Harry acordou completamente relaxado. Ele olhou para o berço e viu que sua pequena ainda dormia calmamente.

O bruxo levantou da cama e por ser cedo demais, decidiu aproveitar o tempo para tomar um banho completo.

Ele pensou sobre a noite anterior. A festa ocorrera sem problemas. Sua princesa se divertiu e se esbaldou com toda a atenção recebida. Isso ela herdara do seu pai. Homem vaidoso. Sempre gostava de ser o foco em tudo.

Por um momento, ele congelara com a esponja na mão. Pela primeira vez, não doeu pensar em Cedric. Um sentimento de confusão pousou sobre ele e por lá ficou.

Ainda pensando profundamente, ele terminou o banho, se vestiu, escovou os dentes e voltou para o quarto.

Quando Celine acordou, ele cuidou das necessidades dela e desceu para o café da manhã.

Como sempre, Amos e Yara já estavam à mesa. Eles se cumprimentaram e Harry perguntou sobre os Weasley.

— Eles foram bem cedo. Charlie precisava voltar para a Romênia, Bill tinha uma reunião com os Goblins, Arthur precisava estar cedo no ministério, os gêmeos voltaram para a abrir a loja, como hoje é folga dos outros dois funcionários e os mais novos decidiram voltar com a mãe. Mas deixaram uma carta. Acredito que a deixei na mesa central da sala de estar.

Harry acenou para as informações que Amos dera e o café da manhã passou silenciosamente. Harry decidiu perguntar primeiro aos vampiros se era parte da herança acalmar sua perda. Amos e Yara sabiam que Harry estava escondendo algo, mas decidiram deixá-lo contar quando sentisse preparado.

Como uma rotina, Amos se despediu de ambos antes de ir para o escritório, Harry se despediu de Yara deixando Celine em seus cuidados e saiu das enfermarias para aparatar mais próximo a cidade antes de ir caminhando para o castelo. Ele passou apenas dando uma saudação à Chelsea e seguiu o caminho tão conhecido até a biblioteca para primeiro falar com Jane e Alec antes de ir para os seus livros.

Tão absorto na leitura, Harry não percebera uma nova presença na sala. Quando o ser sentou calmamente à sua frente, Harry saltou da cadeira com o susto.

— Pelas barbas de Merlin! Você não poderia ter anunciado sua presença como qualquer outro ser normal? — Sua mão pressionada em seu peito arfando.

— Pensei que já tivesse trabalhado em seus sentidos... — Marcus ergueu uma sobrancelha para a vergonha clara no rosto do bruxo.

— Eu queria relaxar antes de iniciar isso. Eu não gosto muito de luta e os treinamentos me fazem sentir como um soldado prestes a entrar em campo de batalha. Lutei no passado mas apenas porque era a única opção senão a morte...

— Agora estou impressionado. Por que você esteve nessa situação?

— Um lorde das trevas muito estúpido decidiu que eu, um mero bebê iria destruir seu futuro reinado. — Ele respondeu secamente. — Então sempre que nos encontrávamos, ele tentava me matar.

— Devo dizer que você atiçou minha curiosidade. Importa-se se me contar essa história?

Já com o livro totalmente esquecido, Harry contou a história de sua vida. Sem perceber, essa fora a primeira vez em que ele se abriu e contou tudo para um estranho. Por mais que tenha se passado meses desde que ele frequentava o castelo, ele nunca parou e conversou com Marcus.

O dia foi passado com Harry contando sua história e Marcus fazendo algumas perguntas. No final, Harry se sentia leve com todo o peso colocado para fora em palavras. Era disso que ele precisava. Um ouvinte e alguém que não sentiria pena.

— Essa é uma história e tanto. Parece que os problemas te seguem. — Marcus sorriu.

— Oh, você não faz ideia. Eu realmente tento explicar isso para os meus amigos. — Ele bufou divertido com o comentário.

— Algum problema tem te seguido até Volterra?

— Assumo que ainda não. Mas só para você saber, não sou apenas um imã para problemas, coisas impossíveis parecem gostar de mim também. Então espero pelo último, acredito ser mais fácil de lidar.

— Se algo surgir, conte-me, por favor.

— Claro, não tirarei essa diversão de você. Oh, vampiro tão antigo quanto um fóssil que vê-me apenas como uma prima distração nesse castelo tão enorme cheio de outros vampiros antigos.

Marcus riu do drama do jovem. Há tanto tempo que ele não fica tão despreocupado assim...

— Bem, jovem que mal saiu das fraldas, o quê posso fazer? Você me diverte. — Ele entrou no teatro.

— Mas que audácia! Eu já tenho 17 anos, quase 18! — Marcus não pode evitar o pensamento de que a cara de indignação e o beicinho eram fofos no rosto do bruxo.

— Certo, adulto, o que você queira.

— Humph!

Um silêncio confortável surgiu entre eles. Marcus apreciava a paz que instalou em seu peito.

— O que você estava lendo antes de minha chegada?

