Disclaimer: Todos os personagens pertencem a JK Rowling. Esta fanfic é uma tradução autorizada de "A Time for Realizations and Change" postada em 2013 no FanFiction por Scarlett J. Abner.
Capítulo 1.
Harry estava sentado em um balanço do parque, próximo da casa de seus tios, pensando sobre o ano anterior.
Seus pensamentos estavam particularmente atormentados por Sirius Órion Black, o primeiro prisioneiro foragido de Azkaban. Declarado culpado da morte de catorze pessoas, acusado de ser o mais leal servo de Voldemort.
O homem que invadiu Hogwarts atrás de um rato.
O mesmo homem que provou a sua inocência, apenas para ter o momento roubado dele, deixando Harry com o eco da desesperada promessa sussurrada na calada da noite.
Seu padrinho.
Harry inclinou-se para a frente e esfregou as mãos no rosto, então levantou-se abruptamente e olhou para o céu. Suas roupas largas pesavam nele e tornavam o frio ainda mais insuportável do que normalmente seria. Ele tirou o cabelo da testa e começou a caminhar para fora do parque. Uma sombra caiu sobre ele assim que alcançou o portão, mas Harry não pensou nisso, não até a sombra começar a se mover, tornando-se maior e maior até que Harry pôde claramente ver a silhueta de duas asas batendo no asfalto.
Ele virou-se no lugar e cambaleou para trás quando a visão diante dele ameaçou derrubá-lo.
Um hipogrifo familiar estava descendo do céu em sua direção, as garras recolhidas perto de seu corpo e as asas abrangendo a altura de dois homens adultos enquanto o majestoso animal mergulhava no chão. Bicuço não deu tempo a Harry para sair do caminho. Quando estava a poucos centímetros do chão, o hipogrifo dobrou suas asas perto do corpo e pousou sobre os quatro cascos, grunhindo e estalando o bico ao arranhar o chão.
Ocorreu a Harry então, enquanto observava o contorno de uma pessoa pulando das costas de Bicuço, que ficar petrificado no meio da rua enquanto um bruxo avançava sobre ele não era melhor forma de lidar com um possível perigo que se aproximava. Não ajudou em nada o seu estado de espírito que ele pudesse jurar que reconhecia o homem caminhando até ele.
— Eu admito, esperava mais de você do que ficar mudo e em choque — disse o homem, a voz soando familiar —, mas suponho que uma ovação de pé terá que servir.
Os braços de Sirius estavam ao redor dele antes que pudesse processar a imagem do homem se movendo. Ele bagunçou o cabelo de Harry, como se sempre tivesse feito isso, e então se mexeu para segurá-lo com o braço estendido, examinando o garoto da cabeça aos pés.
— Vamos, filhote, não me deixe esperando.
Harry engoliu em seco.
— Eu... você não deveria estar aqui — gaguejou — Eles virão atrás de vocês, eles sabem que você quer me encontrar... eu não...
— Eu vim porque prometi que viria, lembra? — Sirius o interrompeu — Só lamento ter demorado tanto para que nós pudéssemos...
— Nós?
Foi então que Harry escutou o som distinto de uma ânsia de vômito vindo de trás de Bicuço. O hipogrifo deu um passo para o lado para revelar o professor Lupin, de todas as pessoas, inclinando-se sobre alguns arbustos floridos, as mãos pousadas em seus joelhos. O homem cambaleou e apoiou-se pesadamente sobre o flanco de Bicuço.
— Olá, Harry. Eu diria que é bom vê-lo novamente, mas sinceramente preferia que fossem circunstâncias melhores — ele tentou um sorriso, que puxou uma cicatriz meio curada na sua bochecha, o fazendo estremecer de arrependimento.
— Eu não entendo. Professor Lupin...
— Só Remus. Ou Aluado, se preferir.
— O que está fazendo aqui?
— Estamos te tirando daqui. Em primeiro lugar, nunca deveria ter ficado naquela casa e eu não poderia viver comigo mesmo sabendo que está vivendo com aquela... anormalidade genética e sua rolha de poço.
— Eu tenho um primo.
— Uma rolha de poço e meia então — Sirius sorriu — Teríamos vindo antes, mas tivemos alguns contratempos.
— Nada com o que se preocupar — acrescentou Remus ao ver a pergunta escrita no rosto de Harry.
— Não é o lugar mais caseiro do mundo, mas temos uma casa onde podemos ficar e não tem a menor de chance de alguém me encontrar lá... — a frase de Sirius foi perdida em meio a incerteza diante da indiferença de Harry — Vou entender se você não quiser vir, não muitas pessoas escolheriam viver em um subúrbio de quinta, e você disse que não gostava daqui, mas...
— Eu realmente posso morar com você? — Harry prendeu a respiração.
— Sim, mas depende de você, se não quiser...
— Quando vamos? — ele podia sentir a vida retornando ao seu corpo e respirou fundo pela primeira vez desde que Sirius disse que podia deixar a Rua dos Alfeneiros para sempre — Eu não preciso pensar, qualquer coisa é melhor do que ficar aqui, acredite em mim.
