Notas da autora: escrevi essa fanfic pensando na experiência de universidade pública brasileira, mas eu coloquei MDX (que é uma universidade londrina) porque fiquei com medo de colocar o nome da universidade que estudo, já que uma parte do plot dessa fanfic realmente aconteceu (e porque ninguém merece colega de faculdade lendo as nossas fanfics e descobrindo que são nossas). A fanfic participa do projeto Pride Month ( pridemonthffs) do Twitter.
Capítulo Único.
Lavender não acreditava na história de que todo curso tinha uma disciplina chata, não até ter "introdução à antropologia no serviço social" na sua grade.
Evitava cabular as aulas da faculdade, reservando as faltas para quando precisasse estudar para uma prova difícil ou terminar um trabalho muito importante. Mas, naquele dia, sabia que não prestaria a menor atenção na matéria e estava exausta. Por esse motivo, estava voltando para o apartamento que dividia com o irmão mais velho a três estações de metrô de distância do centro universitário.
Tinha procurado por apartamentos para alugar ou repúblicas vagas próximas da universidade, mas o que estava mais acessível ao seu bolso e de seu irmão ficava alguns bairros à distância. Na verdade, Logan trabalhava como porteiro do prédio em que eles moravam, então não precisavam pagar pelo condomínio, só pela água, gás e eletricidade. Com o salário dele e a bolsa estudantil dela, eles conseguiam se virar. Quando as coisas ficavam difíceis, Lavender ficava horas em uma das bibliotecas da faculdade esperando dar a hora do jantar no bandejão.
Enquanto esperava pelo metrô, jogou a sua mochila em um dos bancos vazios da plataforma e puxou o elástico de seu cabelo cacheado, pronta para prendê-lo mais uma vez. Não tinha muita paciência para cuidar do cabelo na rotina cansativa de estudante universitária, então mantinha os seus cabelos naturalmente loiros sempre presos. Sim, seus cabelos eram loiros, por mais que as pessoas não acreditassem quando ela dizia. Parecia que era impossível que negros de pele clara tivessem alguma cor de cabelo que divergisse do padrão castanho ou preto. Realmente amaria ver suas expressões quando descobrissem sobre os habitantes da Ilha de Salomão.
Puxou o elástico da sua boca, assim que terminou de puxar todo o seu cabelo para trás, e então fez um rápido e desleixado coque. Havia apenas algumas pessoas na plataforma devido ao horário, ainda não tinha terminado o almoço no bandejão. Ela teria ido lá, se não tivesse medo de esbarrar com o professor da aula que mataria, como já tinha acontecido antes. Mais alguns minutos e o metrô começaria a lotar por causa das crianças indo para a escola à tarde, os adolescentes voltando das aulas matinais, os trabalhadores de diferentes turnos de trabalho se deslocando de um lado ao outro da cidade.
Jogou a mochila para o chão, aos seus pés, e sentou-se para esperar pelo metrô. Estava considerando pegar o livro que tinha alugado da biblioteca da faculdade (Holocausto Brasileiro), quando uma moça sentou-se ao seu lado. Não devia ter mais de 25 anos, tinha longos cabelos ondulados e de um tom castanho bem escuro. Em sua testa, no meio entre as sobrancelhas, tinha um bindi. Se não fosse suficiente para perceber a sua ascendência indiana, os seus traços lhe dariam o benefício da dúvida.
— Desculpe, você é da MDX?
Demorou alguns segundos para processar que a menina estava falando com ela. Olhou para baixo, apenas para se certificar de que estava usando a blusa da MDX, como sempre, e de que ela só tinha perguntado por educação.
— Sou.
— Tá todo mundo sendo liberado mais cedo hoje?
Estava acontecendo um evento de palestras em que alunos de vários cursos apresentavam seus trabalhos.
— Não que eu saiba, só saí mais cedo — ela respondeu.
— Ah sim, obrigada — a menina indiana sorriu — Tava procurando por uma amiga, mas acho que ela já foi embora.
— Um trem tava passando assim que eu desci as escadas.
— É, ela deve ter ido nesse.
