N/A: Como prometido, voltei na data certa, e acho que essa expressão se relaciona perfeitamente com o capítulo que vocês lerão agora. Quis fazer um capítulo de despedida para o Denis (Dégel), de forma que se relacionasse com a fanfic original e com essa continuação, e confesso que chorei em ambos haha! Ele é um personagem muito especial e mais uma vez não consegui dar um final feliz para ele, acho que é o destino... Enfim, esse capítulo também fala um pouco da relação dele com o Nikos, que eu tinha mais cenas planejadas para escrever, mas todas acabaram não se encaixando como deveriam na narrativa, queria ter explorado ele um pouco mais antes de terminar a fanfic. Então, ainda temos 2 capítulos antes de terminar a fanfic, estamos oficialmente na reta final. Tinha dúvidas sobre o próximo capítulo, por isso não o postarei hoje, só na semana que vem (ainda não decidi se postarei o 17 e o 18 juntos, vai depender da correria da semana), mas agora me dei conta de que preciso escrevê-lo para a história se fechar num ciclo perfeito, acho que vocês entenderão depois. Esses dias foram difíceis e sofri com a minha ansiedade, mas essa fanfic me consola. Obrigada mesmo por lerem!

Obs: Lembrando novamente que estou no Tumblr e no AO3!

Obss: Não sei aonde escrever isso, mas tem tanta gente lendo uma fanfic minha de Crepúsculo que, nossa, por que? haha

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


16

Libertação

Denis

Encontrei a república vazia assim que voltei. A senha da fechadura ainda não havia mudado então consegui entrar sem problemas, mas foi estranho num primeiro momento, ver tudo vazio e silencioso, como se todos tivessem seguido em frente sem mim, como naqueles filmes infantis que todos vão embora e deixam uma das crianças sozinha em casa, como se sua presença não importasse para o resto da família.

Acho que por isso sempre preferi ficar sozinho a maior parte do tempo.

O quarto de Sibyl foi o primeiro que chequei depois de colocar a mochila no sofá. Suas coisas ainda estavam lá, então eles não haviam ido embora definitivamente, o que significava que eu ainda tinha tempo, mesmo que por dentro sentisse que já houvesse perdido essa batalha.

Demorou menos de uma hora para que a senhora Talia aparecesse e me informasse que todos haviam viajado para o campo, para visitar os pais de Télos e Kyrios há pelo menos dois dias. Eu não fui tão ousado em perguntar a ela a localização deles, ela simplesmente apareceu e me deu a resposta, assim como no dia em que estava procurando por um quarto, anos atrás. Gostava de visitar os bairros pessoalmente antes de escolher o melhor lugar e acabei encontrando-a na loja de conveniência da esquina. Ela perguntou se eu precisava de um quarto para alugar e depois me mostrou a república. Depois, quando Kyrios e Télos chegaram, ela ajudou Télos a expor seus quadros na galeria e deixava que eles atrasassem o aluguel quase todos os meses.

Nunca pensei nessa possibilidade antes, mas pensando melhor agora, a senhora Talia parecia fazer exatamente o que precisava para nos deixar reunidos em um único lugar.

Liguei para meu amigo Cassius e pedi o carro emprestado. Ele me devia um favor depois de me levar para o encontro às cegas então foi muito fácil. Aquele encontro foi o melhor que tive em minha vida por causa de Sibyl, mas é claro que não havia contado nada disso a Cassius, ou a qualquer outro, apenas a Nikos. Mas se pudesse voltar atrás também não contaria a ele.

Não foi difícil chegar à cidade com o GPS, mas para achar a casa dos Amyntas precisei de paciência para perguntar aos vizinhos ao mesmo tempo que me esquivava de questões incômodas como o que eu estava fazendo ali ou se era um parente distante. Eu não era um parente e talvez agora sequer fosse um amigo. Se bem que, se eu estivesse na pele de Télos, acho que reagiria da mesma forma.

Parei o carro na frente da residência Amyntas assim que consegui encontrá-la, não conseguia ver muita coisa do lado de fora, pois apesar do muro baixo havia muitas árvores rodeando a propriedade, então desliguei o carro e fiz alguns exercícios de respiração para criar coragem para bater na porta. Acho que acabei cochilando de cansaço, pois algumas crianças passaram jogando bola e bateram nos vidros do carro e eu reagi como se estivesse no meio do fogo cruzado, mas o susto serviu para que eu despertasse, os exercícios não serviram para nada, apenas me deram sono.