Sirius parecia que tinha mais a dizer, mas mordeu a língua no último segundo.
— Meia noite é quando partiremos com o Bicuço aqui — Sirius deu um tapinha no pescoço do animal — Esteja pronto então, tenha todas as suas coisas bem embaladas e venha nos encontrar aqui no parque. Estaremos nos escondendo até então, esperando até que seja seguro sair.
— E tem um horário específico para isso? — Harry percebeu o olhar penetrante compartilhado entre os dois bruxos mais velhos e percebeu que tinha algo faltando — Não está me contando tudo.
— Ainda não — seu padrinho não se incomodou em negar.
— Você deveria voltar agora, Harry, começar a fazer as malas. É melhor que não alerte os seus tios sobre algo de diferente, apenas aja com naturalidade — disse Remus.
— Então eles vão saber que tem algo de errado — Harry murmurou para si mesmo — Meia noite?
— Meia noite — repetiu Sirius. Ele se inclinou para outro abraço, que Harry retribuiu dessa vez, depois foi até Bicuço e deitou-se de costas.
Remus enviou a Harry uma saudação trêmula e simulada, olhando para o hipogrifo com clara trepidação antes de respirar fundo e ir para trás de Sirius, agarrando-se às roupas do homem como se fossem a única coisa que o mantivesse de pé.
Harry fez uma careta de simpatia e observou Bicuço girar nos calcanhares e galopar alguns metros estrada abaixo, antes de se lançar no ar em uma nuvem de penas. Quando não era mais do que um pontinho no céu, do tamanho de seu polegar, Harry virou na estrada e caminhou até a casa dos Dursleys.
Abrindo silenciosamente a porta da frente, Harry esgueirou-se para dentro de casa e subiu as escadas na ponta dos pés, evitando as tábuas soltas do assoalho que poderiam denunciá-lo. Uma vez dentro de seu quarto, ele fechou a porta atrás de si e encostou-se nela, a cabeça fazendo um baque suave contra a madeira. Ele fechou os olhos por um momento e apenas apreciou o estranho silêncio que preenchia a residência. Estranho, ele não conseguia ouvir o tio gritando com a TV lá embaixo e reclamando sobre os judeus aumentarem os impostos de novo, ou de sua tia esfregando e passando o aspirador de pó em cada partícula de poeira que tinha a ousadia de aparecer em sua casa.
Abrindo os olhos, Harry examinou o quarto em que esteve morando nos últimos três anos. Era pequeno, não podia negar, e nunca pareceu realmente o seu quarto. Se tirasse o malão e Edwiges, parecia um quarto de hóspedes normal — um quarto de hóspedes com um colchão fino e pintura descascada nas paredes —, mas, mesmo assim, um quarto de hóspedes.
Era tudo o que ele tinha para mostrar nos treze anos em que viveu naquela casa? Não tinha fotos dele pela casa — os Dursleys preferiam fingir que ele não existia do que admitirem para si mesmos que estavam abrigando uma aberração — e ele mal havia interagido com os vizinhos, então eles provavelmente não perceberiam se ele tivesse sumido de repente.
Ele partiria no final do dia e não teria deixado nada para trás para provar que já esteve ali em primeiro lugar.
Foi uma constatação surpreendente.
Felizmente, antes que pudesse explorar mais, Edwiges escolheu aquele momento para entrar no quarto pela janela e pousar graciosamente em sua mesa.
— E aí, garota, como foi a caça? Conseguiu algo bom? — ele coçou levemente atrás de sua cabeça e observou enquanto ela se inclinava ao seu toque e piava baixinho — Sério? Isso é bom? Bem, estou feliz que tenha algo para comer, provavelmente é melhor do que o que eu recebo aqui.
Edwiges soltou outro piado, mais alto do que o primeiro.
— Não precisa se preocupar comigo, nós vamos sair daqui logo. Hoje à noite, na verdade, então não saia voando tão cedo, certo? Meia noite é o prazo.
Edwiges virou a cabeça e beliscou levemente seus dedos antes de estender a perna para ele. Harry olhou para baixo e notou as cartas amarradas em suas patas.
— Desculpa. Aqui, deixe-me tirar isso de você — ele gentilmente desamarrou as cartas e a levou até a gaiola, onde já tinha uma tigela de água e alguns petiscos esperando por ela. Edwiges pulou em seu ombro, beliscou sua orelha em agradecimento antes de virar-se para comer e descansar.
Harry sentou-se em sua escrivaninha e abriu a primeira das quatro cartas.
Caro Harry,
Como você está? Aproveitou as férias até agora?
As minhas têm sido ótimas. Mamãe e papai decidiram fazer uma viagem para a França e é onde estou agora. Só estamos aqui há cinco dias, mas vimos tanto e ainda temos mais para ver! Meu pai me deu uma câmera neste verão e estou tirando quantas fotos posso para mostrar a vocês depois.
Você acha que foi bem nos exames? Acha que os resultados dos nossos testes virão em breve? Tenho certeza de que devo ter traduzido mal pelo menos duas runas e sei que cometi um erro em Aritmancia. Astronomia estava fácil, mas acho que puxei Vênus um pouco longe demais para a direita e podem me tirar pontos por isso. E você?
