriu – Só é divertido estar em um lugar que posso fazer o que gosto.

Assenti, fingindo me importar. Eu não devia ter subestimado a garçonete gótica, ela tinha mesmo bons contatos.

- Não está mais tendo pesadelos? – perguntei – Sinto falta dos seus gritos.

- Não sente não – disse Télos, com razão – eles se transformaram em sonhos bons.

- Como assim?

- Não sei explicar – Télos deu de ombros, depois olhou rapidamente o retrovisor – estou dormindo melhor.

Ele tentou ser sutil, mas era óbvio que tinha olhado para Sibyl. Como não tinha o costume de ser delicado olhei para trás de uma vez, ela cochilava enquanto Sāmya nem se mexia a medida que o carro fazia curvas.

- Acha que nossos pais gostarão deles? – Télos perguntou, senti um tom de preocupação em sua voz.

- Eles gostam de todo mundo – respondi.

Télos sorriu, pois eu não havia mentido.

Fizemos uma parada rápida em um posto de gasolina antes de continuarmos. O banheiro era decente e a comida da loja de conveniência era boa, praticamente um oásis.

Mesmo não tendo tomado café da manhã Sibyl parecia muito indecisa sobre o que comer, mas todos acabamos comendo sanduíches, que era o melhor que aquele lugar podia oferecer.

- Quando chegarmos na fazenda poderemos comer mais – disse Télos, ele havia se abaixado um pouco para ficar da altura de Sibyl, observando-a enquanto ela comia.

- Não é bem uma fazenda – eu disse.

- Gosto desse lugar – disse Sāmya, seu sanduíche era feito de pão integral, folhas e tomates. Ao contrário de Sibyl ele conseguiu se alimentar antes de sairmos, então não estava tão faminto.

Sibyl pegou um guardanapo na mesa que ocupávamos e limpou os cantos da boca de Sāmya quando ele terminou, enquanto Télos observava silenciosamente desejando trocar de lugar com ele.

Estava prestes a postar uma foto da paisagem quando deixamos o posto de gasolina quando lembrei que não podia adicionar minha localização, senão Selena acabaria me encontrando, então guardei o telefone e resolvi esquecer das redes sociais até voltar para a república.

Não faltava muito agora até chegarmos em casa, talvez umas duas horas no máximo. Télos tomou duas xícaras de café enquanto estávamos no posto e não parecia querer deixar o volante, então o deixei dirigir um pouco mais enquanto Sāmya voltava a sua meditação e Sibyl recolocava os fones de ouvido, mas dessa vez ela não parecia mais tão sonolenta.

Depois de um tempo, ela foi para o lado do irmão e o mostrou alguma coisa no celular. Sem trocar uma palavra, eles pareciam se comunicar por telepatia, e nem eram irmãos de sangue.

Olhei para Télos, que estava ao volante, éramos iguais, pelo menos na aparência, mas além dessa característica extremamente específica, o que tínhamos em comum?

- Alguma coisa errada? – Télos perguntou, é claro que ele estava falando comigo.

- Olhos na estrada – respondi, fazendo-o se acomodar melhor no assento no mesmo instante.

Ele estava olhando demais para o retrovisor, para Sibyl, de novo.

Isso era muito cansativo.

- Quero chegar em casa hoje – eu disse – vivo.

- Está se referindo ao lugar em que crescemos como casa – Télos sorriu – já é um progresso.

Suspirei alto em protesto, mas pelo menos serviu para que Télos parasse de espiar nossos convidados. Não era como se Sibyl fosse desaparecer do carro se ele não olhasse para ela a cada dois segundos, e eu nem cheguei a falar sobre Denis. Já fazia semanas que ele estava longe e não sabia se eles tinham terminado oficialmente ou não.

Télos era um idiota, mas era meu irmão e só eu podia bater nele ou apontar seus defeitos.