Já passava do meio dia e minha última refeição havia sido no avião. Se soubesse que ficaria horas sentado do lado de fora da casa teria feito uma parada no caminho para comer alguma coisa, sem falar que já havia bebido toda a água que havia trazido.

Ouvi batidas no vidro de novo e achei que fossem as crianças novamente, mas quando me virei, vi um garoto loiro me encarando, com as mãos sobre a janela.

- Vai ficar aí o dia todo? – Sāmya perguntou.

Engoli em seco. Havia um homem mais velho ao lado dele, de aparência que não se assemelhava em nada aos gêmeos.

O homem perguntou alguma coisa a Sāmya, que segurava várias sacolas de compras.

- É nosso amigo – ele disse – acho que veio ver minha irmã.

Saí do carro um pouco envergonhado, mas não havia mais para onde ir, afinal era uma cidade pequena, sabia que não conseguiria ficar escondido por muito tempo.

- Vamos entrando – disse o homem. Acho que em enganei, seu sorriso gentil era o mesmo de Télos.

- Não sabia que já estava de volta – Sāmya disse. Ele estava diferente, talvez fosse o cabelo.

- Cheguei cedo pela manhã e consegui um carro para vir para cá.

- Deve ter pego um voo caro para voltar no feriado – Sāmya me entregou metade das sacolas - Quem te contou onde estávamos?

- A senhora Talia.

- Hum – Sāmya sorriu – é claro que foi ela.

Depois do portão havia um pequeno caminho de pedras entre a vegetação baixa, que levava diretamente para a casa retangular de madeira, de um único andar. As árvores davam privacidade e beleza ao lugar, com alguns canteiros de flores espalhados perto das janelas. Havia tendas ao longe, que imaginei que fossem as estufas de morangos que Télos costumava falar quando ainda éramos próximos. Na época da colheita seus pais mandavam morangos para a república e ele acabava me dando uma caixa inteira como um pedido de desculpas pelas loucuras de Kyrios durante o ano.

Não tinha ideia de que a família deles vivia em um lugar tão bonito e logo entendi o porquê de Kyrios não gostar daqui, tudo parecia calmo demais, mas fora isso o local parecia ser perfeito para alguém como Télos, com uma veia criativa. Comecei a imaginar que ele e Sibyl acabariam morando aqui um dia, então balancei a cabeça para afastar o pensamento.

O pai dos gêmeos ia andando na frente, ele abriu a porta da frente para nós e pediu que deixássemos os sapatos na sala. Havia alguns porta retratos ao redor dos sofás, recelando os gêmeos ainda em fase de crescimento, não sabia diferenciá-los em nenhuma foto. Depois que chegamos à cozinha deixamos as compras encima da mesa.

- Beba – disse o pai de Télos, me entregando um copo d'água – deve estar cansado, é uma viagem longa.

- Obrigado – respondi, bebendo tudo em um só gole.

Sāmya já estava colocando os congelados na geladeira enquanto o pai de Télos nos deixou a sós, provavelmente para chamar os filhos. Não havia sinal de sua esposa, então deduzi que ela devia estar na cidade ou nas estufas.

- Pode chamar Sibyl para mim? – perguntei discretamente a Sāmya antes que o senhor Amyntas voltasse.

- Por quê? – disse ele – Não quer falar com seus outros amigos?

Não tinha como responder aquela pergunta sem acabar constrangido. Sāmya estava certo, eu não queria encarar Télos depois de tudo o que fiz com ele.

- Sei que está do lado de Télos – eu disse, afinal, Sāmya também não havia atendido minhas ligações, nenhum deles atendeu – mas acho que preciso falar com Sibyl primeiro.

- Estou do lado da minha irmã, só isso – Sāmya respondeu, organizando frascos de temperos nas prateleiras – Sibyl demora muito para se abrir com as pessoas e fica insegura facilmente, especialmente quando há competição.

- Não há competição alguma – respondi – Sibyl interpretou mal e...

- Que conversa chata! – Kyrios entrou na cozinha vestindo apenas uma calça. Sabia que era ele por causa do tom de sua voz, mas mesmo assim ver o seu rosto me deixou um pouco sobressaltado, acho que estava mais nervoso em encarar Télos do que pensei.