Recebi uma carta de Dumbledore há alguns dias. Ele disse que só queria checar depois que você sabe o que aconteceu. Ele disse para voltar a falar com ele se eu tivesse notícias de Você-Sabe-Quem e também que perguntasse sobre você. Acho que ele pode estar preocupado. Você está bem, Harry? Li em um livro que perder alguém importante para você tão de repente pode ser muito difícil para uma pessoa, então não quero que você mantenha tudo guardado. Nós estamos aqui para escutar.
Te vejo em 1º de setembro,
Hermione.
Harry balançou a cabeça meio exasperado e meio afetuoso ao chegar ao final da carta de Hermione. Somente ela passaria o verão na França e ainda passaria o tempo se preocupando com os exames, em que provavelmente tinha passado com louvor. Ele apreciou os seus esforços em confortá-lo (que ela tivesse passado um tempo fazendo pesquisas para Harry em vez de aproveitar as férias era típico de Hermione e o acalentou mais do que qualquer coisa poderia ter feito), mas no final das contas foi a menção dela à carta de Dumbledore que chamou a sua atenção.
Até onde Harry conseguia lembrar, o diretor nunca teve nenhuma correspondência pessoal nem com Harry nem com seus amigos. Mesmo depois de tudo que os três passaram no primeiro e segundo ano, Dumbledore nunca se preocupou em escrever para eles antes. Ele teve aquela sensação estranha de novo, como algo incomodando na parte de trás de sua cabeça, uma sensação que lhe disse que estava faltando uma peça importante no quebra-cabeças.
Ele ignorou e abriu sua próxima carta.
Ei, Harry!
Adivinha, cara? A partida de quadribol entre a Irlanda e a Bulgária está a apenas algumas semanas de distância! Todos nós queremos ir e papai prometeu que compraria os ingressos para todos nós. Mal posso esperar para vê-los jogar! Eu sei que eles não serão tão bons quanto os Chudley Cannons, mas ainda será incrível estar lá e vê-los jogar. Você sabia que o apanhador da Bulgária ainda está na escola? Pense só, isso pode ser você daqui a alguns anos, se souber jogar as cartas.
De qualquer forma, falei com minha mãe sobre você vir neste verão, mas ela disse que cabe aos seus responsáveis decidirem. Você acha que eles vão deixar você vir a tempo para a Copa do Mundo?
Dumbledore veio aqui perguntou sobre você, aliás. Foi estranho. Ele nunca passou por aqui antes (quando os gêmeos não estão envolvidos, pelo menos) e quando perguntei a ele sobre isso, ele disse que provavelmente não seria uma boa ideia você deixar a Rua dos Alfeneiros com Perebas correndo livremente.
Talvez você possa vir depois da Copa e ficar na Toca por alguns dias? Você ainda tem que comprar suas coisas para a escola, certo?
Me diga o que os trouxas dizem e eu falo com mamãe.
Ron.
Harry pôs a carta de Rony em cima da de Hermione, tirou os óculos, esfregou os olhos e suspirou.
Dumbledore de novo.
Por que ele estava se interessando tanto pelos amigos de Harry? Esta era a segunda vez que Dumbledore perguntava sobre Harry para outras pessoas, e ele não sabia como se sentir sobre isso. Irritado, talvez, com o próprio Dumbledore dizendo que não deveria sair de casa, suas chances dever qualquer tipo de liberdade naquele verão teriam sido reduzidas a zero se não fosse pelo plano de fuga de seu padrinho.
Ele pegou a próxima carta. Esta tinha o seu nome escrito em uma letra cursiva elaborada, que indicava a Harry de quem poderia ser.
Caro Harry,
Lamento ser o portador de más notícias, mas acho que é apenas prudente informá-lo que suas perspectivas para este verão podem ter acabado de se tornar severamente limitadas. Como tenho certeza de que você entende, não seria prudente deixar a segurança de sua casa e ir para a Toca — um lugar que ambos sabemos que alguém conhece intimamente.
Detesto como devo admitir isso: o desaparecimento de um roedor covarde teve a consequência de acrescentar um perigo ao mundo que só serviria para sair pela culatra se te pegasse desprevenido.
Sinceramente,
Albus Percival Wullfric Bryan Dumbledore.
Virando o pedaço de pergaminho em suas mãos, Harry lentamente percebeu que o diretor não havia escrito mais nada. Nenhuma explicação mais profunda sobre o porquê Harry não conseguiria nem sair de casa por algumas horas para passar um tempo com seus amigos em um lugar público como o Beco Diagonal, onde Rabicho teria dificuldade para fazer um único movimento contra Harry (sem chamar a atenção de dezenas de bruxas e bruxos, pelo menos). Ele não encontrou nenhuma justificativa para o porquê o diretor estava deixando Harry sozinho por dois meses na casa de parentes que dariam os olhos para se livrarem dele de uma vez por todas.
Harry teve um repentino pensamento de que adoraria ver a expressão no rosto do diretor quando percebesse que ele, que não teve permissão para sair do local, não estava mais morando na Rua dos Alfeneiros.
