disclaimer: saint seiya não me pertence, felizmente, senão estávamos todos ferrados. e teria um episódio especial de praia, e outro de suruba, e afins...

a/n: essa história é uma extrapolação dum excerto que escrevi em 2013, mas a história foi escrita em 2021.
mais uma vez estou de volta com esse crack pairing que eu tanto amo. as interações dos dois me fascinam. espero que gostem, lindes.
usei giovanni como o nome do mascarita porque gosto e pronto, liberdade artística e talz, não tem nenhuma razão profunda por trás disso.


Bom, era isso que acontecia quando se deixava um bando de homem beligerente e espartano à responsabilidade de uma deusa adolescente, pensou Giovanni resignado… Atena tinha um total de zero mão neles. As brigas entre cavaleiros, ao contrário do que se pensaria, não haviam diminuído após a morte do impostor do Grande Mestre. Saga podia ter sido um tirano com mão de ferro, mas pelo menos essa mão de ferro estava bem cerrada em volta de todo o santuário.

Suspirou, pigarreou e soltou a fumaça para o ar da noite tórrida. Mesmo após o pôr do sol, a temperatura teimava em sufocar os povoados da costa ateniense. O verão na Grécia era algo que, felizmente, não lhe fazia muita espécie: mas despertava-lhe a saudade dos tempos idos da sua infância e do seu treinamento, na Sicília, e mais tarde em Nápoles, respetivamente. Um sentimento quente e agridoce invadiu-lhe o peito.

O seu pigarreio convidou o outro cavaleiro a sair das sombras. Finalmente, pensou o italiano.

— Essa sua mania de ficar aparecendo por detrás das pessoas desconcerta demais, Áries. Um dia vai se dar mal.

— Espero que não seja você que me faça arrepender, Máscara da Morte.

A sombra de Mu de Áries recortou-se contra o céu ainda azul da noite. Parado na entrada da casa de Câncer, observava o italiano com um sorriso que poderia ser considerado uma provocação.

Máscara da Morte não sorriu. Levou o cigarro à boca mais uma vez, o rosto contraído numa carranca. Conseguia pressentir que Mu ia encher o seu saco, para variar.

— Não estou convencido acerca de você e o Afrodite.

(Claro que tinha acertado. Mu era previsível demais para a intuição certeira de Máscara da Morte.)

— Óptimo. Porque minha intenção nunca foi convencê-lo, Mu de Áries. E se me dá licença, tenho outros assuntos que cuidar – enxotou o cavaleiro tibetano com um movimento brusco e rude e adentrou o seu templo apressado. Ao aperceber-se que o outro ainda o fitava desde a entrada, virou-se para trás.

— Perdeu alguma coisa? – inquiriu com um sorriso escarninho.

— Você é sempre assim tão simpático? – retrucou Mu calmamente. Parecia estranhamente divertido.

— Que falta de educação, responder uma pergunta com outra pergunta – suspirou Máscara da Morte ironicamente. – É, sou sempre assim simpático, não faço excepções para certas pessoas.

Mu revirou os olhos discretamente e seguiu o cavaleiro de Câncer até ao interior do templo.

Apesar de as cabeças terem sido removidas após Atena ressuscitar todos os cavaleiros, o clima soturno ainda se fazia sentir. Era um lugar sombrio, aquele templo, assim como o seu misterioso guardião. O interior parecia permanentemente envolto em um denso nevoeiro. A fraca iluminação contribuía para o clima sobrenatural. À saída, o céu estrelado ateniense e a lufada de ar quente cumprimentaram os dois cavaleiros de ouro.

— Veio comprar briga, foi? Porque desta vez não tem aqui o Mestre Ancião pra te impedir, amigo – provocou Máscara, sentando-se nas escadas traseiras do templo.

— Esse aviso não deve ser para mim – retorquiu Mu, imitando o italiano e abancando nas escadas ao seu lado. – Foi você quem fugiu, cavaleiro de Câncer.

Máscara da Morte suspirou e revirou os olhos, frustrado por ter de levar com uma conversa chata daquelas àquela hora, vinda de ninguém menos que o santinho de pau oco que era Mu. Tirou uma caixinha de dentro do bolso das calças que vestia e um isqueiro. Acendeu um cigarro, soprando o fumo na cara do tibetano de propósito.

— Vai uma cigarrada? – debochou, estreitando os olhos e alargando o sorrisinho cruel. Soprou outra vez na cara de Mu até este se virar, entediado.

— Dá pra parar com isso? Eu não fumo e você também não devia – resmungou o ariano, enxotando o fumo com a mão. – Tira essa coisa de perto de mim.

— Certeza que gosta de se divertir vez ou outra.

— Não nego, mas morrer de câncer não é meu passatempo preferido, obrigado – falou com uma expressão de tédio no rosto.