Quando olhei para trás novamente vi que Sāmya voltou a fechar os olhos, ignorando tudo e todos ao seu redor com sua meditação, enquanto Sibyl abriu uma das janelas do quarto para ver melhor a paisagem.

- Se eu não posso olhar para ela você também não pode – Télos protestou.

Balancei a cabeça e rebaixei um pouco o banco do carona para tirar um cochilo. Finalmente Télos estava crescendo.

XXX

Sabia que estávamos no fim do mundo quando vi a escola em que estudei. Um grande prédio retangular de cor laranja. À medida que seguíamos pela estrada ainda pude ver a quadra de esportes que ficava nos fundos do terreno, me diverti muito ali.

- Já estamos chegando? – Siybl finalmente tirou os fones de ouvido. Ela esfregou os olhos e alongou os braços um pouco.

- Nossa casa fica bem ali – apontei para um desvio onde as plantações davam lugar a casas – bem no fim da rua.

Télos diminuiu um pouco a velocidade, pois a rua geralmente era tranquila com várias crianças brincando, mas dessa vez não encontramos ninguém. Passamos por nossos vizinhos, que também deviam ter sido vizinhos de nossos avós, até entrarmos na próxima esquina e acharmos um portão de madeira rodeado de árvores e trepadeiras com flores amarelas.

- Chegamos! – Télos disse enquanto estacionava, sua animação não era nada contagiante para mim, mas pelo menos serviu para acordar Sāmya.

Mal descemos do carro e nossos pais abriram o portão, Télos já estava se jogando nos braços deles antes que eu pudesse cumprimentá-los.

- Estava com tanta saudade! – ele disse, ainda com os braços em volta de nossa mãe.

- Nós também – ela respondeu, afagando suas costas – mas também preciso dar atenção ao outro...

- Como vai, mãe? – eu finalmente sorri, por mais que não gostasse muito dessa cidadezinha eu gostava de ver os meus pais, em curtos períodos ao longo dos anos é claro.

Abracei minha mãe enquanto Télos conversava alguma coisa com nosso pai, provavelmente se tínhamos morangos frescos nessa época do ano. Foi quando me lembrei que não estávamos sozinhos e que tínhamos trazido convidados.

- Ah – tentei fazer minha mãe parar de tentar pentear meu cabelo – esses são Sibyl e Sāmya.

Apontei para a dupla que parecia desconfortável perto do carro. Sāmya nos olhava com estranheza enquanto Sibyl segurava seu braço, até que forçou um sorriso e os cumprimentou com um aceno de cabeça.

- Obrigada por nos deixarem vir.

- Não precisa ser tão formal – minha mãe me soltou e pegou Sibyl e Sāmya pelas mãos, levando-os para dentro – devem estar cansados, todos vocês, vamos entrar.

XXX

Depois de uma bela refeição oferecida pela família Amyntas, recheada de pães, carne, leite e morangos, que na minha opinião não deixaria nada a desejar perto da fartura e riqueza da família Doron, meu pai levou Sibyl e Sāmya até seus quartos. Eles haviam ampliado a casa com o passar dos anos, graças à venda dos morangos e com o dinheiro que Télos e eu mandávamos para casa. Minha mãe sonhava com muitos netos então achava que precisava ter muitos quartos.

Télos e eu ficaríamos em quartos vizinhos, Sibyl e Sāmya ficariam no fim do corredor. Todos dividiríamos um único banheiro e já estava antecipando o estresse que isso causaria.

Não sei o que os outros fizeram depois do café da manhã, mas acabei desmaiando em minha antiga cama, sem nem olhar direito para o quarto em que passei toda a minha infância e adolescência. Ao contrário de Télos nunca tive pesadelos ou sonhos estranhos, a não ser quando e aventurei pelas plantações quando era criança e acabei sonhando que era perseguido por um morango gigante que queria me devorar, mas fora isso sempre tive um sono normal.

Mas é claro que isso mudaria hoje.

