Harry observou Mãe Magia. Ela era como um fantasma, mas era mais sólida que Vlad e suas cores podiam ser vistas. Cabelos avermelhados caiam por seus ombros e flores adornavam seu cabelo. Ele sabia que se tentasse colocar flores no próprio cabelo parecia que ele tinha caído no meio do jardim e que levantou sem olhar no espelho, culpa do famoso ninho de pássaros dos Potter. Um vestido branco com detalhes em flores chegava aos pés e os escondia, mas quando ela andava dava para perceber que não usava tipo de caçado algum. Se pareceu uma eternidade enquanto ele observava a entidade e sua magia pedia desesperadamente para se ligar à sua mãe, enquanto ele tentava a segurar com todas as forças.

— Você é o motivo de muitas entidades estarem brigando, garoto. — Ela o analisou bem e depois se virou para Morte. — Esse é "ele"?

— Devo admitir que nem tudo saiu como o planejado. Na verdade, nada saiu como esperávamos.

— Bem, seja o que for, precisamos intervir, pelo visto. — O fantasma flutuou ainda mais e numa voz melodramática continuou. — Isso me cansa, Morte. Um dia sumirei de tanto desgaste e vocês sentirão minha falta. — Para enfatizar, colocou as costas das mãos na testa fingindo desmaio.

— Ora, pare de besteiras. Tudo pode ser resolvido rapidamente.

— Que seja. — A entidade observou melhor o local em que estava e sua atenção parou nos três vampiros. — E vocês, o que fizeram para estarem presos?

— Eles, nada. Mas você... — Morte soltou um assobio e fingiu estar analisando o teto.

— Ei! Faz tempo que não venho para o mundo humano, não me culpe.

— Eu não sei se vocês perceberam, mas eu ainda estou aqui. E se vocês quiserem conversar, sugiro irem para sei lá de onde vocês vieram. — A voz do bruxo se tornou presente e enfim as duas entidades focaram nele.

As duas entidades se entreolharam e depois de quase uma eternidade, na mente de Harry, Morte bufou como uma verdadeira criança e se aproximou da bebê ainda dormindo.

— Quando terminarem, me chamem.

— Ah, e Morte, leve esses outros três com você.

— Incrível como tudo sobra pra mim.

Quando a sala foi esvaziada, Magia encarou o humano e pensou numa forma de tranquiliza-lo para a conversa. Humanos não eram a sua praia, ela sabia lidar melhor com as almas. Jogando a calmaria e o tato para o alto, ela decidiu ser curta indo direto ao ponto.

— Vlad chegou lhe chamando por muitos termos pejorativos. Eu gostaria de saber o motivo exato? — Um leve arquear de sobrancelha junto à sua fala foi o necessário para fazer Harry se envergonhar.

— Bem, eu só me irritei um pouco com ele. E vamos lá, ele não e alguém muito paciente.

— E pelo que percebi, nem você. — Depois de um momento, ela perguntou se ele estava um pouco mais calmo. À confirmação dele, ela voltou a conversa para os trilhos. — Você sabe o que significa o luto?

A pergunta pegou Harry se surpresa, ao olhar duvidoso dele, Magia explicou.

— Os seres humanos são um tanto complexos. Eu não passo muito tempo com vocês, a complexidade que precisamos entender para lidar com cada um chega a ser exaustivo. — A entidade andou pela sala e seguiu em direção à uma das janelas. — Não me leve a mal, eu gosto de vocês.

— Tudo bem, eu não levei para o coração. — Parecendo satisfeita após dar uma olhada nele, Magia se voltou para a janela e demorou um pouco para continuar a conversa.

— Uma vez eu conheci uma alma, sábia, até me interessei pelas conversas que tínhamos. Numa dessas conversas eu aprendi o conceito do luto para vocês, humanos.

Magia sorriu, lembrando das palavras calmas daquela alma.

