Nota: Decidi traduzir os meus fics de Kuroshitsuji porque sim.

Este foi o primeiro de uma série que mais tarde chamei de 'Book of Nightmares'. Sonhei com isto e escrevi. Recomendo ouvir a música 'Tout Petit Moineau' do Igorrr.

Nota pt-pt para pt-br:

- 'fato' é o mesmo que 'disfarce', 'terno', etc. Um disfarce de carnaval é um fato de carnaval.
- 'rapariga' é o mesmo que 'moça', 'menina'. Não tem a conotação que tem em pt-br.

Disclaimer: I don't know own Kuroshitsuji and I'm very glad Toboso Yana created Noah's Ark Circus. I do own my dream though.

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Os sonhos eram um empecilho.

Estava mais do que habituado a pesadelos. Detestava pesadelos, mas eram parte do preço a pagar pela sua existência; facadas constantes e diárias na sua mente e alma, lembretes indesejados do que acontecera, do que fizera e do que não fizera. Se não fosse por mais nenhum motivo, ele podia acordar com os seus gritos, a tremer e a escorrer suor frio, mas recolhia ódio e força dos pesadelos.

Os sonhos, no entanto, eram só simplesmente irritantes.

O pior, e a parte mais irritante, é que não é possível distinguir a realidade e a mentira enquanto se sonha. O ridículo só se torna evidente tarde demais.

Ter de viver pelo cenário lunático que a sua mente decidira produzir era pior do que ter pesadelos.

Mas Ciel não sabia isso ao estacar a meio da escadaria e olhar para a sua mansão, agora mais semelhante a um acampamento ou um palco das chamadas aberrações de circo. Dificilmente tinha tanta gente no seu átrio mesmo quando era forçado a preparar algum evento social. Agora, se não soubesse, poderia ter pensado que Elizabeth preparara uma enorme, estranha e colorida festa na sua ausência.

Mas sabia. Não fora ideia de Lizzie, mas dele.

Ter cinco servos Phantomhive era uma coisa. Ter uma trupe inteira deles era algo totalmente diferente. Mais parecia que tinha agora um pequeno exército. Seis novos servos, nenhum deles treinado para ser empregado, todos eles estranhos e quebrados e agora reabilitados para trabalharem para ele. Mais valia dar a toda a trupe de circo um emprego decente, não?

Fora provavelmente isso que Ciel pensara quando tomara a decisão de os acolher.

Decidi?

Haviam pessoas por todo o lado, cabeças coloridas movendo-se num frenesim. Mas o que raios estavam todos a fazer?

- Sebastian?

- Sim, my lord? - Sebastian estava mesmo ao seu lado antes de sequer precisar de pestanejar.

- O que se está a passar?

- Lady Elizabeth requisitou que uma pequena festa fosse preparada.

- O quê? Porque vamos dar uma festa?

- Ela gosta dos novos empregados, aparentemente. Sabeis como os circos são encantadores e coloridos.

- Só porque eles trabalharam num circo não significa que eu vá trazer o circo para minha casa.

- Recomendaria deixar isso claro, então, pois acredito que Lady Elizabeth está verdadeiramente fascinada com a questão - notou Sebastian, e Ciel depressa percebeu que assim era.

Estava a dançar pelo átrio, caracóis loiros rodopiando enquanto cumprimentava toda a gente uma e outra vez e instruía o que queria que eles fizessem de momento. Mey-Rin soltou um dos seus típicos guinchos de stress ao preparar tudo enquanto tinha o cabelo de Lizzie a voar por todo o lado em frente dos seus óculos, até pouco depois novos caracóis aparecerem e Beast ajudou a empregada-chefe, aparentemente tranquilizando-a. De onde estava, Ciel não as conseguia ouvir, mas Mey-Rin sorriu e fez uma vénia, claramente mais calma.

Lizzie elogiou Beast acerca de algo, mas isso Ciel já conseguiu ouvir com a sua voz distinta. - Estás tão bonita! Olha para as tuas roupas adoráveis! Sabia que te iam ficar bem!

Baldroy apareceu de um dos lados e gritou que a comida estava um pouco atrasada, mas ninguém a não ser Ciel o ouviu. Dagger veio a correr atrás dele, o avental demasiado grande para ele a ondular atrás de si, já que Baldroy aparentemente se esquecera do seu novo sous-chef. Colocar um atirador de facas e um entusiasta de explosões juntos numa cozinha poderia provar-se ser extremamente bem sucedido ou extremamente caótico. Provavelmente ambos. Ciel ainda não conseguira perceber qual, mas pelo menos a sua mansão ainda estava de pé, portanto isso era um bom sinal.

