— Jane, querida? — Harry saiu perguntando de porta em porta na esperança de sua filha o ouvir.

— Estou aqui, pai. — Veio uma voz suave no final do corredor. Harry agradecia por sua filha ter uma ótima audição, assim não precisaria percorrer o Castelo inteiro.

— Olá, pessoal.

— Oi, Harry. Cansou de voar?

— Claro que não, vim apenas roubar minha filha por um tempinho. Estou atrapalhando algo? — Perguntou calmamente.

— Claro que não, pai. — Jane se levantou e espanou seu manto para tirar as rugas.

— Que bom. Passei os últimos quinze minutos te procurando. — Harry passou a mão pela testa para secar um suor imaginário durante a dramatização.

Seu filho, Alec, riu abertamente das palhaçadas do pai mais novo. Harry gostava de ver aquele sorriso, pois significava que seu filho estava se tornando mais aberto as suas emoções. Enquanto isso, Jane revirava os olhos com um sorriso afetuoso em seus lábios rosados, ela provavelmente acabara de se alimentar, já que não usava batom.

— E porquê, pai, você perdeu todo esse tempo e voz enquanto poderia ter um feitiço localizador na ponta de sua varinha? — Jane perguntou com uma sobrancelha arqueada delicadamente.

— Hmm... bem... É... Então... — Ele se atrapalhou com as palavras completamente envergonhado. Droga! Ele era um bruxo! Usava magia desde os onze anos! Por que não se passou pela sua cabeça o óbvio? Oh, até uma vampira teria pensado nisso primeiro, mesmo não tendo magia.

— Vamos, deixe se se envergonhar embolando as palavras. — A menina enlaçou seus braços aos de seu pai caminhando em direção à porta. Antes de sair da sala, ela se virou para os meninos. — Foi bom conversar com vocês, espero repetir esse momento.

Os dois, pai e filha, caminharam pelo castelo, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Harry pensando em como iniciar a conversa e Jane esperando que estivesse errada ao pensar em qual assunto poderia ser. Ela não sabia se estava pronta para isso.

Caminhando lentamente pelo castelo, os dois chegaram à biblioteca particular de Harry. Lá, era o lar todos os livros mágicos e até alguns trouxas de seu interesse. Seus companheiros pediram para desmontar à pequena sala de estar para que uma biblioteca fosse construída para o mais jovem do relacionamento. A lareira permaneceu, mas um divã e uma poltrona reclinável foram colocados próximo à enorme janela que dava para a cidade. Uma mesa e uma poltrona, essa não reclinável, foram colocados de frente para a lareira, mas do lado oposto da sala. No meio da sala, um tapete felpudo descansava e um baú em um dos cantos da sala, com brinquedos de Celine tudo para a sua filha.

A sala foi um presente em conjunto e Harry mesmo não querendo, aceitou a sala. Ele se sentia mal pelos vampiros sempre estarem buscando alguma coisa para dar para ele enquanto o mesma tentava evitá-los. Aos poucos, sua mentalidade sobre seus companheiros ía mudando, mas a parte que não gostava do vínculo que existia ainda permanecia firme. Mesmo que a sala pertencesse ao castelo que eles governavam, os reis não entravam sem a permissão de Harry. O jovem mago não precisava colocar feitiços de privacidade, pois aprendera que os pais de seus filhos o respeitavam e ficavam longe da sala para evitar que a audição invadisse o lugar.

Se sentando no tapete, Harry esperou que sua filha se sentasse ao lado dele e os dois olharam para a lareira, sem pressa alguma. Na mesa de centro, um álbum descansava, Jane não sabia dizer o que tinha ali. Olhando para o pai, ela começou.

— Pai? O que estamos fazendo aqui? — Harry deu um sorriso para a sua filha e uma preocupação tomou conta de seu ser. Mas um sorriso aguado surgiu em seus lábios, pensando em como iniciar a conversa.

— Filha, pensei que nunca teríamos essa conversa. Bom, pelo menos não tão cedo. — Ela o olhou esperando ele soltar de uma vez, mas isso não aconteceu. Nem alguma pergunta constrangedora.

Mesmo tendo centenas de anos, ela ainda poderia ser tímida em alguns assuntos. Pensando que a conversa seria inteiramente sobre ela, Jane até se surpreendeu quando seu pai começou a falar dele. Agora ela realmente não sabia o que sentir, então apenas ficou calada ouvindo atentamente.

— Se você parou para calcular, então já sabe que engravidei da sua irmã quando ainda tinha 14 anos. — Na cabeça dele, esse foi um bom começo, então ele continuou a partir daí. — Cedric Diggory é o pai de Celine. Ele foi meu primeiro amor, meu companheiro e meu amigo, agora, ele é o pai da minha pedra mais preciosa. — Seus olhos nublaram quando uma enxurrada de memórias passou por ele. — Ele morreu tentando me salvar. Nós nem sabíamos que eu estava carregando sua herdeira, já que apenas na noite anterior nós a concebemos. — Uma pausa ocorreu enquanto o bruxo tentava se recompor. Ele ainda não permitira que as lágrimas caíssem.