Depois de jogar sem cerimônias a carta do professor Dumbledore em seu malão, pegou a última e a virou em suas mãos. Quem mais estaria escrevendo para ele? Ele não reconheceu a caligrafia e quando a levou ao nariz, em vez de sentir o cheiro de bolinhos de pedra que esperava, detectou um leve cheiro de flores agarrado ao papel. Virando-o novamente, ele a abriu e começou a ler.
Caro Harry,
Sei que não nos conhecemos de verdade, mas gostaria de consertar isso. Eu sei que Rony provavelmente tem contado todo o tipo de história de terror sobre mim (e meu comportamento contigo provavelmente não ajudou muito), mas eu juro que não sou tão louca quanto ele me faz parecer.
Você é o melhor amigo de Ron e isso significa que você vai ficar por aí por um tempo, então eu gostaria que pudéssemos pelo menos dizer "oi" um para o outro sem que eu colocasse o meu cotovelo no prato de manteiga de novo ou fugisse para me trancar no meu quarto porque você me pegou desprevenida.
De qualquer forma, responda quando quiser (de preferência em alguns dias, no entanto) e aceitarei se não quiser ser meu amigo, mas sinto que devo informar que sou uma pessoa maravilhosa, então a perda seria sua.
Se você decidir que pode ter um novo amigo, então deixe-me contar um pouco sobre mim:
Meu nome completo é Ginevra Molly Weasley, mas nunca me chame assim — é Ginny. Minha cor favorita é vermelho e as Holyhead Harpies limpam o chão com os preciosos Canon do Rony. Quase todos os meus irmãos me tratam como se eu ainda tivesse cinco anos, mas não se preocupe, aprendi a lidar com eles há muito tempo (já ouviu falar da Azaração Meleca de Morcego?). Fred e George são os únicos que não me tratam como criança e eu os amo por isso. Eles às vezes me deixam ajudar com as suas pegadinhas e essas são as melhores. Ninguém nunca suspeita de mim.
Eu amo voar, mas não diga aos meus irmãos que eu disse isso porque eles não sabem que eu consigo montar em uma vassoura. Bem feito para eles que sempre esquecem de trancar a porta do armário de vassouras, se você quer saber.
De qualquer forma, Ron está lutando contra mamãe e papai para trazê-lo aqui para o verão. Eles não precisam de muito convencimento (eles já planejavam recebê-lo nas últimas três semanas), mas ainda pode levar algumas semanas até eles enviarem uma carta. Eles parecem pensar que sua família gostaria de passar algum tempo de qualidade com você antes de levarem-no para longe de novo. Eu não vi pessoalmente o queixo de Rony cair no chão, mas me disseram que foi por pouco.
Nos vemos logo,
Ginny.
Os lábios de Harry se contraíram em um sorriso ao ler a carta de Ginny. Era verdade que eles mal se conheciam, mas ele não estava disposto a julgá-la pelo que os seus irmãos mais velhos tinham a dizer, ou por aquela vez em que ele literalmente apareceu do nada em sua casa enquanto ela ainda estava de pijama. Ele já sabia que escreveria para ela, mas não sabia o que dizer.
Um pedido de desculpas seria uma boa maneira de começar, ele pensou, já que praticamente a ignorou depois de todo o fiasco com a Câmara Secreta. Ao pensar nisso agora, Harry ficou com vergonha de lembrar que nem se importou em visitá-la na enfermaria. Ele se lembrou de Rony indo visitá-la durante as refeições e voltando com atualizações sobre sua recuperação, mas não conseguia pensar em uma única razão para ele não ter se esforçado para ir vê-la depois de tudo que eles passaram juntos nas mãos de Tom Riddle.
Com sua decisão tomada, Harry afastou-se da mesa e abaixou-se para pegar um frasco de tinta e uma pena de seu malão. Ele colocou tudo na escrivaninha e, em seguida, pegou um pedaço de pergaminho de uma das gavetas, desatarraxou a tampa do tinteiro, mergulhou a pena dentro e começou a escrever.
— Jantar!
O grito estridente de Petúnia Dursley acordou um Harry assustado. Ele esfregou os olhos com as costas das mãos, quase derrubando os óculos no processo, e então deu uma olhada ao redor. Ele ainda estava em seu quarto e a carta que escreveu para Ginny estava caída no chão, provavelmente por ter sido derrubada enquanto dormia. Ele pegou a carta e alisou os vincos do pergaminho, dobrando-a ao meio e deixando-a ao lado da gaiola de Edwiges, onde a dita coruja estava prestes a acordar.
— Está tudo bem, garota, volte a dormir, pode entregar isso amanhã.
Edwiges soltou um pio baixo e abaixou a cabeça para descansar sob sua asa, arrastando-se um pouco mais em seu poleiro antes de se acomodar e adormecer novamente.
— Garoto! Por que está demorando tanto? Desça aqui agora!
A voz estrondosa de Vernon Dursley tirou Edwiges de seu cochilo leve. Ela bateu as asas alarmada e estalou o bico em advertência, a cabeça girando para frente e para trás enquanto ela tentava avaliar a nova ameaça.
