Coração de aço

Quando os afiados olhos de Vanessa avistaram o veterano do Alvorecer Dourado pela primeira vez, sua mente e coração sentiram que aquele homem era extremamente distinto de qualquer outro que já cruzou o seu caminho, e consequentemente, a sua cama. E agora, o aniversário de Asta e Yuno acaba dando a ela a chance de reencontrar aquele que roubou seu coração à primeira vista...

Era aniversário de Asta e Yuno. Um bom tempo havia se passado, e os jovens agora celebravam seu 18° ano de vida. Os rapazes comemoravam aquela data memorável com uma grande festa no orfanato onde foram criados. A maior surpresa foi a grande revelação de que Yuno e Noelle estavam oficialmente namorando, pois a garota desistiu de sua paixão por Asta, e pela insistência deste em conquistar a todo custo o coração da doce Irmã Lily.

Depois de passarem o dia todo festejando no lugar onde viveram seus melhores anos de infância, o capitão Yami resolveu convidar a todos para estender a festa em um bar não muito longe de onde estavam. Claro que a princípio todos ali presentes estranharam a ideia, ainda mais em se tratando de "crianças", mas logo o rude mago tratou de esclarecer que os rapazes já tinham idade suficiente para frequentar tal local, e que se durante todo o tempo em que conviveram com as constantes bebedeiras e ressacas de Vanessa, não seria uma ida ao barzinho mais próximo que os levaria a cair no mundo do álcool.

Vanessa, sem dúvida, era a maior interessada em estender a festa, sobretudo porque algo a incomodava sobremaneira, e prolongar o aniversário dos rapazes seria uma forma de poder reencontrar aquela pessoa. Entediada, a bela mulher remexe vagarosamente o copo quase vazio, contendo apenas um dedo do whisky, e o gelo, que aos poucos derretia, para o seu lamento. Sentada ao lado de seu namorado, Noelle se empenhava em ignorar os péssimos modos de Asta, que devorava os petiscos que habitualmente eram servidos naqueles estabelecimentos, e seus orbes claros observavam cada trejeito e gesto da bruxa veterana, cujo semblante revelava tristeza e desapontamento. Sua ensimesmação logo foi interrompida ao sentir os cuidadosos dedos de Yuno a acariciar a moldura de seu rosto, fazendo-a ruborizar de imediato.

- Algum problema, minha linda? Parece inquieta, pensativa.

- Não… eu apenas… estou pensando na Vanessa. Ela parece estar bem triste.

- Agora que mencionou… - direciona seus olhos dourados para a aludida, que suspirava imersa em seus pensamentos - Também estou tentando entender porque ela está assim, pois a vi cabisbaixa durante o dia todo.

- Ora, meu caro Yuno, você não sabe? - Yami se achega, colocando-se no meio do casal, que acaba por se surpreender - Você não sabia que aquela louca anda numa paixonite danada por aquele engomadinho… - coça o queixo pensativo - Como é mesmo o nome dele? Daquele moleque de óculos que dava uma de superior do seu esquadrão?

- Está falando do Klaus-senpai? - o moreno quase se engasga com seu coquetel de uva, tamanho o susto que levou com a inusitada revelação do relaxado homem.

- Isso mesmo. Faz algum tempo que a Vanessa me falou que estava muito interessada nele. A princípio, achei que fosse um capricho dela, pois essa bruxa bêbada pervertida dá em cima de qualquer homem bonito, mas pelo jeito, creio que dessa vez deve ser sério, visto que o dia todo ela só bebeu aquele copo de whisky que tem em mãos.

- Agora que falou, Capitão… eu não a vi beber o dia todo. - a platinada observa, mirando novamente a face entristecida da voluptuosa mulher de cabelos rosados.

- Isso sim… é uma surpresa… - diz Yuno ainda boquiaberto, não apenas por saber que seu amigo era o interesse amoroso da poderosa bruxa, como também pelo fato da aludida ter bebido somente dois dedos naquele dia festivo.

- Mas você não convidou o Klaus-senpai para estar aqui hoje, Yuno? - Noelle indaga pensativa, atraindo a atenção do moreno.

- Sim. Eu mandei uma mensagem, mas ainda não obtive resposta. Mas não se preocupe, anjo, ele deve ter tido algum contratempo e ainda não pôde aparecer.

- Entendo… acho melhor eu ir falar com ela.

