N/A: Olá gente! Não acredito que é o último sábado que estou vindo aqui com capítulos novos de CDZ! Muito bem, esse é o penúltimo capítulo e tive a simples intenção de colocar mais momentos Télos x Sibyl porque eles merecem muito hahaha, além disso, tem algumas referências a arte e a pintura em homenagem ao Alone... Em alguns momentos postarei o último capítulo, não acredito que cheguei ao fim...

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


17

Estradas de Tinta

Télos

Era dia de mudança, mas não para mim. Desde que a senhora Talia havia aceitado Kyrios e eu na República Olimpo me oferecia sempre que podia para ajudar nas tarefas que ela não conseguia fazer sozinha, não apenas por ela ser uma senhora, mas por Kyrios sempre trazer seus problemas para casa e, no meu caso, por sempre atrasar o aluguel, já que as vezes precisava escolher bem entre os materiais que precisava comprar, o aluguel e outras coisas básicas, como comida.

Só de pensar nessa época minha barriga roncava, mas também me vinham lembranças boas de como Denis dividia seu almoço comigo. Ele nunca perguntou se seu estava com fome, mas sempre arrumava uma desculpa de que havia feito comida demais. Agora que ele tinha ido embora me sentia um pouco mal de não ter me despedido da maneira correta, mas a culpa não foi minha, afinal foi ele quem se intrometeu entre Sibyl e eu, não foi?

Ela ainda falava com ele as vezes, enviando as coisas que ele havia deixado no quarto.

- Télos?

Me assustei ao ouvir meu próprio nome, sinal de que estava absorto em meus pensamentos bobos e infantis por tempo demais.

- Já terminou com essa caixa?

- Sim, senhora – respondi, colocando-a na pilha junto das outras.

- Preste atenção na próxima, por favor, são objetos frágeis.

- É claro, senhora – eu disse. A última caixa fora usada para as almofadas, mas agora precisava proteger as diversas porcelanas que a senhora Talia possuía na sala.

Ela costumava mudar a decoração de sua casa todos os anos, antes do natal, e já estávamos nessa época de novo.

A senhora Talia andava de um lado para o outro com uma lista em mãos, marcando todos os móveis e objetos que precisavam sair e desenhando o novo projeto de decoração da casa. Achava isso engraçado, como alguém podia se cansar das coisas em um espaço de tempo tão curto.

Havíamos tirado os livros das estantes e que estavam espalhados pela sala. Aparentemente todas as parede seriam pintadas, então os quadros também foram retirados.

- Eles vão voltar – disse a senhora Talia. Ela estava usando um macacão cinza, que combinava com a cor prateada de seu cabelo, agora preso em um rabo de cavalo baixo – não se preocupe.

- A senhora sempre muda a decoração, mas nunca tira as minhas pinturas, acho que não sou tão ruim assim.

- Suas pinturas são preciosas – ela sorriu – todos que as vêem sabem disso, inclusive Sibyl.

Engoli em seco. Não acho que havia mostrado nada a Sibyl ainda, pelo menos nada decente a ponto de merecer ser visto por ela.

- Tomamos chá uma vez, ela gostou das galáxias do outro quadro.

Uma porcelana escorregou, mas consegui pegá-la antes que se espatifasse no chão. A estatueta tinha o formato de golfinho.

- Desculpe – eu disse – estou sendo desastrado.

- Está tudo bem – ela anotou alguma coisa na lista – mas por que está nervoso? Por acaso acha que Sibyl não o acha talentoso?

Coloquei a estatueta na caixa, me sentindo mais leve agora que estava com as mãos livres.

- Fiquei surpreso por ela gostar daquela pintura, só isso, acho que posso fazer melhor.

- Como o que tem pintado no porão?

Assenti rapidamente com a cabeça. Não fiquei surpreso por ela saber, afinal ela tinha a chave e era a dona do lugar.

- Devia mostrar a ela – a senhora Talia disse – ela me disse que gosta de campinas.

Fechei a caixa de papelão e a selei com fita adesiva. Por algum motivo aquela informação parecia correta para mim.

- E pegue o dinheiro de volta – ela apontou para o embrulho que havia deixado na mesa de centro, tudo o que consegui guardar depois que consegui o trabalho novo, para compensar pelos meses que ela me deixou morar aqui sem pagar – sabe que não preciso.