O cabelo de Kyrios estava solto, porém bem penteado, e ele esfregava os olhos como se tivesse acabado de acordar. Ele tateou de olhos fechados pela mesa da cozinha até se sentar, depois bateu a testa sobre a mesa.

- Vocês são muito barulhentos e chatos... – Kyrios resmungou – E formais, nossa como são chatos!

- É bom te ver também, Kyrios – eu disse – ao menos poderia ter se vestido para...

- Sem regras de vestimenta na minha casa – Kyrios levantou a cabeça e apontou o dedo para mim.

Ele esticou o braço para pegar uma das maçãs que estavam num cesto sobre a mesa.

- O que veio fazer aqui? – Kyrios perguntou – Acordei com o seu tom de voz irritante e Selena me expulsou do quarto para trocar de roupa, como se eu já não tivesse visto tudo que ela...

- Kyrios – Sāmya o alertou antes que falasse demais.

- Tudo bem, desculpe – ele mordeu a maçã, depois olhou para mim – apenas Sāmya pode me dar ordens já que somos praticamente família agora, não você.

- Praticamente família? – repeti, demonstrando estar mais incomodado do que gostaria e dando todo o espaço que Kyrios queria para me irritar ainda mais.

Ele e Sāmya se entreolharam e acho que Kyrios ganhou a discussão silenciosa porque ele colocou os pés sobre a mesa e mordeu a maçã despreocupadamente.

- Isso – Kyrios suspirou de maneira teatral, como se estivesse no palco – sabe, meu irmão finalmente conseguiu fazer alguma coisa da vida dele depois que você foi embora e eu acabei descobrindo que Sibyl é uma pessoa muito especial.

- Especial? – acho que segurei a cadeira que estava perto de mim com força demais, porque Kyrios sorriu. Ele estava se divertindo muito com tudo aquilo – Sibyl mal conseguia ficar sozinha no mesmo cômodo que você por muito tempo...

- O sentimento era recíproco – Kyrios retrucou – mas somos amigos agora, basicamente ela é minha irmã, não, esquece isso, se ela fosse minha irmã então seria irmã de Télos e isso não acabaria bem...

- Sāmya – eu disse, tentando ignorar o falatório de Kyrios por alguns segundos e me esforçando para manter o mínimo de dignidade que ainda me restava – poderia, por favor, chamar Sibyl agora?

Vi quando o lábio de Kyrios se retorceu quando Sāmya nos deixou a sós, como se estivesse se esforçando para conter uma risada.

- Ela está no quarto de Télos agora – Kyrios deu outra mordida na maçã – desde que estamos aqui ela não para de ir até lá.

Comecei a me perguntar o quanto eu seria rude com os pais dele se acabasse quebrando alguns de seus dentes, mas me contive. Eu já sabia sobre Sibyl e Télos, soube no momento em que ambos pararam de falar comigo. Na verdade acho que tudo era questão de tempo, e ao invés de sentir raiva ou ódio me sentia frustrado, como se tivesse falhado mais uma vez em uma tarefa que eu sequer sabia qual era.

Eu nem conseguia fingir que fora traído, não quando fui eu quem traiu Télos primeiro, me intrometendo na história que devia ser deles.

Talvez o meu silêncio fosse o responsável, ou minha expressão ferida, mas Kyrios não voltou a provocar, ele deixou a cozinha quando Sāmya retornou, ainda sem Sibyl.

- Acha que me precipitei em vir aqui – eu disse a ele.

Sāmya balançou a cabeça.

- Acho que precisavam de uma despedida decente dessa vez – disse ele, e senti sinceridade em seu tom.

Ouvi vozes no fim do corredor junto de passos apressados. Sibyl estava vindo, com Télos logo atrás dela, mas fui surpreendido pelo toque de Sāmya em meu ombro, que desviou minha atenção por um momento.

- Foi muito bom te ver de novo, Denis – Sāmya sorriu – e me desculpe pela última vez.

Assenti, mesmo sem entender a última parte. Não sabia exatamente o porquê, mas vê-lo com o cabelo mais longo me deu a sensação de que já o tinha visto daquele jeito antes e seu sorriso sincero me reconfortou, assim como seu pedido de desculpas. Acho que seu silêncio durante o período em que estive fora me machucou porque o considerava um amigo, e foi uma pena só ter me dado conta disso agora.