Um tempo se passou enquanto Jane tentava entender onde seu pai queria chegar. Para ela era tão óbvio o que ele queria conversar com ela que o atual assunto a pegou totalmente de surpresa. Claro, isso não estava claro em sua expressão, mas seu pai a conhecia para entender bem o que se passava em seus pensamentos se a dica em seu sorriso era o suficiente.

— Minha filha, eu sei onde quero chegar, mas não sei como chegar lá. — Um bufo saiu de seus lábios. — Você já viveu mais do que eu, você já viu mais do que eu, você já sorriu e chorou mais do que eu. Mas tem uma coisa que eu já fiz e você não. E não estou falando de filho. — Ele adicionou quando seu rosto franziu.

— Então o que seria isso? — Ela perguntou suavemente.

— Jane, o que você precisa entender é que mesmo que eu e seus pais sejamos companheiros, a minha magia escolheu como companheiro Cedric. Claro que houve circunstâncias que fizeram com que eu e Cedric nos conhecêssemos e nos apaixonássemos e se não fosse por conta dessas circunstâncias, do horário e do local certo, talvez nunca tenhamos ficado juntos.

— Ainda não sei se entendo onde você quer chegar com isso, pai...

— Vou tentar uma outra abordagem. Você e Charlie. É onde eu quero chegar.

— Oh... então minha linha de pensamento estava certa inicialmente... — Murmurou enquanto desviava do olhar de seu pai. Se ela ainda fosse humana, com certeza seu coração estaria descompassado e seu rosto estaria vermelho.

— Bem, sim, pelo visto. O que eu realmente quero que você entenda é que nesse mundo há várias formas de amor e relacionamento. Tudo bem que seu lado vampiro escolheu Charlie, mas isso não te obriga a ficar com ele e apenas com ele. Claro, vocês devem aceitar esse vínculo e consumar. Mas depois disso, vocês podem seguir a vida de vocês com outras pessoas ou até mesmo sozinhos, caso queiram.

— Pai! Que vergonha... — Jane gritou quando seu pai falou sobre consumar.

— É verdade, meu amor. — Um riso alegre saiu de sua garganta. Jane poderia ser muita mais velha que ele, mas ainda tinha como a envergonhar.

— Tudo bem. Prossiga. Só... não vamos ter A Conversa. Isso seria de mais.

— Claro, deixo isso nas mãos de suas tias Picia e Athy. Nós estamos no mesmo assunto mas não na mesma linha. — Ele ficou mais sério para a próxima parte. — Eu sei como você está feliz e ao mesmo tempo com medo. É normal quando achamos nosso companheiro. Você fica feliz pela chance de felicidade, mas fica com medo de dar errado, da ansiedade que surge, quando os pensamentos de que tudo dará errado surge. Podemos não ser cem por cento humanos, mas ainda sentimos.

Harry deixou que Jane analisasse o que acabara de ouvir antes de ir para o final.

— Filha, quando você o vê, o que sente?

— Insegurança, questionamento. Mas também uma onda relaxante surge.

— Quando ele te toca, quando ele te beija, como você se sente?

— Seus toques são bons. E eu gosto de beija-lo. Mesmo firmes, ainda passam uma segurança. Mas não parece inteiramente certo. Entende?

— Claro. Isso nada disso é errado. — Ele a tranquilizou. — Posso dizer o que acredito que seja? — Com o aceno de cabeça, ele continuou. — Charlie desde novo foi solto. Ele namorou muito e tem muita experiência. Ele é extrovertido e aventureiro. Em seu coração não há o medo de experimentar coisas novas. E você, meu amor, é completamente o oposto de tudo aquilo que ele é.

— Então nunca daríamos certo? — Sua pergunta soou preocupada e seus lábios inferiores ficaram presos entre os dentes.

— Calma, não é isso. O que eu acredito que vocês possam fazer agora, é conhecer um ao outro como amigos e explorar a relação "amigos com benefícios". Não tenha medo de perguntar, ele te guiará por todo o caminho. — Vendo que ela ainda estava nervosa, ele adicionou. — E Charlie pode ter enfiado o penis em qualquer ser que tivesse um buraco, mas ele é uma boa pessoa e respeita tudo e a todos. — Sua filha deu um sorriso mas ainda permaneceu tensa.

— Pai... eu nem sei como fazer qualquer tipo de relação funcionar. E se não der certo.

— Tudo dará certo. Não pense na lógica, haja com o coração. Ele sim saberá o que fazer. E se não der certo, vocês podem permanecer solteiros ou abrir a relação. Tudo funciona, basta termos coragem e dar nossos pulinhos para que aconteça. Eu não deveria falar isso, mas você também precisa se explorar e explorar junto com ele a parte sexual. Não estou dizendo que isso é a base de toda a relação, mas explorando, vocês podem se achar. Não tenha medo de dizer o que quer tentar e o que você sente, eu sei que ele será um ótimo companheiro para você e lidará com paciência por todo o caminho. Qualquer mentalidade que você tenha sobre relacionamentos deve ser esquecida para que possa obter mais conhecimento. Sempre mantenha a mente aberta para tudo.

— Obrigada... Não sabia que precisava ouvir de você.