— Morrer de câncer... qual deles, esse – apontou para o cigarro – ou esse aqui? – apontou para si mesmo e lançou um olhar sedutor na direção de Mu, que apenas riu da figura.

— Você é um idiota – suspirou o ariano, mas não conseguiu impedir que uma leve coloração rosada se lhe espalhasse timidamente pelas bochechas.

— Está se divertindo?

— O que lhe parece?

O à-vontade do guardião da primeira casa parecia convidá-lo a colocar-se, também ele, à vontade. Mas a honestidade de Máscara da Morte era sempre embebida em algo ácido e picante que corroía as conversas e os lugares por onde passava. O tom mordaz fez-se ouvir de novo, sufocado pelo ar quente da noite grega.

— Que essas palavras foram ocas, nem combina com você o conceito de diversão.

— Há muito que você não sabe sobre mim, Máscara da Morte — Mu sorriu um sorriso sacana. Máscara da Morte devolveu o sorriso e deu uma grande tragada no cigarro, expulsando o fumo em direção ao céu estrelado.

Aquela conversa parecia descer por ruas sinuosas e perigosas, pensou o italiano agradado. E claro, confiava em si próprio para baixar o nível até à entrada do próprio inferno, um reflexo psicológico do seu hábito de combate.

— Sei que você tem péssimo gosto.

Mu fingiu-se surpreso.

— Tenho?

— Pois, olha só. Essa noite agradável e você tá fazendo o quê nesse lugar… Cara, eu não te entendo.

A acidez característica de Câncer tinha dado lugar a algo que soava a resignação. Parecia lamentar a má escolha de Áries, uma leve pontada de auto-comiseração misturada no seu suspiro que aos mais desatentos soaria apenas a um leve cansaço. Subtilmente, parecia dizer "não perca tempo comigo, não valho a pena."

Mu observou o cavaleiro de Câncer atentamente antes de falar mais alguma coisa. Máscara da Morte olhou para ele e suspirou languidamente, levando a mão ao cenho franzido. O olhar curioso do ariano estava-o desconcertando. Ia finalizar o discurso com uma última alfinetada mordaz, quando a voz de Mu se fez ouvir de novo:

— Você é um idiota fascinante.

Era a deixa perfeita para mais uma ofensa, e Máscara da Morte deixou seus instintos tomarem a melhor de si.

— Igualmente idiota, já olhou por você abaixo? Olha essa figura, parece que saiu do carnaval de veneza.

Foi estranho ver Mu sorrir pelo canto do olho. Parecia genuinamente divertido.

— Gosto de suas ofensas.

Mas Mu, por muito civilizado que fosse (ou aparentasse ser), estava não só a lidar bem com o seu gênio do cão como a instigá-lo. Máscara da Morte sentia-se confuso, mas inebriado com o cheiro a provocação e briga que emanava das palavras do cavaleiro de Áries. Sorriu, convencido da "vitória".

— Eu disse que tinha péssimo gosto.

— E eu não discordei. Mas saiba meu caro, que o gosto não se prende nas amarras da racionalidade.

— E é poeta sem recorrer ao uso de alucinatórios, hein. Você é o pacote completo.

O ar já sufocante ficou um pouco mais denso, mais rarefeito, entre eles. Os olhares sustentaram-se um no outro, sustentavam-se no desejo crescente que as pálpebras carregadas de cansaço deixavam entreaver.

Giovanni quase cedeu. Não precisava de catalogar com palavras o que sentia pulsar no seu baixo ventre. Deu uma última tragada no cigarro, ciente do olhar de Mu que o seguia atentamente enquanto levava a mão calejada à boca. Aproveitou para o encarar de novo: Áries não se intimidava com o seu jeito brusco; os seus olhos verdes sustentavam sem hesitação a sua mirada. As iríses que pareciam translúcidas à luz do sol, agora se apresentavam escurecidas por uma sensação que Giovanni conhecia muito bem.

Mas não precisava de palavras para dizer que também o sentia.

Atirou a beata ao chão e levantou-se. Virou-se para subir as escadas; ouviu o sapato de Mu bater no chão de mármore antigo, apagando a pequena chama do cigarro que deixara como uma provocação, um convite.

Não precisou de ouvir os passos do cavaleiro de Áries a subir as escadas para saber que o seu convite tinha sido aceite com gosto.

Sorriu ao sentir a mão de Mu roçar-lhe o antebraço. Uma respiração pesada acariciou-lhe o pescoço, mais quente e pesada que o ar da noite ateniense que atiçara as chamas do seu desejo. Sentiu-se ser prensado contra a parede do templo violentamente.

Sem mais demoras, Máscara da Morte deixou-se dominar pela vontade faminta de Eros.