Pelo barulho do corredor acho que Télos e Sibyl tiveram uma pequena discussão sobre se ela devia me atender ou não, mas fiquei muito grato por ela ter aparecido. Eu tinha fotos de Sibyl no meu celular, além de outras guardadas em meu quarto, mas acho que nenhuma foto a deixava estonteante como devia.

Agora que a vi de novo, depois de longas e tortuosas semanas que pareciam ter nos separado para sempre, percebi que precisava olhar para ela com mais atenção e por mais tempo. Precisava deixar gravado em minha mente como seu cabelo castanho parecia um pouco colorido sob o sol, como as maçãs de seu rosto eram convidativas para beijos e que seus olhos deixavam transparecer exatamente como ela se sentia. E ao invés de me receber com frieza, ela parecia contente.

Estava bem perto de seus olhos agora que a estava abraçando, antes mesmo que ela me desse permissão ou pudesse dizer qualquer coisa para Télos. Além da felicidade em seu olhar por me ver de novo, também percebi outra coisa, e isso me assustava.

- Eu disse que ficaria longe por semanas, não disse?

Assenti em silêncio, ainda com o rosto enterrado em seu pescoço. Não queria me separar dela, nem mesmo olhar para qualquer outra pessoa, pois tinha a sensação de que se fizesse isso não conseguiria abraçá-la de novo.

- Não já a abraçou o suficiente?

A voz de Télos fez com que Sibyl rompesse o nosso abraço, ela se afastou devagar, talvez para não ser rude comigo, mas continuou segurando minhas mãos enquanto Télos se colocava ao lado dela, os braços cruzados, me encarando com aborrecimento.

- Acho que nunca será o suficiente – respondi, mas não para Télos, e sim para Sibyl, na verdade nem percebi o que tinha dito até que Télos deu um passo à frente, mas Sibyl o parou antes que pudesse tentar qualquer coisa.

Ele reagiu ao toque dela sem nem mesmo questionar.

- Por que não vamos dar uma volta? – Sibyl disse, se colocando como uma muralha entre mim e Télos. Seus olhos estavam cheios de lágrimas assim como os meus.

Acho que ambos sabíamos o que estava por vir.

XXX

Não conhecia a cidade, mas vi a saída para a praia no caminho até aqui e por um momento pensei que talvez ali fosse o lugar perfeito para ter uma conversa calma com Sibyl, longe de todos os outros. Não pensei que ela acabaria sugerindo a mesma coisa antes mesmo que eu pudesse começar a me explicar.

- Você gosta dessa? – ela esticou o braço em minha direção, revelando uma concha quebrada e de aparência amarelada em uma das mãos.

- Eu não sei – respondi – não costumo colecionar conchas do mar.

Estava sentado em uma pedra enquanto Sibyl passeava pela areia com os pés descalços. Ela veio com o mesmo vestido azul claro de alças finas que estava usando na residência dos Amyntas para me acompanhar, e deixou os sapatos ao meu lado na pedra.

- Sei disso – disse Sibyl – mas estou escolhendo conchas para nós dois, então espero que ao menos tome conta da que eu der para você.

Sibyl nunca se afastava muito de mim, ela prendeu o cabelo quando ainda estávamos no carro, escolheu uma pedra perto do mar para que eu ficasse confortável, e saiu caçando conchas sem nem me pedir explicações.

- Por que está nervoso? – Sibyl perguntou.

Não sabia como ela tinha adivinhado.

- Porque achei que fosse gritar comigo – respirei fundo, não gostava muito do cheiro de sal da praia – então acho que ainda estou esperando.

- Não vou gritar, você voltou na data certa.

- Na data certa... – repeti, ainda sem entender – mas não no momento certo.

Sibyl suspirou, ela pegou duas conchas e ainda estava tirando os grãos de areia de cima delas quando veio se sentar ao meu lado. Ela não escondia mais o sinal em seu braço, na verdade ela nunca o escondeu de mim quando estávamos sozinhos. A marca combinava perfeitamente com a silhueta dos meus dedos, o mesmo formato e comprimento, e eu costumava brincar que ela nasceu com aquela marca para que eu pudesse encontrá-la com mais facilidade, como se eu a estivesse segurando no outro lado antes de ela descer a Terra, para que não fugisse de mim.