— Shiu, é apenas o tio Vernon, você sabe como ele é. Volte a dormir e, quando acordar de novo, nunca mais terá que ouvi-lo de novo — Harry estendeu a mão pela gaiola aberta para acariciar suavemente as costas de Edwiges, alisando suas penas.
Assim que a coruja se acomodou, ele desceu as escadas para a cozinha e foi saudado com a visão de Dudley e tio Vernon sentados à mesa, enchendo o bucho de rosbife e batatas enquanto sua tia Petúnia beliscava sua comida, comendo em poucas mordidas uma miniatura mais adequada a um pássaro do que a um ser humano.
Harry sentou-se em sua cadeira e sentiu uma risada histérica borbulhar em seu peito quando viu sua própria refeição. Sua única fatia de carne era fina como papel (se ele a segurasse contra a luz, tinha certeza de que seria capaz de ver através dela as lâmpadas penduradas no teto) e batata deitada ao lado dela tinha uma coloração amarelada, um tom transparente que Harry sabia por experiência que estava mal cozida.
Ele engoliu a comida e esperou. O tempo parecia se arrastar enquanto ele observava seu tio e primo dizimarem suas porções e pegarem a segunda, terceira e quarta porções.
Quando não havia mais nada na mesa além de pratos sujos e migalhas escassas, Dudley levantou-se da cadeira e foi cambaleando até a sala de estar, onde o brilho azul da televisão o chamava como a mais sedutora das sereias. Harry estava apenas alguns centímetros longe de sua cadeira quando a voz de tio Vernon o parou.
— Rapaz, onde pensa que está indo?
— Meu quarto — embora sua própria voz saísse calma e controlada, Harry pôde sentir o primeiro lampejo de raiva lambendo o interior de sua cavidade torácica.
— Você não vai a lugar algum antes de lavar a louça e limpar toda a maldita cozinha — disse tio Vernon, todo vermelho e de olhos esbugalhados — Pensando melhor, meu carro precisa de uma boa limpeza também. Ainda está sujo de quando tivemos que trazê-lo da estação e eu não quero nenhuma das suas esquisitices no meu carro.
— Por que eu? Por que não tira Dudley do sofá e o manda fazer isso? Tenho mais o que fazer.
Harry não tinha ideia do que tinha acontecido com ele. Ele nunca teve coragem de responder ao tio antes, não desse jeito. Foi emocionante.
— O que você acabou de dizer, garoto? — o rosto de Vernon tornou-se mais escuro, passando do vermelho dos bombeiros para um tom escarlate.
— Eu não vou fazer isso. Mande Dudley fazer, será uma boa mudança em relação a todo o sedentarismo que ele está se especializando — aquela faísca em seu peito se transformou em um calor constante, como se brasas estivessem se assentando no fundo de seu estômago.
— Você faz o que eu mando você fazer, quando eu mandar você fazer.
— Não.
Harry observou a boca de seu tio abrir e fechar enquanto ele tentava procurar por palavras que não conseguia encontrar e quanto mais demorava, mais vermelho seu rosto até ficava, até Harry começar a esperar ver vapor saindo seu nariz e orelhas como uma locomotiva se preparando para partir.
Tio Vernon endireitou-se em toda a sua estatura e marchou até o sobrinho, colocando seu rosto a centímetros do seu. Harry teve que se esforçar para não dar um passo para trás. Ele olhou seu tio diretamente nos olhos e ficou surpreso ao descobrir que não precisava mais olhar para cima, eles eram da mesma altura agora. Tio Vernon deve ter reparado também, mas além do ar de dúvida que cruzou os seus olhos, ele não deixou que isso o detivesse.
— É por causa de nossa generosidade que você ainda tem roupas no corpo — começou o tio, pronunciando cuidadosamente cada palavra que passava por seus lábios engordurados — Nós cuidamos de você e o alimentamos com a comida de nossa própria mesa enquanto você espalhava sua... sua anormalidade... sua magia — ele sussurrou a palavra como se tivesse medo de que Deus o matasse em sua própria casa — Você nos deve tudo o que é. Você vai me mostrar um pouco de respeito.
— Você não pode me dizer o que fazer, não mais. E eu não devo nada a vocês, nunca devi.
Dando as costas ao tio, Harry saiu da cozinha. Ele sentiu um arrepio na nuca, como a sensação que você tem quando sabe que alguém está observando você, e se abaixou bem a tempo de evitar ser atingido por um prato de porcelana. Ele voou sobre ele e espatifou-se contra a parede. Com as costas tensas e os punhos cerrados, Harry virou-se e olhou para o tio.
— Você jogou um prato em mim — a última coisa que Harry devia ter ficado era surpreso, mas estava, depois de todos aqueles anos.
— Pode ter certeza de que sim. Nós recebemos você pela bondade de nossos corações, tratamos você como parte dessa família e é assim que nos retribui. Você acha que eu vou apenas ficar aqui parado e assistir...
— Bondade de seus corações? Família? — Harry o interrompeu.