Enquanto a jovem cavaleira mágica se aproximava, Vanessa seguia compenetrada e imersa em suas lembranças. Não sabia ao certo, mas em um dos festivais locais, o nobre do Alvorecer Dourado chamou sua atenção de uma forma inexplicável. Era bem verdade que ela por tempos se esforçou em ganhar o coração de Yami, e embora não fosse correspondida, sua fraqueza por homens belos permanecia forte em seu ser, tão poderosa quanto sua ânsia por bebidas. Porém, antes mesmo que a membro da família Silva se aproximasse, todos se surpreendem ao ouvir uma voz bastante conhecida, voz esta que fez o coração de Vanessa disparar.

- Boa noite a todos! Perdoem pelo atraso, mas algumas burocracias relacionadas à nobreza me impediram de comemorar com vocês mais cedo, mas felizmente pude chegar.

- Aeeee! - Asta berra assim que vê o homem adentrar o estabelecimento, e a bruxa rosada não evita sentir um entorpecente deslumbre - Finalmente o quatro olhos chegou!

- Quem está chamando de quatro olhos, seu nanico abusado?! - ele logo vai até o garoto e trata de bagunçar seus cabelos, que por si só, já não são tão alinhados - Nem mesmo a idade te deixa menos besta, seu moleque atrevido!

- Ora, larga de ser chato, quatro olhos! Sabemos muito bem que você gosta que te chamem assim. - alfineta Asta, fazendo o mais velho bufar de raiva.

- Vamos deixar de lado essas bobagens, certo? - Noelle intervém, puxando o rapaz pelo braço, conduzindo-o até onde estava aquela que tanto almejava por sua presença - Esta é Vanessa Enoteca. Vanessa, este é Klaus Lunettes, um dos companheiros do Yuno no Alvorecer Dourado. - a platinada se empenha em fazer as honras, sem imaginar o que estaria se passando na mente de ambos naquele instante.

Os orbes magenta do misterioso homem mergulham na imensidão dos olhos arroxeados da experiente bruxa, cujo coração passa a saltar freneticamente em seu peito, e a emoção daquele encontro certamente teria resultados inesperados na vida daquelas duas pessoas…

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Do lado de fora do bar, o corpo do belo mago é repentinamente prensado contra a parede próxima, e sem que pudesse processar aquela abordagem abrupta, sente seus lábios serem capturados com furor e urgência, invadindo-lhe a boca de modo intenso e instigante, como nenhuma outra o havia feito. Confuso, Klaus arregala seus orbes magenta, tentando elaborar em sua mente qual seria a justificativa para tamanha loucura.

A essa altura, todos já tinham ido embora, dando a deixa perfeita para que os dois ficassem a sós. Após dois, no máximo, três drinks, a mulher havia dado sinais de que estava completamente embriagada, solicitando a sua ajuda para levá-la de volta, embora suas reais intenções estivessem bem longe de serem as mais inocentes.

Mesmo tendo sido pego de surpresa, o cavaleiro mágico de madeixas azuladas não podia negar que estava adorando aquela carícia repentina, e sobretudo repleta de uma intensidade que o instigava, ao mesmo tempo em que o confundia. A grande verdade é que ele evitou comparecer ao aniversário de Asta e Yuno justamente para evitar um possível encontro com Vanessa, isso porque há tempos atrás, teve seu primeiro encontro com ela em um festival na cidade, porém apenas a avistou de longe, sem que a mesma percebesse, e foi o suficiente para despertar um amor à primeira vista em seu coração, mas nunca se atreveu a se aproximar, não apenas por sua insegurança, como também por descobrir sobre a conduta de seu interesse amoroso. Após sua breve ensimesmação, o intenso contato é rompido quando o ar lhes falta, e com a face tomada por um leve rubor, o jovem encara a bela mulher a sua frente com seriedade.

- O que pensa… que está fazendo, senhorita Enoteca?

- Ora, deixe disso, lindinho. - percorre os dedos pelo tórax de Klaus em uma atitude provocativa, sem desfazer o contato visual - Somos adultos, e sabemos perfeitamente bem o que significou o que acabou de acontecer, não acha?

- Não, eu não acho. - ajusta os óculos no centro de seu rosto, e ela sorri de canto em resposta.

