Disclaimer: Resident Evil não me pertence, ele é da Capcom e de todos os seus idealizadores. Sou só uma intrometida apaixonada por Cleon.

Classificação T apenas por segurança.

.

(10) First Time

"Claire descobriu que eles eram feitos de primeiras vezes, mas acima de tudo que eles eram feitos para durar pela eternidade."


A primeira vez que o viu Claire estava fugindo de uma criatura que pensava ser impossível de existir e ele apontou uma arma para sua cabeça.

"Não atira!"

"Abaixa!'

Saiu do Campus em busca do seu irmão e o que encontrou foi uma cidade caindo aos pedaços, monstros assustadores, uma criança desamparada e Leon Scott Kennedy, um novato que não deixava ninguém para trás. Jamais cara algum superaria aquela madrugada.

Aquele tinha sido um baita de um primeiro encontro.

..

Quando seu irmão a resgatou da Antártida, Claire tinha tantos sentimentos que não sabia como se expressar. Medo, tristeza, raiva e impotência eram alguns deles. Se sentia idiota também, mas acima de tudo estava cansada.

Quando voltou ficou no apartamento de Chris enquanto ele se reunia com seus ex-companheiros S.T.A.R.S. e contava as novidades. Wesker vivo colocou Jill e Barry tão em alerta quanto o irmão estava. Na semana seguinte, ainda sem ter soltado uma palavra sequer, a campainha tocou. Claire não queria falar com ninguém, nem para dizer que o irmão não estava. Foi uma surpresa encontrar Leon ao abrir a porta.

Ela o olhou ainda sem falar nada, talvez o que viveu em Raccoon, na ilha Rockfort e na Antártida tenha sido demais até para ela. Tinha sonhado com Steve todas as noites, em sua transformação e em sua morte. Sentiu uma pontada no peito, sentia as sensações ruins passarem por seu corpo e ainda assim nada. Estava vazia, sem sentimentos, sem alma e isso a assustava.

"Claire", Leon falou a encarando com uma expressão ilegível.

Para ser sincera só estava ali, viva, por causa dele. Se Leon não tivesse repassado sua mensagem para Chris ela não estaria mais aqui.

Não percebeu quando começou ou como acabou onde estava. Em um segundo achava que estava vazia e no seguinte estava nos braços de Leon chorando e soluçando enquanto deixava toda sua frustração levar a melhor.

Aquela foi a primeira vez que ele a viu chorar e daquele dia em diante Claire passou a contar todas as primeiras vezes entre eles.

..

Eles eram uma bagunça emocional na maior parte do tempo e depois de todo aquele caso com a WilPharma velhas feridas foram reabertas. Para ser mais precisa Raccoon foi reaberta, de forma crua e nada limpa, arrancada e exposta apenas para aqueles que já conheciam a história. Foi o pesadelo revivido.

Depois de muito divagar sobre suas prioridades, não as da humanidade, mas as suas próprias, Claire ligou para Leon e o convidou para um jantar. Eles já se conheciam há o que, sete anos? E mesmo assim só se encontravam na droga de desastres. Precisavam de uma reparação, a amizade deles merecia isso e tão logo o convite foi feito o agente aceitou.

Claire e Leon tiveram uma noite agradável, eles comeram pizza na calçada de um novo estabelecimento italiano na cidade e para acompanhar pediram um vinho tinto. Passaram o jantar pouco se importando com surtos virais, mortos-vivos ou com laboratórios secretos no subterrâneo. Eles comeram e riram, beberam e ressuscitaram velhas lembranças. Falaram de Sherry, combinaram de comprar um papagaio e um cachorro de pelúcia e riram mais uma vez ao se lembrarem de que ela não era mais uma criança.

"Precisamos fazer isso mais vezes", Claire trouxe o tema assim que Leon a deixou na frente de seu prédio. Não precisava de companhia, mas ele insistiu em acompanhar sua moto com o carro.

"Vamos fazer isso. É uma promessa", Leon garantiu em um abraço apertado. Ela o encarou e percebeu como suas feições haviam perdido muito do garoto de 21 anos que conheceu em Raccoon e se transformavam no grande homem que ele seria.

Aquele foi o primeiro encontro de verdade que eles tiveram.

..