Uma sensação que tivera apenas uma vez voltou a dominá-lo, acompanhada pela memória de tia Marge transformada em um balão de imensas proporções, quicando no teto antes de flutuar para a rua. Magia, energia, eletricidade — ele não sabia o que era, mas estava saindo dele em ondas e imaginou que se tentasse com força suficiente, provavelmente poderia alcançar dentro de si mesmo e agarrar-se a esse sentimento até que isso fosse tudo o que ele era — uma variedade de átomos movendo-se cada vez mais rápido até que não passem de um borrão de som e cor.
— Como você pode dizer isso? Você nunca comprou nada para mim, eu tenho as roupas velhas do Dudley, muito grandes e muito rasgadas para serem mais do que trapos. Você insultou a mim e aos meus pais a cada passo e nunca, nunca me mostrou nenhuma bondade ou amor! Então me diga, o que lhe dá o direito de me escravizar e me usar como seu próprio saco de pancadas pessoal? Você acha que eu devo a você algo por todos esses anos neste buraco dos infernos? Você me deve anos da minha vida! — as mãos de Harry tremiam com o quão louco ele estava. Ele cerrou os punhos ao lado do corpo e tentou se convencer de que não era hora de se perguntar como seria finalmente dar o melhor que podia.
— Seu menino insolente — sussurrou tia Petúnia, as mãos agarrando-se uma à outra na base da garganta, como se isso fosse a única coisa que a contivesse — Como você se atreve a falar com Vernon dessa forma? Conosco? Você acha que tem sido divertido cuidar de alguém como você? Você é igual a minha irmã e se você não tomar cuidado, você vai acabar exatamente como ela, porque isso é o que acontece com pessoas como vocês! Você tem sua varinha mágica e a balança a cada chance que tem, como se isso o tornasse melhor do que nós. Bem, deixe-me dizer uma coisa — tia Petúnia aproximou-se como se compartilhasse um segredo — Eu deveria ter te deixado no orfanato mais distante assim que te deixaram na minha porta.
Tia Petúnia continuou falando com ele, mas Harry tinha parado de ouvir, o barulho em seus ouvidos não permitia que ele ouvisse nada além do rugido de seu próprio sangue correndo por seu corpo para o seu coração acelerado.
Algo puxou dentro dele, algo dentro dele implorando para ser libertado e clamando por algo que ele não conseguia identificar até que sua varinha estivesse em sua mão e saciasse aquele sentimento dentro dele. Sua varinha estava quente em sua mão, como se tivesse puxado o calor da sala e armazenado nos onze centímetros de azevinho. O ruído da televisão teria abafado o que quer que tia Petúnia tivesse jogado nele se ela ainda estivesse falando, mas ela foi olhar pela janela ao lado de seu marido, ambos trocando olhares um com o outro e depois para Harry.
Harry arriscou uma olhada para fora e viu o que tinha chamado a atenção deles: flores estavam sendo arrancadas do chão por mãos invisíveis e as árvores que cercavam o quintal dos Dursleys estavam envolvidas em uma dança que eles não sabiam os passos. Ele ergueu os olhos para nuvens cinzentas e relâmpagos bifurcados atingindo o solo com um estrondo. As cadeiras de jardim da casa do vizinho estavam sendo assopradas e algumas até foram levantadas do chão pelo vento que assoprava na Rua dos Alfeneiros.
Harry sentiu o mesmo puxão dentro dele novamente, aquele que clamava por sua varinha e agora estava convocando por algo completamente diferente. Algo maior e mais forte que o dominou até que ele não pudesse dizer onde a tempestade terminava e ele começava.
— Pare com isso — a ordem de tia Petúnia foi dominada pelo medo, mas ainda assim chegou até ele sobre os uivos da tempestade — Pare com isso agora. Não pense que eu não sei que é você. Chega, eu já disse!
— Não acho que conseguiria parar agora, mesmo se quisesse — disse Harry.
O barulho em seus ouvidos tinha se acalmado para uma pulsação maçante e embora ele não duvidasse por um segundo que era por causa dele que havia uma tempestade tropical do lado de fora, destruindo o bairro em que ele cresceu, ele se sentiu igualmente removido e absorvido. Ele imaginou que essa era a sensação de ser possuído. Ele podia ver tudo o que acontecia ao seu redor, ouvir os pensamentos que acompanhavam suas ações e relacioná-los aos movimentos de seu corpo, mas era como se não tivesse controle sobre ele. Ele era um espectador em sua própria mente e a roda do leme estava lá, bem na sua frente, implorando para que se agarrasse e fosse o capitão de seu próprio navio, mas ele não conseguiu.
— Eu não posso parar isso — ele não sabia se estava falando consigo mesmo ou com sua tia e isso não tirava a verdade de suas palavras — Eu não quero — anos de medo, ressentimento, raiva e humilhação foram liberados em questão de minutos e foi tão bom finalmente deixá-los ir.
— Ora, seu moleque... — seu tio passou por sua esposa e marchou até Harry.
Seu punho estava levantado na altura do ombro e ele deu um soco para frente, forte e brutal, mirando na pele da bochecha de seu sobrinho. Ele foi parado milímetros antes que pudesse entrar em contato com qualquer coisa, e de repente, ele foi suspenso no meio do movimento, como se alguém tivesse clicado em "pausa" em seu controle remoto.