Poderia ter discutido com ela, mas então chegaríamos a um novo impasse, então assenti e guardei o dinheiro no bolso novamente enquanto ela saía para receber os funcionários responsáveis pela mudança dos móveis.

Quando começamos a guardar as coisas nas caixas, por um momento achei que a senhora Talia estivesse indo embora de verdade, e me preocupei achando que Sibyl e eu seríamos separados, já que não acho que ela gostaria de escolher entre morar sozinha comigo ou com o irmão agora, além disso, a sensação de viver sozinho vinte e quatro horas com ela me deixava animado e aterrorizado ao mesmo tempo, mas a senhora Talia me tranquilizou assim que percebeu minha aflição.

"As decisões de uma pítia mudam de forma a se adequar melhor no futuro que elas enxergam, então ela poderia não escolher viver sozinha com você agora, mas certamente mudaria de ideia depois". Foi o que a senhora Talia disse para mim antes de tirar um dos meus quadros da parede, fazendo uma analogia entre Sibyl e as antigas servas do deus Apolo. Era uma tela pequena, mostrando um aquário com cinco peixes no formato de uma ampulheta, que era sustentada pelas mãos de um deus. Não sabia exatamente qual, mas para ter o poder de ter algo tão magnífico nas mãos só poderia ser um deus, qualquer um.

Me inclinei para dar uma última olhada na tela antes de deixar o apartamento, admirando os peixes coloridos dançando entre as bolhas delicadas que havia pintado.

- Eles parecem felizes – eu disse.

Atrás dessa tela, havia outra de minha autoria, mais simples e tradicional. Uma garota sentada numa pedra, admirando o campo que fora inspirado no espaço que Kyrios costumava se esconder quando estávamos em casa, perto das árvores e do lago. Aquela era a garota que eu costumava sonhar, antes de Sibyl chegar aqui, por isso a pintei de costas, já que não conseguia enxergar seu rosto.

- Ela gostaria dessa – suspirei.

Comecei a ouvir os passos da equipe que cuidaria da mudança, então deixei parte do dinheiro ainda sobre a mesa de centro, um pequeno valor pelo aluguel do porão, onde estavam minhas pinturas.

XXX

Ainda estava alongando os ombros quando subi as escadas e voltei para a república, apesar do barulho no andar de baixo podia ouvir a voz estridente de Kyrios de longe, assim como algumas risadas. Recebi uma mensagem de Jamie antes mesmo de digitar a senha da porta. Depois que saí da cafeteria ela também havia partido para um novo destino que incluía destinos alternativos na Europa ao lado do namorado. Às vezes ela me mandava fotos de vitrais e estátuas estranhas para me inspirar a pintar.

- O que está acontecendo? – perguntei depois de tirar os sapatos e chegar à sala.

Kyrios estava no sofá, com Sibyl ao seu lado. Seu cabelo estava curto, o que nos diferenciava um pouco diferentes a olhares externos, ideia de Selena para a peça de Romeu e Julieta que estava chegando. Ele também tinha um arranhão perto do olho direito que Sibyl tentava pôr um curativo, mas sem sucesso.

- Ele se cortou fazendo alguma besteira – Sibyl disse, percebi que ela estava tentando segurar o riso enquanto Sāmya estava sentado no outro sofá com as pernas cruzadas, tentando meditar com uma máscara que cobria os olhos – e não consegue ficar parado.

- Não fico parado porque você está me machucando! – Kyrios respondeu, a expressão incrédula, ainda tentando ser superior mesmo se comportando como uma criança de cinco anos.

- É apenas remédio e um curativo – Sibyl enfatizou – nada demais, vai ficar curado bem antes do dia da peça se confiar em mim.

Kyrios olhou para Sibyl, a boca aberta, pronto para dizer algo, mas então pareceu desistir.

- Não gosto dessas palavras – ele disse, com os lábios tremendo.

- Não gosta de confiança? – Sibyl retrucou.

- Não parecem certas vindas de você, me deixa enjoado – Kyrios chegou mais perto de Sibyl, e por alguns segundos eles pareceram estar brincando de encarar um ao outro sem piscar.

- Achei que fôssemos amigos agora – Sibyl disse, a expressão firme.

- E somos amigos, mas...

Antes que eles pudessem encerrar aquela discussão sem sentido peguei o remédio das mãos de Sibyl e coloquei no corte no rosto de Kyrios, que gritou por cinco segundos e depois ficou me olhando com raiva e lágrimas nos olhos enquanto Sibyl fazia o curativo.

