Sasuke acordou suado e ofegante.
Estava no hospital de Konoha havia dias.
Naruto dormia como uma pedra, balbuciando qualquer coisa ininteligível no outro leito do quarto. O esforço para tirar o mundo do tsukyomi infinito, unido aos ferimentos da última luta entre eles, deixara ambos os ninjas em estado deplorável. Sasuke soube mais tarde que o seu nível de exaustão foi tão alto que passara quase uma semana desacordado.
Como esperado, Naruto estava recuperando-se num ritmo muito mais acelerado que o dele e em breve sairia do hospital.
Seu amigo finalmente seria reconhecido não apenas pela Vila, mas pelo mundo. Era óbvio que era apenas uma questão de tempo até ele realizar o sonho de se tornar Hokage. Quem diria que aquele moleque tapado que quase não se formou na academia se tornaria o salvador do mundo ninja.
Enquanto ele... seria um prisioneiro por longos anos, na melhor das hipóteses. Ninguém tocara no assunto ainda, mas era óbvio. Sua lista de crimes era extensa demais para ser ignorada porque ele ajudou a derrotar Kaguya. Ele acumulara inimigos nas cinco nações ninja. O Raikage iria querer a cabeça dele, provavelmente.
Se ele fosse outra pessoa, talvez estivesse desolado diante de tal perspectiva para o próprio futuro. No entanto, ele não sentia nada. Parte dele inclusive achava justo que as coisas fossem dessa maneira.
Afinal, quem ele seria se fosse livre?
Sasuke não fazia a mínima ideia.
O desejo de Naruto, sem dúvida, seria que ele retomasse sua posição no time 7 e voltasse a sua vida de antes, mas isso era impossível.
O seu passado não seria apagado. Ele não se sentia digno do perdão daqueles aos quais mais machucara. A culpa de suas ações e escolhas passadas o assombrava todas as noites.
Enquanto perdia-se nesses pensamentos, recostado na cabeceira da cama, a porta se abriu. Era Sakura.
Ela iluminava o caminho concentrando chakra em suas mãos e pareceu surpresa ao vê-lo desperto.
"Sasuke, eu não esperava que você estivesse acordado a essa hora."
"Sakura.."
Ele não sabia mais o que dizer. Desde o fim da guerra, sempre lhe faltavam palavras quando estava perto de Sakura.
Ele se sentia muito envergonhado pela maneira como a tratara nos últimos anos.
O fato de ela ter aceitado o seu pedido de perdão não alterou isso em nada.
Transpassar o coração de alguém que tinha acabado de lhe declarar seu amor e que só queria o seu bem foi muita crueldade, ainda que tenha sido em um genjutsu. Se tivesse sido só isso...
Kami, ele quase a matou sem hesitar.
Não era de se admirar que Sakura também ficasse desconfortável na presença dele.
Era nítido o contraste entre a forma como ela tratava a ele e a Naruto. Fora os cumprimentos casuais, ela não conversava diretamente com o Uchiha, a não ser quando estava cuidando dele como médica. Por outro lado, ela falava sobre tudo e sobre nada com Naruto, sem qualquer inibição.
"Como você se sente? Os seus olhos ainda estão te incomodando?"
Sakura disse, aproximando-se de sua cama
"Não."
"Ótimo, significa que a linha de tratamento que escolhemos está dando certo. Eu vou mudar o curativo do seu braço e checar os seus sinais vitais, tudo bem? Prometo que vai ser rápido."
Ele assentiu. Se fosse outro médico ele teria recusado o contato, dado que não sentia nada. Mas ele tinha plena confiança na competência clínica dela e fazia quase tudo o que ela pedia.
Além disso, mesmo relutando em admitir isso para si mesmo, a verdade é que ele gostava quando Sakura cuidava dele.
Talvez fosse por causa de vestígios de memórias do tempo de genin, memória das quais inutilmente ele se esforçou tanto para se livrar.
De qualquer modo, os cuidados de Sakura lhe traziam uma sensação reconfortante que ele não estava acostumado a sentir.
Enquanto ela fazia o procedimento, repentinamente o seu rosto adquiriu uma expressão de dúvida e ela indagou:
"Sasuke... você tem tido problemas para pegar no sono? Você tem conseguido dormir bem? Eu poderia te.."
Eu não durmo bem há anos.
"Nada fora do normal."
