Harry se encontrava novamente na biblioteca do castelo para mais um estudo. A primeira semana passou rapidamente.
Jane ainda não trocara uma palavra com ele e Alec apenas respondia suas perguntas.
Era maio desconcertante. Ele não sabia o que dizer ou como agir. Aro e Caius foram mais abertos ao recebê-lo, mas Jane e Alec eram completamente o oposto. Ele queria que todos se dessem bem.
Nos últimos dois dias, Jane começou a brincar com Celine e o respondia quando ele fazia alguma pergunta.
Alec passou a falar mais e dava informações além daquelas que ele precisava apenas para poder ter algum assunto.
Ele passou a apreciar isso e fez de tudo para segui-los.
Os dois irmãos vampiros passaram a se dar bem com o bruxo, mas ainda não sabiam ao certo quais eram seus sentimentos sobre ele.
Essa mudança veio de quando ambos perceberam que esse jovem era diferente de qualquer outro aprendiz. Os outros faziam de tudo para chamar a atenção dos reis e os considerava crianças.
Já Harry, nunca exigiu atenção, apenas tinha a sede de conhecimento e ficava feliz com qualquer outro vampiro que pudesse responder suas perguntas. Harry também nunca duvidou de seus poderes e força, ao que eles era gratos, mas nunca admitiriam isso.
O mago reconhecia seus valores e os tratou como igual. Diferente de muitos.
Agora, depois de ler sobre as relações que os vampiros tem com outros seres e criaturas, ele começou os questionamentos. Harry ainda não conseguia entender por completo sobre o mito da briga eterna entre lobisomens e vampiros.
— Então isso quer dizer que os vampiros e os lobisomens não são inimigos mortais como muitos acreditam...?
— Isso é correto. Há muito tempo, um vampiro descobriu ser companheiro de uma humana, mas infelizmente a humana foi infectada por um lobisomem desonesto. Todo o ódio está incrustado na sociedade tão firmemente que ainda hoje há desavenças entre certas matilhas e certos clãs.
— Mas se esse vampiro amava tanto a sua companheira, porque ele não ficou com ela até o momento de sua morte? Ele só a amaria se fosse pela eternidade? — Harry perguntou à Alec. Aro e Marcus não puderam permanecer por conta de várias reuniões, então Alec o estava ajudando e Jane estava com sua filha.
— Esse vampiro acreditava que eles jamais poderiam ser felizes juntos. Leovan foi transformado em vampiro, então não havia chance alguma dele se juntar à sua amada por conta de seu corpo morto. Já Cayetana, ela não podia ser transformada em vampiro porque o vírus ao qual foi contagiada curaria qualquer veneno ou machucado em seu corpo.
— Fico realmente triste por eles. Ambos queriam ser felizes e por conta disso, se tornaram amargos. Mas por que Drácula não lhe deu outra companheira?
— Nossos companheiros já são decididos antes mesmo de nascermos. Drácula vê apenas o potencial, ele não pode contar com o que irá acontecer na vida da pessoa. Nosso conde não tem permissão para ver o futuro de cada vida. Se ele pudesse, tenho certeza de que ele faria algo.
— Entendo... Essa parte da história foi muito triste. Podemos dar uma pausa? Também preciso alimentar Celine.
Apenas com um aceno, Alec se levantou seguido por Harry. Eles caminharam até o sofá onde estava Jane e a bebê.
— Olá querida. — Harry sorriu para a sua filha. A menina abriu os braços para o pai que a pegou rapidamente. Tem se divertido, meu amor? — A garotinha soltou gargalhadas quando seu pai fez cócegas. — Venha, está na hora de mamar.
O menino sentou no sofá e puxou a blusa, assustando Alec e Jane, mas ele não percebera suas expressões. Um silêncio caiu na sala e Jane pôs fim.
— Você pode amamentar? Como isso é possível? Espera, dói? — Ela perguntou com uma careta.
— Querida, isso não é nada comparado a quando eu tive que aguentar seus chutes na minha bexiga. — Harry sorriu para ela. — No meu mundo, o mágico, alguns magos podem engravidar. Ainda se estuda poções que podem fazer com que qualquer casal homossexual possa ter um herdeiro do próprio sangue sem precisar de uma substituta ou de inseminação.
— Então o outro pai... — Alec começou mas foi interrompido.
— O outro pai morreu antes de descobrirmos sobre a gravidez. Nós estávamos noivos.
— Sinto muito. Eu não queria te deixar assim.
— Não se preocupe, faz alguns anos e eu aprendi a não chorar por qualquer coisa que o lembre. Só essa coisa de ser companheiro de um vampiro que me deixa um pouco assustado. — Ele confidenciou aos irmãos.
— Mas um companheiro vai cuidar de você e verá seu filho como o dele próprio.
— Eu não quero um companheiro que se veja como pai de Celine. Ela já tem um pai. — Ele mordeu, o que assustou um pouco a criança. Harry controlou sua respiração na intenção de acalmar sua magia e ninou sua filha. — Desculpe.
— Eu não entendo muito o que você está passando mas sei que você só quer o melhor para a sua filha. Nenhum companheiro irá forçar isso. Um companheiro cuida e protege. A decisão fica a parte da criança se ela o que no lugar de pai. — Jane tentou confortar o bruxo.
— Estou assustado. Apenas isso. Fui jogado de cabeça nessa situação. Eu estava no meio de uma guerra e em uma simples visita ao banco, toda a minha vida ficou de ponta cabeça.
— Você tem todo o direito de estar assim. Não julgamos.
— Eu agradeço. Vocês são uns amores. — Harry beijou a testa de Jane que estava sentada ao seu lado no sofá e depois deu um beijo na cabeça de Alec que estava sentado no tapete aos seus pés.
Harry viu que sua filha já havia dormido então a manobrou no braço para que os dois pudessem ficar mais confortáveis e se encostou no sofá. Ele poderia muito bem tirar um cochilo.
Jane e Alec se entreolharam e tiveram "a conversa de irmãos".
Os dois vampiros jovens sentiram um calor reconfortante se instalar em seu coração à muito morto. Era isso que eles sempre desejavam. Caius e Aro fizeram seu melhor, mas ainda não era a mesma coisa. Havia algo diferente.
Eles deixaram para trás qualquer julgamento e se acomodaram mais próximo ao garoto.
Jane era temida por muitos, ela era uma vampira formidável na luta, mas naquele momento, ela se enrolou ao lado do jovem e deixou a tranquilidade cerca-la.
Alec, que sempre mostrou ser forte o bastante e sempre andava com uma máscara em branco impassível no rosto, deitou sua cabeça nos joelhos do bruxo e relaxou no calor.
A magia de Harry reagiu de forma protetora e envolveu todos num sono tranquilo e sem sonho. Era apenas um descanso. Os dois vampiros não dormiam desde seus tempos como humanos, já que eles eram vampiros transformados e sem qualquer tipo de magia.
Quando Aro e Caius terminaram a última reunião do dia, eles decidiram procurar por seus filhos, e foi essa a cena que os abraçou quando eles entraram silenciosamente na sala esperando surpreender seus filhos.
Eles sempre desejaram que Jane e Alec tivessem isso, mas apenas um submisso tinha o calor e cuidado adequado para um vampiro jovem.
Vendo a bela foto que eles faziam, os dois pensaram ao mesmo tempo que apenas faltava Marcus para sua família estar completa. Eles decidiram os deixar para que não se assustassem os vendo ali de pé.