Estava chorando quando acordei, e não sabia o motivo. Me livrei do casaco e da camisa que estava usando e limpei o rosto. Não me lembrava de quase nada do que tinha sonhado, apenas de uma coisa, de uma pessoa.

Tentei não encarar Sibyl na hora do almoço, já bastava Télos praticamente alimentando-a com pedaços de carne milimetricamente cortados.

Do outro lado da mesa meu pai perguntava a Sāmya o porquê de ele não comer carne.

- É uma filosofia de vida – Sāmya respondeu – não acho certo a derrubada de florestas para o pasto e...

Parei de ouvir quando a explicação ficou chata demais, o que foi difícil já que Sāmya estava bem perto de mim.

- Isso foi uma queimadura?

Quase engasguei com a comida quando minha mãe perguntou a Sibyl sobre a marca em seu braço direito. Não pude culpá-la, a marca estava bem visível aos seus olhos e minha mãe não tinha fama de ser muito discreta.

- É um sinal – Sibyl respondeu, não parecendo se incomodar – só isso.

- Será de família? – minha mãe continuou, e Télos e eu trocamos olhares de alerta.

Alguém precisava dizer alguma coisa, mas não seria eu.

- Não sabemos - foi Sāmya quem tomou a frente, acho que tinha se livrado da conversa sobre ser vegetariano – afinal somos adotados.

Silêncio. Um desconfortável e barulhento silêncio tomou conta da mesa. Minha mãe ficou pálida, seus olhos azuis, iguais aos meus, fitaram a mesa, envergonhados.

- Mas está tudo bem – Sibyl disse, ela olhou para Sāmya como que indicasse que estava tudo bem – a senhora não sabia.

- Mesmo assim... – minha mãe colocou o cabelo curto por trás da orelha, não sabíamos de onde vinha o tom azulado que cobria a cabeleira de Télos e a minha, mas certamente não era dela – Peço desculpas.

Nunca havia pensado sobre o que Sibyl e Sāmya sentiam ao terem sido adotados, simplesmente pensava no dinheiro que eles tinham e que deixava tudo mais fácil, mas pela primeira vez percebi algo diferente no olhar de Sibyl, talvez um pouco de amargura.

- Não precisa se desculpar – Sibyl continuou, ela olhou para Télos a procura de apoio – meu irmão e eu não estamos acostumados com isso, então é bom estar perto.

Ela sorriu, mas baixou a cabeça. Não pude ver a reação de Sāmya, não me importei, apenas tentei me manter de boca fechada enquanto reprimia as palavras de conforto que queria dizer a Sibyl.

- MAS QUE P... – Télos me chutou por baixo da mesa, me fazendo saltar da cadeira e quase soltar um palavrão na frente dos nossos pais, o que antigamente acarretaria em um castigo.

Télos me lançou um olhar de satisfação. Tudo isso por que olhei para Sibyl por um minuto?

"Imagine o que ele faria comigo se contasse que havia sonhado com ela", pensei. Pedindo desculpas ao voltar para a mesa, ignorando o fato de o sonho ter sido estranho e quase assustador.

XXX

Meu pai acabou levando Sibyl e Sāmya para ver os morangos. A plantação não era tão grande, tínhamos apenas duas estufas, com cada muda devidamente esperando o tempo de florescer.

- Estarão prontos em janeiro – disse meu pai, ele era tão alto quando Télos e eu, mas seus olhos eram castanhos, assim como seu cabelo. Quando era criança ele costumava dizer que tinha temperamento parecido com o meu quando jovem – então vocês precisam voltar para nos ajudar a colher.

Sāmya pareceu realmente interessado nas estufas, enquanto Sibyl tocava cada muda com um pouco de receio de que fosse danificá-las. Télos passou meia hora explicando para ela o melhor jeito de colher morangos e eu soube exatamente por que ele nunca teve uma namorada.