Geralmente a conversa teria acabado por ali, já que nem se conheciam, mas a mulher voltou a falar:
— Que curso você faz?
— Serviço social — ela respondeu e então perguntou por educação — E você?
— Turismo. A propósito — ela não permitiu que o silêncio retornasse, engatando outro assunto —, meu nome é Parvati.
— Eu sou a Lavender.
— Está em qual período?
— Vim transferida, então estou com matéria de vários períodos ao mesmo tempo.
— Deve ser uma loucura se adaptar. Estou no quarto período ainda, mas devendo algumas matérias do terceiro.
— É, é um pouco chato, ter que participar de uns cinco grupos de turma no WhatsApp.
Apesar de não ter sido tão engraçado, Parvati riu de sua observação.
— Odeio WhatsApp — ela comentou — Só tenho porque sou obrigada.
— Eu nem tenho muito com quem conversar, então vira um aplicativo inútil no meu celular — disse Lavender.
— Baixa o Telegram. É muito melhor. Tem série pirateada, tem grupo de tradução, tem UNO, tem bot, tem lobinho...
— O que é lobinho?
— É como se fosse detetive, tem vários papéis, mas não consigo me lembrar de todos agora. E tem modos de jogo, tipo, dá pra jogar modo Marvel ou Game of Thrones, e aí os papéis são os personagens...
Admirou a capacidade de Parvati de se comunicar com uma pessoa completamente desconhecida com tanta facilidade. Talvez fosse um dos requisitos para quem cursava turismo, mas tinha uma diferença entre o trabalho e tentar fazer amizades.
Queria conseguir se comunicar tão abertamente, mas a pressão que sentia no peito, resultado da ansiedade, a atrapalhava muito. Coçou a bochecha, sentindo o nervosismo começar a surgir. Devia estar falando alguma coisa, em vez de escutar tudo calada, mas apenas fazia expressões que considerava sociáveis e mexia a cabeça. Não conseguia nem prestar muita atenção no que ela dizia.
— Parece bem legal — coçou a nuca, a voz baixa.
— Se as pessoas parassem de babar ovo do WhatsApp, ia ser muito melhor — Parvati ajeitou-se no banco, puxando a sua pasta para o colo.
Achava chique, ela não estava usando mochila. Parecia uma executiva, se estivesse usando saltos e blazer.
— Apresentou trabalho? — ela perguntou.
— Fui apoiar algumas colegas. Gosto da área da pesquisa, mas... acho que TCC já é o bastante — Parvati fez uma careta.
— Eu nem sei qual vai ser o tema do meu.
E ela estava pesquisando ideias desde que entrou na universidade.
— Eu pensei em falar sobre como assassinatos atraem público de uma forma assustadora — a indiana pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Parece legal — disse Lavender.
— Mas não tenho ideia de como faria isso. TCC não requer uma pesquisa bibliográfica e de campo? Isso daria trabalho.
Também não conseguia se visualizar fazendo a monografia dali a alguns anos. A simples ideia a fazia surtar, então obrigou-se a não pensar naquilo.
— E você? Se interessa pela iniciação científica? — Parvati não deixou que o silêncio permanecesse por muito tempo.
— Eu prefiro me inscrever para monitoria — ela respondeu — Gosto de ensinar, tirar dúvidas.
— Estou pensando na ideia de me inscrever para o centro acadêmico. Me inscreveria para a atlética, se turismo tivesse torcida.
Lavender escutou o som do metrô aproximando-se da plataforma. Puxou a mochila para o seu ombro, levantando-se e aproximando-se do vão, mas não o suficiente para que pudesse cair. Era um medo irracional que sempre a acompanhou, às vezes tinha pesadelos em que caía nos trilhos.
Ao contrário do que esperava, o vagão não estava vazio, mas estava melhor do que quando chegasse à estação central. Parvati ergueu o braço e segurou na barra mais alta sem nem pestanejar. Não tinha percebido o quão alta ela era, já que antes estava sentada. Com seus poucos metros, Lavender apoiou-se na barra que ia até o chão.