— Quando vocês perdem uma conexão afetiva muito forte com algo ou alguém, vocês tem essa resposta emocional de sofrimento. Vocês são pequenos seres, mas que carregam tanto afeto, tanto amor, tanto carinho que quando se perde o laço, vocês se sentem desamparados.

Harry apenas permaneceu quieta observando a entidade tentando discernir onde aquilo o levaria.

— Vocês são tão complexos que cada um lida de uma maneira diferente, mas aprendi que comumente o processo do luto é dividido em partes, como: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e, por fim, aceitação.

A entidade encarou o menino e pensando se iria pelo caminho inicial ou não, decidiu que qualquer outra estratégia não daria certo.

— Você sabe em qual fase está? — Quando ele se recusou a responder, Magia continuou. — Quando você descobriu que esperava uma filha e se viu sozinho, passou pela negação. Você sabia que não o tinha mas se recusava a aceitar a ideia de que ele nunca mais estaria ao seu lado fisicamente. Isso quase lhe custou sua gravidez.

O menino olhou para a alma novamente e tentou segurar um soluço. Ele passou tanto tempo só no mundinho dele que ele nem sabia mais se poderia sobreviver ao mundo real. Havia tantas coisas que ele ignorava, mesmo sabendo não ser o correto.

— A raiva surgiu no seu quinto ano em Hogwarts, quando ele não estava presente para te ajudar a sobreviver com Dolores Umbridge vagando pelos corredores e distribuindo detenções injustas por conta de seus decretos falsos. Você o culpou e sentiu raiva por isso.

Harry só queria se enrolar na sua cama e fechar os olhos para nunca mais acordar. Lembrar dos momentos mais sombrios custava muito e ele nunca foi bom em administrar seus sentimentos e emoções, Cedric sempre estava ao seu lado para isso.

— A barganha veio quando Yara e Amos te convenceram a vir para a Itália. Essa demorou um pouco mais, mas com a ajuda certa, você chegou lá. Não foi fácil, mas estou orgulhosa por você ter chegado até aqui.

— E agora? — Sua voz soou quebrada e no momento isso não importava.

— Agora, Harry, você está na penúltima fase. A saída está próxima, mas você ainda tem receio de sair. A cada passo que você da, você mesmo coloca dificuldade no próprio caminho. Você mente para si mesmo na esperança de que isso vire sua verdade. Todas as vezes que você falou que estava feliz pela nova chance de felicidade era o seu coração, mas toda vez que você coloca uma pedra no caminho, é o seu cérebro. Ele lembra de toda a dor que você passou.

Um silêncio caiu sobre a sala. Cada um com seus pensamentos. Magia esperava não precisar seguir um outro caminho, mas vendo a compreensão surgindo aos poucos no rosto do bruxo, ela se acalmou um pouco e deixou que o próximo a falar fosse ele.

— Sinto como se eu estivesse traindo sua memória, mas eu entendo o que você está dizendo.

Não foi preciso citar o nome. Ambos sabiam. Vendo que o caminho ficou livre para trabalhar, Magia finalmente diz o que tem guardado por um tempo.

— Você é fiel aos momentos que passaram juntos, muitos são assim, mas você não pode se prender à um fantasma. Ele sempre olhará para você e sua filha, mas ele não está mais aqui. — Vendo Harry ficar amuado, ela se sentiu mal. — Entenda, Harry, Cedric veio de uma família puro sangue, eles seguem os velhos costumes e cresceram ouvindo de seus pais sobre a forma que eles entendem e respeitam as leis e costumes que eu impus desde o primeiro ser mágico. O pai de sua filha entende que por mais que vocês dois tenham se amado profundamente, há outras pessoas que esperam por você há anos.

— Como você sabe disso? — Uma sombra de esperança e felicidade passou pelos olhos tão verdes como uma grama recém cuidada.

— Meu jovem, todas as almas mágicas passam por mim e eu as levo para a próxima grande aventura.

Com aquelas palavras recém ditas, o jovem pegou rapidamente o que ela quis passar e sorriu, sabendo que um peso estava saindo de seus ombros.