Com duas estufas nossos pais vendiam os morangos diretamente para nossos vizinhos e alguns mercados na cidade, complementando a renda com a aposentadoria que ganhavam por terem trabalhado como professores. Mais um motivo de eu ter sido tão rebelde na escola, qual grupo de amigos me aceitaria se eu não demonstrasse que estava contra os adultos?

Vi quando Télos ainda conversava com Sibyl, ela havia trocado as roupas da viagem por outras mais confortáveis. Por algum motivo ela escondeu o sorriso quando percebeu que eu a encarava.

- Deixe-os sozinhos – Sāmya interceptou minha passagem quando eu nem sabia que estava me movendo. Olhei para a saída da estufa, meu pai já estava andando de volta para casa, usando o chapéu para abanar o rosto.

- Eu não ia fazer nada – ergui as mãos – mas tudo bem.

Sāmya sorriu.

- Sabe, às vezes tenho a sensação de que você quer me dizer alguma coisa.

- Eu gostaria – o irmão de Sibyl suspirou, seu cabelo agora estava abaixo dos ombros, loiro reluzente – mas você não entenderia, e de qualquer forma acho que está na hora de deixar isso para trás.

- Sobre o que estão falando? – Sibyl apareceu de repente, e Sāmya colocou o braço em volta de seus ombros.

- Sabe que não entendo nada que seu irmão diz – respondi, olhei para Télos, que veio atrás dela como um animal de estimação – e acho que o chute que levei mais cedo acabou afetando minha audição.

- Eu não fiz nada!

- Não acredito que teve a coragem de mentir na frente dos nossos convidados...

Dei um passo à frente para encarar Télos, mas apenas de brincadeira, mesmo assim dessa vez ele não recuou.

- Já chega – Sāmya suspirou de novo. Se ele fizesse isso pela terceira vez o levaria pessoalmente de volta para a república – não maculem esse lugar, os morangos precisam de mais tempo para crescer.

- Uma pena que não estão maduros – Sibyl disse, os dois se dirigiram para fora da estufa, nos ignorando completamente – poderíamos fazer sobremesas.

- Isso, irmãozinho – eu disse a Télos, levando-o pelo braço – não macule esse lugar sagrado.

Télos me mostrou a língua, muito maduro de sua parte.

Parecia mentira, mas ainda estava com sono.

XXX

O primeiro dia em casa passou rápido demais e acabei indo deitar quando Télos passou a explicar seu novo trabalho para nossos pais, mas acabei caindo novamente em um pesadelo estranho e realista, mas dessa vez Sibyl não estava nele.

Era eu quem fazia as coisas ruins dessa vez.

Mesmo de olhos fechados senti dor e a vida de várias pessoas sendo ceifadas pelas minhas mãos, todas elas caindo no vazio do espaço enquanto eu ficava de pé sem uma gota de sangue sujar minha pele.

Acordei agitado e frustrado, mas diferente de Télos sem os gritos.

"Se bem que", pensei, "acho que faz meses que ele não acorda gritando".

- Essa loucura não pode ter passado para mim – esfreguei meu rosto suado – não apenas porque somos gêmeos.

Sentei rápido demais no colchão, o que fez minha cabeça girar um pouco. Todo o meu corpo estava dolorido, como se tivesse corrido quilômetros, mas não tivesse saído do lugar. Não acendi a luz, pois sabia aonde cada coisa estava, o quarto não havia mudado nada, até que notei algo estranho.

A porta estava aberta. E eu tinha certeza de que a tranquei antes de dormir.

Meu coração quase parou quando tive a impressão de que avistei uma sombra branca se mexer no corredor.

- Por que está acordada? – perguntei quando encontrei Sibyl na sala, olhando pela janela.

Ela era a sombra branca, já que usava um casaco branco de mangas longas que ia até os joelhos. Sibyl não pareceu surpresa ao olhar para mim.

- A cama não é boa o suficiente?