Não muito tempo depois houve uma festa onde o presidente se pronunciou contra o terrorismo e as vidas que eram perdidas. Foi um evento que mexeu com os canais de comunicação, foi uma declaração de guerra contra atrocidades e, por Deus, Claire sabia que era tudo publicidade. Havia diferente entre o terrorismo e o bioterrorismo. O bioterrorismo ainda estava escondido por debaixo dos panos, um segredo protegido por homens poderosos e que muitas vezes era passado por um caso de guerra civil em algum país miserável sem grandes expectativas. Ela sabia disso porque na maioria das vezes era a ONG em que trabalhava que precisava recolher os cacos emocionais que ficavam para trás. E este também era o motivo por receber um convite para a festa. Era um tipo declarado de parceria e reconhecimento do governo por aqueles que se preocupavam com partes que ninguém mais percebia, afinal o pós-guerra não significava que as dores tinham acabado.

Naquela noite Claire cumpriria seu papel, compareceria no evento, sorriria e faria politicagem. Chris a ensinou que devemos manter os amigos perto e os inimigos mais perto ainda. Pensou em ir com um vestido vermelho, mas desistiu assim que se viu no espelhou, não queria ser a dama de vermelho. Então optou por um de veludo verde, longo, mangas compridas e costas nuas, a cor destacava seus cabelos e o resultado a deixou satisfeita.

Era óbvio que aquilo aconteceria, uma festa com o presidente norte americano significava que Leon estaria ali e ele estava lindo. Claire sempre o achou bonito e agora descobria que também o achava atraente. Estúpida e perigosamente atraente. Do tipo que faz uma garota, que estava tentando a todo custo se equilibrar em saltos finos, quase perder uma passada e ir de cara no chão.

"Claire, você está... Uau, você está...", Leon a abordou assim que também notou sua presença. Talvez se não estivesse tão nervosa tivesse prestado atenção no nervosismo dele. Nos olhos que não paravam quietos, curiosos em absorver cada novo pedaço dela que ainda não conhecia.

"Uau?", tentou descontrair ao mesmo tempo em que se recriminava mentalmente para não fazer papel de tola.

"É a garota mais bonita que já vi na vida."

Aquela foi a primeira vez que ele a elogiou.

..

O primeiro beijo deles foi em uma explosão e, mais uma vez, isso os definia muito bem. Era tudo culpa daquele bendito chip com as provas no caso do Penamistão. Eles tinham se desentendido, Leon era um idiota por contar as coisas pela metade e Claire era uma idiota por não cavar mais a fundo. Os dois também eram teimosos e tinham a tendência de um sempre cruzar o caminho do outro como se alguma bruxa tivesse jogado um feitiço neles, ou como se fosse uma maldição de alguma vida passada que tiveram.

Chris não era religioso, porém depois do caso do secretário de segurança Wilson sugeriu que a irmã se benzesse.

"Ao menos não deve fazer mal", foi a explicação do irmão. "Se ainda estivesse falando com o Leon diria para sugerir o mesmo para ele."

O caso é que eles se reencontraram. De novo. Em uma situação menos perigosa, porém definitivamente tensa para a amizade estremecida deles. Foi inevitável que o tema não retornasse e depois de mais uma discussão que não levaria a lugar nenhum eles começaram a colocar outras coisas em questão, outros sentimentos e o resultado foi um beijo nem um pouco delicado. Não era um beijo carinhoso, tinha vontade e desejo, mas parecia que eles queriam punir um ao outro e a si próprios por toda a frustração que estavam sentido. Eles se pressionaram, se puxaram e se apertaram, Claire mordeu o lábio de Leon e se regozijou com o gemido que recebeu em troca.

Aquela foi a primeira vez que se beijariam.

..

Logo em seguida eles engataram um relacionamento. Não que tivessem feito algo formal, apresentado para família e amigos, apenas decidiram que era burrice continuar trocando beijos como se nada estivesse acontecendo. Tinham, enfim, passado pela fase da negação e entraram na melhor delas. A do sexo sem peso na consciência.

Oh, como Claire adorava tocar o corpo de Leon sem ter uma crise existencial por isso. Só não amava mais do que senti-lo tocando seu corpo, isso era definitivamente melhor. Quando sugeriu que ele ficasse após um jantar e o convite foi aceito o frio que subiu por sua espinha foi verdadeiro. Nem quando dormiu com seu primeiro namoradinho se sentiu tão nervosa assim.

A noite foi mágica, era ridículo admitir o quão cliché isso soava, mas não tinha definição melhor do que essa. Eles foram a nocaute e teve um momento que ela sentiu seus olhos revirarem em êxtase. Agora entendia porque os franceses chamavam de la petite mort.

Aquela foi a primeira de muitas vezes que dormiram juntos.

..