Ao seu lado, Parvati voltou a falar sobre as grandes chances que a faculdade pública lhes proporcionava, mas sinceramente, não conseguia prestar atenção em uma palavra. Aquela sensação no peito estava a sufocando. Odiava como a medicação a impedia de saltar do penhasco, deixando-a sempre à beira de uma crise, mas sem livrá-la daqueles sintomas definitivamente.
— Você não é muito falante, não é?
Olhou para ela, observando-a sorrir constrangida.
— Tô falando demais.
— Não, não é isso — Lavender respondeu, olhando para um ponto acima de sua cabeça — É que eu tenho ansiedade, é difícil conversar com as pessoas.
Tentou forçar-se a relaxar, sentindo que aquela interação estava sugando mais de sua energia do que toda conversa que teve durante o dia.
— É mais fácil por telefone? — ela perguntou, pondo a mecha atrás da orelha outra vez.
Pane no sistema.
Ela era péssima em identificar sinais, mas... Parvati estava dando em cima dela?
— Assim a gente pode continuar conversando, você não fica desconfortável e... — ela continuou, dando de ombros — A gente pode ver se os nossos horários batem. Me sinto um pouco insegura caminhando até o metrô sozinha.
Não, ela não estava dando em cima dela.
Ou estava?
Parvati hesitou, ao perceber a sua falta de reação.
Reaja!
— Claro — respondeu depois de engolir em seco — Tem papel aí?
Ela tirou o celular do bolso da frente da mochila e então anotou conforme ela ditou.
— Eu desço aqui — Lavender observou o painel das estações.
— Certo, a gente se fala então — ela sorriu minimamente.
Definitivamente odiava ter ansiedade.
— Tchau — foi o que conseguiu falar antes de saltar na estação.
Ficou pensando o caminho inteiro para casa.
O que tinha acabado de acontecer?
Tinha mesmo sido um flerte? Ou tinha sido paranoia da sua cabeça e a garota só queria fazer novas amizades?
Mas se tinha sido flerte... Não, mas ela não era lésbica. Não que ela soubesse, pelo menos. Ela era lésbica? Não, ela era assexual. Mas era possível ser assexual e sáfica ao mesmo tempo... Mas e se ela fosse radfem? E se ela risse quando contasse que era assexual? E se dissesse que assexualidade não existia? Ou todas aquelas coisas horríveis que escutava das pessoas o tempo inteiro?
Ela ia agir com naturalidade. Parvati a chamaria para conversar e ela agiria com naturalidade porque teria tempo para pensar em uma resposta. Sim, conversar por mensagem era muito melhor, ela não tinha problema para conversar com seus amigos do Twitter. Seria a mesma coisa, exceto que elas já se conheciam pessoalmente.
Chegou em casa sentindo-se exausta. Logan não estava na portaria, devia estar dormindo ou em horário de almoço. Subiu de elevador até o último andar, e então subiu as escadas até onde ficava o apartamento dos porteiros e a entrada para o telhado do prédio. Pescou a chave de dentro da mochila e entrou em casa com cuidado para não acordá-lo, se estivesse dormindo.
Tomou um banho gelado para livrar-se do suor e tentar relaxar, mas só conseguia pensar na bendita mensagem. Assim que pôs um pijama, mesmo estando longe da hora de dormir, enfiou-se em seu quarto e pegou o notebook usado, que seus pais conseguiram de algum colega de trabalho deles. Não tinha muita memória, mas funcionava fora da tomada, não dava pau o tempo inteiro e a internet dava pro gasto, então não reclamava.
Entrou no Twitter, pronta pra reclamar do seu dia e, principalmente, mandar uma DM pra Dean, seu melhor amigo que morava em outro estado e que nunca viu pessoalmente.
← DEAN ⓘ
deanthomas
Me diz que tá on
Preciso falar contigo
1:32 PM ✓
Ah pronto
Que que foi agora
1:32 PM
Ace panic
Não sei se uma pessoa deu em cima de mim
1:33 PM ✓
Vamo pro Zap?