Sakura olhou bem nos olhos dele, como se estivesse tentando descobrir algo que ele não disse, como se não tivesse ficado satisfeita com a resposta. Então disse:
"Com os seus esforços durante a guerra você praticamente esgotou suas reservas de chakra. Você está no hospital há quase três semanas e os seus níveis de energia continuam baixos. Além disso, você sofreu muitos ferimentos...inclusive a perda do seu braço. É fundamental que você descanse o máximo que puder! Caso você tenha algum problema com isso, não hesite em me dizer. Eu tenho como te ajudar."
Dito isso, ela levantou-se e dirigiu-se ao leito de Naruto que continuava a dormir pesadamente.
Enquanto a médica-nin examinava seu amigo, Sasuke refletiu sobre as palavras ditas.
Porque ele não admitiu?
Era óbvio que ela sabia que as noites dele eram péssimas, não era como se isso fosse um segredo.
Talvez sua reação fosse um reflexo da postura defensiva que ele sempre adotara com ela no passado.
...você nunca me conta nada...
"Sakura..."
Ela se aproximou mais uma vez de seu leito e lhe dirigiu o olhar.
"Eu costumo ter pesadelos."
Ela ficou o encarando por alguns instantes e depois o seu rosto adquiriu uma expressão de surpresa, a qual inutilmente tentou disfarçar. Sasuke não sabia se era por ele ter pesadelos ou por ter lhe confessado isso.
" E são eles que te tiram o sono, não é?"
Ele assentiu.
Ela refletiu por alguns momentos. Depois de hesitar um pouco, perguntou:
"Esses pesadelos...eles te acompanham há quanto tempo?
" Desde que eu perdi minha família."
Sasuke se surpreendeu consigo mesmo por ter revelado isso tão facilmente, quando raramente falava sobre a sua família.
Ele não falava sobre isso, porque obviamente, era um assunto doloroso demais para ser abordado em conversas levianas. Mas não apenas isso. Desde pequeno, detestava o olhar de pena que pessoas estranhas lhe dirigiam.
Lá vai o pobre menino Uchiha.
Esses olhares lhe faziam sentir vulnerável, fraco. E um Sasuke fraco nunca se vingaria de Itachi.
No entanto, ele não sentiu nenhuma repulsa pelo olhar que Sakura lhe dirigia agora. Ela claramente estava tentando controlar suas emoções, mas foi num tom quase perfeitamente profissional que disse:
"Obrigada pela sinceridade, Sasuke. Eu sei que não é fácil para você falar sobre isso... então estou realmente grata por você confiar em mim. O que eu posso fazer agora é te prescrever algumas pílulas do sono.."
" Já tentei pílulas. São inúteis."
" Deve ser porque você nunca tomou as minhas pílulas." Disse Sakura, em tom de desafio.
Sasuke sorriu de canto.
"Veremos então."
Sakura sorriu de volta.
Ela sorriu por algo que ele disse.
Há quanto tempo isso não acontecia?
Enquanto pegava o medicamento em seu kit médico e enchia um copo com a jarra de água da mesinha de canto, a médica disse:
"Essas devem bastar a curto prazo. Mas, não vão resolver o seu problema de verdade."
Sakura interrompeu o seu discurso. Parecia estar em dúvida sobre como deveria prosseguir. Sasuke a escutava com atenção e seu olhar atento a incentivou a concluir.
"Há algum tempo, desde antes da guerra, eu venho estudando como a mente funciona. Como experiências traumáticas podem afetar a nossa saúde física e mental. E nas minhas pesquisas encontrei formas alternativas de tratamento para esses problemas, que acredito que possam te ajudar com seus pesadelos. Posso conversar sobre isso com você amanhã, se você quiser- dito isso ele assentiu e ela lhe deu a pílula do sono e o copo - A gente pode conversar mais sobre isso amanhã. Por hora, tome o remédio. Ele costuma fazer efeito bem rápido."
O rapaz o tomou e imediatamente sentiu-se sonolento.
" Sakura..eu estou.."
" Sim, você está com muito sono agora. Viu como minha pílula funciona? Boa noite, Sasuke-kun ."
Ela disse e sorriu. De novo.
E antes de cair em um sono pesado, essa foi a última coisa que ele viu.
Nota da autora: Oi pessoal, tudo bem? Minha vida anda bastante corrida agora então eu não tenho como postar com a frequência que gostaria, mas vou tentar atualizar pelo menos uma vez por mês. Eu gostaria muito de saber a opinião de vocês sobre meu trabalho então comentem please1 3