— Companheiros. Não sei se estou pronto para iniciar um relacionamento com alguém, mas esse fato não me apavora tanto como quando eu cheguei. É até interessante. Quando descobri ser um submisso fiquei com medo. Mas descobri que na comunidade vampírica, os submissos são bem cuidados e eles não estão nem abaixo e nem acima, então do lado dos dominantes.

— Nós acreditamos na igualdade. Há muitas espécies que colocam os machos alfas no topo.

Os vampiros veem todos, jovens, idosos, homens, mulheres, dominantes, submisso e qualquer outro como iguais. O que nos interessa é o poder. Por isso que Aro, Caius e eu somos os atuais reis dos vampiros e o maior clã.

— Vocês são tão poderosos assim?

— Sim. Nós tentamos manter nossa espécie na linha. É claro que quando um rebelde faz bagunça e não deseja seguir as regras, é morto. Mas não queremos nos arriscar ainda mais. Por sermos uma criatura e bebermos sangue para a nossa sobrevivência, somos temidos.

— E tudo aquilo que é temido ou não pode ser explicado, é do mal.

— Correto. Sei que você disse que não gosta de mortes. Mas pense, você é pai e sua filha é ameaçada por humanos que descobriram através de um bruxo rebelde que decidiu fazer magia em público no mundo trouxa, o que você faria? Mataria o bruxo e apagaria a mente dos trouxas ou apenas prenderia o bruxo e obliviaria a mente de todos os presentes, sabendo que corre o risco desse bruxo fugir e fazer a mesma coisa?

— Você me pegou. A segurança da minha filha vem em primeiro lugar.

— É disso que estou falando. Quando você se juntar definitivamente a um clã, os verá como família. Caso um deles sejam ameaçados, seus instintos farão com que você elimine qualquer tipo de ameaça.

— Entendo... posso compreender tudo isso, mas ainda não tenho estômago para mais mortes.

— Você disse que acabou de sair de uma guerra. Isso explica, mas logo isso passará. Ainda poderá sentir algo familiar a esse sentimentos mas não será tão contra.

— Ainda não sei o que sentir com toda essa informação, mas voltando ao tópico da minha leitura, como saberei que encontrei meu companheiro?

— Depois que um submisso tem todos os dons treinados, ele sentirá seu vampiro dando as boas vindas ao seu companheiro quando o mesmo diz as antigas palavras de amor de um dominante para com seu submisso.

— E como um dominante descobre?

— Se um vampiro dominante estiver livre de qualquer amarra e se não estiver perdido dentro de si, ocorrerá na primeira troca de olhar.

— Caso não seja uma invasão a sua privacidade, você pode me dizer se já sentiu isso?

— Não... — Os olhos de Marcus se desfocaram e ele pensou sobre Didyme. Ele nunca sentira algo assim com ela. Todos sempre afirmavam que era exatamente assim que acontecia quando encontravam seu predestinado.

— Você está bem? — Harry perguntou preocupado. O longo silêncio o assustou.

— Sim, sim. Estou. Apenas um pouco perdido em algumas memórias.

— Desculpe pela intromissão. Eu realmente devo pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa.

— Você não sabia. Fique calmo. Gosto da sua curiosidade, sua pergunta apenas me fez repensar sobre algumas coisas.

— Se você diz...

— Bom. Eu agradeço pela tarde. É bom fazer algo diferente. Eu não me sentia tão vivo e com energia há anos. Você é bom para esse clã. Tudo tem andado mais alegre desde a sua chegada.

— Fico feliz por isso. Eu vejo esse castelo como uma segunda casa. Eu amo a companhia de Jane, Alec, Dimitri e alguns outros guardas. Foi bom conversar com alguém sobre meu passado, me sinto mais leve. — Harry deu um sorriso radiante para o vampiro e pegou novamente o livro que estava lendo antes da interrupção. Faltava apenas algumas páginas para o fim e ele queria terminar antes de ir para sua filha.

— Espero que essas tardes possam se repetir. Até a próxima, jovem.

— Até, Marcus.

Marcus saiu da sala assim que ouviu a despedida do bruxo.

Ele estava confuso.

Didyme não era sua companheira?

Por que ele se sentia tão bem na presença do bruxo?

Se o bruxo via o castelo como sua casa, então porque ele não encontrara seu companheiro? Ele tinha certeza de que o jovem já havia interagido com todos os residentes do castelo.

Decidindo fazer essas perguntas para Aro e Caius, ele mudou sua rota.

Por um breve segundo, ele lembrou de que devia desculpas aos dois vampiros.

Eles eram tão próximos e ele deixou a morte de Didyme afastá-lo de tudo.

Os dois vampiros sempre estiveram lá para ele, não era justo ignora-los.

Depois de seu reencontro com seu vampiro interior, ele tem sido mais feliz e mais atento a tudo ao seu redor.

Ele limparia sua mente depois da conversa com Caius e Aro na intenção de se reconectar com todos os seus dons.