Lizzie continuou a elogiar Beast, que estava disfarçadamente a tentar notar que precisava regressar ao trabalho, e Baldroy babou-se notoriamente ao vê-la. De forma tão notória que Dagger o puxou pelo colarinho e arrastou de volta para a cozinha. Beast envergava um uniforme de empregada como o de Mey-Rin, nada fora do normal, mas Lizzie pedira a Sebastian para chamar um alfaiate para lhe costurar um à medida (nenhuma das fardas de Mey-Rin lhe serviam, e Lizzie ficara bastante impressionada e chocada ao ver o quão revelador o seu fato de circo fora. Sebastian comentara o quanto Beast ficara impressionara com a personalidade carismática de Nina Hopkins, e provavelmente por ter sido tão admirada e bem cuidada como só um alfaiate podia fazer.)

Mey-Rin tinha agora três pares extra de mãos para a ajudar, o que claramente não a relaxava tanto quanto devia. Beast e os dois pequenotes, Peter e Wendy, partilhavam as tarefas com ela e estavam a decorar o átrio de acordo com os desejos de Lizzie e limpavam a mansão de forma igualitária.

- Vamos já trazer flores! - anunciou Finny também por entre a multidão, apressando-se para a porta e seguido de perto por Jumbo. Opostos, estes dois. Finny parecia ainda mais pequeno e mais novo junto do enorme devorador de fogo, mas isso não causava problemas na sua jardinagem. E as suas forças eram quase equiparáveis. Do que vira, nem Jumbo nem mais ninguém se questionara acerca da força estranha de Finny. Ciel suponha que serem vistos e tratados como aberrações toda as suas vidas ajudava a que não julgassem os outros.

Um grupo estranho, os seus empregados. Mais estranhos do que nunca, mas ele não se importava.

- Joker! Onde está o nosso mestre de cerimónias? Vem por favor, precisamos de ver se também estás adorável!

Ciel não conseguiu evitar encolher-se de vergonha ligeiramente, mas Lizzie estava mais feliz do que nunca.

- 'Tou a ir! - Ciel voltou-se, mal vendo a mancha de cabelo laranja que voou por ele. Era o que o distinguia de Sebastian, na verdade. O fato era muito semelhante, mas ao contrário do demónio, ele era uma explosão de cor brilhante com o seu longo cabelo preso. Fazia-lo parecer mais velho. - Desculpa, Smile! A senhora quer tudo prontinho e bonito!

- Sim, claro - murmurou Ciel, seguindo-se de um suspiro. - Falando nisso, onde está o outro, Snake?

- Hm? O Snake? - Joker perguntou sobre o ombro. - Já cá 'tá, nã' 'tá?

Ciel pestanejou e voltou-se para Sebastian, que acenou em silêncio.

- Oh, pois. Vocês são tantos, estão a confundir-me.

- Ah, mas 'brigado, Smile. Havias de ficar espantado com o quanto podemos ajudar! Bem, acho que já sabes, eh?

Bem, sim, está bem.

Apesar de mal poder esperar que Lizzie começasse esta maldita festa (quanto mais depressa começasse, mais depressa acabava), não podia negar a si próprio que as cores do arco-íris não ficavam mal. Bem, não eram desastrosas. Não tinha muita vontade de assistir a um espectáculo ou assim, mas talvez os outros empregados pudessem espreitar.

Ciel voltou a mente para outros assuntos e focou-se nas pessoas. Quando Joker se aproximou de Lizzie, Beast deslizou para longe de vista de forma embaraçada e Sebastian riu atrás dele.

- O que foi?

- Receio que possa parecer-se com mexericos, mas reparei que Miss Beast sente-se tímida por ser vista com as novas roupas.

- Vista? Vista por quem? Acabou de ser elogiada pela Lizzie, não foi? Não estou a perceber.

- As senhoras podem ser estranhas quando os seus corações estão enamorados, my lord.

- O quê?

- Esqueça. - Sebastian acompanhou-o quando Ciel desceu as escadas. - Devo dizer, my lord, estou bastante surpreendido com a forma como as coisas se desenrolaram. Nunca vos tomei como um filantropo.

- Não sou. Não é simplesmente mais fácil dar-lhes uma chance de mudar?

- Se me permitis, é precisamente o oposto. Isso é o mais difícil. Mudança e segundas chances são difíceis. A atitude mais fácil teria sido muito diferente.

Ele tinha razão.

Mas...

- Smile!

Ciel girou sobre os calcanhares pela palavra inesperadamente clara e polida, tão diferente do habitual sotaque que passara a associar com ela. Não encontrou outra pessoa que não Lizzie, quase ao seu lado apesar de ela ter estado do outro lado do hall há um momento, rindo despreocupadamente com Doll junto a si.

- Vês, ele 'tá acostumado.

