Enquanto andava furiosamente na frente dos vampiros, Harry tentava organizar suas palavras.
— Há quanto tempo exatamente eu estou aqui?
Mesmo não entendendo onde o jovem queria chegar, ambos responderam.
— 4 meses.
— O que eu tenho feito durante esse tempo?
— Leu o que pedimos, treinou algumas vezes... — Caius respondeu.
— O que vocês acham sobre o meu aprendizado?
— Você está indo muito bem. Você aprendeu nossa cultura e já conseguiu derrubar alguns de nossos guardas nas lutas, por mais que você não goste muito.
— Sim...
Harry soltou uma risada amarga e não olhou no rosto dos vampiros. Aro e Caius sentiu um pequeno frio na espinha e eles recuaram um pouco. Não importa para onde essa conversa — mais um interrogatório — esteja indo, eles sentiam que não gostariam do resultado.
— Harry...? — Aro falou um pouco temeroso.
— Calado! Eu não dei permissão para você falar. — A magia de Harry explodiu ao redor dele, deixando apenas a proteção ao redor de seus filhos intacta. — Eu não queria, lutei contra isso. Mas no final, eu confiei em vocês. Eu segui seus conselhos. Eu permaneci, mesmo que eu não quisesse. — Agora seu rosto estava banhado por lágrimas raivosas. — E é isso que eu recebo por confiar? Eu realmente já devia esperar. Devia ter me acostumado com tudo isso.
Harry se sentia traído. Ele confiou em Amos. Confiou em Yara. E confiou nesse clã. No final, percebeu que fora enganado. Parecia que ele fora usado como sempre. O bruxo odiava esse sentimento.
— Pook. — Harry deu as costas para os dois vampiros e chamou pelo elfo.
— Sim, jovem mestre?
— Vá até gringotts e em meu nome, peça uma chave de portal para os Lupin. Peça também que entrem em contato com eles para me esperarem, estarei com visita.
— Pook, fará, senhor. Mais alguma coisa?
— Faça a minha mala e a de Celine. Encontrarei você nos Diggory.
O elfo partiu para realizar as tarefas e Harry virou novamente para os vampiros.
— Meu vampiro não vê vocês como companheiros porque vocês escolheram deliberadamente não me treinar nesse assunto tão rápido quanto nos outros. Eu me recuso a ouvir tais palavras nesse momento.
Aro e Caius ficaram com medo. Nada feito no calor do momento dava certo. Só piorava a situação. Conhecendo bem o bruxo, ele faria algo que atrasaria todos os seus planos.
— Sabe, eu me apaixonei nos meus 13 anos e aos meus 14 concebi Celine com a mesma pessoa. Eu o amava. Eu o amo. Ele me ensinou muita coisa e me ajudou quando precisei. Ele nunca ocultou nada de mim. Sempre foi claro com qualquer tipo de coisa. A morte dele me quebrou e eu senti que não tinha mais um objetivo pelo qual lutar na guerra que estava se alastrando por toda a Inglaterra. Quando descobri minha gravidez, eu lutei com unhas e dentes porque queria que ela visse um mundo melhor do que aquele que eu nasci.
As lágrimas já não importavam mais. O peito de Harry estava apertado e ele sentia que a qualquer momento seus soluços o iriam sufocar.
— Amos me trouxe pra Itália para treinar a minha herança e depois que vocês me trataram muito bem, eu aceite seguir em frente. A promessa de mais filhos e mais amor me encantou. Quão tolo eu fui.
Jane e Alec ainda brincando com Celine, olhava de vez em quando para os pais. Eles não podiam ouvir, mas sabiam que a conversa não estava indo bem, se o rosto de Harry e os outros dois vampiros ainda presos era alguma indicação.
— Eu me senti verdadeiramente em casa. Me apeguei a Jane e Alec e passei a cuidar deles. Fiz amizade com alguns guardas e aprendi muito com eles. Eu sabia que quando chegasse a hora de partir, eu sofreria, porque eu sabia que não suportaria me distanciar do lugar que passei a considerar minha casa.
Aro e Caius viram seu companheiro se quebrar e não podiam fazer nada enquanto estavam presos. Vampiros fortes ou não, eles não podiam lutar contra a magia de Harry enquanto ela agia por instinto.
— Eu fiquei extasiado quando descobri que ganhei mais dois filhos. — Harry deu uma pausa. — Sabe, eu sempre quis uma família grande. As pessoas com quem morei odiavam magia, e por extensão, me odiavam. Então coloquei em mente que quando tivesse meus filhos, eu daria tudo aquilo que não recebi quando criança.
Aro se sentia culpado por tudo o que aconteceu. Ele queria todos os seus companheiros juntos. O vampiro pensou que o melhor seria dar um tempo para o jovem se acostumar à ideia. Grande erro.
— Meu vampiro interior pode não reconhecê-los como companheiros, mas meu lado bruxo e humano veem tudo isso como traição. A magia age por instinto. Sabe o que vai acontecer agora? — Harry viu as duas cabeças negando, então continuou. — Minha magia vai ver que o melhor para mim será trancar meu vampiro novamente. E sabe? Estou feliz por isso. Agora que aprendi que confiar só me machuca, pensarei várias vezes antes de fazer qualquer coisa.