Com o coração preso na garganta, Harry deu um passo para trás da forma inclinada de seu tio e desejou que ele se afastasse, longe o suficiente para não ser capaz de alcançá-lo.
Tio Vernon foi arremessado pela sala e colado na parede como uma estrela do mar enorme. Ele não caiu no chão como deveria depois de fazer o impacto, ao invés disso, permaneceu colado no papel de parede florido, os olhos apertados contra o latejar em sua cabeça enquanto seu sobrinho se aproximava a passos cuidadosos.
— Você não precisava me amar, sabe — disse ele — Não teria te matado me tratar como um ser humano em vez do monstro escondido embaixo da cama. Eu não quero te odiar, mas acho que é melhor do que tentar te amar só porque você é a única família que me resta.
Tio Vernon abriu a boca para dizer algo, mas com um pensamento de Harry enfiou a língua no céu da boca e tudo o que saiu foram grunhidos e gemidos. Harry estava tremendo enquanto observava seu tio lutando para dizer uma palavra. Se sentiu mal do estômago, um enjoo de culpa, medo e poder que ele não sabia como lidar.
Uma sensação de cobra estava se desenrolando em seu peito e implorou a Harry para deixá-la sair, para dar a essas pessoas o que elas mereciam depois de tudo o que fizeram com ele. Falava de suas memórias mais profundas e ocultas e implorava por vingança.
— Você gostaria que eu nunca tivesse ficado aqui? Eu também. Mas não posso mudar isso, então só vou tornar as nossas vidas mais fáceis e ir embora. Você não vai me ver de novo, e se o fizer, pegue um pouco desses anos de prática e finja que eu não existo.
Harry se virou para sair pela porta, mas encontrou sua tia parada no caminho.
— Você não pode ir embora — ela disse. Harry teve que se esforçar para ouvi-la acima do som do vento uivante lá fora — Se você fizer isso, aquele seu diretor vai...
— Isso não é mais problema meu.
— Escute, nós...
— Tia Petúnia, só pare, certo? Pare com isso! Eu não me importo com qualquer acordo que você fez com Dumbledore, o que ele prometeu em troca de me manter aqui, isso é problema seu — ele olhou nos olhos dela, realmente olhou, pela primeira vez desde os cinco anos, quando soube que não encontraria nada ali além de ódio e repulsa, e viu algo que não conseguiu identificar — Estou finalmente dando a você o que você quer, o que nós dois queremos. Deixe-me ir.
Ela balançou a cabeça e se manteve firme. As lágrimas escorriam por seu rosto e se acumulavam na gola de sua camisa.
— Você não pode. Se ela pudesse... Isso não é o que ela...
— Você está falando da minha mãe? — perguntou Harry, incrédulo — Agora você pensa nela? Não quando você me trancou em um armário por dias, ou quando seu marido quebrou o meu braço porque eu empurrei Dudley para fora do balanço, ou as centenas de outras vezes em que poderia ter feito algo? Você não consegue nem se atrever a dizer o nome dela, não é? É disso que você tem tanto medo? Você acha que, se eu ficar aqui, porque isso me protege de Voldemort, de alguma forma será perdoada por tudo que você não me protegeu desde então? Deixe-me dizer uma coisa, tia Petúnia, não tenho dúvidas de que, se minha mãe era a metade da mulher que todos me dizem que ela era, ela ia querer que eu me afastasse de você o máximo possível.
Toda a cor havia sumido do rosto de Petúnia e ela tremia como uma folha ao vento enquanto seu sobrinho a tirava do caminho e ia embora sem olhar para trás.
Eu tenho que ir embora, ele pensou.
Ele mal podia esperar pela meia noite, ele tinha que sair agora antes que fizesse algo de que se arrependeria mais tarde. Ele ainda podia sentir sua magia se movendo fora de controle dentro de seu corpo e, embora tivesse se acalmado um pouco depois do episódio na cozinha, ele temia que a qualquer momento aquela cobra parada em seu peito se libertasse e causasse danos irreparáveis.
Seu malão foi puxado para fora da cama e qualquer coisa em que ele pudesse colocar as mãos foi jogado dentro. Seu esconderijo sob as tábuas do piso foi esvaziado de todos os tesouros escondidos, Edwiges foi acordada pelo barulho e teve que ser acalmada e persuadida a voltar para sua gaiola de cima da cômoda.
O coração de Harry estava batendo a mil por hora entre suas orelhas enquanto ele trancava seu malão e o apoiava contra a parede. Sua boca estava seca e com gosto amargo. Ele se sentia como se tivesse acabado de correr uma maratona em menos de cinco minutos e seu corpo estava apenas percebendo esse fato.
Um galho batendo no vidro de sua janela o fez dar uma olhada para fora e ele não sabia como deveria se sentir quando viu as consequências do que havia causado. Sua mente voltou ao ano passado, quando ele esteve tão perto de ser chamado para o Ministério por magia praticada por menores e, se não fosse pela culpa e medo de Fudge, ele provavelmente teria sido.