- É um nome tão bonito! Eu tento fazê-lo sorrir tanto, pode ser que ajude.

- O Mano Joker foi quem lhe deu o nome, fica-lhe bem e ao mesmo tempo nã', n'é?

- Estão as duas a falar de mim nas minhas costas? - inquiriu Ciel, apesar de não estar minimamente zangado. Lizzie parecia de facto feliz e entretida a falar com Doll, e envergando o seu fato de circo (era a única com as suas antigas roupas, Ciel não se conseguia lembrar o porquê), parecia de facto uma verdadeira boneca e não podia ser distinguida de Lizzie como sendo de uma classe social diferente. Ambas pareciam nobres e encantadoras.

- Estava mesmo agora a dizer à Doll o quão bonita ela está. Não concordas, Ciel?

- Eh? Ah, claro.

- Ah m'lady, nã' precisa dizer isso. Nã' sou... ah, bem-

- Como? És a pessoa mais adorável aqui, olha só como estas rosas brilham! Fazem os teus olhos brilhar ainda mais!

- São só p'a esconder o mê' olho mau, m'lady. Nã' sou meninha nem bonita.

Lizzie pareceu preocupada por um momento mas sorriu de forma reconfortante.

- Não te preocupes. Transformaste algo em ti de que não gostavas em algo maravilhoso. Sabes, eu também não sou perfeita. - Doll pestanejou, surpreendida, e Ciel tentou recuar um passo, sentindo como se estivesse a bisbilhotar conversas de raparigas. - Sou tão alta, é muito pouco próprio de uma senhora. Mas dou o meu melhor para ser adorável de outras formas! E tu fizeste o mesmo, e tão bem.

- 'Brigada, Lady Elizabeth! Iss' é...

- E podes ensinar-me muitas coisas. Quão maravilhoso é que uma princesa consiga realizar os movimentos que consegues? Obrigada, Ciel, é maravilhoso que tenhas trazido todos.

- Yá, Smile, é-

- Estou tão feliz que aqui estejas connosco, és a princesa do espectáculo!

Panos foram esticados e estalados sobre os três, voando para o lugar enquanto tingiam a escadaria com cores. Lizzie riu como quando era criança e os lençóis voavam sobre as suas cabeças.

- Tão lindo! Os circos são tão coloridos!

- Agora que penso nisso, vocês não deviam estar com os vossos antigos trajes? - perguntou Ciel, olhando à volta.

- O qu'ê que queres dizer? 'Tou a usar um fato, não 'tou?

- Sim, mas-

Agora havia uma máscara a voar, pendurada nas escadas, e mais máscaras, voando em cores e brilhos. O ruído de fundo aumentou também, todos a falarem e a terminarem os preparativos. E pequenas sombrinhas, girando com mais cores reluzentes penduradas de fios, de onde Lizzie arranjara tudo isto?

Um dos servos passou a correr por eles, vestido com o seu uniforme de trabalho mas parecendo colorido ao mesmo tempo. De seguida foi Joker, o laranja era tão brilhante, mas ele já tinha o seu penteado de circo e o casaco roxo caiu dos seus ombros. Ciel olhou para baixo mas ele desaparecera. Outro empregado também passou por eles, deixando-o ligeiramente tonto. Era demasiada cor. Porque estavam a cair máscaras das escadas?

Mas que raios é isto?

- Não faço ideia, Smile. 'Tás a falar do quê?

Havia algo verdadeiramente estranho aqui. Lentamente, Ciel voltou-se para Freckles, vendo a rapariga fitá-lo em confusão. Parecia diferente sem todo o branco à sua volta e com o cabelo castanho a cobrir-lhe metade do rosto, a sua voz e sotaque faziam mais sentido com as roupas andrajosas. Ela envergara o seu fato de circo ainda há um momento, não fora? Parecia mais familiar sem ele, mais como a irritantemente amável e inconveniente membro da trupe com quem ele partilhara tenda.

- Ei, Doll? Preciso d'ajudinha aqui. Smile, queres ajudar também?

- Claro, Mano!

Joker aproximou-se, sem nada nas mãos e com a sua habitual maquilhagem e penteado, já sem estar preso para trás como antes.

- Oops, desculpa Smile, és o lorde, n'é suposto trabalhares. Somos mais que suficientes - disse ele, o dente pontiagudo espreitando pelo seu sorriso casual. A tinta no seu rosto estava a escorrer, o azul da lágrima pintada à mão vertendo apesar de não estar calor e apesar de a maquilhagem ali não ter estado há um momento atrás. Estava a manchar e a pingar em trilhos coloridos sob os seus olhos como lág-

Doll voltou-se para Ciel sorrindo e dando-lhe um palmadinha no braço. Havia uma gota sobre as suas sardas, mas não era azul.