De forma rápida Leon e Claire se tornaram sexualmente ativos. Não que eles fizessem isso como coelhos, estavam apenas descontando os anos de negação. O problema foi que em uma dessas vezes eles tiveram Chris como plateia não convidada e não havia nada pior do que ser pega por seu irmão mais velho.

Claire não sabia com o quê ficou mais frustrada, se com o discurso constrangedor que o irmão insistiu em fazer como se ela e o namorado tivessem 16 anos, ou se por não ter chegado antes de ser interrompida. Estava tão perto.

Aquela foi a primeira, e última, vez que Chris teve um ataque. Ela sabia que foi apenas o choque inicial de ver a irmã numa posição bastante reveladora.

..

Eles estavam juntos há quase um ano e agora todos sabiam disso, Sherry foi a mais vocal em sua felicidade e às vezes ainda dava gritinhos de empolgação. Cada um continuava com o seu trabalho e vez ou outra se desentendiam por não lidarem com as mesmas coisas da mesma forma. Certa vez um desses desentendimentos se tornou algo mais sério, foi uma besteira, mas mesmo assim eles usaram de palavras que machucavam.

"Você nunca quer ceder."

"Você sempre quer ter razão."

"Você não confia em mim."

"Eu estaria melhor só."

Aquela foi a primeira vez que brigaram de verdade. Nem na vez do chip tinha sido tão feio assim.

..

Doze horas foi o máximo que durou a briga deles, doze horas em que ficaram enfiados no apartamento que agora dividiam se ignorando. Doze horas remoendo palavras que não tinham significado nenhum além de atingirem um ao outro.

Naquela noite Claire se sentou no sofá e ligou a TV, Leon se sentou ao seu lado e puxou o lacre da sua cerveja em um barulho ruidoso. Os dois se encararam, olhos ilegíveis, e então riram um da cara de idiota do outro. Uma coisa era certa de se dizer, eles gastaram o restante da noite se reconciliando, ela agora sendo amiga íntima de la petite mort.

Na manhã seguinte Claire estava nua deitada sobre o peito também nu de Leon. Sua cabeça virada para cima encarava o rosto másculo do homem ao seu lado, seu dedo indicador subia e descia por seu maxilar sendo arranhado pela barba dele.

"Acho que temos que nos desculpar", ela iniciou.

"Eu não acho. Só teríamos que nos desculpar se realmente acreditássemos no que falamos, não precisamos nos preocupar com o que não é verdade. Mas se isso for importante para você podemos fazer."

"Não", voltou atrás entendendo e concordando com o ponto dele. "Está perfeito como está."

Aquela foi a primeira reconciliação que tiveram.

..

O grande dia tinha sido uma loucura, eles não queriam nada muito grande ou chamativo. Mas Chris, feliz com o seu próprio relacionamento com Jill, disse que não aceitaria nada menos do que o perfeito para sua irmãzinha. O casamento tinha mais convidados de seus convidados do que os deles mesmo, Claire passou a noite sorrindo para pessoas que nunca viu na vida e Leon cumprimentando completos estranhos.

Ao final, quando nenhum dos dois aguentava mais sorrir como duas estátuas de cera, Leon provou o porquê de ser o agente mais competente que a D.S.O. tinha. Com a cobertura de Sherry ele levou a esposa para uma parte mais afastada da festa, ao fundo havia uma Harley Davidson igual a que ela entrou em Raccoon muitos anos atrás.

"Que tal terminarmos da mesma forma como começamos?", ele sugeriu com um brilhante sorriso no rosto, lhe estendendo as chaves.

"Terminar? Estamos apenas começando", devolveu o sorriso e ficou feliz por não ter escolhido um vestido ridiculamente gigante. Seria a primeira vez que pilotaria uma moto vestida de noiva, era a coisa mais divertida que fez nos últimos anos. "Você sabe que se chegarmos no nosso destino e tiver qualquer indício de ataque bioterrorista vamos embora no mesmo instante, né? Não vou passar minha lua de mel explodindo miolos de zumbi."

Claire descobriu que eles eram feitos de primeiras vezes, mas acima de tudo que eles eram feitos para durar pela eternidade.

(FIM)


Hi, folks!

Essa shot está guardada desde domingo enquanto eu me debato internamente se vale ou não a pena postar. Porque, vejam bem, escrever quando nos programamos é uma coisa, mas escrever por algum surto aleatório pode significar apenas desabafo e isso não garante qualidade nenhuma no plot. E este ano foi bem doido, escrevi mais histórias do que li livros e tal qual o meme do pica-pau "em todos esses anos nessa indústria vital essa é a primeira vez que isso me acontece".

Uma boa leitura a todos!