— Todo pai sabe das coisas. — Ele deu uma piscadela.

Um silêncio surgiu entre eles antes dela fazer a pergunta que a incomodava.

— Pai, por que você citou seu antigo relacionamento?

Pensando cuidadosamente em suas palavras, ele desistiu e abriu o jogo com ela. Jane é esperta, então não funcionaria pisar em ovos.

— Primeiramente, saiba que eu não desgosto de seus pais. Depois de tudo o que eu passei, eles são a minha esperança de uma felicidade, mesma que eu ainda não esteja pronto. — Uma contração de seus lábios foram a dica para Jane entender tudo. E Harry viu isso. — Tendo três companheiros vampiros, eu tenho a eternidade pela frente, mas eu já passei por muito. Guerra, lutas, mortes, dor... Eu não tive uma boa infância e nem uma boa adolescência. Já no começo da minha vida adulta soube de coisas tão surpreendentes que isso me quebrou ao ponto de eu achar não ter mais conserto.

— Pai. Você ama seus atuais companheiros? — A pergunta foi tão direta que até Jane se assustou.

— Não. — Decidiu ser sincero. — Eu não os amo. Coisas do destino que nos colocaram juntos.

— Você acha que isso pode mudar?

— Filha, sinceramente? Eu não sei. — Seu olhar vagou pelo céu mostrado na janela entreaberta da sala.

— Então porque você me diz algo totalmente diferente do que está fazendo? — Sinceramente, Jane não entendia seu pai. Ele facilitava para ela mas ele mesmo se complicava.

— Menina bonita, meu precioso anjo. — Ele a olhou nos olhos com lágrimas transbordando enquanto uma de suas mãos segurava a mão da filha e a outra acariciava a bochecha pálida de seu querubim. — Todo pai quer o melhor para os filhos. Eu desejo a felicidade eterna para você seja essa qual for. Sempre conte com meu apoio. Mas eu me sinto quebrado, minha filha. — Um soluço escapou enquanto ele se abria por completo com sua filha.

Mesmo amando Hermione, Jane era quem poderia o entender por completo, então era mais fácil se abrir e expor suas feridas, pois ela se tornara sua melhor amiga e confidente.

— No meu mundo, há um conto. O conto dos três irmãos. — A partir daí, Harry contou o conto de Beedle, o Bardo. — E eu, inicialmente, me identifiquei com o segundo irmão. Aquele que desejou ter seus entes queridos de volta e que no final morreu por amor. Hoje, já não penso que sou como Cadmus Peverell.

— Mudou quando conheceu meus pais e descobriu que eles eram seus companheiros?

— Não. Eu ainda me via como Cadmus. Foi quando meu vínculo com você e Alec se formou. Quando eu ganhei mais dois filhos para amar e cuidar, eu me vi como Ignoto. O terceiro irmão. Aquele que no final acolheu a morte como uma velha amiga.

— Acho que pensar assim é bem sombrio, você não acha?

— Meu anjo, eu passei por uma escuridão e vocês, meus filhos, foram minha luz. Mesmo sendo jovem, eu poderia acolhê-la agora, mas decidi por não. Eu ainda quero ver você se arrumar com Charlie. Quero ver Alec encontrando sua companheira. Por fim, quero ver Celine crescer e enfim trilhar seu próprio caminho. E se o preço para isso é aceitar o vínculo com Aro, Caius e Marcus, então assim será.

— Eu quero tanto que dê certo com vocês. Não quero perder nenhum dos meus pais. Você, principalmente.

— Algumas coisas não são para ser. Não sei o que o futuro reserva, mas eu sei o que sinto no momento. E afirmo com todas as minhas forças que meu coração e amor ainda pertencem a Cedric Diggory. Mesmo não tendo casado no papel, por eu ter carregado a herdeira Diggory, Lady Magic me considerou como casado com ele. Sua perda não dói tanto quanto antes, mas eu ainda o amo e não me sinto pronto para permitir que outros entrem. É como se eu estivesse traindo sua memória, nosso amor e mais ainda, a eu mesmo.

— Se o amor é assim, eu não sei se quero amar. — Como uma criança pequena, Jane formou um beiço e se aconchegou em seu pai. Os braços da menina em volta da cintura do pai e sua cabeça escondida em seu pescoço. A pele quente e o sangue correndo pelas veias apenas agindo como um calmante.

— O amor é diferente para cada um. Ele pode ser sua felicidade ou sua ruína. E eu sei que será a felicidade para você, Jane. — O bruxo beijou os cabelos loiros e macios da filha. — Eu sou alguém complicado, com uma mentalidade complicada e um eu completamente desarrumado. Eu preciso me resolver. Há tanta coisa que tenho ignorado ultimamente. Sei que é errado, mas essa bolha que criei aqui se tornou meu Porto Seguro, e não quero acordar para a realidade. Ao menos não agora.

Aquela foi a última coisa que ele falou e Jane decidiu por não acrescentar.

Harry se sentia um pouco mais leve por se abrir com alguém e Jane ganhou mais perguntas mas também conseguiu as respostas certas que atormentavam sua mente e coração.