- Obrigada – Sāmya levantou uma parte da máscara para me agradecer – isso estava ficando barulhento demais.

- Pronto! – Sibyl bateu palmas enquanto guardava as ataduras na caixa de primeiros socorros – Não doeu nada.

- Em você. – Kyrios respondeu, tirando a caixa das mãos dela e saindo para colocá-la de volta no banheiro principal.

Sibyl foi um pouco para o lado para me dar espaço no sofá, depois apoiou a cabeça em meu peito enquanto eu a envolvia em meus braços como se ela fosse se dissolver a qualquer momento.

- Não encare Kyrios daquela maneira – eu disse, um pouco enciumado – estava perto demais.

Seu nome parecia atrair problemas, pois Kyrios logo derrubou alguma coisa na cozinha, não me levantei para ver, não queria lidar com o estrago e também não deixei que Sibyl saísse de perto de mim, então Sāmya grunhiu alguma coisa enquanto ia ajudá-lo com a limpeza. Me senti um pouco mal por interromper o seu descanso.

- Você não foi mais ao meu quarto à noite – sussurrei para que os outros dois não nos ouvissem apesar do barulho de cacos de vidro sendo varridos do chão.

- Não tenho mais pesadelos – Sibyl respondeu – estou dormindo melhor.

- Mesmo sem os remédios? – perguntei.

Ela assentiu. Havíamos conversado enquanto estávamos na casa dos meus pais, e ela me contou sobre os comprimidos, é claro que eu a fiz jogar tudo fora. Sibyl esticou o pescoço para sussurrar em meu ouvido:

- Mas você pode vir para o meu quarto, onde meu irmão não estará por perto.

Senti o sangue ferver em todos os cantos do meu corpo e abracei Sibyl com ainda mais força enquanto ela escondia o rosto com as mãos.

- Estava pensando em algo agora que Jamie foi embora – Sibyl disse depois que nos acalmamos, ela segurava uma de minhas mãos e vez ou outra beijava a ponta de meus dedos – não quero que se sinta solitário.

- Não estou solitário – respondi – tenho você.

- E eu cuidarei de você agora – disse ela – então resolveremos tudo juntos, pensaremos sobre tudo juntos... Dormiremos perto um do outro e faremos tudo de novo no dia seguinte, entendeu?

- Sabe, esse não é um pedido ruim.

A expressão de Sibyl mudou, todo o seu corpo ficou petrificado, até mesmo o movimento de sua respiração parou de repente.

- O que foi? – me inclinei para frente assim que percebi que havia algo errado.

- Nada – Sibyl sorriu, parecendo voltar ao normal – só tive a sensação de que já lhe disse isso antes.

- Não disse não, eu me lembraria com certeza.

- Deixa pra lá – Sibyl balançou a cabeça – deve ter sido só impressão.

Ela umedeceu os lábios, então tirei o cabelo da frente de seu rosto e contribuí para que eles permanecessem molhados e aquecidos por um bom tempo.

- Quero te mostrar uma coisa.

- Agora? – Sibyl perguntou – Mas hoje é o meu dia de fazer o jantar.

Olhei de novo para a cozinha, Kyrios já estava comendo alguma coisa que encontrou na geladeira enquanto Sāmya o ensinava como descartar cacos de vidro corretamente, sem perceber que era apenas um pretexto que Kyrios usava para não ter trabalho algum.

- Eles nem vão perceber que saímos – me agachei um pouco a frente de Sibyl, esperando que ela colocasse os braços envolta de meu pescoço enquanto eu segurava suas pernas – vamos.

Apesar de estar com Sibyl nas costas, andei de fininho até a porta e rezei para que o barulho habitual da fechadura eletrônica não fosse notado por aqueles dois. Quando comecei a descer as escadas Sibyl enrijeceu ainda mais seu abraço, ela não gostava de lugares altos, mas eu gostava de carregá-la.

- Quantas pessoas – ela disse ao passarmos pelos funcionários que levavam os móveis da senhora Talia para o caminhão.

- Eles irão embora logo – respondi.

Saímos da república pelo portão principal, descemos a pequena escadaria quando os funcionários nos deram espaço, mas não deixamos o prédio. Havia um portão do lado de fora que levava ao meu pequeno estúdio improvisado, e como ficava um pouco abaixo do solo chamávamos de porão.

- Nunca entrei aqui – Sibyl disse ao descer das minhas costas, ela estava descalça e usando um moletom preto com letras de alguma música indie – achei que gostasse de trabalhar sozinho.