- Tive a impressão de que estaria acordado – Sibyl disse, ainda sem olhar para mim – e que não queria estar sozinho.

Fiquei grato por estar escuro e por ela não poder ver a vermelhidão em meu rosto. Não gostava disso, quando as pessoas adivinhavam exatamente o que estava pensando.

Tive o impulso de dar as costas e voltar para o quarto, mas sabia que não teria outro momento a sós com ela como aquele.

- Quer dar uma volta? – perguntei.

Sibyl se virou e sorriu.

- É claro.

XXX

Havia um lugar no terreno da família que eu apreciava mais do que qualquer outro, até mais do que o meu quarto. Se seguíssemos pelos fundos da casa, depois do quintal, acabaríamos encontrando uma trilha que dava para um riacho aos pés da monte, onde as árvores pareciam ter se enfileirado de propósito para fazer reverência à água que corria livre. Lembrei do aviso de minha mãe, que me proibia de chegar perto do riacho durante a noite, então acabamos ficando no meio do caminho. Ainda na trilha, mas com uma boa vista do riacho que refletia as estrelas acima dele.

- Aqui está bom – eu disse, escolhendo uma pedra limpa como assento para Sibyl enquanto fiquei ao seu lado, na grama.

Havia muitas árvores perto de onde estávamos, ajudando a cortar o vento gelado da noite. Uma coruja de penas brancas e olhos amarelos curiosos se empertigou em um dos galhos quando nos viu, como se quisesse ouvir nossa conversa.

- Não sabia que gostava disso – disse Sibyl.

- Não posso gostar da vista das estrelas? – perguntei.

- Não é isso – ela deu de ombros – parece algo que Télos deveria gostar.

- Hum – entortei o canto da boca, uma reação involuntária – nem tudo precisa ser gravado para a posteridade, sabia disso? Seja em forma de filme ou pintura, às vezes só a nossa memória basta.

Sibyl abraçou os joelhos, enterrando os sapatos na terra, fazendo seu cabelo deslizar até a parte da frente do rosto. Comecei a me perguntar se ela estava com frio.

- Então – ela disse, olhando para a coruja que nos observava como se fôssemos presas grandes – como foi seu pesadelo?

- Não quero falar sobre isso – engoli em seco – foi um sonho, uma mentira.

- Nem todo sonho é mentira, às vezes pode ser um desejo ou uma lembrança.

Estremeci quando ouvi a última parte, e não foi por causa do clima.

- Fiquei feliz em ver os seus pais – fiquei aliviado quando ela continuou a falar – em saber que tem uma boa família.

- Você também tem uma boa família – respondi – não posso dizer muito do seu pai, mas você tem o seu irmão. Sāmya pode ser estranho, mas parece cuidar bem de você.

Ela suspirou e eu não sabia se ela tinha se convencido com as minhas palavras.

- Sabia que Télos teve que forçá-lo a comer nos dias em que ficou longe? Isso não parece ser a atitude de alguém que não te ama de verdade.

A grama estava alta perto dos pés de Sibyl, então arranquei um pouco e comecei a enrolá-la nos dedos, uma mania que tinha desde criança.

- Não desse jeito – Sibyl me interrompeu, se agachando a minha frente e recolhendo mais alguns pedaços de grama, mas agora misturando com algumas pequenas flores que nem mesmo eu percebi que estavam por perto.

As mãos de Sibyl trabalharam rápido, e logo meu rústico trabalho se transformou em uma coroa de folhas e pétalas, que ela colocou em minha cabeça.

- Vai precisar disso para a sua peça – ela sorriu – gosto muito de Romeu e Julieta então estarei na estreia.

Devia haver algo de errado comigo, pois fiquei em silêncio ao invés de fazer uma piada se ela levaria Denis ou Télos com ela. Na verdade não sabia se minha hesitação vinha da dúvida se ela estava dando em cima de mim ou me consolando, mas me consolando pelo que? O que eu tinha feito de errado?