— Obrigado. — Dessa vez, eram lágrimas de felicidade e alívio que escaparam de seus olhos. Magia sorriu triunfante e abraçou o bruxo. Perguntas não eram precisas, não era mais hora para indecisões. Ela ficou feliz, no final, ele só precisava de alguém neutro para entender toda a situação.

— Seu filho precisa de você, vá. — Magia sorriu e com uma força invisível o guiou para a porta.

— Como você-

— Criança, sou Magia, sou uma entidade. Você realmente precisa fazer essa pergunta? — Um sorriso zombeteiro apareceu.

— Esqueça. Onde ele está?

— Onde ele se sentiria mais perto de você mesmo em sua ausência?

— Obrigado novamente.

Com aquelas duas últimas palavras ele se retirou da sala.

Magia sorriu e esperou com paciência pela volta de Morte.

— Como foi?

— Tudo nos trilhos.

— Ele melhorou?

— Está chegando lá.

— Precisou trazer o Diggory?

— Usei apenas o conhecimento de um velho. — Ninguém precisava saber que era um bruxo nem inteiramente do bem e bem inteiramente do mal.

— Que seja… Não adianta mesmo te fazer perguntas esperando respostas diretas.

Morte seguiu seu caminho enquanto Magia ficou por mais alguns momentos.

Seguindo pelos vales até chegar à alma, ela pensou muito sobre o que queria dizer.

— Voltou mais rápido do que eu esperava…

— No final, eu ainda serei uma entidade esperta. Agradeço por seus planos não terem continuado. Uma catástrofe teria sido feita.

— Tentei fazer tudo pelo bem maior, minha querida.

— E veja onde isso quase os levou. Uma guerra que teria dizimado noventa e sete por cento da população mágica e as que sobreviveriam não poderiam gerar uma vida.

— Tom Riddle tinha uma alma enegrecida. Ele veio de uma poção do amor, o jovem estava fadado àquele caminho. Não havia nada que eu pudesse fazer.

— Mentira! Você tinha vários títulos altos no mundo bruxo. Você poderia ter movido alguns de seus "soldados" e tornado melhor a vida dele. Mas seu ódio o cegou.

— E ainda assim eu era considerado o salvador.

— Sim, mas apenas porque soube esconder seus próprios rastros. Você não era inteiramente do bem, seu amante ainda vivo é a prova.

— Querida, você está esquecendo de que ele quem quis iniciar uma guerra antes. Eu apenas o segui.

— Ele queria separar os dois mundos. Isso teria sido bom para os mágicos. Seus planos trariam outra desgraça.

— Você precisa entender-

— Não. Eu não preciso. Agradeça por eu ter conseguido usar as palavras certas para o herdeiro de morte, mesmo que você já as tivesse dito. Se tudo tivesse ido por ralo abaixo, saiba que lidar com seu inferno pessoal teria sido o menor de seus problemas.

Com um bufo quase que indigno, a entidade fez um gesto para que um de seus trabalhadores viesse buscar essa maldita alma que tanto a irritava. Quando estava quase entrando na carruagem para seu próprio destino, o diretor se virou.

— Sei que você usou uma de minhas frases. Você o manipulou. Isso não lhe torna melhor do que eu.

— E tentar se redimir se tornando diretor não torna seus pecados perdoado ou melhor que seu antigo amante. Lembre-se de que eu ainda sou uma entidade e posso fazer com sua alma o que bem entender.

Com um sorriso sádico, ela planejou o que fazer com aquela alma enquanto a citada seguia em frente. Ela odiava aqueles mágicos que se perdiam tanto no personagem duplo e "sábio" que no final trazia apenas dor e sofrimento. Quando ela soube que ele não a ouviria pela distância, ela sussurrou:

— Oh, Grindelwald, que amante você foi arrumar. Sinto muito pelo menino…

Com aquilo, ela seguiu seu caminho para continuar com seus deveres. Com esperança, o caminho seria seguido e tudo daria certo.