1:33 PM
Lembrou-se de Parvati falando sobre WhatsApp e o pânico aumentou. Certo, ela não tinha como ver se estava online, já que não tinha o seu contato adicionado, mas e se mandasse mensagem?
Tô fugindo de lá
Tava esperando pelo metrô e essa guria sentou do meu lado
E começou a puxar assunto
Mas no final pediu meu número
1:34 PM ✓
Amei o teaser
Agora me manda o Snyder Cut
1:35 PM
Lavender riu sozinha, ele era um palhaço às vezes. Devia ter previsto que pediria por mais detalhes.
Eu tava surtando
Não pode me pedir pra lembrar de tudo
Basicamente, queria saber se a MDX toda foi liberada cedo
Porque tava procurando a amiga dela
E começou a puxar assunto comigo
Falando de facul
1:36 PM ✓
E só pediu teu número?
1:37 PM
Foi tipo
"Já que tá desconfortável, me passa seu número"
E colocou o cabelo atrás da orelha
Você é formado em Metaforando
Tava dando em cima de mim?
1:38 PM ✓
Pelo que me fala
Sim
Mas espera ela mandar mensagem
1:39 PM
Eu vou morrer
1:39 PM ✓
O que achou dela?
É gata?
1:39 PM
Eu sou aceee
1:40 PM ✓
Mas não é arooo
E o radar nunca falha
Se ela sentiu, ela sentiu
1:40 PM
Ela passou a mão pelo rosto, e então o seu dedo captou a sua atenção. Estava usando o anel preto no dedo do meio, que era o símbolo da comunidade ace, como sempre.
Eu tava usando o anel de coco
Ela deve ter pensado que eu era lésbica!
1:41 PM ✓
Vou te devolver pro lixão
Idaí
Se tu tá interessada, fala pra ela
Senão, fala pra ela também
1:42 PM
Vc é muito grosso cmg 😭
Tchau
1:43 PM ✓
Ficou esperando pelo resto do dia que ela mandasse mensagem, o coração praticamente na garganta, mas as únicas notificações que recebeu no celular foram dos grupos de faculdade.
← DEAN ⓘ
deanthomas
Ela não me mandou mensagem
9:10 PM ✓
Desapontada?
9:11 PM
Não
Só fiquei nervosa o dia todo à toa
Eu reagi mal
E se ela achar que eu sou homofóbica?
9:12 PM ✓
Lav, vc não tem que acordar 5 da manhã?
9:13 PM
Sei lá, o jeito que tu me ama é diferente
9:13 PM ✓
Seamus disse que vc tá com gay panic
Tipo, pode ser que vcs nunca mais se vejam na vida
MDX é imensa
E ela pode tá ocupada tb
9:14 PM
Com certeza ela acha que eu sou homofóbica
9:15 PM ✓
Boa noite
9:15 PM
Seja por pensar que ela era homofóbica ou seja lá o quê, Parvati nunca mandou mensagem. Ela tinha digitado algum número errado? Ou ela não conseguia porque não usava WhatsApp e Lavender não tinha baixado o Telegram?
Nunca alguém tinha dado em cima dela antes. Todos os thetes que teve foram totalmente platônicos (e inteiramente baseados em aparência). Ou ela estava sendo narcisista e tinha entendido tudo errado? Talvez por isso não tivesse mandado mensagem, porque ela tinha entendido errado.
Com o passar dos dias, conseguiu relaxar e pensar menos frequentemente sobre isso. Uma parte de si estava aliviada pela falta de mensagens, enquanto que a outra estava... desapontada? Queria receber mensagens de Parvati? Ela parecia ser uma garota legal, e ela não tinha nenhum amigo na faculdade, seria legal fazer uma amizade, mesmo que se vissem pouco.
E então, quando tudo estava calmo, a encontrou outra vez. Não foi no metrô, foi no bandejão.
Estava almoçando, tinha escolhido uma das mesas mais próximas da saída. Estava sentindo-se particularmente calma naquele dia, estava almoçando junto com uma colega de curso e conversavam. Odiava a hora do almoço porque sempre ficava sozinha, observando como todas as pessoas ao redor interagiam entre si, e ela sentia-se incapaz de intrometer-se nas conversas alheias. Mas naquele dia, estava conversando sobre o trabalho que a professora tinha passado, sobre a matéria, sobre a prova da semana seguinte.