Continuei estático por mais um tempo, assistindo em silêncio Sibyl voltar a se sentar na pedra, até que senti sua mão em meu ombro esquerdo. Não queria olhar para ela, minha mente gritava para que não olhasse, mas acabei fazendo mesmo assim, e por um instante achei que vi outra pessoa em seu lugar, ou como se ela estivesse diferente, como se pertencesse a um tempo diferente.

- Seria estranho se eu lhe pedisse desculpas? – perguntei.

Por algum motivo senti a necessidade de fazer aquela pergunta, mas Sibyl não achou estranho. Ela assentiu calmamente, e esperou.

- Des... – limpei a garganta, maldito vento gelado e minha mente inconsequente por sair tarde de casa sem um agasalho – Desculpe.

A garota sorriu, então acariciou a parte superior da minha cabeça com cuidado para não desfazer a coroa de flores antes de voltar a olhar para as estrelas refletidas no riacho ao longe. Pensei em como os peixes se sentiriam na água com aquela aparência, seriam eles imutáveis em sua essência ou se sentiriam, mesmo que por alguns momentos, mais importantes do que realmente eram por estarem nadando entre as estrelas?

- Será que foi o suficiente? – perguntei, mas Sibyl continuou em silêncio enquanto a coruja fez um novo som, como se respondesse por ela.

Por um momento achei que vi lágrimas no canto de seus olhos, mas então fui obrigado a dar atenção às pequenas luzes amareladas que surgiam a nossa frente. Centenas de vagalumes voavam através da relva, como se brotassem do chão e das árvores, formando minha galáxia particular.

- Olha só! – Sibyl disse, maravilhada.

- É por isso que gosto de vir aqui – eu disse – eles sempre vem dizer olá.

Ela esticou os braços e deixou as mãos em concha na esperança de que algum vagalume acabasse escolhendo pousar em sua palma.

- Fique parada – eu disse, mexendo os lábios minimamente, até que um vagalume realmente veio em nossa direção.

Quando ele pousou nas mãos de Sibyl me aproximei um pouco para enxergar melhor. Toda sua beleza vinha da luz que emitia.

- Foi por isso que quis ser ator – eu disse.

- Por causa dos vagalumes?

- Sim, eles têm luz própria, e eu também, as pessoas ficam maravilhadas ao vê-los assim como quando me veem.

Sibyl tentou segurar o riso, mas não conseguiu, assustando o vagalume, que voltou para junto de sua família.

- Não conte isso para ninguém quando os repórteres forem até você para publicarem minha autobiografia.

Sibyl assentiu, comprimindo os lábios para não deixar escapar o resto da risada. Já era bem tarde, então estendi minha mão para ajudá-la no caminho de volta, pois a lua estava sumindo por entre as nuvens e logo ficaria perigoso de andar no escuro e não podíamos depender dos vagalumes que logo ficariam para trás.

- Não direi nada – Sibyl respondeu, ela segurava minha mão com firmeza – afinal, quem vai querer saber de uma história tão ruim?

Revirei os olhos, mas Sibyl não enxergou.

Quando voltamos para perto da casa demos a volta para entramos pela porta da frente, que era mais nova e menos barulhenta, então avistamos uma figura esguia, sentada numa mala enorme iluminando o chão com a lanterna do celular.

- Kyrios? – quase voltei correndo para a floresta quando percebi que a figura esguia era Selena. Ela esboçou um sorriso quando me reconheceu, mas logo sua expressão mudou para uma mistura de raiva e confusão quando percebeu Sibyl ao meu lado.

Ainda estávamos de mãos dadas, mas Sibyl foi a primeira a soltar.

XXX

- Devo acordar seus pais? – Sibyl perguntou para mim depois que todos estávamos dentro da casa.