Então ocorreu-lhe.

- Vocês-

Alguém arquejou e sufocou, algo aconteceu. Pesado e esmagador, partindo e arrancado algo no seu caminho e pareceu-lhe familiar, como se já o tivesse ouvido antes, mas então sangue jorrou e espirrou e atingiu-o no rosto abruptamente e os olhos de Ciel abriram-se e ele saltou na cama e não conseguia ver nada e eventualmente percebeu que a pessoa que estava a arquejar e a sufocar era ele.

O quarto estava negro como breu. A luz forte do átrio deixara-lhe pontos coloridos nos olhos agora que tudo estava escuro e não conseguia ver além dos fantasmas de luz. As cortinas estavam cerradas, e nem sequer um fio de luz real parecia trespassá-las. Não fazia ideia que horas seriam; era provavelmente meio da noite, demasiado cedo para despertar e demasiado tarde para adormecer.

Tinha a cabeça a rodar. Em reflexo, a mão de de Ciel voou para o seu rosto à procura do sangue (fora sangue?) que acabara de sentir. A marca do sonho ainda permanecia gravada na sua mente, não sabendo bem em que mundo estava agora. Na realidade, as gotas no seu rosto eram frias, não quentes e pesadas, mas por um momento pensou que eram o mesmo. Arquejou e olhou para os dedos, procurando o vermelho e só achando escuridão. As manchas nos seus olhos estavam a esbater.

- Sebastian! - Chamou sem pensar. Tentou esfregar o que temia ser sangue dos lençóis, ainda a sentir-se atordoado.

Pareceu passar-se demasiado tempo até Sebastian aparecer, mas a luz trémula e quente das velas brilhou sob a porta e encheu o quarto quando Sebastian a abriu.

- My lord? Está tudo bem?

Vê-lo, ver a luz das velas e o quarto dissipou qualquer dúvida que ainda pudesse ter acerca do que acontecera. Ciel inspirou, devagar agora, e cerrou os punhos com força.

Irritante. Enfurecedor. Empecilho. Honestamente, humilhante.

O que era suposto ele retirar daquele sonho? Estava zangado, sim, que algo tão ridículo o tivesse acordado. Mas para além disso? Deveria ele retirar ódio daquele cenário e usá-lo para impulsionar a sua vida?

Não era um pesadelo. Não era suposto retirar dele ódio por memórias. Era-

- Outro pesadelo, my lord?

Pois, Sebastian estava apenas a fitá-lo, sem saber o que se passava na sua cabeça. Ao menos isso; não precisava que demónio troçasse dele devido a esta aberração.

A atitude mais fácil teria sido bastante diferente.

Ciel fulminou Sebastian com o olhar, que apenas pestanejou em resposta.

- Fiz algo? No vosso pesadelo?

- Cala-te. Porque demoraste tanto? Traz-me qualquer coisa. Água.

- Imediatamente, my lord.

- Sebastian. Deixa as velas.

Sebastian fez uma vénia e pousou o castiçal junto da sua cama. Ciel registou como ele viu a poça de transpiração sobre a almofada e lençóis e ainda humedecendo-lhe o cabelo, mas não disse nada. Ciel acabou por suspirar audivelmente.

- Enquanto tratas disso, prepara-me um banho ou assim, não posso dormir nestes trajes.

- Tratarei disso. - Sebastian saiu e virou, e nem dois passos depois Ciel ouviu um sibilar no exterior. - Oh, Snake, boa noite.

- 'Boa noite', diz a Emily - respondeu a voz murmurada. - Está tudo bem?

- Nada de preocupante, não. Podes ir descansar se quiseres - respondeu Sebastian, e os seus passos afastaram-se pelo corredor. Pouco depois, Snake apareceu à ombreira da porta, um dos seus répteis suspenso sobre os seus ombros. Olhou para Ciel e sibilou.

- 'Sonho mau, Smile?', pergunta a Emily - ecoou Snake baixinho. Parecia preocupado, o que era uma mudança crescente no novo servo de Ciel. Não tinha qualquer sotaque ao pronunciar aquela palavra; talvez fosse por isso que Ciel não se incomodava por ele insistir em chamá-lo assim.

Era muito difícil mudar e dar outra hipótese às pessoas. Mas é preferível viver com o que se tem do que com aquilo que não se tem.

Ou com o que poderia ter sido. As escolhas mais difíceis.

- Não foi um sonho mau, foi só um estúpido. Vai dormir, Snake. Temos trabalho amanhã.

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おわり

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Nota: Os outros fics da série de pesadelos+Igorrr são:

'Pesadelos', 'Tão real quanto a dor', 'Et Dixit Dominus', 'Canção para embalar uma criança morta-viva', 'Ciclo Infinito'

Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.

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