Parvati não precisou chamar pelo seu nome, porque a viu com a bandeja em mãos, caminhando em direção a alguma mesa, quando percebeu que ela estava lá.
Sorriu, decidindo agir naturalmente.
— Oi — disse.
— Tem alguém aqui? — ela indicou a cadeira do outro lado dela.
Negou com a cabeça.
Desviou o olhar para a gelatina de morango, que era a sobremesa do dia. Tinha saído bem cedo e rápido da aula pra poder pegá-la, as sobremesas acabavam rápido, e não tinha tido a chance ainda de experimentar uma. Geralmente só as frutas sobravam, não que ela tivesse algo contra.
Quase a ignorou, voltando a conversar com sua colega, mas algo dentro dela a impediu. Virou-se para a esquerda.
— Gato ou cachorro?
Parvati piscou, confusa com a pergunta repentina.
— Prefere gato ou cachorro? — voltou a perguntar.
— Na verdade, prefiro porquinho da índia — ela sorriu levemente — Trocadilhos à parte.
— Eu gosto de coelhos. Tinha um quando criança, mas ele morreu. Agora, com a faculdade, não tenho tempo de cuidar nem de peixes.
Parecia que os papéis tinham se invertido, Lavender estava bem falante naquele dia, enquanto que Parvati parecia incomodada com alguma coisa.
A sua colega de curso levantou-se, a bandeja já vazia, o que deixou-a mais confortável. Ninguém fora do Twitter sabia que ela era assexual, nem mesmo sua amiga de escola soube quando ela descobriu e ainda estudavam juntas.
— Fiquei esperando você me escrever — ela disse, os olhos fixos na comida.
— Pensei que tava incomodando.
— Eu te disse que tenho ansiedade, que é difícil me comunicar.
— E hoje você tá ótima.
Sentiu o seu rosto corar.
— Hoje é um bom dia — murmurou simplesmente.
Seria sempre assim? Ela sempre dizia ou fazia tudo errado. Devia ser por isso que não tinha nenhum amigo.
Pelo visto Parvati não diria mais nada, então ela disse.
— Pensei que tava dando em cima de mim e surtei.
Ela puxou a respiração ruidosamente ao seu lado, como se tivesse se assustado com o quão direta tinha sido.
— Desculpa, tá bem? Eu não sei como lidar com as pessoas.
— É, eu me interessei por você — Parvati disse, olhando-a — Pensei que fosse como eu.
— Por causa do anel — afirmou.
— Bem, geralmente quem usa anel de coco...
— Muitos grupos usam anel de coco. Galera do swing, indígenas, fãs do Luan Santana, lésbicas, bissexuais, assexuais...
A conversa não estava indo para um bom lado, era melhor que não tivesse dito nada.
— Me desculpe por pensar que você era lésbica — Parvati disse com um tom de deboche, como se pensasse que essa fosse a questão.
— Eu sou assexual.
Nunca tinha dito isso em voz alta, muito menos para uma quase desconhecida com quem só conversou alguns minutos no metrô.
— Eu não sinto atração sexual por ninguém, seja homem, mulher, não binário — ela continuou, sem olhá-la, diminuindo o tom de voz — Isso não significa que eu não sinta vontade de transar ou ter um relacionamento... Eu nem sei qual é a minha orientação romântica! Eu poderia ser lésbica, bi, pan, eu não sei porque eu nunca senti isso por alguém.
Parvati não respondeu.
— Entrei em pânico porque sabia que não ia me levar a sério. Ninguém leva mesmo — ela empurrou a cadeira para trás para se levantar e pegou a bandeja.
A mão cheia de pulseiras segurou o seu braço antes que pudesse se afastar.
— Eu não vou mentir. Não tenho ideia do que está falando — ela disse, tentando captar o seu olhar, mas Lavender nunca olhava alguém nos olhos por mais de 2 segundos — Mas eu quero entender. Me explica o que é.