- Eu prefiro – respondi. As chaves estavam no meu bolso, a fechadura era simples, mas havia comprado um cadeado para reforçar – mas queria que visse o que estou pintando agora.

Apesar de chamá-lo de porão, o espaço era mais iluminado do que parecia por dentro por causa das grandes janelas perto da entrada, quando abria as cortinas conseguia com que a luz do sol atingisse todos os cantos do estúdio, além da brisa ser minha aliada quando precisava secar meus trabalhos, mas não abri as janelas por causa de toda a comoção que acontecia no lado de fora, então apenas acendi uma das luzes que ficava ao fundo.

- Então é aqui – Sibyl andava devagar entre as telas, desviando dos papeis que estavam espalhados no chão, as vezes descobrindo alguma coisa velha que eu havia me esquecido completamente quando puxava os cobertores – para que o colchão?

- Ah – ela apontava para um colchão velho que havia colocado nos fundos, abaixo das caixas de força, com um lençol que não me lembrava de ter lavado, nunca – é para quando estou cansado demais para subir.

- Mas é frio demais – ela abraçou a si mesma, esfregando os ombros – não devia dormir aqui, pelo menos não durante a noite.

- Não durmo aqui há meses – eu disse – desde que você passou a se esgueirar até a minha cama, ficava ansioso todas as noites e sem inspiração para pintar por causa disso.

Sibyl tentou me empurrar de brincadeira, mas eu desviei.

- Chama isso de ficar sem inspiração? – ela apontou para um dos meus trabalhos mais recentes. Sāmya me mostrou uma das fotos que tirou quando estava na Grécia e eu reproduzi. Foram horas de trabalho, acho que demorou duas semanas para ficar quase perfeito, mas tirei uma boa nota então valeu a pena.

Recolhia os pinceis que havia esquecido no chão enquanto ela continuava a explorar o estúdio. O lugar estava um pouco abafado por causa das janelas fechadas, sem falar no meu último trabalho, que ainda não estava pronto.

Sibyl deu pequenos passos até chegar à última tela, que estava mais próxima do colchão, já que eu passava horas encostado a parede olhando para ela e tentando entende o que faltava. Era a primeira vez que tentava um estilo tão detalhista e ambicioso, sem falar no tamanho do quadro, que tinha a minha altura e tinha quase a mesma largura da parede da cozinha da república.

- Esse é o seu trabalho final desse semestre! – ela disse, animada.

Eu queria muito que Sibyl visse o quadro, mas meu estômago embrulhou assim que ela chegou perto demais, então me apressei para fazê-la mudar de rota.

- Acho melhor cobrir o quadro...

- Mas eu quero ver! – como não a estava segurando com força, foi fácil para Sibyl voltar a rota original.

Ela gargalhava enquanto andava até o quadro, então finalmente o enxergou com a ajuda das luzes. A expressão de Sibyl mudou de repente, como se ela tivesse visto um fantasma, ou um espelho, mas um espelho que não deveria estar ali.

Acho que foi por acidente, mas só agora me dava conta o quanto a garota do meu quadro, a mesma dos meus sonhos, se parecia com Sibyl. Eu a pintei pela primeira vez de perfil, de pé sobre a campina, com uma túnica branca e plissada, como a que os deuses gregos supostamente usavam em seu passado de glória. Havia um colar dourado em seu pescoço, assim como um bracelete, e eu podia sentir o peso deles dó de olhar para o desenho.

Pela posição do rosto consegui ver seus olhos pela primeira vez, castanhos e tristes. O cabelo castanho ao vento, que também dava sensação de movimento ao vestido branco, sujo de sangue.

Sibyl suspirou e desmaiou assim que viu o quadro, mas eu fui rápido em segurá-la e a apoiá-la no colchão que estava por perto.

O desmaio não durou muito tempo, e talvez foram meus gritos que a despertaram dessa vez.

- O que foi? – perguntei para Sibyl, agora de olhos abertos. Segurei seu rosto e o movi gentilmente na minha direção para enxergá-lo melhor. Acho que nunca a vi tão pálida como agora – Está tudo bem?

Sibyl assentiu, abrindo um largo sorriso, e a cor voltou ao seu rosto tão rápido quanto desapareceu.

- Nunca estive melhor – ela disse.

E ali ficamos o resto do dia e da noite, sozinhos no estúdio, mais unidos do que nunca.