- Como está o coração de seu pai?

- Meu pai... – tentei não parecer tão surpreso pelo fato de ela saber o que tinha acontecido – Então você leu minhas mensagens!

- Mais ou menos – Sibyl disse – eu lia suas mensagens mesmo sem responder, e também ouvia enquanto lamentava em meu ouvido. Eu sempre te ouvi, Denis, mesmo que você nunca fizesse o mesmo por mim.

Ela continuou limpando as conchas que eram um pouco menores que a palma de sua mão, tirando a areia cuidadosamente de suas superfícies castanhas.

- Meu pai está melhor – respondi antes que ela me acusasse novamente – mas preciso ficar perto dele, dessa forma ele não se preocupará tanto, pois aparentemente formar outra família não foi o suficiente, ele ainda precisa me manter...

Sibyl segurou minha mão antes que eu continuasse.

- Ele vai ficar bem se continuar ao lado dele – ela sorriu – acho que a mensageira estava certa quando disse que estava aqui temporariamente.

- Repreendi Arielle pelo que ela disse – afirmei.

- Acredito em você – disse Sibyl - mas eu não queria tê-la conhecido daquela maneira, nem ter que lidar com aquelas palavras sozinha, o que não foi à primeira vez.

- Como assim?

- Estou falando de Nikos – ela suspirou, ainda segurando a minha mão. E eu esperava que ela não tocasse naquele assunto – às vezes ficar perto dele era sufocante, mas você o queria por perto, mesmo sabendo disso.

Eu não tinha como rebater aquele argumento, nem como fingir que nunca tinha acontecido. Eu sabia que Nikos gostava de mim, talvez mais do que ele dizia gostar, mas ao mesmo tempo não queria me afastar dele, pois apreciava sua amizade. Acho que não percebi o quanto ele intimidava Sibyl.

- Se vier comigo – finalmente tomei coragem para dizer o que tinha vindo fazer aqui – tudo será diferente.

Sibyl me encarou, ela não parecia surpresa com as minhas palavras, apenas um pouco magoada.

- Eu já disse que te amo – insisti - mas você não me respondeu.

- Acho que você não me escutou dizer – Sibyl respondeu – não ouviu o que estava por trás dos meus gestos.

Ela soltou minha mão, mas deixou uma das conchas comigo. Era a cópia perfeita da outra que estava segurando, duas metades idênticas, porém forçadas a ficarem separadas.

- Tenho sonhado muito com você ultimamente – Sibyl suspirou – do jeito que está agora e...

Ela engoliu em seco, então balançou a cabeça.

- Não posso ir com você, mesmo que prometa mudar, mesmo que prometa dizer que me ama pelo resto de sua vida – Sibyl sorriu, talvez imaginando os cenários – meu lugar é aqui, com...

- Com Télos – sorri com ironia – ele ainda conseguiu ficar com você depois de tudo.

- Com Télos, sim – Sibyl concordou – mas também com Kyrios, o que me parecia estranho no começo, e com o meu irmão, com Sāmya, quero ficar perto dele o máximo que conseguir. Por isso estou te libertando.

- O que?

- Sinto que essas são as palavras que preciso lhe dizer agora – Sibyl continuou, ela agarrou a marca em seu braço direito – estou te libertando de qualquer compromisso que tenha comigo agora, no futuro, e também no passado.

Seus olhos se tornaram um pouco acinzentados quando ela proferiu aquelas palavras, e por um momento achei que o espaço ao nosso redor tremulou como se estivéssemos num aquário. A água do mar ficou estática, e o cheiro de sal parou de inundar os meus sentidos. Minha visão ficou embaçada e tudo o que conseguia ouvir era o choro fraco e desesperado de uma garota, cujo vestido branco estava manchado de sangue.

- Eu estou aqui – ouvi a voz de Sibyl quando ela segurou minha mão, e reconheci seu toque no mesmo momento em que vi seu rosto ensanguentado, tentando acalmar o meu coração.

Balancei a cabeça de novo para me livrar daquela visão irracional, meus sentidos voltaram ao normal e Sibyl não estava machucada, não havia sangue em suas roupas ou em seu rosto, apenas lágrimas de sal.