Ficou com um pé atrás. E se ela concluísse no final das contas que era tudo uma grande piada? Que estava inventando coisas? Não queria ver a sua reação.
— Me manda mensagem, eu vou te enviar alguns artigos escritos por aces. Se você achar que é uma piada, é só me ignorar, eu vou entender.
E então seguiu pelo corredor da saída, pegando o pote de gelatina e deixando a bandeja no posto onde os funcionários lavavam os pratos e talheres.
← DEAN ⓘ
deanthomas
Vc devia ser atriz de novela mexicana
Nunca vi ser humano mais dramático
E olha que eu namoro o Seamus
4:20 PM
Eu quero chorar
Que ódio
4:21 PM ✓
Ela te mandou mensagem?
4:21 PM
Mandou, no Telegram
Mandei uns artigos pra ela
Inclusive o que eu escrevi há uns 2 anos
4:22 PM ✓
E ela não te respondeu?
4:23 PM
Ainda não
Nem sei se vai
Eu sou confusa demais pra um relacionamento
Vou morrer sozinha
Seria mais fácil se eu fosse aro
4:25 PM ✓
Hum
Interessante
4:25 PM
Eu criei uma fic na minha cabeça tá?
Não começa
4:26 PM ✓
Ela é LGBT
Estuda na pública
E tem Telegram
Ela deve ter Twitter
4:26 PM
Mas deve ser FC
FC é difícil de achar
4:26 PM ✓
Mas o nome dela é diferente
Pesquisa o nome da facul
Quem sabe
Sei lá
4:27 PM
Antes que pudesse fazer isso, recebeu notificação do Telegram no celular.
← Parvati ∴
visto recentemente
Que diferente 16:28
Não sabia que isso existia 16:28
Não se fala muito sobre isso 16:29 ✓✓
Pode me perguntar se quiser 16:29 ✓✓
Se ficou alguma dúvida 16:29 ✓✓
Por mais estranho que pareça 16:30
Não 16:30
Os artigos que me mandou explicaram tudo 16:30
Como descobriu? 16:30
Fui pesquisar a diferença entre bi e pan 16:31 ✓✓
E apareceu como pesquisa relacionada 16:31 ✓✓
Faz sentido 16:31
E vc é lésbica? 16:32 ✓✓
Não, sou bi 16:32
Só tenho uma preferência maior por mulheres 16:32
Quem sou eu pra julgar 16:33 ✓✓
É uma parada bem pessoal 16:33
Eu posso tá entendendo errado 16:33
Mas não parece que tá me dando fora 16:33
Fui sincera 16:34 ✓✓
Não sei do que eu gosto 16:34 ✓✓
Mas vai me dar uma chance? 16:35
Não vou te pressionar 16:35
Deixa rolar 16:35
Se não for pra você, eu vou super entender 16:36
Tá bem 16:36 ✓✓
Aaaaaaaaaah 😍 16:36
Agora assuntos importantes 16:37
Vou te colocar no grupo do lobinho 16:37
Vou te mostrar como Telegram é muito melhor que Whatsapp 16:37
Se incomoda se eu te seguir no Twitter? 16:38 ✓✓
amas 16:38
Onde eu vou poder falar sobre você? 16:38
Cria uma rant 16:39 ✓✓
Ela não a invalidou.
Jogou o corpo para trás, deitando de costas para a sua cama, olhando para o teto. O celular vibrou com as mensagens de Dean querendo saber o porquê ela sumiu e do grupo de lobinho que Parvati a enfiou.
Ela não ligou que ela fosse ace.
Ela ainda queria ficar com ela, mesmo sendo ace e tendo ansiedade.
Seu cérebro tentou lhe dizer que muito provavelmente não duraria, que ela cansaria de suas crises, suas manias, suas dificuldades, mas pela primeira vez, conseguiu ignorar aquela voz que sempre tentava deixá-la para baixo.
Pegou o celular, procurando onde estava a foto que tirou da grade de horário da faculdade. Precisava mandar pra ela pra saber quais dias podiam voltar juntas de metrô.