Sua varinha estava estranhamente quente em sua mão. Harry quase podia imaginá-la enviando um sinal indecifrável para o Ministério, o Rastreador tendo sido ativado na segunda vez que a primeira lambida de ar sussurrou pela rua. Não levaram tanto tempo para enviar uma carta para ele da última vez.
Ele não tinha ninguém para protegê-lo agora.
Agarrou sua varinha e empurrou seu malão para o topo da escada. ELe olhou para Edwiges em sua gaiola e deixou o baú cair, saltando entre a parede e o corrimão antes de derrapar e parar na parte inferior da escada, tendo deixado uma faixa preta de sujeira na parede. A confusão definitivamente teria sido ouvida por toda a casa, mas ninguém veio impedir Harry de abrir a porta da frente e arrastar seus pertences para fora.
O carro dos Dursleys havia sumido. Harry parou por um momento para se perguntar se Vernon havia conseguido descer da parede ou se Petúnia tinha deixado seu marido mudo pendurado em sua cozinha como um búfalo premiado enquanto pegava o carro e desaparecia com seu precioso Dudinha.
Uma sensação estranha o dominou quando pisou na calçada, era como empurrar uma membrana de água fria. Atingiu-o primeiro no rosto e depois passou pelo resto do corpo até que ele pisou totalmente no asfalto e a sensação foi embora, substituída por uma brisa quente e úmida. Ocorreu-lhe então que não tinha para onde ir até que Sirius e Remus viessem buscá-lo e, por mais que Harry apreciasse a ideia de descer a Rua dos Alfeneiros segurando um baú cheio de materiais escolares mágicos, uma gaiola com uma coruja e uma varinha, ele preferia encontrar um canto privado e dormir pela próxima década ou algo assim.
Um grito soou de cima e então Bicuço estava caindo no chão na frente dele, onde seu padrinho imediatamente pulou de suas costas e correu para o lado de Harry.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou — Você não viu a tempestade que veio agora? Você deveria entrar antes que...
— É tudo minha culpa. Não posso voltar para dentro, Sirius, acho que os Dursleys foram embora e eu disse que também iria embora, mas acho que esqueci a hora e agora não tenho para onde ir e estou só... acho que vou desmaiar — os olhos de Harry se fecharam por um segundo e ele se sentiu inclinar para o lado antes que um par de braços o segurasse e o firmasse novamente.
— Do que você está falando, filhote? O que é sua culpa?
Harry piscou através das nuvens em sua cabeça e disse:
— A tempestade. Tenho certeza de que é minha culpa, mas eu juro que não quis, simplesmente saiu e então tio Vernon tentou me bater de novo e eu não consegui me segurar mais. Sinto muito. Eu... realmente não quis fazer isso.
Ele piscou um pouco mais e se perguntou se já era tarde o suficiente para ser noite, porque havia uma escuridão definida rastejando em torno de sua visão e ele estava quase pensando em perguntar a um dos três Sirius que estavam de pé na frente dele se eles sabiam que horas eram.
— Ele tentou bater em você de novo? — o nariz de Sirius se alargou quando as palavras de Harry afundaram em sua cabeça.
— Almofadinhas! — Remus havia pulado de Bicuço e agora estava em pé na frente do hipogrifo, a mão correndo suavemente sobre sua cabeça enquanto ele olhava o céu escuro inquieto — Eu não sei quanto tempo temos antes do próximo turno começar. Vamos ficar sem sorte em breve se não nos apressarmos.
— Certo, certo — murmurou Sirius — Me passe sua varinha, Aluado.
O malão de Harry e a gaiola de Edwiges foram reduzidos ao tamanho de um apontador de lápis e colocados no bolso de Sirius. Harry observou Sirius murmurar algo para Edwiges e então a coruja disparou, asas batendo no ar quanto mais alto ela subia.
— Tudo bem, filhote, bom e fácil — um braço foi colocado em volta de seus ombros enquanto o outro o segurava pela cintura. Foi necessário que Sirius e Remus trabalhassem juntos (e alguma intervenção sortuda de Bicuço) para colocá-lo em cima das costas do hipogrifo.
— Não pense que esqueci a coisa do turno — disse Harry, balançando o dedo, quase atingindo Remus no olho — Estão escondendo algo de mim. Eu sei disso e não é legal.
— Prometo contar tudo a você assim que chegarmos em casa e você não soar como se estivesse falando duendês, que tal isso?
— Dois minutos — disse Remus — Já estamos perto. Vamos.
Eles escalaram Bicuço, mantendo Harry entre os dois enquanto o adolescente descansava pesadamente nas costas do padrinho e batia as pálpebras.
Bicuço girou os ombros e disparou a galope rua abaixo. Assim que teve impulso suficiente, ele abriu suas asas e bateu uma, duas vezes e ergueu todos os quatro do chão para o céu.
Harry manteve os olhos abertos por tempo suficiente para ver os restos desgrenhados da casa ideal dos Dursleys se transformarem em nada além de outra contagem para o número de casas igualmente comuns alinhadas na Rua dos Alfeneiros.