- Para um homem, até que você é bastante ingênuo. Eu… estive esperando por você. - sem cerimônia, leva sua mão até a cintura do azulado, pegando o seu grimório, deixando-o ainda mais surpreso - Eu sei tudo sobre você, por isso, use sua magia e me leve em sua carruagem de aço até o local que eu lhe indicar. - termina a oração com um sorriso cheio de malícia, e Klaus não evita observar a bruxa de cima abaixo, visto que o traje deveras revelador chamava a atenção sem esforço algum. A saia deveras curta, as botas altas e aquele decote eram capazes de mexer com a imaginação de qualquer homem, contudo, não foram necessariamente esses atributos que chamaram a atenção do orgulhoso mago. Havia algo mais… algo que Vanessa nem ao menos fazia ideia, e que provavelmente descobriria até o final daquela noite…

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Ainda que a contragosto, Klaus segue o trajeto pedido por sua acompanhante em sua carruagem de aço até o local por ela indicado. Tratava-se de uma residência nos arredores da cidade, porém um pouco distante da base dos Touros Negros, um local bastante discreto e afastado, por assim dizer. Chegando lá, o azulado logo trata de compreender o que de fato estava fazendo ali.

- Chegamos. Não fique aí parado, gatinho. Vamos entrar.

Sem dizer uma única palavra, o nobre desfaz sua carruagem, guardando seu grimório novamente em torno de sua cintura, adentrando o local.

A casa era relativamente grande, com um telhado triangular, de aparência regular às demais construções do Reino Clover, e como tal, possuía dois andares. A parte de baixo abrigava uma sala aconchegante com um amplo sofá e uma lareira, bem como a cozinha e outros cômodos, deixando o andar de cima somente para a suíte. Vanessa logo o convida a sentar, e Klaus o faz, sem muita resistência, vendo sua anfitriã se aproximar com uma garrafa de vinho e duas taças em mãos, as quais coloca sobre a mesa de centro frente ao sofá.

- Acho que a senhorita ingeriu álcool além da conta. Eu a trouxe até sua casa, conforme me pediu, assim sendo, me retiro. - se levanta, indo em direção à porta, mas a rosada o interpela novamente contra a parede.

- Por que a pressa? Por acaso está rejeitando o meu convite… de passarmos uma noite inesquecível aqui? - indaga sedutoramente, deslizando a mão direita suavemente pela lateral do rosto másculo, e mesmo Klaus estreitando o olhar em desaprovação, isso não evita que seus lábios sejam novamente capturados em um beijo ardente e desejoso.

Vanessa invade a boca de Klaus com afinco e ousadia, e muito embora ela estivesse aprofundando ainda mais o ósculo, degladiando sua língua a dele, o azulado não esboçava reação alguma, o que incomoda a experiente bruxa sobremaneira, que acaba por afastar seus rostos, tendo seus orbes arroxeados inundados por uma frustração quase palpável.

- O que há com você? Por que me rejeita? - indaga, jogando o seu grande chapéu em um banquinho de uma espécie de bancada anexa a uma copa.

Antes… a senhorita disse que sabia tudo sobre mim, e durante o trajeto até aqui, me perguntava o porquê disso, mas agora… posso entender com clareza. - finaliza sua frase, ajustando os óculos no centro de seu rosto.

- Será que pode me dizer de uma vez porque não quer ficar comigo? - dá dois passos para trás, sentando-se no sofá, cruzando as pernas em um gesto sedutor, e por conta de sua saia curtíssima, dava a ele uma privilegiada visão de seu corpo - Por acaso eu não pareço uma mulher atraente aos seus olhos?

- Não é esse o ponto. - vira levemente a cabeça, desviando o olhar, tentando com todas as suas forças manter o controle e ignorar a perfeição de mulher diante de si.

- Então qual é o seu problema? Não gosta de mulheres? - dispara sem filtros, fazendo o nobre arregalar os olhos, chocado com o que acabara de ouvir.

- Não se trata disso, senhorita! - se aproxima, mergulhando seu olhar no dela - É simplesmente uma questão de respeito a você, e principalmente… respeito a mim mesmo. - revela naturalmente, e agora era a vez da voluptuosa mulher assumir um semblante confuso, piscando os olhos várias vezes.

- Entendo… você é mesmo o tipo de homem que eu pressenti que fosse.

- Eu também sei tudo sobre você, e por essa razão… não posso ficar contigo apenas por uma noite… porque eu a amo.

O orgulhoso homem confessa seus mais sinceros sentimentos, expressados também em forma das lágrimas que escapavam por seus belos olhos magenta.

As palavras de Klaus tocaram o recanto mais profundo da alma de Vanessa, cujo coração fora preenchido por uma euforia incontrolável, pois nem ao menos lhe passou pela cabeça ter seus sentimentos correspondidos. Paralisada, Vanessa apenas testemunha quando o jovem mago abre a porta… e lhe dá as costas…

Continua...