Selena estava sentada a nossa frente, batendo o pé rapidamente no chão de madeira, evitando olhar para mim e apertando o celular na mão, agora sem bateria. Essa era a única razão por ela ainda estar aqui, além da chuva que tinha começado no lado de fora.

- Será mais fácil falar com eles de manhã – suspirei – deixe-os descansar.

- Então devo chamar Télos?

Sibyl se inclinava em minha direção todas as vezes que ia perguntar algo, já que estávamos falando baixo, quase sussurrando. Vi quando Selena bateu o pé mais depressa quando ela fez isso da última vez.

- Acho melhor nos deixar sozinhos – eu disse – afinal é o meu problema.

- Problema? – Selena retrucou, quase cuspindo no chão.

Ela se levantou e passou a andar em círculos pela sala.

- Como me encontrou aqui? – perguntei, mantendo o tom de voz baixo. A verdade era que meus pais dormiam a noite inteira até em épocas de tempestades, então várias das minhas travessuras noturnas na cidade ficariam para sempre em segredo, mas não queria arriscar agora.

- A garota do fã clube tem o seu endereço – Selena respondeu, ainda andando em círculos, fazendo gestos à medida que falava – além disso ela é amiga dessa...

- Não precisa descontar nela – eu disse, elevando um pouco a voz, apenas o suficiente para fazer Selena voltar a se sentar.

- Pode ficar no meu quarto se quiser – disse Sibyl, ela olhou para mim como se pedisse aprovação – não acho que há outros, não é? Posso ficar com Télos ou Sāmya...

- Acho uma boa ideia – assenti em resposta. Já que danos seriam feitos de qualquer jeito o melhor que podia fazer seria controlá-los.

- Podem parar de falar como se eu não estivesse aqui?

Selena andou na direção de Sibyl, apontando o celular para ela como se acusasse de algum crime baixo, então eu coloquei o braço no meio para protegê-la. Sibyl nem se mexeu, mas Selena começou a chorar.

- Acho melhor eu ir – disse Sibyl – vou deixar a cama pronta e mandar uma mensagem para Yui dizendo que você chegou bem.

Selena encolheu os ombros cobertos por um casaco pesado de couro. Seu cabelo estava diferente, loiro e de altura mediana, ela já estava se preparando para ser Julieta enquanto eu mal podia esperar para esquecer Romeu. Quando percebeu que eu não a consolaria, Selena correu para ocupar o lugar que Sibyl deixara vazio ao meu lado.

- O que estavam fazendo no meio do nada? – ela perguntou, secando as lágrimas.

- Nada de mais, conversando, olhando as estrelas.

- Você não faz "nada de mais" com as garotas, Kyrios Amyntas.

- Ela é a namorada do meu irmão – respirei fundo, como se não acreditasse no que ia dizer a seguir – e minha amiga.

Selena ficou em silêncio, não parecia convencida, mas pelo menos estava quieta. As lágrimas deixaram seus olhos amendoados ainda mais brilhantes.

- Você me deixou sozinha – ela suspirou – eu disse que queria vir e você me deixou sozinha, por quê? Não sou boa o suficiente para conhecer os seus pais?

- Não é isso...

- Ah, acho que não sou tão importante assim para você, não é? Sou apenas quem você procura quando está excitado ou a procura de luxo...

- Selena!

Não sei por que a impedi de continuar, pois aquilo era verdade, só era difícil de ouvir em voz alta.

- Eu gosto de você, Kyrios, de verdade – Selena se recostou no sofá, olhando para o teto – mais do que você gosta de mim, eu sempre soube, por isso quis que minha família te ajudasse, porque assim você ficaria preso a mim.

- Eu sei – respondi, dessa vez olhando para ela – mas isso não é saudável, por isso...

- Vai terminar comigo, tudo bem – ela disse, mesmo que sua expressão não parecesse tão compreensível quanto suas palavras.

- Por isso quero que sejamos oficialmente um casal.

Selena parou de choramingar baixinho e me olhou, surpresa.