Harry secou as lágrimas e tentou se recompor.
— O erro de vocês foi ter me tratado como algo frágil. E isso eu não sou. Vocês não confiaram em mim e nem na minha capacidade. Se fosse qualquer outro aprendiz, vocês teriam feito o treinamento corretamente e ele já estaria neste momento mundo a fora a procura de seu companheiro. Mas eu fui diferente. Não fui?! — Harry aumentou o tom de voz na última frase. — Vocês viram o meu medo como benefício para vocês. Por isso nunca insistiram em me treinar mais na prática.
Harry soltou a magia e deixou com que os vampiros falassem, mas eles ainda estavam presos no sofá.
— Eu sinto muito. Você parecia que quebraria a qualquer momento. Sua paixão pelo seu ex ainda estava viva. Nós não queríamos isso. — Caius foi o primeiro a falar.
— EU JÁ DISSE QUE NÃO SOU FRÁGIL! — Harry berrou. — Vocês decidiram não me contar algo que me envolve! Como vocês esperavam que eu agisse? Eu merecia saber que tinha companheiros aqui. Vocês não podem ocultar algo de mim. — Harry estava trêmulo. — Eu conversei com Marcus e eu sinceramente pensei que seria melhor que meu companheiro estivesse aqui esperando que eu terminasse de treinar para me dizer a verdade do que ter que sair desse castelo. Hoje já não penso mais o mesmo. Nesse momento, eu preferiria que meu companheiro estivesse longe, porque assim seria melhor.
— Você não estava pronto para ter companheiros. A gente poderia ter dito, mas você não iria deixar sua casa e viria morar com a gente num momento tão cedo. — Aro tentou apaziguar.
— Oh, e vocês me queriam apenas na cama de vocês? Era isso? Pensei que fossem mais respeitosos. Pensam que eu não li? Eu descobri que mesmo quando os companheiros se encontram e estão cientes disso, eles não são obrigados a se juntar rapidamente. O vínculo exige que as partes estejam prontas. Então vocês poderiam ter dito a verdade e não ter escondido tudo como covardes. Vocês só queriam alguém para aquecer sua cama, porque se vocês se importassem com tudo isso, vocês teriam dito a verdade.
— Nós sentimos muito, Harry. Não era nossa intenção deixá-lo assim.
— Pode até não ter sido, mas aconteceu.
Harry quebrou as alas e pegou Celine nos braços.
— Estou indo embora. Não quero que me sigam. Se o fizerem, se arrependerão. Esqueçam essa história de companheiro, não posso mais confiar em vocês. — Harry pegou a bolsa de Celine do chão e deixou sua filha confortável. — Essa manhã eu esperava por uma desculpa plausível por não terem me contado sobre sermos companheiros, mas descobri apenas que vocês são covardes.
Harry cruzou a sala e abriu a porta. O bruxo olhou para trás uma última vez e falou novamente.
— Eu pensei que tudo daria certo, mas o meu erro é acreditar que mereço a felicidade.
Com essas últimas palavras, Harry foi embora. Jane e Alec tendo ouvido a última parte da conversa, olhou para ambos os pais vampiros que estavam com uma cara de dor ainda sentados no sofá.
— Eu não quero saber o motivo de vocês terem escondido isso de nós. Somos seus filhos e ele seu companheiro. Espero que vocês resolvam isso, porque se tivermos que escolher entre vocês, ficarei com Harry. — Alec avisou os dois vampiros. Ele viveu anos com esse clã, mas quando sentiu o vínculo completo com seu pai submisso, ele sabia que não importa o que acontecesse, sua primeira escolha seria ele.
— Vocês sabiam como eu precisava disso. Sabiam que eu sentia falta. Parece que isso não importava muito pra vocês, não é mesmo? Estou indo embora. — Jane falou com a voz quebrada e partiu junto ao irmão em busca de seu pai e sua irmã.
Aro e Caius viram tudo desmoronar. Eles sabiam que cometeram um grave erro e se arrependiam se suas escolhas. Agora parecia que tudo havia sido perdido. A faísca que antes estava em seus peitos, agora havia se apagado e restavam apenas as cinzas. Eles ficaram um longo tempo apenas olhando para o nada enquanto tentavam aceitar os acontecimentos da manhã.
Por outro lado, Harry caminhava furioso e com o coração partido até o ponto de aparição.
Tudo o que ele viveu nos Dursley, voltou novamente. As mentiras, a traição, a dor...
Harry estava uma bagunça e seu peito doía onde sua magia, com força, prendia o vampiro no quarto mais distante e jogava a chave fora. O bruxo não teria mais acesso ao seu vampiro interior e ele estava um pouco feliz por isso. Agora ele podia ser um bruxo normal, como sempre quis. Pelo menos no tempo que lhe restava, mãe magia veria que ele recusou seu presente e tomaria de volta.
Sem história de companheiro. Seu foco seria apenas para sua família.
Assim que chegou em casa, viu Jane e Alec. Ele apenas deu um sorriso aguado e os deixou entrar em casa.
Logo ele estaria nos Lupin e esqueceria que um dia veio para Volterra.