- Um casal?

- Sim – procurei por alguma coisa útil na mesa de centro da sala, mas não havia nada, então tirei a parte de cima do pijama e joguei no rosto de Selena – limpe o rosto.

- Meu rosto! É claro – ela assentiu, um pouco atordoada, esfregando os olhos.

- Seu nariz está escorrendo... – tentei não sorrir quando disse aquilo, mas foi impossível.

Selena parecia hesitante no que fazer, então peguei a roupa que havia dado a ela e a ajudei a se limpar. Não acho que o que estava escorrendo esperaria que ela chegasse ao banheiro.

XXX

Depois que acomodei Selena no quarto ocupado por Sibyl, inclusive carregando suas malas exageradamente grandes, atravessei o corredor para conversar com Télos.

- Sabia que estaria acordado – eu disse ao entrar – e acompanhado.

Sibyl e Télos se afastaram rapidamente quando entrei, como se eu não soubesse que eles já andavam se encontrando pelos cantos da república.

- Devia ter batido! – Télos me alertou, cobrindo Sibyl com o lençol de desenhos animados. Não acredito que ele ainda tinha aquilo.

- Não precisa fazer isso – respondi, empurrando-o e ocupando o espaço ao lado dos dois.

- Como está Selena? – Sibyl perguntou. Mal podia ver seu rosto, apenas escutar sua voz, pois Télos a cobria como se fosse uma deusa sagrada dos tempos antigos cujo privilégio de admirá-la fosse apenas dele.

- Está tomando banho – eu disse, omitindo o fato de que ela tinha quase me carregado com ela para o chuveiro. Me estiquei na cama, alongando os músculos das costas - foi um longo caminho até aqui.

- Coitada – disse Télos, caridoso como sempre – não devia tê-la enganado.

- Eu sei, por isso estamos juntos agora.

- De verdade?! – Télos e Sibyl perguntaram ao mesmo tempo.

- De verdade – respondi, não entendendo o choque em seus rostos – parem de ser tão estranhos.

- Você é o estranho – Télos disse. Ele bocejou e depois se virou, me dando as costas para ficar de frente para Sibyl – vá dormir na sua cama.

Sorri e fechei olhos, acho que não faria mal algum ficar aqui por mais um tempinho.


N/A: Olá pessoal! Bom, eu sei que hoje é sexta e que estou postando o capítulo um dia mais cedo, mas é porque estarei impossibilitada de postar esse final de semana e não garanto o capítulo da semana que vem, ou seja, provavelmente só nos veremos em 18 de setembro, o que é uma pena porque queria muito terminar essa fanfic no prazo. Enfim, esse capítulo do Kyrios se tornou o MAIOR da fanfic até agora, e me surpreendi com a facilidade em escrevê-lo. O Aspros não é o meu personagem favorito, acho que está bem claro a minha preferência pelo Defteros, e isso re traduziu nas minhas fanfics, mas como O Ciclo dos Deuses, tecnicamente, é a "terceira vida" de todos esses personagens, achei importante fazer com que Dafne e Aspros fizessem as pazes para poderem seguir em frente. Se você acompanhou Enquanto Lamentamos então viu que Dafne e Defteros não ficaram juntos por causa de tudo o que viveram em seu passado que não conseguiram deixar para trás, e para isso ser diferente as coisas precisavam mudar, por isso achei que Aspros pedindo perdão a ela aqui foi bem simbólico e me deixou emocionada. Também tivemos a volta da Selena que acabou sendo uma personagem que não consegui aproveitar, mas acabei gostando dela nesse capítulo. Por favor, aproveitem o feriado com responsabilidade. Espero voltar logo para a reta final!

Obs: Sei que disse que o Denis (Dégel) tinha se despedido, mas olhando minhas fichas de planejamento vi que ele volta no próximo capítulo! Ai que descuidada que eu fui, me desculpem!